A História das verdades e das mentiras

“Baudolino”, dizia-lhe, “és um mentiroso nato.”

“Mestre, por que dizes isso?”

“Porque é verdade. Mas não penses que te censuro. Se queres transformar-te num homem de letras, e, quem sabe um dia, escrever Histórias, deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a tua História ficaria monótona. Mas terás de fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.” 

Trecho retirado do romance histórico Baudolino, do escritor e filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016)

“…numa grande história podem-se alterar pequenas verdades, para ressaltar a verdade maior”

Trecho retirado do romance histórico Baudolino, do escritor e filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016)

[…] das peças de Sófocles e Eurípides, até então completamente preservadas, só uma minoria sobreviveu. Milhares de obras-primas artísticas foram roubadas, mutiladas ou destruídas.

Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

Prezados leitores, imaginem a cena: um camponês adolescente está num pântano em meio a um bosque no noroeste do que hoje é a Itália e vê um homem ruivo passar com seu cavalo. A névoa cobre tudo e o cavaleiro está obviamente perdido. Avistando o adolescente, o grande homem que fala uma língua estranha pede-lhe ajuda para sair dali. O camponês, que conhece o lugar como a palma de sua mão, guia o cavaleiro para fora do pântano e quando chegam em local seguro é testemunha de algo impressionante: ao avistarem o cavaleiro várias pessoas se ajoelham prestando-lhe homenagem. Ele é nada mais nada menos do que Frederico Barba Ruiva (1123-1190), o Imperador do Sacro Império Romano Germânico, que estava então em sua primeira campanha militar transalpina, fazendo o cerco de Tortona, em 1155, uma das cidades-estado da península que resistiam à autoridade do Imperador e não lhe prestavam a devida vassalagem em termos de tributos e contribuições de homens para campanhas militares.

Para recompensar o camponês que o salvou, chamado Baudolino, Frederico lhe dá uma moeda de ouro. O adolescente, para impressioná-lo, diz-lhe que Santo Baudolino aparecera para ele e lhe dissera que o imperador teria uma grande vitória em Tortona, porque Frederico era o senhor único e verdadeiro de toda a Lombardia. O imperador repete essa história da aparição para um grupo de cavaleiros que a espalham pelo acampamento do cerco. Por coincidência – ou não – lá estavam também os mensageiros de Tortona, que negociavam um fim ao cerco e ainda não se haviam decidido render-se ou não. Ao ouvirem sobre Santo Baudolino os tortonianos optam pela capitulação, porque se até os santos estavam contra eles, eles não iriam aguentar muito. Imediatamente ao saírem da cidade os alemães entram na cidade e a destroem, não deixando pedra sobre pedra.

Frederico, grato ao camponês pela história da aparição do santo que lhe permitira conquistar a cidade de Tortona, chama Baudolino para ir com ele para a Alemanha, onde o contador de histórias providenciais iria aprender a escrever. E é assim que o escritor Umberto Eco nos introduz ao personagem principal de seu romance Baudolino, em que se discute a natureza do contar histórias. A discussão é propiciada pelo encontro de Baudolino com dois personagens que existiram no mundo real: o bispo Otto von Cappenberg (1100-1171), padrinho e tio de Frederico, sob cujos cuidados o Imperador coloca Baudolino; e o historiador bizantino Nicetas Coniate (1155-1217), a quem Baudolino salva durante a pilhagem e incêndio de Constantinopla empreendidos pelos cruzados em 1204.  

A própria narrativa do episódio do cerco de Tortona é uma exemplificação dessa concepção de História explicada no trecho que abre este artigo, um diálogo entre Baudolino e seu preceptor Otto. A História é uma mentira no sentido de ser uma criação, mas não se pode mentir sobre tudo, porque se perde a credibilidade, deve-se mentir apenas sobre as coisas importantes, que fornecem a chave do sentido da História. O cerco à cidade rebelde de Tortona pelas tropas imperiais de fato ocorreu, assim como a destruição da cidade. O detalhe modificado na narrativa apresentada pelo escritor italiano faz toda a diferença para concatenar os fatos e dar-lhes uma moldura. Os habitantes da cidade não se renderam depois de ouvirem a história da aparição de Santo Baudolino, mas depois que Frederico contaminou o abastecimento de água da guarnição que defendia Tortona com cadáveres e enxofre e breche em chamas. 

