Barreiras aqui e acolá

“Que novidades são essas por aqui?’, perguntou, quando o guarda-barreira, após um bom intervalo de tempo, saiu de sua guarita. “Privilégio senhorial”, respondeu este enquanto abria, “concedido ao junker e fidalgo Wenzel von Tronka.” […] Entretanto, mal havia passado sob a cancela quando ouviu uma nova voz vindo da torre atrás de si, “Alto lá, ó negociador de crinas!”, e viu o castelão bater uma janela e descer correndo em sua direção. ‘Ora, qual a novidade agora?”, perguntou-se Kohlhaas a si mesmo e deteve-se com os cavalos. O castelão chegou ainda abotoando um colete sobre o corpo largo e, inclinado para se proteger contra o mau tempo, pediu o passe de fronteira.

Trecho retirado do livro Michael Kohlhaas, do escritor alemão Heinrich von Kleist (1777-1811)

Ao final do século XII a revolução comunal foi ganha na Europa Ocidental. As cidades, em que pese não serem completamente livres, haviam jogado fora os senhores feudais, acabado com os pedágios ou os reduzidos fortemente e limitado bastante os direitos eclesiásticos. […] Uma onda de indústria e comércio levou embora obstáculos enraizados ao desenvolvimento humano e impulsionou os homens adiante, da glória dispersa das catedrais para o frenesi universal do Renascimento.

Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

Lançado pelo governo na esteira da operação, o programa Barricada Zero, que tem como propósito arrancar as trincheiras do crime postas no caminho do Estado, um triste símbolo do poderio dos fora da lei, nunca chegou ao Alemão ou à Penha. Boa parte das que foram desmontadas naquele 28 de outubro acabou sendo reerguida ou substituída por grupos armados que formam uma barreira humana por onde só passa quem eles permitem […]

Trecho retirado do artigo “O desafio continua” publicado na edição da revista VEJA de 1º de maio

Prezados leitores, aqueles que assistiram ao filme Michael Kohlhass, Justiça e Honra, estrelado por Mads Mikkelsen em 2013, lembrar-se-ão das cenas iniciais. Um comerciante de cavalos chega nas terras de um senhor feudal, que no livro ficam às margens do rio Elba, mas que no filme ficam na França. As terras mudaram de dono: o antigo cavalheiro gostava de ver o movimento dos transeuntes passarem por sua propriedade e havia mandado construir um calçamento de pedras, pois uma das éguas do comerciante havia quebrado a pata. Quando Michael Kolhass passa desta vez pelo mesmo local com seus animais, ele constata que as coisas pioraram.

Conforme o trecho que abre este artigo, o novo dono, o fidalgo Wenzel von Tronka, mandou colocar uma nova barreira que não existia antes, exigindo pagamento para permitir a passagem. Pior: depois de passar pela cancela, é advertido que há outro tributo, um passe de fronteira. Michael Kohlhass nada pode fazer a não ser submeter-se à dupla exação, porque este é o caminho para chegar ao vilarejo onde negocia seus cavalos. Criar e vender cavalos é o ofício de Kohlhass e para continuar a exercê-lo é preciso aturar as arbitrariedades dos detentores dos direitos feudais.

A insatisfação do “negociador de crinas”, como o castelão em tom de desprezo o chama, reflete a insatisfação de toda a nova classe de comerciantes e industriais que começa a surgir na Europa no século IX e atinge o pleno florescimento nos séculos XII e XIII. Produzir mercadorias, comprá-las e vendê-las eram tarefas dificultadas pela ordem então vigente. Na rota de transporte das matérias primas e dos produtos finais havia uma miríade de propriedades feudais cujos senhores cobravam pedágios de passagem, mas que não necessariamente ofereciam como contrapartida a infraestrutura de hospedagem e boas estradas que garantissem que a viagem fosse segura e fácil. 

O objetivo dos castelões não era fomentar a atividade econômica facilitando-a, mas simplesmente tirar seu naco dela na forma de exações, porque a lei feudal assim lhes permitia. Para um proprietário de terras, tanto fazia se o negociante vendesse mais ou menos ou se o mestre da guilda produzisse mais ou menos, porque ele não participava das atividades. O que importava é que ele tinha o direito de cobrar pagamento pela passagem. Esse descompromisso do senhor feudal atrapalhava os negócios e não é de se admirar que os Michael Kohlhass lutassem por uma ordem mais justa, em que fossem eliminados os obstáculos postos por aqueles que gozavam de privilégios consolidados havia séculos.

