Ajuste fiscal, ma non troppo

No entanto, o ajuste teve um custo social e um custo econômico significativos. O processo dependeu mais de aumentos de impostos do que de reestruturação das despesas ou de políticas de estímulo ao investimento, sendo que as metas de privatização foram em grande parte não cumpridas. As “três instituições” [FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu] insistiram na realização de um ajuste fiscal excessivo e rápido, ignorando seu impacto sobre o crescimento, o emprego, a coesão social, as receitas tributárias e o efeito bola de neve (isto é, a diferença entre a taxa de juro nominal real sobre a dívida pública e a taxa de crescimento nominal, um fator determinante significativo da dinâmica do índice de endividamento). Entre 2008 e 2016, a Grécia perdeu mais de 25% do seu PIB, a taxa de desemprego aumentou 16%, os índices de desigualdade e pobreza dispararam, os investimentos entraram em colapso e ocorreu uma imensa fuga de cérebros. Assim, enquanto que a estabilização macroeconômica e a reforma bancária em última análise foram bem sucedidas, o custo em termos de produção perdida, coesão social e capital físico e humano de longo prazo foi imenso.

Trecho retirado de “Lições da Crise da Dívida Soberana da Grécia”, palestra proferida pelo presidente do Banco Central da Grécia, Yannis Stournaras, em 7 de novembro de 2025 em Atenas.

Mais de 500.000 pessoas protestaram na França no sábado [18 de outubro] e elas estavam em sua maioria sem máscaras e eram brancas. Elas estavam enfurecidas, como em outros países, pelo custo de vida e pelos serviços públicos ruins. Elas querem mais subsídios aos combustíveis, maiores gastos com a educação, mais ajuda financeira.

Trecho retirado do editorial “A agonia da Europa Liberal”, publicado na edição da revista The Economist em 24 de outubro

Prezados leitores, há duas semanas relatei neste meu humilde espaço minha visita ao sítio arqueológico de Delfos, na Grécia. Aquela viagem também incluiu uma curta passagem por Vézelay, uma vila no centro norte da França, a 186 km de Paris, no departamento de Yonne. A grande atração do local é a basílica, cuja construção foi iniciada no final do século XI. Foi em Vézelay que São Bernardo pregou a segunda cruzada em 1146, perante o rei Luís VII. Hoje a basílica é patrimônio cultural da humanidade e atrai pessoas que estão percorrendo o caminho de Compostela, pois ele passa por lá.

Não estava lá para caminhar, mas eu percorri um pequeno trecho do caminho no meio da floresta. O calor era imenso e eu e meu companheiro acabamos ficando sem água. No exato local em que São Bernardo pregou, já fora dos muros da cidade medieval, há um convento franciscano e lá nós fomos socorridos por um frade que nos deu de beber e ainda nos deu uma garrafa de água. Foi o suficiente para chegarmos à vizinha Arquins, que também tem uma igreja, a qual permanece fechada, apesar de ter sido local de congregação de peregrinos na época medieval. 

Nos dias em que fiquei em Vézelay, meu ansiado momento de felicidade era caminhar no final do dia por uma estrada que percorre os muros da cidade. O silêncio era imenso e eu apreciava as árvores que nessa época do ano são tão verdes quanto é possível serem na Europa, o que não é muita coisa em comparação com o verde retinto dos trópicos.

Vézelay também conta com um Museu de Arte, que inclui até obras de Picasso (1881-1973), uma ótima livraria e bons restaurantes onde comi boeuf bourguignon. Enfim a vila ofereceu a nós aquilo que esperamos da França, comida e cultura. Por outro lado, as grandes cidades da França nos deixaram má impressão. No aeroporto de Orly o ar-condicionado não dava conta do calor e na estação de trem de Dijon nem ar-condicionado havia, o que transformou a espera em tortura, ainda mais porque os trens não vinham no horário. Enfim, vê-se que há uma deterioração da infraestrutura do país. Há razões para isso se considerarmos as finanças públicas.

De acordo com os dados do INSEE (Instituto Nacional de Estatísticas e Estudos Econômicos) da França, a dívida pública atingiu a marca de 115,7% do PIB em 2025, com um déficit primário (saldo de receitas e despesas sem contar os juros da dívida) de 2,9% do PIB em 2025, e o PIB recuou 0,1% nos últimos doze meses. De acordo com a Agence France Tresor, no segundo trimestre de 2026 59,7% da dívida do governo francês era detida por estrangeiros. Baixo crescimento e dívida alta, o que diminui a capacidade de investimento do Estado em infraestrutura, desestimulando ainda mais o investimento e diminuindo as perspectivas de crescimento econômico.

Não é de se admirar que o povo vá às ruas para reclamar da situação de penúria dos serviços públicos, conforme o editorial da The Economist mencionado na abertura deste artigo. O povo enfurecido não só quebrou o vidro das lojas para roubar bolsas Louis Vuitton, tênis Nike, mas queimou patinetes elétricos e a prefeitura de Limoges, o que fez a torre e o teto do prédio do século 19 desabarem. Em meio a essas manifestações, o presidente Emmanuel Macron foi ao Golfo Pérsico, provavelmente para falar com os credores dos títulos franceses e pedir-lhes que não entrem em pânico e comecem a vender as obrigações do Tesouro francês, mas ao contrário, emprestem mais dinheiro à combalida França.