Contar que a cidade capitulou porque reconheceu que os santos estavam ao lado de Frederico dava respaldo à imagem do Imperador como a autoridade a ser respeitada, porque seu poder vinha de Deus. Sob essa perspectiva, a História de Frederico Barba Ruiva é a História do Imperador do Sacro Império Romano Germânico que lutou pela afirmação da sua autoridade em contraposição àquela dos papas, que se diziam os únicos autênticos representantes de Deus na Terra. Quem tinha mais conexão com Deus, de onde emanava o poder e a legitimidade para governar as pessoas? Os imperadores e reis, detentores dos poderes temporais, ou o papa, detentor do poder espiritual da Igreja? 

No contexto de tal disputa, mostrar um santo dar ganho de causa ao Imperador ao aparecer a um camponês de alma simples e boa fazia toda a diferença: era contar uma pequena mentira para ressaltar a verdade maior, conforme Nicetas Coniate explica ao sábio Pafnúcio ao dar-lhe uma lição no final do livro sobre como escrever uma grande História. A verdade maior era que em uma História da vida de Frederico Barba Ruiva, Deus estava ao lado do Imperador, que era a autoridade verdadeira e legítima, porque seu poder tinha-lhe sido concedido pelas potestades celestes lá no alto.

Nesse sentido, a História tem uma dupla natureza: ela é verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Ela contém elementos factuais, corroborados por testemunhas oculares, mas também tem elementos não factuais, mitos inseridos na narrativa dos acontecimentos para dar à História uma chave de interpretação, sem a qual os fatos enumerados seriam apenas uma coleção de itens disformes, que passariam desapercebidos. Como escrever a História sem saber o fim a que ela se destina? É este desafio que é enfrentado por Otto e por Nicetas em sua filosofia da História: a combinação correta de pequenas mentiras com grandes verdades estabelece o roteiro para o historiador exercer seu ofício sem ser acusado de ser mentiroso contumaz e nem de escritor irrelevante. O historiador é um grande poeta que cria uma narrativa que faz sentido e é plausível, embora não totalmente atrelada à gama de acontecimentos que se desenrolaram.

Prezados leitores, quando forem a Veneza e virem os quatro cavalos sobre a Catedral de São Marco, saibam que eles foram retirados de Constantinopla na Quarta Cruzada, durante a qual o personagem de Umberto Eco conversa com Nicetas Coniate. Eles são fruto de um episódio histórico lamentável em que livrarias, museus, igrejas e casas foram saqueados e destruídos, conforme descreve Durant na “Idade da Fé”. A depender do sentido que se queira dar à História, podemos ver os cavalos de Veneza como símbolos das trocas entre o Ocidente e o Oriente que permitiram à Europa sair do estupor medieval e caminhar a passos largos rumo ao Renascimento. OU então como mais uma evidência das violências perpetradas pelos ocidentais contra os povos do Oriente Médio, a que estamos assistindo em pleno século XXI. Uma coisa é certa: conforme ensina Baudolino de Umberto Eco, a História a ser contada será sempre uma mentira verdadeira e uma verdade mentirosa.

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Equilíbrio de poderes

Tão enredada na teia medieval, a Igreja encontrava-se na posição de uma instituição
política, econômica e militar, assim como religiosa; suas “temporalidades” ou possessões
materiais, suas “feudalidades,” ou direitos e obrigações feudais, tornou-se um escândalo
para os cristãos de moral estrita, um tópico de discussão para os heréticos, uma fonte de
controvérsias sem fim entre imperadores e papas. O feudalismo feudalizou a Igreja.


Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant
(1885-1981)

São Tomás de Aquino interpretava a escravidão como uma consequência do pecado de
Adão e como um expediente econômico em um mundo em que alguns deviam trabalhar de
modo que outros pudessem ser livres para defendê-los.


Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant
(1885-1981)

Prezados leitores, imaginem uma corte eclesiástica que condena sete mulheres a
serem enterradas vivas por roubo. Ou um mosteiro, como o de St. Gall na Suíça, que tinha
mais de 2.000 servos. Ou um funcionário da Santa Inquisição que em 1554 vangloriava-se
de que o Santo Ofício havia condenado à fogueira ao menos 30.000 bruxas nos 150 anos
precedentes. Ou bispos e abades que vestindo armadura e portando lança – estando assim
prontos para matar – participavam de guerras como qualquer senhor feudal que exercia
domínio sobre vastas extensões de terra.