E assim foi feito, conforme explica Will Durant no capítulo “A Revolução Econômica” do livro “A Idade da Fé”, cujo trecho abre este artigo. Ao final do século XII, as cidades haviam ganho a batalha contra a ordem vigente desde a queda do Império Romano e haviam conquistado sua liberdade, por meio de cartas régias em que era reconhecido o direito delas de não estar sob a tutela de um senhor feudal. As cidades eram o local onde não se pagavam pedágios aos Wenzel von Tronka, como Kohlhass foi obrigado a pagar, o lugar onde servos se transformavam em trabalhadores livres que podiam oferecer sua força de trabalho no comércio e na indústria sem estarem presos à atividade agrícola nos domínios senhoriais. 

Um admirável mundo novo se abria aos habitantes das cidades, um mundo em que o indivíduo podia tentar ser algo diferente do que fora seus antepassados, presos à terra pelas obrigações de entrega de produtos e de prestação de serviços ao senhor. Conforme explica Durant, esse impulso ao empreendedorismo dado pela emancipação de certos locais do jugo feudal lançou as bases da Europa moderna, pois permitiu o advento do Renascimento, caracterizado pela inovação econômica, científica, artística e intelectual.

Avancemos nove séculos para o século XXI. Barreiras arbitrárias, exações e demonstrações de poder do castelão sobre o negociador de crinas são coisa do passado na Europa. Mas no Brasil e especificamente no Rio de Janeiro fazem parte do cotidiano de milhões de moradores das comunidades cariocas que vivem sob o jugo do crime organizado. Saem os senhores feudais e entram os chefes do tráfico de drogas. Conforme a reportagem da revista VEJA sobre os desdobramentos da ação policial de 28 de outubro de 2025 que matou 117 membros do Comando Vermelho, tudo voltou como dantes ao Quartel de Abrantes. As quadrilhas continuam cobrando taxas de fornecimento de gás e internet dos moradores e homens com fuzis continuam na entrada dos territórios atuando como guardas da fronteira para determinar quem pode ou não entrar. Concessionárias de energia elétrica e de outros serviços públicos, provedoras de internet e demais empresas são permitidas desde que atendam as condições determinadas pelos chefes. A polícia, claro, só entra se fizer uma megaoperação militar como a que foi feita em 28 de outubro, à custa de muitas vidas.

Por outro lado, segundo o site de notícias Terra a prefeitura do Rio de Janeiro investiu 20 milhões de reais no show da cantora colombiana Shakira, realizado nas areias de Copacabana em 2 de maio. A justificativa é que a ocupação de hotéis, as compras no comércio da cidade e a movimentação nos restaurantes gerariam uma receita de quase 800 milhões de reais para a cidade. De um lado incentiva-se a indústria do turismo e as atividades que giram em torno dela. De outro, as 4 milhões de pessoas que vivem sob a mira dos fuzis do tráfico nas comunidades não têm liberdade de ir e vir nem de contratar empresas prestadoras de serviços, e precisam pagar taxas de proteção ao crime organizado e dele contratar serviços que são pirateados de empresas formalizadas. Livre iniciativa para os que vivem na cidade turística, grilhões e falta de oportunidades para quem vive sob o jugo dos castelões dos morros cariocas.

Prezados leitores, oxalá o Brasil um dia possa fazer a transição completa de um regime de barreiras para um regime sem barreiras para todo mundo. Quem sabe neste momento tenhamos também o nosso Renascimento, como foi o caso na Europa há sete séculos? Enquanto isso não acontece, torçamos para que a cidade que recebe Madona, Lady Gaga e Shakira faça também bondades para os cariocas que vivem sob o domínio dos senhores do tráfico.

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A História das verdades e das mentiras

“Baudolino”, dizia-lhe, “és um mentiroso nato.”

“Mestre, por que dizes isso?”

“Porque é verdade. Mas não penses que te censuro. Se queres transformar-te num homem de letras, e, quem sabe um dia, escrever Histórias, deves também mentir, e inventar histórias, pois senão a tua História ficaria monótona. Mas terás de fazê-lo com moderação. O mundo condena os mentirosos que só sabem mentir, até mesmo sobre coisas mínimas, e premia os poetas que mentem apenas sobre coisas grandiosas.” 

Trecho retirado do romance histórico Baudolino, do escritor e filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016)

“…numa grande história podem-se alterar pequenas verdades, para ressaltar a verdade maior”

Trecho retirado do romance histórico Baudolino, do escritor e filósofo italiano Umberto Eco (1932-2016)

[…] das peças de Sófocles e Eurípides, até então completamente preservadas, só uma minoria sobreviveu. Milhares de obras-primas artísticas foram roubadas, mutiladas ou destruídas.

Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

Prezados leitores, imaginem a cena: um camponês adolescente está num pântano em meio a um bosque no noroeste do que hoje é a Itália e vê um homem ruivo passar com seu cavalo. A névoa cobre tudo e o cavaleiro está obviamente perdido. Avistando o adolescente, o grande homem que fala uma língua estranha pede-lhe ajuda para sair dali. O camponês, que conhece o lugar como a palma de sua mão, guia o cavaleiro para fora do pântano e quando chegam em local seguro é testemunha de algo impressionante: ao avistarem o cavaleiro várias pessoas se ajoelham prestando-lhe homenagem. Ele é nada mais nada menos do que Frederico Barba Ruiva (1123-1190), o Imperador do Sacro Império Romano Germânico, que estava então em sua primeira campanha militar transalpina, fazendo o cerco de Tortona, em 1155, uma das cidades-estado da península que resistiam à autoridade do Imperador e não lhe prestavam a devida vassalagem em termos de tributos e contribuições de homens para campanhas militares.

Para recompensar o camponês que o salvou, chamado Baudolino, Frederico lhe dá uma moeda de ouro. O adolescente, para impressioná-lo, diz-lhe que Santo Baudolino aparecera para ele e lhe dissera que o imperador teria uma grande vitória em Tortona, porque Frederico era o senhor único e verdadeiro de toda a Lombardia. O imperador repete essa história da aparição para um grupo de cavaleiros que a espalham pelo acampamento do cerco. Por coincidência – ou não – lá estavam também os mensageiros de Tortona, que negociavam um fim ao cerco e ainda não se haviam decidido render-se ou não. Ao ouvirem sobre Santo Baudolino os tortonianos optam pela capitulação, porque se até os santos estavam contra eles, eles não iriam aguentar muito. Imediatamente ao saírem da cidade os alemães entram na cidade e a destroem, não deixando pedra sobre pedra.

Frederico, grato ao camponês pela história da aparição do santo que lhe permitira conquistar a cidade de Tortona, chama Baudolino para ir com ele para a Alemanha, onde o contador de histórias providenciais iria aprender a escrever. E é assim que o escritor Umberto Eco nos introduz ao personagem principal de seu romance Baudolino, em que se discute a natureza do contar histórias. A discussão é propiciada pelo encontro de Baudolino com dois personagens que existiram no mundo real: o bispo Otto von Cappenberg (1100-1171), padrinho e tio de Frederico, sob cujos cuidados o Imperador coloca Baudolino; e o historiador bizantino Nicetas Coniate (1155-1217), a quem Baudolino salva durante a pilhagem e incêndio de Constantinopla empreendidos pelos cruzados em 1204.  

A própria narrativa do episódio do cerco de Tortona é uma exemplificação dessa concepção de História explicada no trecho que abre este artigo, um diálogo entre Baudolino e seu preceptor Otto. A História é uma mentira no sentido de ser uma criação, mas não se pode mentir sobre tudo, porque se perde a credibilidade, deve-se mentir apenas sobre as coisas importantes, que fornecem a chave do sentido da História. O cerco à cidade rebelde de Tortona pelas tropas imperiais de fato ocorreu, assim como a destruição da cidade. O detalhe modificado na narrativa apresentada pelo escritor italiano faz toda a diferença para concatenar os fatos e dar-lhes uma moldura. Os habitantes da cidade não se renderam depois de ouvirem a história da aparição de Santo Baudolino, mas depois que Frederico contaminou o abastecimento de água da guarnição que defendia Tortona com cadáveres e enxofre e breche em chamas. 

Contar que a cidade capitulou porque reconheceu que os santos estavam ao lado de Frederico dava respaldo à imagem do Imperador como a autoridade a ser respeitada, porque seu poder vinha de Deus. Sob essa perspectiva, a História de Frederico Barba Ruiva é a História do Imperador do Sacro Império Romano Germânico que lutou pela afirmação da sua autoridade em contraposição àquela dos papas, que se diziam os únicos autênticos representantes de Deus na Terra. Quem tinha mais conexão com Deus, de onde emanava o poder e a legitimidade para governar as pessoas? Os imperadores e reis, detentores dos poderes temporais, ou o papa, detentor do poder espiritual da Igreja? 

No contexto de tal disputa, mostrar um santo dar ganho de causa ao Imperador ao aparecer a um camponês de alma simples e boa fazia toda a diferença: era contar uma pequena mentira para ressaltar a verdade maior, conforme Nicetas Coniate explica ao sábio Pafnúcio ao dar-lhe uma lição no final do livro sobre como escrever uma grande História. A verdade maior era que em uma História da vida de Frederico Barba Ruiva, Deus estava ao lado do Imperador, que era a autoridade verdadeira e legítima, porque seu poder tinha-lhe sido concedido pelas potestades celestes lá no alto.