De acordo com o economista Charles Gave, que tem um podcast semanal sobre economia, há duas alternativas para resolver o problema das finanças públicas do país e decidir entre uma e outra dependerá de quem será escolhido para ser sacrificado. A primeira alternativa, que deveria ser implementada imediatamente, é o país sair do euro e voltar ao franco. Haverá desvalorização da moeda nacional e os credores que emprestaram em euro para a França sofrerão perdas porque serão pagos em uma moeda que vale menos. Por outro lado, a adoção do franco permitirá às empresas tornarem-se mais competitivas, favorecendo as exportações. Havendo crescimento econômico as receitas do governo aumentam e se houver um corte de despesas públicas que não contribuem para o aumento do PIB, um reequilíbrio fiscal poderá ser conseguido sem que a população seja sacrificada.

A segunda alternativa foi aquela que a Grécia foi obrigada a adotar em 2010, quando constatou-se a incapacidade do governo de pagar a dívida pública. Conforme explicado na palestra de Yannis Stournaras citada na abertura deste artigo, o FMI, a Comissão Europeia e o Banco Central Europeu impuseram medidas de austeridade para garantir a geração de um superávit primário e o pagamento da dívida. O ajuste fiscal necessário para passar de um déficit primário de 10,1% em 2009 para um saldo positivo de mais de 4% em 2018 exigiu o aumento de impostos e o corte brutal de despesas sociais: os salários dos funcionários públicos e os benefícios previdenciários foram diminuídos de uma hora para a outra. Sem possibilidades de emprego em um país que perdeu 25% do PIB em oito anos, os jovens gregos emigraram para outros países da Europa e essa fuga de cérebros teve e terá impactos sobre as perspectivas da Grécia de gerar crescimento econômico no longo prazo. Por outro lado, o país permaneceu com o euro e os credores não levaram calote.

A escolha do bode expiatório na França – credores estrangeiros ou população francesa – dependerá do equilíbrio das forças políticas – e se o povo vai conseguir eleger em 2027 alguém que não queria rifá-lo ou que faça o jogo dos financistas. Nenhuma opção é livre de riscos: dar calote nos credores internacionais significará privar-se de financiamento externo por alguns anos e depois só consegui-lo mediante pagamento de altas taxas de juros; cortar o dinheiro que paga os serviços públicos para fazer o ajuste fiscal cria o risco de mais convulsão social.  

Prezados leitores, as finanças públicas do Brasil, conforme mostrei na semana passada, não estão tão periclitantes como a da França, mas o problema terá que ser enfrentado de qualquer jeito. Se o governo federal agir logo poderá ter mais margem de manobra do que se for obrigado a agir por absoluta falta de fontes de financiamento se os credores do governo brasileiro, que não são estrangeiros como no caso da França, decidirem não mais emprestar por risco de calote. Qual o caminho que as autoridades federais escolherão? Aumentar impostos e não cortar despesas que pouco contribuem para o PIB para não ferir os interesses de grupos com poder político, como foi feito na Grécia, sacrificando as perspectivas econômicas do país? Ou farão um ajuste equilibrado nas receitas e despesas de modo que os cortes de despesas não causem recessão econômica? Em seu quarto mandato Lula seguirá a receita grega ou a receita que Charles Gave propõe para a França? Aguardemos. No entrementes, torçamos para que a França não siga a triste via-crúcis da Grécia. 

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É a economia, estúpido!

Espera-se que o crescimento no Brasil diminua de 2,2% em 2026 para 1,9% em 2027, um reflexo de condições monetárias que ainda se manterão restritivas para colocar a inflação de volta no centro da meta, da suspensão do apoio proporcionado pela política fiscal e da incerteza global.

Trecho retirado do “World Economic Outlook”, publicado pelo FMI em outubro de 2026

A estratégia fiscal de médio prazo das autoridades tem como pressuposto que haverá um aumento constante do superávit primário: 0,5% do PIB por ano em 2027-2028 e 0,25% por ano em 2029-2030, chegando a 1,5% do PIB em 2030, com o superávit primário real atingindo 1,25% do PIB em 2030 (incluindo uma margem permitida). De acordo com essas projeções, a relação dívida/PIB começará a se estabilizar em 2029 na faixa de 88% do PIB. A Fitch considera que o superávit primário estabilizador da dívida será maior, ao redor de 2,5% do PIB. No entanto, percorrer essa rota requer ajustes sustentáveis bem além de 2027, cujas perspectivas permanecem obscuras.

Trecho de um relatório publicado pela agência de notação Fitch Ratings sobre o Brasil em 10 de setembro intitulado “Brazil’s 2027 Budget – Slow Consolidation Delays Debt Stabilization”

Prezados leitores, ouço lá fora buzinaços, vejo bandeiras tremulando nos carros, gritos de apoio. Nas calçadas, há cartazes colados nos postes falando que Bolsonaro é Trump, Lula é Brasil. Uma mulher dentro do vagão onde eu estava no sábado passado dizia que não deixaria que o Bolsonaro tirasse o BPC (benefício de prestação continuada) dos autistas. Em suma, quem vota em Lula tem medo de que um governo de direita corte benefícios sociais e que se alinhe com os Estados Unidos para tomar nossas terras raras, entre outras coisas. Quem vota em Bolsonaro acha que há benefícios demais pagos por quem trabalha e querem diminuição de impostos, além de ter medo de o Brasil se alinhar com o chamado eixo do mal (Rússia, China e Irã) e de se transformar em um país dominado por traficantes de drogas. 

Estas são basicamente as razões pelas quais os eleitores escolhem um ou outro, independentemente da qualidade dos candidatos. Ora, tirante a política externa, que é usada como argumento para efeitos retóricos de luta contra o imperialismo ou luta contra o terrorismo, contra o comunismo ou contra o crime organizado internacional, o que determina em larga medida a escolha das pessoas é o interesse material delas, ou como disse em 1992 James Carville, então estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton contra George H. W. Bush no Estados Unidos, “é a economia, estúpido”. 