Esta era a situação da Igreja Católica na Idade Média e começo da Idade Moderna.
Se na Idade Média a fonte do poder e da riqueza tornou-se a propriedade e a gestão da
terra, quem dispusesse desse ativo em abundância estava fadado a ocupar a posição de
liderança na sociedade. E liderança significa exercer o controle, isto é, realizar as atividades
típicas dos homens que geriam os homens que, por si sós, só conseguiam gerir coisas. Tais
atividades incluíam organizar a exploração da terra e sua defesa contra ataques de
inimigos. Não é de surpreender então que os membros da alta hierarquia da Igreja Católica
– papa, arcebispos, bispos e abades – supervisionassem o trabalho agrícola e participassem
de guerras. E que, em fazendo isso, acabassem realizando coisas que violavam os preceitos
da moral cristã.
A Igreja pregava a misericórdia, mas seus tribunais aplicavam as mesmas penas
brutais aplicadas por tribunais leigos, incluindo a pena de morte. Afinal, era tarefa dos
líderes da sociedade controlarem o comportamento das pessoas para que a ordem
predominante não fosse violada. A Igreja pregava a caridade e o compartilhamento do pão,
como fez Jesus Cristo na Santa Ceia, mas cobrava como qualquer senhor feudal os tributos
impostos aos camponeses, pelo direito que estes gozavam de tirar o seu sustento de glebas
sobre as quais a Igreja tinha diferentes tipos de propriedade. A Igreja pregava que todos
eram iguais perante Deus e que todo ser humano tinha uma dignidade intrínseca, mas
aceitava a escravidão como um mal necessário, conforme o trecho que abre este artigo nos
mostra: afinal, a tarefa de uns era arar a terra, a tarefa de outros era lutar para que as
plantações não fossem destruídas por tropas inimigas ou que os vilarejos não fossem
saqueados ou queimados. O mundo depois da queda do Império Romano na Europa
Ocidental era um mundo cheio de insegurança e sujeito às invasões dos povos bárbaros. O
medo e a expectativa do pior tornavam difícil aplicar a receita de paz e amor pregada no
Novo Testamento.
É nesse sentido que a Igreja se feudalizou ao participar da Idade Média na qualidade
de protagonista. Conforme o trecho que abre este artigo, ao gerir suas possessões
materiais, a Igreja tornou-se parte integrante da estrutura política, econômica e militar
daqueles tempos, exercendo um poder que ia além do poder espiritual para incluir os
atributos daqueles que geriam a atividade econômica mais importante da época, a
agricultura. Não é surpreendente que a Igreja Católica, acumulando rendimentos pela
cobrança de tributos e pela produção de alimentos, tenha se desviado daquela ética surgida
no Oriente Médio no primeiro século da nossa era a partir dos ensinamentos do filho de um
carpinteiro em uma longínqua e obscura província do Império Romano.
Assim, ao tornar-se a sucessora do Império Romano como fonte de poder, a Igreja
Católica, que pregava a fé, a esperança e a caridade propostas na periferia desse império,

acabou matando, confiscando e oprimindo como qualquer senhor feudal fazia à época. E
mesmo quando o feudalismo entrou em decadência, a Igreja Católica tinha se consolidado
de tal forma como instituição que tornou-se ferrenha defensora da ortodoxia, como
mostram as atividades da Inquisição, que se iniciaram na Europa a partir do século XII.
Prezados leitores, na semana passada conclamei Donald Trump a ir a Canossa pedir
perdão ao papa pela guerra contra o Irã e tomar alguns conselhos sobre como resolver
conflitos por meios diplomáticos. Mas que fique claro, o papa a ser consultado não é um
papa da Idade Média como o Gregório VII que disputou com Henrique IV. É o papa Leão
XIV do século XXI, que lidera uma igreja que não mais está no centro da atividade
econômica da sociedade, como era a Igreja da Idade Média, e portanto, não tem poder
material, apesar de ser ainda rica em ativos imobiliários, resquício da sua época de
esplendor.

Não tendo poder material e não estando envolvida com as coisas deste mundo, a
Igreja Católica pode enfocar a pregação cristã original e assim propor o fim das guerras e o
diálogo universal. Foram-se os tempos em que a Igreja precisava estralar o chicote para
gerir as pessoas sob seu controle. Nesse sentido, sua mensagem ética tem mais
credibilidade do que teria se ela ainda fosse um grande potentado econômico. Por outro
lado, para líderes como Trump que não acreditam em direito internacional e para quem a
força faz o direito, consistência ética é apenas uma firula sem consequência.
É forçoso notar que no frigir dos ovos, se Henrique IV foi a Canossa e Trump não vai
a Roma é porque o poder espiritual sem poder material é pouco eficaz. O excesso de poder
material foi um grande golpe para a Igreja Católica, tornando-a vulnerável aos ataques do
Protestantismo, o que acabou minando-lhe tanto o poder material quanto o espiritual. Por
outro lado, neste século XXI, em que o direito das gentes tem sido tão vilipendiado, como
tornar o poder espiritual relevante sem que haja um poder material que o respalde? E como
não deixar que o poder material se torne tão cheio de si de modo a levar à destruição do
mundo pela guerra? Oxalá encontremos uma solução de equilíbrio de poderes antes que
seja tarde demais.