Nesse sentido, a História tem uma dupla natureza: ela é verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Ela contém elementos factuais, corroborados por testemunhas oculares, mas também tem elementos não factuais, mitos inseridos na narrativa dos acontecimentos para dar à História uma chave de interpretação, sem a qual os fatos enumerados seriam apenas uma coleção de itens disformes, que passariam desapercebidos. Como escrever a História sem saber o fim a que ela se destina? É este desafio que é enfrentado por Otto e por Nicetas em sua filosofia da História: a combinação correta de pequenas mentiras com grandes verdades estabelece o roteiro para o historiador exercer seu ofício sem ser acusado de ser mentiroso contumaz e nem de escritor irrelevante. O historiador é um grande poeta que cria uma narrativa que faz sentido e é plausível, embora não totalmente atrelada à gama de acontecimentos que se desenrolaram.

Prezados leitores, quando forem a Veneza e virem os quatro cavalos sobre a Catedral de São Marco, saibam que eles foram retirados de Constantinopla na Quarta Cruzada, durante a qual o personagem de Umberto Eco conversa com Nicetas Coniate. Eles são fruto de um episódio histórico lamentável em que livrarias, museus, igrejas e casas foram saqueados e destruídos, conforme descreve Durant na “Idade da Fé”. A depender do sentido que se queira dar à História, podemos ver os cavalos de Veneza como símbolos das trocas entre o Ocidente e o Oriente que permitiram à Europa sair do estupor medieval e caminhar a passos largos rumo ao Renascimento. OU então como mais uma evidência das violências perpetradas pelos ocidentais contra os povos do Oriente Médio, a que estamos assistindo em pleno século XXI. Uma coisa é certa: conforme ensina Baudolino de Umberto Eco, a História a ser contada será sempre uma mentira verdadeira e uma verdade mentirosa.

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Equilíbrio de poderes

Tão enredada na teia medieval, a Igreja encontrava-se na posição de uma instituição
política, econômica e militar, assim como religiosa; suas “temporalidades” ou possessões
materiais, suas “feudalidades,” ou direitos e obrigações feudais, tornou-se um escândalo
para os cristãos de moral estrita, um tópico de discussão para os heréticos, uma fonte de
controvérsias sem fim entre imperadores e papas. O feudalismo feudalizou a Igreja.


Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant
(1885-1981)

São Tomás de Aquino interpretava a escravidão como uma consequência do pecado de
Adão e como um expediente econômico em um mundo em que alguns deviam trabalhar de
modo que outros pudessem ser livres para defendê-los.


Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant
(1885-1981)

Prezados leitores, imaginem uma corte eclesiástica que condena sete mulheres a
serem enterradas vivas por roubo. Ou um mosteiro, como o de St. Gall na Suíça, que tinha
mais de 2.000 servos. Ou um funcionário da Santa Inquisição que em 1554 vangloriava-se
de que o Santo Ofício havia condenado à fogueira ao menos 30.000 bruxas nos 150 anos
precedentes. Ou bispos e abades que vestindo armadura e portando lança – estando assim
prontos para matar – participavam de guerras como qualquer senhor feudal que exercia
domínio sobre vastas extensões de terra.

Esta era a situação da Igreja Católica na Idade Média e começo da Idade Moderna.
Se na Idade Média a fonte do poder e da riqueza tornou-se a propriedade e a gestão da
terra, quem dispusesse desse ativo em abundância estava fadado a ocupar a posição de
liderança na sociedade. E liderança significa exercer o controle, isto é, realizar as atividades
típicas dos homens que geriam os homens que, por si sós, só conseguiam gerir coisas. Tais
atividades incluíam organizar a exploração da terra e sua defesa contra ataques de
inimigos. Não é de surpreender então que os membros da alta hierarquia da Igreja Católica
– papa, arcebispos, bispos e abades – supervisionassem o trabalho agrícola e participassem
de guerras. E que, em fazendo isso, acabassem realizando coisas que violavam os preceitos
da moral cristã.
A Igreja pregava a misericórdia, mas seus tribunais aplicavam as mesmas penas
brutais aplicadas por tribunais leigos, incluindo a pena de morte. Afinal, era tarefa dos
líderes da sociedade controlarem o comportamento das pessoas para que a ordem
predominante não fosse violada. A Igreja pregava a caridade e o compartilhamento do pão,
como fez Jesus Cristo na Santa Ceia, mas cobrava como qualquer senhor feudal os tributos
impostos aos camponeses, pelo direito que estes gozavam de tirar o seu sustento de glebas
sobre as quais a Igreja tinha diferentes tipos de propriedade. A Igreja pregava que todos
eram iguais perante Deus e que todo ser humano tinha uma dignidade intrínseca, mas
aceitava a escravidão como um mal necessário, conforme o trecho que abre este artigo nos
mostra: afinal, a tarefa de uns era arar a terra, a tarefa de outros era lutar para que as
plantações não fossem destruídas por tropas inimigas ou que os vilarejos não fossem
saqueados ou queimados. O mundo depois da queda do Império Romano na Europa
Ocidental era um mundo cheio de insegurança e sujeito às invasões dos povos bárbaros. O
medo e a expectativa do pior tornavam difícil aplicar a receita de paz e amor pregada no
Novo Testamento.
É nesse sentido que a Igreja se feudalizou ao participar da Idade Média na qualidade
de protagonista. Conforme o trecho que abre este artigo, ao gerir suas possessões
materiais, a Igreja tornou-se parte integrante da estrutura política, econômica e militar
daqueles tempos, exercendo um poder que ia além do poder espiritual para incluir os
atributos daqueles que geriam a atividade econômica mais importante da época, a
agricultura. Não é surpreendente que a Igreja Católica, acumulando rendimentos pela
cobrança de tributos e pela produção de alimentos, tenha se desviado daquela ética surgida
no Oriente Médio no primeiro século da nossa era a partir dos ensinamentos do filho de um
carpinteiro em uma longínqua e obscura província do Império Romano.
Assim, ao tornar-se a sucessora do Império Romano como fonte de poder, a Igreja
Católica, que pregava a fé, a esperança e a caridade propostas na periferia desse império,