Meu objetivo nesta semana será tratar das finanças públicas, pois elas acabam tendo um efeito sobre o nível de investimentos, sobre o crescimento econômico, sobre o endividamento das famílias e das empresas e sobre a capacidade do Estado de entregar serviços públicos. O tema subjacente dos dois debates entre os dois candidatos foi “Como fazer um ajuste fiscal?”. Subjacente porque nenhum deles abordou a questão de maneira transparente, afinal, como eu disse na semana passada, as qualidades necessárias para se mostrar atraente aos eleitores são diferentes das qualidades necessárias para governar. Lula e Flávio contaram meias verdades ao público, quando não mentiram, porque se fossem tratar de um tema árido como o ajuste fiscal não poderia haver geração de cortes de vídeos para serem publicados nas redes sociais com insultos e tiradas.

E por que o tema era o ajuste fiscal? Porque é ele que vai redimensionar as receitas e as despesas do governo, em outras palavras é ele que vai determinar quem vai conseguir benefícios e quem vai pagar impostos para financiar esses benefícios. A necessidade de tal ajuste é consenso entre economistas, a questão é sobre como fazê-lo. De acordo com as estatísticas fiscais publicadas pelo Banco Central em 30 de setembro, a DBGG (Dívida Bruta do Governo Geral) – que compreende Governo Federal, INSS e governos estaduais e municipais – atingiu 82,9% do PIB (R$11,1 trilhões) em agosto de 2026. Em doze meses, o setor público consolidado acumulou déficit de R$82,1 bilhões, equivalente a 0,62% do PIB e o crescimento econômico acumulado em 12 meses (até agosto de 2026) foi de 1,6%. Em 2025, o déficit primário foi de R$ 61,7 bilhões em 2025 e o crescimento econômico foi de 2,3% O que significam esses números na prática e porque eles indicam a necessidade de reequilibrar receitas e despesas?

Registrar déficit primário significa ter menos receitas que despesas, não considerando as despesas com o pagamento dos juros da dívida. Isso significa que nossa política fiscal atual está aumentando a dívida, ao invés de diminuí-la, porque o governo precisa captar dinheiro no mercado tanto para cobrir o déficit primário quanto para pagar os juros da dívida. Se conseguíssemos gerar superávits primários isso significaria que a taxa de crescimento da dívida diminuiria porque teríamos dinheiro ao menos para pagar os juros da dívida existente, sem aumentá-la com déficits recorrentes nas contas públicas. Há inclusive um outro indicador de macroeconomia denominado superávit primário estabilizador da dívida que dá uma ideia mais precisa da situação fiscal. Não basta ter superávit primário, é preciso que ele seja suficiente para estabilizar a dívida, isto é, que ele seja grande o suficiente para estabelecer a relação entre dívida e PIB em um patamar estável. Caso o superávit primário registrado no ano seja menor do que aquele que estabiliza a dívida, isso significa que o saldo das receitas e despesas governamentais leva a um aumento na razão dívida/PIB.

Ora, no atual momento estamos em um estágio anterior tanto ao superávit primário quanto do superávit primário estabilizador da dívida, pois registramos déficit primário em 2025 e 2026, combinado com queda no crescimento do PIB de 2025 para 2026. O jornalista econômico Celso Ming, em seu artigo “A tartaruga e a lebre; o PIB e a dívida”, publicado em 18 de outubro, afirma que a dívida pública cresce 4% ao ano em termos reais, muito além do crescimento do PIB. 

O governo atual tem um plano para atacar o descompasso entre o baixo crescimento do PIB e o crescimento da dívida, de acordo com o trecho citado na abertura deste artigo. O relatório da Fitch explica que a equipe econômica atual pretende atingir um superávit primário de 1,25% do PIB para estabilizar a dívida em 88% do PIB em 2029. Para a agência de notação, o superávit primário estabilizador da dívida é muito maior, da ordem de 2,5% do PIB. Fazer um ajuste fiscal desse tamanho, considerando que atualmente temos um déficit primário de 0,6% do PIB, exigirá que várias condições estejam presentes ao mesmo tempo, o que não é certo.

Será preciso manter um crescimento econômico robusto. A equipe econômica do atual governo projeta crescimento do PIB de 2,6% em 2027, a Fitch prevê 1,7%, o FMI 1,9%, conforme o relatório do “World Economic Outlook”. Como aumentar o crescimento econômico se a taxa de juros real no Brasil, que está em 8,45% (fonte: MoneYou), está muito além da lucratividade possível dos investimentos? Por que investir, ter trabalho e correr o risco de fracasso se eu posso adquirir títulos do Tesouro Nacional e ganhar mais sem ter problema nenhum? E como diminuir a taxa de juros se o governo tem necessidade constante de financiamento do déficit? Afinal, no cenário internacional, há uma tendência de aumento nas taxas de juros de longo prazo nos países desenvolvidos pelo fato de eles mesmos terem que financiar seu déficit vendendo títulos do tesouro, o que cria a necessidade para o nosso Banco Central de manter taxas altas de juros para que o governo brasileiro possa captar recursos. E quanto mais altos os juros que pagamos maior o estoque da dívida.

Sair desse círculo vicioso de juros altos, crescimento econômico baixo, dívida alta e necessidades crescentes de financiamento é o X da questão. Um governo do PT não vai “rifar os pobres” cortando benefícios sociais para diminuir despesas. Os eleitores suspeitam que Bolsonaro cortará aposentadorias, pensões e verbas assistenciais sem dó nem piedade. Isso claramente é um exagero, mas sua “Chicago Girl” Daniella Marques pode propor desvincular o reajuste do salário mínimo do reajuste dos benefícios previdenciários. Bolsonaro negou que fará isso no Jornal Nacional, mas não se pode confiar em nada do que é dito por um candidato que precisa agradar os eleitores com histórias de alegria e esperança.