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Quem irá a Canossa?

[…] estado deveria subordinar-se à Igreja – a Cidade dos Homens à Cidade
de Deus – em todos os assuntos envolvendo doutrina, educação, moral,
justiça ou organização eclesiástica. […] A Igreja, como instituição divina,
merecia ter autoridade universal; o papa, como o vice-rei de Deus, tinha o
direito e a obrigação de depor maus reis e confirmar ou rejeitar a escolha
dos governantes feita pelos homens ou pelas circunstâncias. […] Quem […]
podia ignorar que os reis e príncipes originavam-se daqueles que,
ignorantes de Deus e cobrindo-se de orgulho, violência e perfídia, de fato
cometendo praticamente todos os crimes – pretendiam governar seus pares
– isto é, os homens – em luxúria cega e arrogância intolerável?
Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano
Will Durant (1885-1981) sobre o pensamento do papa Gregório VII (1020-
1085) no contexto do episódio conhecido como a Querela das Investiduras

Não tenho medo do governo Trump e nem de bradar em alto e bom som a
mensagem dos Evangelhos.


Papa Leão XIV comentando em 13 de abril a crítica a ele dirigida pelo
presidente americano Donald Trump dizendo que ele deveria preocupar-se
em ser um Grande Papa e não um político

Prezados leitores imaginem a cena. Em 25 de janeiro de 1077, em
meio a um dos mais rigorosos invernos que a Itália já experimentara, chega
um homem com os pés descalços, vestido em roupas de lã grossa, que
feriam a pele, às portas do castelo da condessa da Toscana em Canossa.
Este homem é nada mais nada menos do que o imperador do Sacro Império
Romano Germânico, Henrique IV (1050-1106), que viera ali pedir perdão ao
papa Gregório VII por seus pecados. Depois de três dias esperando ao
relento, Henrique consegue que o papa revogue a excomunhão que lhe
havia imposto, permitindo que o imperador retorne ao seio da Igreja
Católica.

E que pecados eram esses? Como podem se lembrar aqueles que
estudaram História Geral no colégio na década de 1980, havia no século XI
uma disputa de prerrogativas entre o Papa e o Imperador sobre quem tinha
direito de escolher os bispos e abades. Conforme o trecho que abre este
artigo, Gregório VII considerava que a Igreja tinha mais legitimidade que
qualquer Estado em determinados assuntos. Sendo representante de Deus
na Terra, era ela quem deveria decidir sobre assuntos que envolvessem a
aplicação dos ensinamentos dos Evangelhos à vida prática, o que incluía
competência para ditar a moral, decidir quem estava certo e quem estava
errado em uma disputa e educar as crianças para que quando adultas se
transformassem em bons cristãos.
Além disso, havia outro elemento que lustrava a legitimidade da
Igreja, que era o modo como os reis e príncipes eram escolhidos. Esses
indivíduos ascendiam ao poder por meio da intriga, da violência, da mentira,

em suma pelo exercício daquelas qualidades que, conforme o
historiador e filósofo Maquiavel (1469-1527) iria descrever em plena
Renascença, eram fundamentais para conquistar e manter o poder, mas que
não tinham nada a ver com as virtudes associadas ao cristianismo, a saber:
humildade, paciência, bondade, obediência e misericórdia. Daí porque
Gregório VII insistisse na importância de reservar para a Igreja a
exclusividade na escolha daqueles que ocupariam os cargos eclesiásticos
mais elevados e assim comandariam a instituição. Considerando que os reis
e príncipes deste mundo não conquistavam o pode praticando virtudes
cristãs, se lhes fosse permitido escolher bispos e abades nas igrejas de seus
respectivos países eles tornariam a Igreja tão corrupta quanto eles eram,
pois a nomeação para cargos eclesiásticos seria uma moeda de troca em
disputas de poder.