acabou matando, confiscando e oprimindo como qualquer senhor feudal fazia à época. E
mesmo quando o feudalismo entrou em decadência, a Igreja Católica tinha se consolidado
de tal forma como instituição que tornou-se ferrenha defensora da ortodoxia, como
mostram as atividades da Inquisição, que se iniciaram na Europa a partir do século XII.
Prezados leitores, na semana passada conclamei Donald Trump a ir a Canossa pedir
perdão ao papa pela guerra contra o Irã e tomar alguns conselhos sobre como resolver
conflitos por meios diplomáticos. Mas que fique claro, o papa a ser consultado não é um
papa da Idade Média como o Gregório VII que disputou com Henrique IV. É o papa Leão
XIV do século XXI, que lidera uma igreja que não mais está no centro da atividade
econômica da sociedade, como era a Igreja da Idade Média, e portanto, não tem poder
material, apesar de ser ainda rica em ativos imobiliários, resquício da sua época de
esplendor.

Não tendo poder material e não estando envolvida com as coisas deste mundo, a
Igreja Católica pode enfocar a pregação cristã original e assim propor o fim das guerras e o
diálogo universal. Foram-se os tempos em que a Igreja precisava estralar o chicote para
gerir as pessoas sob seu controle. Nesse sentido, sua mensagem ética tem mais
credibilidade do que teria se ela ainda fosse um grande potentado econômico. Por outro
lado, para líderes como Trump que não acreditam em direito internacional e para quem a
força faz o direito, consistência ética é apenas uma firula sem consequência.
É forçoso notar que no frigir dos ovos, se Henrique IV foi a Canossa e Trump não vai
a Roma é porque o poder espiritual sem poder material é pouco eficaz. O excesso de poder
material foi um grande golpe para a Igreja Católica, tornando-a vulnerável aos ataques do
Protestantismo, o que acabou minando-lhe tanto o poder material quanto o espiritual. Por
outro lado, neste século XXI, em que o direito das gentes tem sido tão vilipendiado, como
tornar o poder espiritual relevante sem que haja um poder material que o respalde? E como
não deixar que o poder material se torne tão cheio de si de modo a levar à destruição do
mundo pela guerra? Oxalá encontremos uma solução de equilíbrio de poderes antes que
seja tarde demais.

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Quem irá a Canossa?

[…] estado deveria subordinar-se à Igreja – a Cidade dos Homens à Cidade
de Deus – em todos os assuntos envolvendo doutrina, educação, moral,
justiça ou organização eclesiástica. […] A Igreja, como instituição divina,
merecia ter autoridade universal; o papa, como o vice-rei de Deus, tinha o
direito e a obrigação de depor maus reis e confirmar ou rejeitar a escolha
dos governantes feita pelos homens ou pelas circunstâncias. […] Quem […]
podia ignorar que os reis e príncipes originavam-se daqueles que,
ignorantes de Deus e cobrindo-se de orgulho, violência e perfídia, de fato
cometendo praticamente todos os crimes – pretendiam governar seus pares
– isto é, os homens – em luxúria cega e arrogância intolerável?
Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano
Will Durant (1885-1981) sobre o pensamento do papa Gregório VII (1020-
1085) no contexto do episódio conhecido como a Querela das Investiduras

Não tenho medo do governo Trump e nem de bradar em alto e bom som a
mensagem dos Evangelhos.