O que fazer? Esperar que as expectativas otimistas de crescimento do PIB da equipe de Lula se concretizem e a dívida se estabilize pela geração de receitas da atividade econômica? Cortar despesas sociais? Mas em cortando despesas sociais, os beneficiários das verbas deixarão de consumir e haverá efeito sobre o crescimento econômico. Aumentar impostos? Mas em aumentando impostos os empresários podem desistir de investir pelo aumento do custo, o que acaba diminuindo as receitas governamentais. Haverá a necessidade de uma calibragem bem feita entre o esforço de arrecadação e o corte de despesas do Estado, de maneira que não se exagere na dose e o tiro não saia pela culatra, o que em termos econômicos significará menos crescimento econômico, mais inflação, mais déficit público, ou seja estagflação. 

Prezados leitores, qualquer que seja o governo eleito, a equipe empossada terá que responder a várias perguntas. Cortar quais despesas? Quais são as despesas cujo corte não causará graves diminuições na demanda agregada? Será possível diminuir impostos para estimular a atividade econômica? Ou o aumento de impostos é inevitável para diminuir o déficit público? Como fazer o PIB crescer sem ser pelo aumento do crédito, considerando que as altas taxas de juros acabam levando ao endividamento? Como substituir o nacional-consumismo dos anos Lula que fez com que 8 em cada 10 famílias brasileiras tenham dívidas por um modelo econômico que não seja de soma zero? Aguardemos os próximos meses para ver se teremos algumas dessas respostas que determinarão o poder de compra e a qualidade de vida dos brasileiros. Afinal, o que importa é a economia, estúpido! 

, Uma abordagem normalmente usada para avaliar a sustentabilidade da dívida pública é estabelecer uma determinada razão dívida/PIB e então calcular o superávit primário necessário à sua manutenção mais conhecido como superávit primário estabilizador da dívida. 

A DBGG – que compreende Governo Federal, INSS e governos estaduais e municipais – atingiu 82,9% do PIB (R$11,1 trilhões) em agosto de 2026

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O bom tirano de Delfos

Em muitas cidades havia disputas entre algumas das famílias que detinham o poder; e, quando uma família ascendia, suas rivais sentiam-se tentadas a fazer uso do descontentamento popular para tirá-la do poder. Dessa forma, nobres descontentes apresentavam-se para serem os líderes das massas descontentes. […] Esse novo tipo de monarquia era muito diferente da antiga: porque a posição do monarca não se baseava no direito hereditário, mas na força física. Tais monarcas ilegítimos eram chamados de tiranos, para distingui-los dos reis hereditários, e tal forma de monarquia era denominada tirania.

Trecho retirado do livro “History of Greece” do historiador, classicista e filólogo irlandês John Bagnell Bury (1861-1927)

As eleições não permitem distinguir de maneira eficaz os estadistas. De fato, o processo eleitoral realça qualidades e competências reais, mas muito diferentes daquelas necessárias ao exercício do poder. Fazer campanha significa saber seduzir e mobilizar os correligionários em torno da sua pessoa para estimular um movimento mais poderoso do que o dos concorrentes. Governar, ao contrário, é saber se cercar de pessoas para tomar decisões sábias e desinteressadas cuja configuração complexa, conflituosa e incerta é em prol do bem público.

Trecho de uma fala do cronista francês Rémi Carlu da rádio francesa Radio Courtoisie

Prezados leitores, em primeiro lugar peço desculpas pelo meu sumiço. Houve vários fatores que contribuíram para o meu apagão intelectual – férias, problemas de saúde familiares e falta de foco. De repente, na semana passada, a leitura de um artigo da ativista australiana Caitlin Johnstone me deu a motivação para retomar a escrita. Precisamos resistir à inteligência artificial, feita para nos substituir e nos aniquilar. A única saída é exercitarmos o cérebro.

Se houve muitos obstáculos à minha atividade neste meu humilde espaço, ao menos as férias serviram para embasar o conteúdo oferecido aos leitores na reabertura da temporada. Em julho deste ano estive no sítio arqueológico de Delfos, na Grécia, onde se situava o famoso oráculo, pelo qual as sacerdotisas, denominadas pitonisas, transmitiam as profecias do deus Apolo. Para falar a verdade, subir até o topo, onde estão as ruínas do estádio, é cansativo no calor e estando em excursão nunca é possível fazer as coisas no seu tempo. Por outro lado, como já sou turista experimentada nas ciladas e desafios da atividade, consegui percorrer todos os níveis do sítio e depois me dedicar ao atrativo que para mim era o mais importante: o museu de esculturas e frisos.

Delfos encontra-se em uma área montanhosa e na volta para Atenas o guia nos permitiu tomar um lanche em um restaurante com uma vista sobre as montanhas. Não é coincidência que em todas as civilizações os templos religiosos sejam construídos no alto. A majestade e a placidez das montanhas fazem entrarmos num estado espiritual diferenciado e sentirmo-nos parte de algo muito maior do que nós. Macchu Picchu no Peru também tem a mesma localização estratégica de onde é possível contemplar os grandes maciços cobertos pela vegetação tropical. Minhas pobres fotografias dão uma ideia da paisagem. A primeira mostra o anfiteatro, a segunda mostra o estádio.