Assim, para Gregório VII a autonomia da Igreja para escolher seus
próprios representantes era condição necessária para que ela exercesse o
poder espiritual sobre a Cristandade, servindo como a bússola moral que
teria a palavra final sobre quem agia certo e quem agia errado. A Cidade
dos Homens, povoada de pecadores, estaria subordinada à Cidade de Deus
descrita por Santo Agostinho (354-430), a fortaleza espiritual em que
predominaria o amor, a fé, a esperança, a sabedoria, a justiça. Caso os
líderes políticos de então escolhessem quem administraria a Igreja, haveria
uma inversão dos papeis e a Cidade de Deus ficaria subordinada à Cidade
dos Homens, levando à sua descaracterização.
O pecado de Henrique IV pelo qual ele foi em penitência pedir perdão
ao papa foi então este: o de ter insistido em nomear os bispos nas terras
sob a jurisdição do Sacro Império Romano Germânico, o que incluía o que é
hoje a Alemanha e o Norte da Itália. A chamada Querela das Investiduras
teve vários rounds: Henrique prostrou-se em Canossa em 1077, mas em
1084, à frente de um exército, ele invadiu Roma, obrigando Gregório a
refugiar-se no Castelo de Sant’Angelo. A vitória de Henrique foi efêmera:
pedindo a ajuda de Roberto Guiscardo (1015-1085), que governava o sul da
Itália, incluindo a Sicília, o papa conseguiu libertar-se do seu cativeiro, mas
o condottiere normando saqueou Roma e incendiou grande parte da cidade.
Gregório VII, tornando-se impopular com os romanos pela violência de
Guiscardo, acabou deixando a cidade e morreu em 1085, desgostoso com a
derrota para um homem a quem ele havia perdoado em Canossa.
Mais de 1.000 anos depois e temos agora em pleno século XXI, uma
disputa entre o papa e um líder político, no caso o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump. Tudo começou no Domingo de Páscoa, no dia 5 de
abril, quando o papa Leão XIV, em sua homilia, conclamou aqueles que
“têm poder para desencadear guerras a escolher a paz”. O papa voltou à
carga depois que Trump ameaçou em 7 de abril destruir uma civilização
inteira, dizendo que essa ameaça à população do Irã era absolutamente
inaceitável. Trump fez então várias críticas a Leão XIV, dizendo que ele era
leniente com o crime e que favorecia a esquerda radical. A última

manifestação do papa é aquela que abre este artigo, insistindo que não irá
parar de divulgar a mensagem dos Evangelhos, que é a paz, não a guerra.
Prezados leitores, na Idade Média, apesar de Gregório VII ter sido
vencido por Henrique, a Igreja acabou fazendo valer sua prerrogativa de
escolher seus próprios líderes sem interferências do poder temporal e com
isso conquistou um poder político que só seria questionado e abalado com a
Reforma Protestante. A Cidade de Deus, símbolo do poder espiritual,
conseguiu se sobrepor à Cidade dos Homens, símbolo do poder terreno, até
o início da Idade Moderna. Em pleno século XXI, a Igreja Católica não tem
nem o poder político nem o poder espiritual de que outrora gozou. Imaginar
qualquer governante ir prostrar-se contrito, aos pés do papa, para que este
lhe perdoe os pecados, está fora de cogitação. Mas bem que uma ida a
Canossa, com os pés descalços sobre a neve, poderia fazer bem para o
presidente americano refletir sobre seus atos e fazer uma autocrítica. Oxalá
que os americanos encontrem no futuro um chefe do Executivo que faça
isso para que o país possa ser mais bem gerido. O mundo com certeza
respirará aliviado.

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Dependências agora e outrora

A fotografia da dependência brasileira é reveladora. O diesel é o caso mais
crítico: as importações respondem por cerca de 25% do consumo interno.
[…] No caso do GLP, as importações também corresponderam a 25% das
vendas internas. O querosene de aviação apresenta dependência externa de
15%. […] O Brasil importa 85% dos fertilizantes que utiliza.
Trecho retirado do artigo “Os gargalos do planeta e os riscos ao
agronegócio”, de Marcos Jank, publicado na edição de 5 de abril do jornal O
Estado de São Paulo

Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido,
porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China
por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras.
Trecho de discurso do candidato à presidência Flávio Bolsonaro em 28 de
março na Conferência da Ação Política Conservadora

Já levaram nossa prata, todo o nosso ouro, já levaram todo o diamante, já
levaram todo o nosso minério, o que mais querem levar? Quando é que a
gente vai aprender que Deus colocou toda essa riqueza pra nós, e nós
ficamos dando para outros?”, questionou Lula
Fala do presidente Lula durante encontro com o presidente da África do
Sul, Cyril Ramaphosa, no Palácio do Planalto, em 9 de março

A indústria, de seu lado, se obteve inesperados mercados para exportação,
devido ao colapso da produção nos países avançados, tornou-se ao mesmo
tempo ainda mais obsoleta do que já era pela impossibilidade de
importação de máquinas e equipamentos.
Trecho retirado do livro “A Capital da Vertigem – Uma história de São Paulo
de 1900 a 1954” de Roberto Pompeu de Toledo sobre os efeitos da Segunda
Guerra Mundial sobre a economia brasileira