Papa Leão XIV comentando em 13 de abril a crítica a ele dirigida pelo
presidente americano Donald Trump dizendo que ele deveria preocupar-se
em ser um Grande Papa e não um político

Prezados leitores imaginem a cena. Em 25 de janeiro de 1077, em
meio a um dos mais rigorosos invernos que a Itália já experimentara, chega
um homem com os pés descalços, vestido em roupas de lã grossa, que
feriam a pele, às portas do castelo da condessa da Toscana em Canossa.
Este homem é nada mais nada menos do que o imperador do Sacro Império
Romano Germânico, Henrique IV (1050-1106), que viera ali pedir perdão ao
papa Gregório VII por seus pecados. Depois de três dias esperando ao
relento, Henrique consegue que o papa revogue a excomunhão que lhe
havia imposto, permitindo que o imperador retorne ao seio da Igreja
Católica.

E que pecados eram esses? Como podem se lembrar aqueles que
estudaram História Geral no colégio na década de 1980, havia no século XI
uma disputa de prerrogativas entre o Papa e o Imperador sobre quem tinha
direito de escolher os bispos e abades. Conforme o trecho que abre este
artigo, Gregório VII considerava que a Igreja tinha mais legitimidade que
qualquer Estado em determinados assuntos. Sendo representante de Deus
na Terra, era ela quem deveria decidir sobre assuntos que envolvessem a
aplicação dos ensinamentos dos Evangelhos à vida prática, o que incluía
competência para ditar a moral, decidir quem estava certo e quem estava
errado em uma disputa e educar as crianças para que quando adultas se
transformassem em bons cristãos.
Além disso, havia outro elemento que lustrava a legitimidade da
Igreja, que era o modo como os reis e príncipes eram escolhidos. Esses
indivíduos ascendiam ao poder por meio da intriga, da violência, da mentira,

em suma pelo exercício daquelas qualidades que, conforme o
historiador e filósofo Maquiavel (1469-1527) iria descrever em plena
Renascença, eram fundamentais para conquistar e manter o poder, mas que
não tinham nada a ver com as virtudes associadas ao cristianismo, a saber:
humildade, paciência, bondade, obediência e misericórdia. Daí porque
Gregório VII insistisse na importância de reservar para a Igreja a
exclusividade na escolha daqueles que ocupariam os cargos eclesiásticos
mais elevados e assim comandariam a instituição. Considerando que os reis
e príncipes deste mundo não conquistavam o pode praticando virtudes
cristãs, se lhes fosse permitido escolher bispos e abades nas igrejas de seus
respectivos países eles tornariam a Igreja tão corrupta quanto eles eram,
pois a nomeação para cargos eclesiásticos seria uma moeda de troca em
disputas de poder.

Assim, para Gregório VII a autonomia da Igreja para escolher seus
próprios representantes era condição necessária para que ela exercesse o
poder espiritual sobre a Cristandade, servindo como a bússola moral que
teria a palavra final sobre quem agia certo e quem agia errado. A Cidade
dos Homens, povoada de pecadores, estaria subordinada à Cidade de Deus
descrita por Santo Agostinho (354-430), a fortaleza espiritual em que
predominaria o amor, a fé, a esperança, a sabedoria, a justiça. Caso os
líderes políticos de então escolhessem quem administraria a Igreja, haveria
uma inversão dos papeis e a Cidade de Deus ficaria subordinada à Cidade
dos Homens, levando à sua descaracterização.
O pecado de Henrique IV pelo qual ele foi em penitência pedir perdão
ao papa foi então este: o de ter insistido em nomear os bispos nas terras
sob a jurisdição do Sacro Império Romano Germânico, o que incluía o que é
hoje a Alemanha e o Norte da Itália. A chamada Querela das Investiduras
teve vários rounds: Henrique prostrou-se em Canossa em 1077, mas em
1084, à frente de um exército, ele invadiu Roma, obrigando Gregório a
refugiar-se no Castelo de Sant’Angelo. A vitória de Henrique foi efêmera:
pedindo a ajuda de Roberto Guiscardo (1015-1085), que governava o sul da
Itália, incluindo a Sicília, o papa conseguiu libertar-se do seu cativeiro, mas
o condottiere normando saqueou Roma e incendiou grande parte da cidade.
Gregório VII, tornando-se impopular com os romanos pela violência de
Guiscardo, acabou deixando a cidade e morreu em 1085, desgostoso com a
derrota para um homem a quem ele havia perdoado em Canossa.
Mais de 1.000 anos depois e temos agora em pleno século XXI, uma
disputa entre o papa e um líder político, no caso o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump. Tudo começou no Domingo de Páscoa, no dia 5 de
abril, quando o papa Leão XIV, em sua homilia, conclamou aqueles que
“têm poder para desencadear guerras a escolher a paz”. O papa voltou à
carga depois que Trump ameaçou em 7 de abril destruir uma civilização
inteira, dizendo que essa ameaça à população do Irã era absolutamente
inaceitável. Trump fez então várias críticas a Leão XIV, dizendo que ele era
leniente com o crime e que favorecia a esquerda radical. A última