Se havia um grande estádio, é porque ocorriam competições esportivas. Os jogos não eram olímpicos, obviamente, porque Olímpia ficava alhures, mas pan-helênicos. A tradição diz que quem foi o responsável pela instituição dos jogos em Delfos foi Clístenes, tirano de Sícion entre 600 a.C. e 570 a.C., que teve como um de seus descendentes o estadista ateniense Péricles (495 a.C.-429 a.C.). Aproveitando a oportunidade eu acabei fazendo uma pergunta às pitonisas – Quem devo escolher para Presidente do Brasil em outubro – e talvez inspiradas pela lembrança de Clístenes, elas me responderam “O bom tirano”.

Brincadeiras à parte, toda resposta oracular era expressa em palavras sujeitas às mais variadas interpretações. A origem histórica dos tiranos é explicada por John Bagnell Bury no trecho mencionado na abertura deste artigo. De acordo com ele, houve tiranos brilhantes e benéficos como Clístenes, tiranos brilhantes e opressores e outros que exerceram o poder por um curto período de tempo e causaram ainda mais lutas políticas depois de serem derrubados. A tirania foi uma resposta a uma crise interna em que as elites brigavam entre si para saber quem controlaria a riqueza e o poder na sociedade, na qual quem realizava o duro trabalho manual nas minas e nos campos tinha poucos direitos. 

A solução, temporária, porque baseada na força, era escolher uma pessoa que se colocasse além dessas disputas de grupos rivais e fosse capaz de oferecer respostas aos anseios da maioria do povo por uma vida menos sofrida e mais livre. Nem sempre a tirania atendeu a demanda das classes populares por mais liberdade, mas de acordo com John Bagnell Bury em muitos casos ela proporcionou um intervalo de repouso e crescimento que permitiu ao povo adquirir a experiência e o conhecimento necessários para que no futuro pudessem se autogovernar em um regime democrático.

A democracia, quando foi praticada na Grécia nas cidades-Estado, era uma democracia de participação direta. Atualmente no mundo ocidental, temos a democracia representativa e no Brasil temos eleições para Presidente da República desde 1989. Depois de 37 anos, qual o balanço geral? Será que o voto em vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidente é suficiente para que exerçamos influência decisiva sobre as políticas públicas e realmente nos autogovernemos? Ou será que a democracia representativa acaba se transformando em uma oligarquia e na verdade ainda estamos na fase anterior à democracia, isto é, na fase de escolher o bom tirano, aquele líder que no momento de brigas intestinas nas elites consegue dar vazão às demandas do povo e tornar a sociedade mais próspera e justa? 

Para Rémi Carlu, citado na abertura deste artigo, a democracia representativa apresenta inúmeras falhas. A necessidade de o político apresentar-se aos eleitores para ser escolhido o leva a vender sonhos e negligenciar a realidade, a bajular os eleitores e veicular sempre uma mensagem positiva ao invés de falar a verdade, de ser sóbrio e de ser honesto sobre as condições em que se encontra o país. E quando o político vence a eleição porque dourou a pílula da verdadeira situação e escondeu os esforços e sacrifícios que terão que ser feitos para solucionar os problemas, ele tem mais um incentivo para continuar nessa trilha fantasista. Haverá uma próxima eleição num horizonte de poucos anos e o melhor a fazer para garantir a permanência no cargo é manipular as políticas públicas – sejam elas a econômica, a previdenciária ou outras – em função do ciclo eleitoral, evitando soluções de longo prazo e enfocando expedientes de curto prazo que permitam ao líder político permanecer popular e ao mesmo tempo empurrar o problema com a barriga.

O resultado para Rémi Carlu, é que a democracia representativa escolhe pessoas que apresentam as qualidades necessárias para ganhar eleições, mas não para governar. Escolhemos pessoas carismáticas, que falam bem, que conseguem transmitir mensagens que ficam na mente e nos inspiram, mas não escolhemos estadistas, que sabem ouvir especialistas, ponderar e tomar decisões difíceis, considerando o que é melhor para a sociedade no longo prazo. Elegemos mágicos que fazem seus truques e encantam a plateia ao longo de vários ciclos eleitorais, mas não elegemos líderes capazes de identificar os problemas, eleger prioridades e atuar de maneira firme, orientada por uma estratégia e objetivo claros.

Qual a solução? Esperar que na falta da participação direta nas decisões politicas o povo, cheio de frustração por não ver os problemas resolvidos, eleja no quadro da democracia representativa o bom tirano que será carismático o suficiente para ser escolhido pelos eleitores, mas estadista o suficiente para, uma vez no poder, saber tomar decisões impopulares no presente, mas fundamentais para garantir o futuro?

Prezados leitores, depois de muita reflexão sobre como interpretar o oráculo das pitonisas de Delfos, cheguei à conclusão de que o bom tirano é uma figura altamente improvável, cujo surgimento depende de uma série de fatores intelectuais, econômicos, sociais e psicológicos que são difíceis de estarem presentes ao mesmo tempo. Afinal, como o próprio Napoleão Bonaparte (1769-1821) disse a respeito de si mesmo, um homem como ele só surge a cada 500 anos. Vou continuar a participar da nossa democracia representativa votando, mas sabendo que ela tem a tendência a escolher pessoas com vocação de mágicos, artistas e influenciadores. Por isso, entre um ciclo eleitoral e outro, continuarei a cuidar do meu jardim, sem nada esperar dos nossos líderes, mas procurando votar no veneno menos letal. O que mais posso fazer?

