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O Maranhão é aqui

Posted by on 12/01/2014

       A Balaiada maranhense começou a partir de uma série de disputas entre grupos da elite local. (…) À frente do movimento estavam o cafuzo Raimundo Gomes, envolvido na política local, e Francisco dos Anjos Ferreira, de cujo ofício – fazer e vender balaios – o nome da revolta. Ferreira aderiu à rebelião para vingar a honra de uma filha, violentada por um capitão de polícia. Paralelamente, surgiu um líder negro conhecido como Cosme – sem sobrenome pelo menos nos relatos históricos – à frente de 3 mil escravos fugidos.

Retirado do livro “História do Brasil”, de Boris Fausto

Minha terra tem palmeiras onde canta o sabiá

As aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá

Trecho de Canção do Exílio, de Antônio Gonçalves Dias (poeta maranhense – 1823-1864)

       Prezados leitores, outro dia deparei-me com um artigo muito interessante a respeito das diferenças culturais nos Estados Unidos. O autor alega que as várias regiões daquele imenso país foram povoadas por pessoas de partes diferentes do Reino Unido que tinham valores completamente diferentes. Os habitantes do nordeste americano, que fundariam a colônia de Massachusetts,eram puritanos ingleses, que cultivavam a necessidade de as pessoas responsabilizarem-se por seu próprio governo, estimulavam a participação política, em suma valorizavam o que hoje podemos chamar de civismo e que é a base das sociedades verdadeiramente democráticas, em que não há salvadores da pátria, ditadores, caudilhos e coisas afins, mas simplesmente pessoas que pelo esforço e trabalho duro se destacam, em um meio em que todos comportam-se mais ou menos da mesma forma.

       Esta é a imagem que normalmente nós, não-americanos, temos dos Estados Unidos, uma nação construída por puritanos que sempre levavam as coisas a sério e construíram um sistema político cujo objetivo era livrá-los dos males criados pelos privilégios consolidados pelas monarquias europeias, em que a posição social dos pais ditava o destino do indivíduo. No entanto, o quadro é mais complexo, pois oSul dos Estados Unidos foi povoado em primeiro lugar pelos cavaliers, que apoiaram o rei Carlos I e seu filho Carlos II na Guerra Civil inglesa e eram portanto o que se pode chamar de reacionários, pois favoráveisà monarquia absoluta. Perdedores da guerra, emigraram para os Estados Unidos e dedicaram-se a replicar seu modo de vida por meio da economia agrária do Sul, baseada nas plantations e na mão de obra escrava. Construíram assim uma sociedade aristocrática, hierárquica, em que a honra era um valor importante, os mais velhos eram reverenciados e na qual os assuntos governamentais deveriam ser deixados a cargo da elite de homens brancos que tinha a natural aptidão e capacidade para liderar.

      Para quem não sabe, quando esse grupo de pessoas saiu derrotado da Guerra de Secessão americana, alguns membros emigraram para o Brasil para poder continuar vivendo de acordo com seus valores, o que em termos práticos significava continuar possuindo escravos para cultivar a terra. Americana, uma cidade no interior de São Paulo, foi fundada por esses nostálgicos sulistas americanos. Quem não se lembra do filme E o Vento Levou? A condescendência dos brancos em relação aos negros, exemplificada pela heroína Scarlett O’Hara que ora insulta e bate em uma negra, ora a faz sua confidente,a falta de espírito prático de homens como Ashley, que era incapaz de sobreviver no mundo do capitalismo selvagem trazido pelos Ianques. Como dizia Darcy Ribeiro, o Brasil é os Estados Unidos se os sulistas tivessem ganho a guerra.