manifestação do papa é aquela que abre este artigo, insistindo que não irá
parar de divulgar a mensagem dos Evangelhos, que é a paz, não a guerra.
Prezados leitores, na Idade Média, apesar de Gregório VII ter sido
vencido por Henrique, a Igreja acabou fazendo valer sua prerrogativa de
escolher seus próprios líderes sem interferências do poder temporal e com
isso conquistou um poder político que só seria questionado e abalado com a
Reforma Protestante. A Cidade de Deus, símbolo do poder espiritual,
conseguiu se sobrepor à Cidade dos Homens, símbolo do poder terreno, até
o início da Idade Moderna. Em pleno século XXI, a Igreja Católica não tem
nem o poder político nem o poder espiritual de que outrora gozou. Imaginar
qualquer governante ir prostrar-se contrito, aos pés do papa, para que este
lhe perdoe os pecados, está fora de cogitação. Mas bem que uma ida a
Canossa, com os pés descalços sobre a neve, poderia fazer bem para o
presidente americano refletir sobre seus atos e fazer uma autocrítica. Oxalá
que os americanos encontrem no futuro um chefe do Executivo que faça
isso para que o país possa ser mais bem gerido. O mundo com certeza
respirará aliviado.

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Dependências agora e outrora

A fotografia da dependência brasileira é reveladora. O diesel é o caso mais
crítico: as importações respondem por cerca de 25% do consumo interno.
[…] No caso do GLP, as importações também corresponderam a 25% das
vendas internas. O querosene de aviação apresenta dependência externa de
15%. […] O Brasil importa 85% dos fertilizantes que utiliza.
Trecho retirado do artigo “Os gargalos do planeta e os riscos ao
agronegócio”, de Marcos Jank, publicado na edição de 5 de abril do jornal O
Estado de São Paulo

Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido,
porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China
por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras.
Trecho de discurso do candidato à presidência Flávio Bolsonaro em 28 de
março na Conferência da Ação Política Conservadora

Já levaram nossa prata, todo o nosso ouro, já levaram todo o diamante, já
levaram todo o nosso minério, o que mais querem levar? Quando é que a
gente vai aprender que Deus colocou toda essa riqueza pra nós, e nós
ficamos dando para outros?”, questionou Lula
Fala do presidente Lula durante encontro com o presidente da África do
Sul, Cyril Ramaphosa, no Palácio do Planalto, em 9 de março

A indústria, de seu lado, se obteve inesperados mercados para exportação,
devido ao colapso da produção nos países avançados, tornou-se ao mesmo
tempo ainda mais obsoleta do que já era pela impossibilidade de
importação de máquinas e equipamentos.
Trecho retirado do livro “A Capital da Vertigem – Uma história de São Paulo
de 1900 a 1954” de Roberto Pompeu de Toledo sobre os efeitos da Segunda
Guerra Mundial sobre a economia brasileira

Prezados leitores imaginem o cenário de penúria: preço do leite entre
Cr$ 1,80 e Cr$ 4,50, a depender da qualidade do produto, com mais ou
menos água. Falta de alimentos da cesta básica como feijão, arroz, batata e
milho, por impossibilidade de transportá-los do interior do Estado para a
capital. Falta do mero pãozinho, pela impossibilidade de importar trigo. 87%
do transporte rodoviário de mercadorias ameaçado pela falta de
combustível, devido à falta do petróleo importado.
Como explica Roberto Pompeu de Toledo em seu segundo volume da
história da cidade de São Paulo, essa era a situação no ano de 1944 na
cidade de São Paulo, em virtude da Segunda Guerra Mundial. Em que pese
o conflito ter se desenrolado na Ásia, Europa e África, longe do continente

americano, seus efeitos se fizeram sentir no Brasil em virtude de nossas
fragilidades estruturais: não produzíamos trigo suficiente para atender
nossas necessidades e a única fonte de energia alternativa ao petróleo
importado era o gasogênio, fruto da queima de carvão. E mesmo a
oportunidade de que o Brasil gozou durante a guerra de passar por um
surto de industrialização para substituição de importações corria o risco de
ser desperdiçada porque, conforme descrito no trecho que abre este artigo,
em que pese termos criado indústrias, elas se tornaram obsoletas pela
impossibilidade de importar máquinas e equipamentos que permitissem
modernizá-las.


O século XX, marcado pela Pax Americana passou e já estamos na
segunda década do século XXI. Americanos e israelenses travam uma
guerra contra o Irã que já teve vários impactos sobre a economia mundial.
O fechamento do Estreito de Ormuz pelos iranianos, o qual, diga-se de
passagem, já foi controlado outrora por nossos colonizadores portugueses,
é dramático. Na qualidade de um dos sete gargalos marítimos do planeta, o
estreito é a artéria mais sensível do sistema global de comércio. O artigo de
Marcos Junk mostra os números: 20% do consumo mundial de petróleo
passa por lá, assim como um terço do comércio marítimo de fertilizantes do
mundo e 19% de todo o gás natural liquefeito.