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Entre a cruz e a caldeirinha ou entre o instinto e a inibição

O que isso significa é que o capitalismo não tem a capacidade de resolver os problemas que estamos enfrentando enquanto espécie. Não há como competir e consumir de tal maneira que consigamos sair do buraco em que nos colocamos por causa da competição e do consumo. Precisamos de novos sistemas. O comportamento humano não pode continuar sendo impulsionado pela competição e pela busca do lucro. Precisamos colaborar uns com os outros e com a nossa biosfera para sobrevivermos no futuro enquanto espécie, e não seremos capazes de fazer isso se estamos excluindo todas as possíveis soluções que não geram renda para a classe dos capitalistas.

Trecho retirado do artigo “A IA não vai nos salvar da necessidade de acabar com o capitalismo”, de autoria da ativista australiana Caitlin Johnstone

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos estima que um navio de cruzeiro com 3.000 pessoas a bordo gera 666.000 litros de esgoto por semana. Isso acaba totalizando mais de 3,7 bilhões de litros de esgoto por mês no setor – o equivalente a 1.515 piscinas olímpicas.

Retirado do artigo “O impacto ambiental dos navios de cruzeiro”, publicado no site earth.org

Os instintos sem a inibição acabariam com a civilização; as inibições sem os instintos acabariam com a vida. O problema da moralidade é ajustar as inibições para proteger a civilização sem enfraquecer a vida.

Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

Prezados leitores, em maio de 2022 fui à Turquia e um dos locais que visitei foi a famosa Éfeso, que se constituiu como cidade por volta do terceiro século a.C. e durou até o período romano tardio, quando o império já tinha adotado o monoteísmo cristão. Entre as atrações do local estão a Biblioteca de Celso, cuja fachada ainda pode ser vista, e o Templo de Ártemis, que era uma das sete maravilhas do mundo e acabou sendo totalmente destruído, só restando umas pedras aqui e acolá. O Templo de Ártemis serviu de local de refúgio para o filósofo Heráclito (500 a.C. – 450 a.C.), considerado o fundador da dialética. Heráclito defendia a ideia de que a disputa é o princípio subjacente que mantém o mundo vivo e que o que parecem ser características conflitantes são na verdade partes essenciais de uma situação: não podemos entender o conceito de bem sem entender ao mesmo tempo o conceito de mal, um se define em contraposição ao outro.

Pois bem, estava eu caminhando tranquilamente pelas ruas de pedra da cidade, apreciando o que restou das esculturas e edifícios da Antiguidade, quando de repente chegou um enxame de pessoas, todas ao mesmo tempo. Eram os passageiros de um navio de cruzeiro, que tinham chegado à cidade de ônibus, depois de desembarcar do navio atracado no porto mais próximo. Passageiros de cruzeiro não têm muito tempo para ficar flanando como eu estava fazendo. Eles precisam aproveitar cada minuto, pois suas atividades são cronometradas de acordo com a programação do navio. No dia de estadia em terra, é preciso estar pronto para pegar o ônibus de volta. Daí por que as pessoas andavam apressadamente, tentando tirar fotos das principais atrações, mesmo que isso significasse passar ao largo da maior parte da cidade, que é relativamente grande. Quando eles foram embora senti um alívio porque eu poderia voltar a ver tudo no meu tempo.

Fazer visitas-relâmpago a locais turísticos em terra é apenas um dos itens do pacote de entretenimento oferecido por navios de cruzeiro. Quem não gosta de coisa velha ou não tem paciência com passeios históricos ou culturais pode permanecer no navio dançando, fazendo aulas de ginástica, comendo, bebendo, nadando na piscina e até dando voltas em uma montanha-russa cujo principal atrativo é oferecer uma visão de 360 graus do mar em volta. Em suma, há opções para todos os gostos e não surpreende que o setor de navios de cruzeiro oceânicos tenha registrado crescimento anual de 6,3% desde 1990 até 2025 (fonte: Earth.org). O resultado de tal popularidade é que em 2025 37 milhões de pessoas fizeram uma viagem de cruzeiro, de acordo com o relatório publicado pela Cruise Lines International Association. 

No entanto, não se pode negar que há um lado negro desse tipo de turismo, conforme mostram os números sobre a geração de esgoto dos navios de cruzeiro citados na abertura deste artigo. É verdade que o esgoto produzido nessas cidades flutuantes é tratado antes de ser jogado ao mar, mas mesmo assim conforme explicado em Earth. org poluentes como metais pesados, nutrientes e produtos químicos orgânicos não biodegradáveis podem permanecer nessas águas residuais mesmo depois de elas serem submetidas a dois tratamentos. E não se pode deixar de mencionar também a quantidade de plástico gerada por turistas que podem passar o dia na piscina consumindo bebidas servida em copos descartáveis, ou comendo salgadinhos embalados. O plástico permanece no mar por um longo tempo por não ser degradável e animais como tartarugas marinhas podem vê-lo como alimento, levando ao seu envenenamento, sufocamento e inanição até a morte.

O impacto ambiental dos navios de cruzeiro é emblemático do problema causado pelo capitalismo, conforme explicado por Caitlin Johnstone no trecho que abre este artigo. O crescimento do turismo nessas cidades flutuantes cria empregos, oferece um novo produto que não estava disponível no mercado, permitindo que pessoas tenham uma ampla gama de opções de entretenimento concentradas em um único local. Por um lado, isso aumenta a conveniência para o consumidor, levando à realização de mais viagens, num círculo virtuoso do ponto de vista da criação de riqueza para os capitalistas. Ao mesmo tempo – conforme nos ensinou o pai da dialética Heráclito em Éfeso – cria-se um círculo vicioso de mais consumo de produtos descartados e não totalmente degradáveis e de mais poluição do meio ambiente. Para Johnstone, o capitalismo vai nos levar à destruição enquanto espécie porque não resolveremos o problema da pegada do ser humano na biosfera insistindo em mais atividades econômicas e mais consumo. É preciso parar com isso, estabelecer um outro sistema de produção em que a geração de riqueza a qualquer custo não seja a motivação principal, mas que enfatize a colaboração dos homens entre si e com o meio ambiente para o bem comum de todos.

