Tão enredada na teia medieval, a Igreja encontrava-se na posição de uma instituição
política, econômica e militar, assim como religiosa; suas “temporalidades” ou possessões
materiais, suas “feudalidades,” ou direitos e obrigações feudais, tornou-se um escândalo
para os cristãos de moral estrita, um tópico de discussão para os heréticos, uma fonte de
controvérsias sem fim entre imperadores e papas. O feudalismo feudalizou a Igreja.
Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant
(1885-1981)
São Tomás de Aquino interpretava a escravidão como uma consequência do pecado de
Adão e como um expediente econômico em um mundo em que alguns deviam trabalhar de
modo que outros pudessem ser livres para defendê-los.
Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant
(1885-1981)
Prezados leitores, imaginem uma corte eclesiástica que condena sete mulheres a
serem enterradas vivas por roubo. Ou um mosteiro, como o de St. Gall na Suíça, que tinha
mais de 2.000 servos. Ou um funcionário da Santa Inquisição que em 1554 vangloriava-se
de que o Santo Ofício havia condenado à fogueira ao menos 30.000 bruxas nos 150 anos
precedentes. Ou bispos e abades que vestindo armadura e portando lança – estando assim
prontos para matar – participavam de guerras como qualquer senhor feudal que exercia
domínio sobre vastas extensões de terra.
Esta era a situação da Igreja Católica na Idade Média e começo da Idade Moderna.
Se na Idade Média a fonte do poder e da riqueza tornou-se a propriedade e a gestão da
terra, quem dispusesse desse ativo em abundância estava fadado a ocupar a posição de
liderança na sociedade. E liderança significa exercer o controle, isto é, realizar as atividades
típicas dos homens que geriam os homens que, por si sós, só conseguiam gerir coisas. Tais
atividades incluíam organizar a exploração da terra e sua defesa contra ataques de
inimigos. Não é de surpreender então que os membros da alta hierarquia da Igreja Católica
– papa, arcebispos, bispos e abades – supervisionassem o trabalho agrícola e participassem
de guerras. E que, em fazendo isso, acabassem realizando coisas que violavam os preceitos
da moral cristã.
A Igreja pregava a misericórdia, mas seus tribunais aplicavam as mesmas penas
brutais aplicadas por tribunais leigos, incluindo a pena de morte. Afinal, era tarefa dos
líderes da sociedade controlarem o comportamento das pessoas para que a ordem
predominante não fosse violada. A Igreja pregava a caridade e o compartilhamento do pão,
como fez Jesus Cristo na Santa Ceia, mas cobrava como qualquer senhor feudal os tributos
impostos aos camponeses, pelo direito que estes gozavam de tirar o seu sustento de glebas
sobre as quais a Igreja tinha diferentes tipos de propriedade. A Igreja pregava que todos
eram iguais perante Deus e que todo ser humano tinha uma dignidade intrínseca, mas
aceitava a escravidão como um mal necessário, conforme o trecho que abre este artigo nos
mostra: afinal, a tarefa de uns era arar a terra, a tarefa de outros era lutar para que as
plantações não fossem destruídas por tropas inimigas ou que os vilarejos não fossem
saqueados ou queimados. O mundo depois da queda do Império Romano na Europa
Ocidental era um mundo cheio de insegurança e sujeito às invasões dos povos bárbaros. O
medo e a expectativa do pior tornavam difícil aplicar a receita de paz e amor pregada no
Novo Testamento.
É nesse sentido que a Igreja se feudalizou ao participar da Idade Média na qualidade
de protagonista. Conforme o trecho que abre este artigo, ao gerir suas possessões
materiais, a Igreja tornou-se parte integrante da estrutura política, econômica e militar
daqueles tempos, exercendo um poder que ia além do poder espiritual para incluir os
atributos daqueles que geriam a atividade econômica mais importante da época, a
agricultura. Não é surpreendente que a Igreja Católica, acumulando rendimentos pela
cobrança de tributos e pela produção de alimentos, tenha se desviado daquela ética surgida
no Oriente Médio no primeiro século da nossa era a partir dos ensinamentos do filho de um
carpinteiro em uma longínqua e obscura província do Império Romano.
Assim, ao tornar-se a sucessora do Império Romano como fonte de poder, a Igreja
Católica, que pregava a fé, a esperança e a caridade propostas na periferia desse império,
acabou matando, confiscando e oprimindo como qualquer senhor feudal fazia à época. E
mesmo quando o feudalismo entrou em decadência, a Igreja Católica tinha se consolidado
de tal forma como instituição que tornou-se ferrenha defensora da ortodoxia, como
mostram as atividades da Inquisição, que se iniciaram na Europa a partir do século XII.
Prezados leitores, na semana passada conclamei Donald Trump a ir a Canossa pedir
perdão ao papa pela guerra contra o Irã e tomar alguns conselhos sobre como resolver
conflitos por meios diplomáticos. Mas que fique claro, o papa a ser consultado não é um
papa da Idade Média como o Gregório VII que disputou com Henrique IV. É o papa Leão
XIV do século XXI, que lidera uma igreja que não mais está no centro da atividade
econômica da sociedade, como era a Igreja da Idade Média, e portanto, não tem poder
material, apesar de ser ainda rica em ativos imobiliários, resquício da sua época de
esplendor.
Não tendo poder material e não estando envolvida com as coisas deste mundo, a
Igreja Católica pode enfocar a pregação cristã original e assim propor o fim das guerras e o
diálogo universal. Foram-se os tempos em que a Igreja precisava estralar o chicote para
gerir as pessoas sob seu controle. Nesse sentido, sua mensagem ética tem mais
credibilidade do que teria se ela ainda fosse um grande potentado econômico. Por outro
lado, para líderes como Trump que não acreditam em direito internacional e para quem a
força faz o direito, consistência ética é apenas uma firula sem consequência.
É forçoso notar que no frigir dos ovos, se Henrique IV foi a Canossa e Trump não vai
a Roma é porque o poder espiritual sem poder material é pouco eficaz. O excesso de poder
material foi um grande golpe para a Igreja Católica, tornando-a vulnerável aos ataques do
Protestantismo, o que acabou minando-lhe tanto o poder material quanto o espiritual. Por
outro lado, neste século XXI, em que o direito das gentes tem sido tão vilipendiado, como
tornar o poder espiritual relevante sem que haja um poder material que o respalde? E como
não deixar que o poder material se torne tão cheio de si de modo a levar à destruição do
mundo pela guerra? Oxalá encontremos uma solução de equilíbrio de poderes antes que
seja tarde demais.