      Para completar esse quadro resumido, o Oeste americano, zona de fronteira, em que o governo central tinha uma presença fraca por razões geográficas, foi habitado por pessoas provenientes dos confins do Reino Unido, gente do Norte, irlandeses, escoceses e ingleses setentrionais, que haviam sofrido por séculos a opressão do governo sediado em Londres e que portanto cultivavam um ódio e desconfiança viscerais a qualquer tipo de governo. Eram os libertários, para quem a lei só poderia ser aquela que o indivíduo fazia para si mesmo, e qualquer disputa deveria ser resolvida pelas vias de fato.Filmes antológicos como “The Outlaw Josey Wales”, estrelado por Clint Eastwood, mostram esse homem individualista que não se curva à autoridade, e que está sempre pronto para o combate, para defender o que é seu, seja sua casa, sua plantação, sua família ou seu dinheiro. Para quem tiver interesse em ler o artigo: http://www.theamericanconservative.com/dreher/white-people-the-persistence-of-culture/.

     Prezados leitores, este modesto intróito sobre a formação dos Estados Unidos, um país tão grande quanto o nosso, serve para eu lançar-lhes uma pergunta: será que esse mesmo raciocínio não se aplica ao Brasil? Será que nossos historiadores não chegariam a conclusões utilíssimas se tentassem estabelecer diferenças culturais entre as regiões do Brasil se olhassem um pouco a história do povoamento nos vários Estados brasileiros? Essa indagação veio-me à cabeça nesta semana, quando recebemos mais notícias ruins do Maranhão. Pois se antes sabíamos que os Sarney mandam em tudo, no Executivo, Legislativo e Judiciário, na imprensa, na televisão, que eles têm uma ilha particular cuja propriedade foi conquistada sabe-se lá como, que o Maranhão é um Estado miserável, hoje sabemos que a incompetência, a corrupção atingem níveis absurdos, causadores do caos que se instalou nos presídios de lá.Tanto é assim que a digníssima governadora Roseana, ante a divulgação dos vídeos mostrando presos sendo decapitados no Complexo de Pedrinhas, reagiu criticando o sensacionalismo do vídeo, e não o fato de ter ocorrido tal ato de barbárie. Ou seja, reagiu de maneira defensiva, e mais não poderia fazer quando se sabe que o mais importante para dona Roseana é comprar lagostas frescas, camarões e patinhas de caranguejo para abastecer o palácio e a casa da praia.

       Li no UOL na semana passada que o desejo desta moça finíssima é mudar-se para os Estados Unidos, mas seu pai aparentemente a convenceu a candidatar-se a senadora porque assim livra-se da aporrinhação dos processos judiciais. Coitadinha, moçoila de saúde frágil que está sempre baixando aqui no Sírio Libanês, tem que ser sacrificada para o bem dacosa nostra, quer dizer, da família. Desejo a ela toda sorte do mundo, e que nunca tenha o desprazer de ter que comer uma das quentinhas servidas aos presidiários do Maranhão, feita de feijão podre, frango cru e arroz frio. Tenho fé que Roseana será eleita de maneira retumbante, afinal o povo do Maranhão parece não ter alternativas, ou parece ser cooptado com as esmolas dadas em época de eleição ou quem sabe as máquinas de votar escolham os membros do clã Sarney automaticamente?

      Ao contrário do que cantou um dos seus ilustres filhos, Gonçalves Dias, o Maranhão parece ser uma terra amaldiçoada. Os franceses lá se estabeleceram em 1612, fundando São Luís, mas não ficaram.A balaiada, a revolta contra os desmandos dos poderosos, terminou mal: Cosme, o negro foi enforcado e nada foi conseguido, além de umas chapuletadas do ínsigne Luís Alves de Lima e Silva, responsável pela repressão do movimento, e que por isso recebeu o título de Barão de Caxias.. Parece haver qualquer coisa no povo, uma resignação bovina, um fatalismo que os impede de ao menos livrarem-se da sua oligarquia, como outros Estados brasileiros, inclusive nordestinos, conseguiram.

      Qual a razão de haver certas regiões deste país que parecem nunca progredirem, sempre estacionadas no passado? Espero que os historiadores brasileiros um dia façam essa radiografia do nosso país, e ao invés de tratarem tudo como uma questão econômica, do tipo pau-brasil versus açúcar, açúcar versus ouro, ouro versus café, façam uma análise dos valores das diversas populações brasileiras.

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