Será que isso é possível ou é apenas uma ideia inocente? Será que conseguiremos reeducar as pessoas para que elas ao fazer suas escolhas pessoais levem em conta o impacto ambiental delas? Será que podemos ensinar os comuns mortais a privar-se de certos regalos como fazer uma viagem de cruzeiro, comer carne bovina, consumir produtos para ficarem mais belos e saudáveis? Será que é possível convencê-los a comer farinha de gafanhoto ou baratas criadas em laboratório, não usar carros para se movimentar e deixar de lado o sonho de conhecer belos locais ao redor do mundo para garantir a sobrevivência da biosfera?

Will Durant colocou bem o dilema imemorial enfrentado pela humanidade que se repete hoje no século XXI em escala global. Para construirmos a civilização precisamos frear os instintos que incluem o instinto da reprodução, da liberdade de ir e vir, do prazer de comer uma comida saborosa, do prazer de passar horas agradáveis à beira de uma piscina bebericando e beliscando comidinhas, do prazer de ver coisas belas. Ao mesmo tempo, se reprimirmos todos os instintos perdemos a motivação para viver. O segredo do código moral é conseguir um equilíbrio de maneira a ser rígido o suficiente para garantir um bem-estar mínimo a todos e flexível o suficiente para dar liberdade ao indivíduo viver e sonhar. Em um cenário de exaustão dos recursos naturais como enfrentamos agora, o desafio é encontrar um sistema econômico que faça florescer a inovação e a criatividade de indivíduos livres e responsáveis, conscientes de que fazem parte de um todo e que são responsáveis pela proteção tanto da vida dos seus familiares e entres mais próximos quanto da vida da tartaruga marinha que nada no oceano à cata de alimentos. 

Prezados leitores, mesmo que essa grande síntese entre instintos e inibições num todo ecologicamente sustentável seja irrealizável num futuro próximo, ao menos podemos adotar uma atitude de consumo consciente e nos perguntarmos antes de tomarmos uma decisão: será que preciso mesmo viajar em um navio de cruzeiro? ou posso poupar o mar dos meus dejetos e mesmo assim ter uma experiência de turismo satisfatória? Eu por mim nunca fiz e nunca farei uma viagem em uma dessas cidades flutuantes que singram os mares do planeta. Estamos entre a cruz e a caldeirinha, no meio de uma luta entre princípios opostos, preservação e criação, civilização e liberdade, inovação e estagnação, capitalismo e sustentabilidade ambiental. Será nossa tarefa reconhecer, à la Heráclito, essa dialética fundamental e achar uma terceira via para escaparmos do colapso da aventura humana na Terra. 

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Os entreguistas de ontem e de hoje

“O governo JK priorizou a atração de multinacionais em detrimento do fomento de marcas locais. O Brasil consolidou-se como um polo de montagem e adaptação, mas não de concepção e pesquisa e desenvolvimento (P&D)”, explica Pascoal. O campo de ação dos engenheiros brasileiros restringiu-se, principalmente, à adaptação de modelos europeus às condições de uso brasileiras – a chamada “tropicalização” […]

Trecho retirado do artigo “Obstáculos à frente do carro nacional”, publicado na edição de abril de 2026 da revista Pesquisa Fapesp

Dessa forma, a arrecadação aos cofres da Coroa portuguesa acabaria caindo, já que, com as taxas de importação baixas, as poucas indústrias locais não teriam como fazer frente aos produtos manufaturados ingleses. Além de retardar a indústria brasileira, as compensações para o equilíbrio fiscal acabariam incidindo, em algumas ocasiões, em impostos praticados sobre mercadorias brasileiras exportadas. 

Trecho retirado do livro “D. João VI – A história não contada” do historiador Paulo Rezzutti, sobre o Tratado de Comércio e Navegação assinado com a Inglaterra em 1810

Prezados leitores, às vésperas do início da Copa do Mundo de futebol de 2026 os brasileiros estão na expectativa sobre qual hexa será conquistado: o hexa campeonato ou o hexa da falta de campeonatos, pois se perdermos agora será a sexta Copa do Mundo em que ficaremos a ver navios, depois de 2002, quando obtivemos nossa quinta estrela. Eu pretendo assistir a algum dos jogos do Brasil se chegarmos às semifinais, do que duvido muito, mas mesmo ganhando, a seleção não vai me encher de orgulho patriótico como se fosse um feito marcante sermos os únicos hexacampeões de futebol. Confesso que o que me fez estufar o peito e até chorar foi ver a bandeira brasileira estampada em um avião da Swiss Air que me levou de Zurique a alguma outra cidade da Europa de que não lembro mais. Aquele pequeno retângulo verde com uma bola amarela no meio era a prova de que o avião era um modelo da Embraer, a única fabricante de aviões do Hemisfério Sul.