Prezados leitores imaginem o cenário de penúria: preço do leite entre
Cr$ 1,80 e Cr$ 4,50, a depender da qualidade do produto, com mais ou
menos água. Falta de alimentos da cesta básica como feijão, arroz, batata e
milho, por impossibilidade de transportá-los do interior do Estado para a
capital. Falta do mero pãozinho, pela impossibilidade de importar trigo. 87%
do transporte rodoviário de mercadorias ameaçado pela falta de
combustível, devido à falta do petróleo importado.
Como explica Roberto Pompeu de Toledo em seu segundo volume da
história da cidade de São Paulo, essa era a situação no ano de 1944 na
cidade de São Paulo, em virtude da Segunda Guerra Mundial. Em que pese
o conflito ter se desenrolado na Ásia, Europa e África, longe do continente

americano, seus efeitos se fizeram sentir no Brasil em virtude de nossas
fragilidades estruturais: não produzíamos trigo suficiente para atender
nossas necessidades e a única fonte de energia alternativa ao petróleo
importado era o gasogênio, fruto da queima de carvão. E mesmo a
oportunidade de que o Brasil gozou durante a guerra de passar por um
surto de industrialização para substituição de importações corria o risco de
ser desperdiçada porque, conforme descrito no trecho que abre este artigo,
em que pese termos criado indústrias, elas se tornaram obsoletas pela
impossibilidade de importar máquinas e equipamentos que permitissem
modernizá-las.


O século XX, marcado pela Pax Americana passou e já estamos na
segunda década do século XXI. Americanos e israelenses travam uma
guerra contra o Irã que já teve vários impactos sobre a economia mundial.
O fechamento do Estreito de Ormuz pelos iranianos, o qual, diga-se de
passagem, já foi controlado outrora por nossos colonizadores portugueses,
é dramático. Na qualidade de um dos sete gargalos marítimos do planeta, o
estreito é a artéria mais sensível do sistema global de comércio. O artigo de
Marcos Junk mostra os números: 20% do consumo mundial de petróleo
passa por lá, assim como um terço do comércio marítimo de fertilizantes do
mundo e 19% de todo o gás natural liquefeito.


A interrupção quase que total do tráfego no Estreito de Ormuz pega o
Brasil de calças curtas por vários motivos, conforme descrito no trecho que
abre este artigo. Dependemos de fertilizantes para abastecer nosso
agronegócio, o setor mais pujante da nossa economia, representando quase
30% do PIB em 2025. Dependemos do diesel para movimentar os
equipamentos que fazem a roda da agricultura girar e para fazer rodar os
caminhões nas estradas que transportam 65% de todas as cargas
movimentadas no território brasileiro. E apesar de produzirmos gás
offshore, precisamos importar da Bolívia e dos países do Golfo Pérsico para
suprir nossas necessidades.


Talvez essa guerra no Irã realmente tenha terminado com o cessar-
fogo negociado entre os Estados Unidos e Irã após 40 dias de hostilidades e
o fluxo de navios no Estreito de Ormuz seja regularizado.
Independentemente disso, nós já havíamos notado nossa vulnerabilidade
em relação a um produto essencial para nossa economia há quatro anos,
em 2022, quando se iniciou a guerra na Ucrânia e houve o risco de
desabastecimento de fertilizantes, devido ao bloqueio de outro gargalo
marítimo do planeta, os Estreitos de Bósforo e Dardanelos, no Mar Negro.
Para não mencionarmos o fato de que vira e mexe há uma guerra no Oeste
da Ásia (nome mais politicamente correto do que o Oriente Médio
comumente utilizado), desde que o Estado de Israel foi criado, em 1948.
A despeito de todo esse risco que corremos, nunca fizemos nada para
mitigá-lo, quer seja incentivando a abertura de fábricas de fertilizantes ou
investindo em refinarias de petróleo que permitam um melhor
aproveitamento do petróleo bruto que temos agora em abundância.
Qualquer distúrbio geopolítico que afete as cadeias de suprimento mundiais

nos pega desprevenidos, encarecendo os preços dos insumos que utilizamos
para fazer girar nossa economia. E no entanto, nossos candidatos à
Presidência da República adoram falar das tais das terras raras, das quais
temos uma das maiores reservas do mundo. E como devemos seguir o
script da polarização, Flávio Bolsonaro, o candidato da direita e Lula, o
candidato da esquerda, têm ideias opostas sobre o assunto.