A interrupção quase que total do tráfego no Estreito de Ormuz pega o
Brasil de calças curtas por vários motivos, conforme descrito no trecho que
abre este artigo. Dependemos de fertilizantes para abastecer nosso
agronegócio, o setor mais pujante da nossa economia, representando quase
30% do PIB em 2025. Dependemos do diesel para movimentar os
equipamentos que fazem a roda da agricultura girar e para fazer rodar os
caminhões nas estradas que transportam 65% de todas as cargas
movimentadas no território brasileiro. E apesar de produzirmos gás
offshore, precisamos importar da Bolívia e dos países do Golfo Pérsico para
suprir nossas necessidades.


Talvez essa guerra no Irã realmente tenha terminado com o cessar-
fogo negociado entre os Estados Unidos e Irã após 40 dias de hostilidades e
o fluxo de navios no Estreito de Ormuz seja regularizado.
Independentemente disso, nós já havíamos notado nossa vulnerabilidade
em relação a um produto essencial para nossa economia há quatro anos,
em 2022, quando se iniciou a guerra na Ucrânia e houve o risco de
desabastecimento de fertilizantes, devido ao bloqueio de outro gargalo
marítimo do planeta, os Estreitos de Bósforo e Dardanelos, no Mar Negro.
Para não mencionarmos o fato de que vira e mexe há uma guerra no Oeste
da Ásia (nome mais politicamente correto do que o Oriente Médio
comumente utilizado), desde que o Estado de Israel foi criado, em 1948.
A despeito de todo esse risco que corremos, nunca fizemos nada para
mitigá-lo, quer seja incentivando a abertura de fábricas de fertilizantes ou
investindo em refinarias de petróleo que permitam um melhor
aproveitamento do petróleo bruto que temos agora em abundância.
Qualquer distúrbio geopolítico que afete as cadeias de suprimento mundiais

nos pega desprevenidos, encarecendo os preços dos insumos que utilizamos
para fazer girar nossa economia. E no entanto, nossos candidatos à
Presidência da República adoram falar das tais das terras raras, das quais
temos uma das maiores reservas do mundo. E como devemos seguir o
script da polarização, Flávio Bolsonaro, o candidato da direita e Lula, o
candidato da esquerda, têm ideias opostas sobre o assunto.


Conforme o trecho que abre este artigo, Flávio quer entregar nossas
reservas para os Estados Unidos, colocando o Brasil ao lado dos americanos
para servir de contrapeso à China, que não só tem grandes reservas, mas
também é responsável por quase 90% do processamento e refino dos
minérios raros. Lula, bem ao seu estilo de defensor retórico da soberania
nacional contra o colonialismo, não quer entregar nada, quer ficar com as
terras raras, já que já entregamos muito para os gringos. Ele quer que a
etapa de transformação industrial ocorra aqui pela implementação de uma
estratégia de exploração das terras raras como instrumento de
“desenvolvimento tecnológico e econômico”, conforme explicado no artigo
sobre a fala de Lula mencionada acima. Quem está com a razão? O
entreguista de direita ou o desenvolvimentista da esquerda?


O fato é que quer escolhamos ser parças da China ou dos Estados
Unidos, a depender se elegermos Lula ou Flávio Bolsonaro, precisaremos de
cooperação em termos de capital ou de tecnologia. Se Flávio Bolsonaro quis
nos vender ao Tio Sam, as belas palavras de Lula, sobre fazermos a coisa
nós mesmos, sem ajuda dos imperialistas, não servem de nada se não
tivermos dinheiro. Afinal, ele é necessário tanto para investirmos no
desenvolvimento da tecnologia de processamento de terras raras, quanto
para construirmos fábricas cuja produção seja viável economicamente, isto
é que seja mais vantajosa que a simples importação do produto pronto. E
quem nos dará o dinheiro? Alguém que queira algo em troca, simples
assim. Mesmo se estivermos com todas as ganas de sermos soberanos,
teremos que entregar algo, porque dependemos de capital estrangeiro.
Prezados leitores, enquanto aguardamos que as terras raras um dia
floresçam no Brasil, poderíamos começar com o objetivo mais modesto de
nos tornarmos autossuficientes em fertilizantes, um produto cuja fabricação
não requer tanta habilidade quanto o refino de nióbio ou tungstênio ou
grafite. Já seria um grande passo rumo à tão sonhada soberania, palavra
amplamente usada por essas plagas para efeitos retóricos, mas parcamente
concretizada, como vemos desde os nossos percalços na Segunda Guerra
Mundial até a atual Guerra no Irã.

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