Em 2025, a empresa que é a minha fonte de orgulho por ser brasileira exportou bens no valor de R$ 42 bilhões de reais, um aumento de 18% em relação ao ano anterior. Infelizmente, exportar bens de alto valor agregado é a exceção, não a regra, para nós. Desde 2010, os produtos de média-baixa e baixa intensidade tecnológica ocupam cada vez mais espaço na balança comercial brasileira, ao passo que os produtos de alta e média-alta intensidade tecnológica vêm diminuindo sua presença. Como não produzimos os produtos farmacêuticos, as aeronaves (à exceção dos aviões executivos da Embraer) e equipamentos e os produtos do complexo eletrônico de alto valor agregado de que precisamos, precisamos importá-los. O resultado é que registramos um déficit dos bens típicos da indústria da transformação de 71,1 bilhões de dólares em 2025 (57,4 bilhões de 2024), que foi compensado pelo desempenho positivo dos produtos agropecuários e minerais, que registrou um saldo de 139,4 bilhões em 2025, levando a nosso superávit comercial de 2025, de 68,3 bilhões de dólares.

Esses números, retirados da revista Pesquisa Fapesp citada na abertura deste artigo, mostram que está ocorrendo uma intensificação da assimetria estrutural da balança comercial brasileira. Não inovamos, não conseguimos nos inserir nas cadeias globais de maior valor agregado e nos especializamos na produção de commodities, cujo preço é ditado pelos compradores que compram mais ou menos de algo que eles podem achar facilmente alhures 

De quem é a culpa por esse estado de coisas? Se olharmos para nossa história eu elegeria um bode expiatório, os entreguistas, ou seja, os partidários do entreguismo. Segundo a definição do dicionário Houaiss, entreguismo é “o preceito, mentalidade ou prática político-ideológica de entregar recursos naturais de uma nação à exploração por outro país ou entidades, empresas etc. de capital internacional. Ora, vou lhes mostrar dois exemplos de personagens históricos que colocaram isso em prática.

O primeiro deles foi Dom João VI (1767-1826), rei de Portugal, que entregou o mercado brasileiro aos ingleses, como compensação pelo fato de a Inglaterra ter-lhe salvado o trono, escoltando-o até o Brasil para fugir dos exércitos napoleônicos que invadiram a Península ibérica no final de 1807.  Dois anos depois de chegar ao Brasil, em março de 1808, Paulo Rezzutti nos conta que D. João VI concordou em estabelecer taxas alfandegárias de 15% para os produtos britânicos, ao passo que os produtos portugueses pagavam 16%. Isso era um golpe para a economia brasileira de duas formas: em primeiro lugar matava a possibilidade de a indústria local competir com um país como a Inglaterra que já estava desde a segunda metade do século 18 passando por uma revolução industrial; em segundo lugar, prejudicava as exportações brasileiras, porque para compensar a diminuição das rendas auferidas com impostos alfandegários, o governo português instalado no Rio de Janeiro taxou em até 8% as mercadorias brasileiras exportadas.

O segundo deles foi Juscelino Kubitschek (1902-1976), presidente do Brasil entre 1956 e 1961. Sim, prezados leitores, Juscelino sabemos agora, foi assassinado pelos militares no poder, mas ele com certeza era um entreguista. Para que montadoras multinacionais se instalassem no Brasil, ofereceu-lhes nosso mercado sem exigir em troca que houvesse desenvolvimento de tecnologia local, conforme explica Erik Telles Pascoal, engenheiro mecânico da Universidade de Alfenas, citado no trecho que abre este artigo. O resultado foi que a indústria automobilística no Brasil nasceu com o pecado original de ser uma maquiladora que montava as peças trazidas do exterior. 

Um raio de luz surgiu nesse setor em 1969, quando o engenheiro João Augusto Conrado do Amaral Gurgel (1926-2009) fundou a Gurgel Motores S/A, que se propunha como missão fabricar um carro 100% nacional. Gurgel tentou com galhardia. De 1987 a 1991 produziu o BR-800, que não resistiu à concorrência dos veículos importados que se beneficiaram em 1990 da redução do IPI sobre veículos com motorização abaixo de mil cilindradas. Entre 1981 e 1982, Gurgel fabricou o Itaipu E-400, o primeiro veículo elétrico produzido em série na América Latina, que acabou saindo de linha devido ao alto custo das baterias e ao elevado tempo de carga. A Gurgel Motores faliu em 1994, porque nas terras tropicais os não entreguistas enfrentam obstáculos em série, entre eles a falta de uma política industrial que seja uma política de Estado, de modo que possa ser perene e não flutuar ao sabor dos diversos governos, permitindo previsibilidade e investimentos.

No dia 1º de junho o Escritório de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, que afetarão, entre outros, os setores que agregam mais valor à nossa pauta de exportações: equipamentos de engenharia civil e construção, máquinas e componentes de energia elétrica, pneus, dormentes, motores de pistão e peças, geradores elétricos e peças, motores e máquinas não elétricos. O que podemos fazer para nos proteger? Retaliar e esperar que os Estados Unidos retrocedam? Procurar outros mercados? Esperar que a política Nova Indústria Brasil, lançada pelo governo federal em janeiro de 2024, dê frutos logo? 

Prezados leitores, se esse novo tarifaço do presidente americano Donald Trump diminuir ainda mais a presença de produtos de alta e média-alta intensidade tecnológica na nossa pauta de exportações, ficaremos ainda mais dependentes tecnologicamente do que já somos, pois as empresas que hoje exportam esses produtos não terão dinheiro para investir no futuro se perderem receitas. A culpa começou com Dom João VI, passou por Juscelino e por todos os governos que deixaram de implementar uma política industrial e tecnológica que aumentasse nossa capacidade doméstica de inovação. Pagaremos um preço cada vez mais alto por esta negligência em pleno século XXI, em que as transformações tecnológicas se aceleram pelo uso da IA. Os entreguistas ao longo da nossa história tiveram um grande impacto em nossa economia, como mostram os números aqui citados. Esperemos que surjam outros João Gurgéis por aqui, que não deixem de sonhar fazer do Brasil mais do que a terra do futebol e das commodities.

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