Conforme o trecho que abre este artigo, Flávio quer entregar nossas
reservas para os Estados Unidos, colocando o Brasil ao lado dos americanos
para servir de contrapeso à China, que não só tem grandes reservas, mas
também é responsável por quase 90% do processamento e refino dos
minérios raros. Lula, bem ao seu estilo de defensor retórico da soberania
nacional contra o colonialismo, não quer entregar nada, quer ficar com as
terras raras, já que já entregamos muito para os gringos. Ele quer que a
etapa de transformação industrial ocorra aqui pela implementação de uma
estratégia de exploração das terras raras como instrumento de
“desenvolvimento tecnológico e econômico”, conforme explicado no artigo
sobre a fala de Lula mencionada acima. Quem está com a razão? O
entreguista de direita ou o desenvolvimentista da esquerda?


O fato é que quer escolhamos ser parças da China ou dos Estados
Unidos, a depender se elegermos Lula ou Flávio Bolsonaro, precisaremos de
cooperação em termos de capital ou de tecnologia. Se Flávio Bolsonaro quis
nos vender ao Tio Sam, as belas palavras de Lula, sobre fazermos a coisa
nós mesmos, sem ajuda dos imperialistas, não servem de nada se não
tivermos dinheiro. Afinal, ele é necessário tanto para investirmos no
desenvolvimento da tecnologia de processamento de terras raras, quanto
para construirmos fábricas cuja produção seja viável economicamente, isto
é que seja mais vantajosa que a simples importação do produto pronto. E
quem nos dará o dinheiro? Alguém que queira algo em troca, simples
assim. Mesmo se estivermos com todas as ganas de sermos soberanos,
teremos que entregar algo, porque dependemos de capital estrangeiro.
Prezados leitores, enquanto aguardamos que as terras raras um dia
floresçam no Brasil, poderíamos começar com o objetivo mais modesto de
nos tornarmos autossuficientes em fertilizantes, um produto cuja fabricação
não requer tanta habilidade quanto o refino de nióbio ou tungstênio ou
grafite. Já seria um grande passo rumo à tão sonhada soberania, palavra
amplamente usada por essas plagas para efeitos retóricos, mas parcamente
concretizada, como vemos desde os nossos percalços na Segunda Guerra
Mundial até a atual Guerra no Irã.

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Fé para todos

Eu rezo por SUA graça e proteção das nossas tropas e de todos os homens
e mulheres que servem nas forças armadas.
Trecho de uma oração coletiva conduzida por pastores evangélicos no dia 6
de março de 2026 ao redor do Presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump dias depois od inpicio da guerra contra o Irã em 28 de fevereiro

Apesar de o filósofo não poder aceitar em seu sentido literal os dogmas do
“Alcorão, da Bíblia e de outros livros revelados”, ele percebe a necessidade
deles ao elaborar uma devoção e moralidade saudáveis entre a população,
que é tão assediada por inconveniências econômicas que ela não encontra
tempo para desenvolver nada melhor do que um raciocínio incidental,
superficial e perigoso sobre as primeiras coisas e as últimas coisas. Assim, o
filósofo maduro não pronunciará nem estimulará nenhuma palavra contra a
fé estabelecida.


Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano
Will Durant (1885-1981) sobre o filósofo islâmico Averróis (1126-1198)

O estabelecimento do sentido verdadeiro e profundo das crenças e
convicções religiosas é o objetivo da filosofia em sua busca da verdade.
Este sentido profundo não deve ser divulgado às massas, que devem
aceitar o significado simples e externo da Escritura contido em histórias,
símiles e metáforas.
Trecho retirado verbete da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica sobre o
filósofo islâmico Averróis (1126-1198)

          Prezados leitores, imaginem a cena: ao redor de 15 pastores
evangélicos rezando em torno de Donald Trump no Salão Oval da Casa
Branca, colocando as mãos sobre os ombros e o braço direito do presidente
americano, que mostra um rosto sério, contrito. Além de implorarem para
que Deus dê-lhe sabedoria para governar, os pastores também imploraram
que Deus protegesse as tropas americanas. Detalhe importante: a guerra
contra o Irã começara com o bombardeio no sábado dia 28 de fevereiro de
uma creche, causando a morte de 175 crianças e funcionários. Será que
esses pastores devem mesmo rogar a Deus que proteja o exército
americano que foi capaz de matar crianças em uma creche? Será que a
guerra contra o Irã é santa e justa e justifica o massacre de civis?
          Não pretendo aqui neste meu humilde espaço bater o martelo e
decidir se a guerra se justifica ou não do ponto de vista religioso,
considerando o sofrimento que causará à população de um país que não
atacou os Estados Unidos antes. Meu objetivo é lançar mão dos
ensinamentos de um filósofo que procurou combinar a fé e a razão e assim
separar o joio do trigo, isto é a religião verdadeira, que deveria ser apoiada
e cultivada por todos, independentemente do nível de educação e de

inteligência da pessoa, e a falsa religião, que só serve para semear a
discórdia e fomentar heresias e descrença. Falo de Averróis cujo verdadeiro
nome era Abu al Walid Muhammad ibn Ahmad ibn Muhammad ibn Rushd.
Nascido em Córdoba e falecido em Marrakesh, Averróis foi médico, juiz e
estudioso de Aristóteles e de Platão. De Aristóteles, o filósofo islâmico
tomou emprestado o conceito dos três tipos de argumentos, para atribui-los
aos diferentes atores da sociedade. O primeiro é o demonstrativo,
empregado pelos filósofos, que com base em alguns axiomas e premissas
estabelecidas demonstram uma afirmação como consequência lógica
daqueles pontos de partida. O segundo tipo de argumento é o dialético,
utilizado pelos teólogos, que não cumpre os requisitos de uma
demonstração estrita e acaba sendo uma opinião não corroborada por
provas. O terceiro tipo de argumento é o persuasivo, isto é aquele
empregado na retórica e na poesia para convencer, para emocionar, para
encantar as massas. Portanto a dialética fica a meio caminho entre o rigor
da demonstração lógica e a liberdade de usar qualquer artifício para
arrebatar o coração do ouvinte ou leitor.
         Averróis não vê conflito entre a fé e a razão no sentido de que ele
acredita que a Sharia, baseada no Alcorão, é verdadeira, porque foi
revelada por Deus ao profeta Maomé. A fé na origem divina da Sharia, fonte
de todo conhecimento, não impede que Averróis atribua um papel à razão,
conforme o trecho que abre este artigo. O filósofo, praticante da
argumentação demonstrativa, é o único a poder revelar o sentido profundo
da revelação da Escritura, interpretando-a simbolicamente de maneira a
harmonizá-la com as descobertas da ciência e da filosofia.
         Tal interpretação não deve ser divulgada às massas, que não têm
capacidade de raciocinar neste nível de abstração. A fé da população deve
ser cultivada por meio de histórias de milagres, de homens excepcionais
como o Profeta, de histórias que antropomorfizam Deus. É só dessa
maneira persuasiva que ELE se torna acessível ao intelecto simples daqueles
que passam a vida a se preocupar com a sobrevivência cotidiana e que mais
sentem do que pensam.
         Dessa maneira, Averróis estabelece uma fé para todos, mas uma fé
praticada de maneira diferente pelos diferentes crentes. Ao indivíduo
comum cabe seguir as regras morais inspiradas pela Escritura sem
questionar sua origem ou seu conteúdo porque este é o melhor caminho a
seguir para uma vida saudável, sem grandes desastres causados pelo
comportamento desregrado. Ao filósofo cabe estudar a Escritura como fonte
da verdade para revelar seu sentido íntimo. A pior fé é aquela dos teólogos,
que raciocinam dialeticamente e portanto, de maneira não fundamentada,
colocando dúvidas na cabeça daqueles que não foram educados para pensar
direito e por isso são mais vulneráveis a sofismas.

Para Averróis, pior do que não refletir é refletir de maneira
equivocada, sem seguir as regras da lógica, pois isso leva ao
surgimento de versões conflitantes sobre o conteúdo da religião,
tirando a credibilidade da palavra revelada por Deus aos seus

escolhidos. Se os teólogos tiverem liberdade para tecerem
argumentos dialéticos ao sabor das suas conveniências e dos seus
interesses, isso acabará minando a sociedade, tirando-lhe o
sustentáculo da moral fundada na verdade da religião.

Prezados leitores, os ensinamentos do cordovês Averróis mostram
que para que possa haver fé para todos é preciso consideração às
especificidades de cada indivíduo. Para uns a literalidade da Escritura
alimenta a fé, para outros a simbologia do texto sagrado faz nascer o
sentimento da transcendência. De qualquer forma, fica o alerta para quem
quiser abordar a religião por meio da argumentação que justifica certos
comportamentos em nome de Deus: que o faça da maneira mais rigorosa
possível, demonstrando e não apenas lançando ideias como meros
expedientes para dar um verniz de respeitabilidade a atos que causam mal.
Do contrário, teremos teólogos como os pastores trumpistas que não estão
defendendo Deus e os preceitos morais que emanam DELE, mas apenas o
Império Americano. E isso não é a religião concebida por um filósofo como
Averróis, é simplesmente ideologia, isto é, teoria voltada à atuação no
mundo com vistas a um certo objetivo.

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