Em muitas cidades havia disputas entre algumas das famílias que detinham o poder; e, quando uma família ascendia, suas rivais sentiam-se tentadas a fazer uso do descontentamento popular para tirá-la do poder. Dessa forma, nobres descontentes apresentavam-se para serem os líderes das massas descontentes. […] Esse novo tipo de monarquia era muito diferente da antiga: porque a posição do monarca não se baseava no direito hereditário, mas na força física. Tais monarcas ilegítimos eram chamados de tiranos, para distingui-los dos reis hereditários, e tal forma de monarquia era denominada tirania.
Trecho retirado do livro “History of Greece” do historiador, classicista e filólogo irlandês John Bagnell Bury (1861-1927)
As eleições não permitem distinguir de maneira eficaz os estadistas. De fato, o processo eleitoral realça qualidades e competências reais, mas muito diferentes daquelas necessárias ao exercício do poder. Fazer campanha significa saber seduzir e mobilizar os correligionários em torno da sua pessoa para estimular um movimento mais poderoso do que o dos concorrentes. Governar, ao contrário, é saber se cercar de pessoas para tomar decisões sábias e desinteressadas cuja configuração complexa, conflituosa e incerta é em prol do bem público.
Trecho de uma fala do cronista francês Rémi Carlu da rádio francesa Radio Courtoisie
Prezados leitores, em primeiro lugar peço desculpas pelo meu sumiço. Houve vários fatores que contribuíram para o meu apagão intelectual – férias, problemas de saúde familiares e falta de foco. De repente, na semana passada, a leitura de um artigo da ativista australiana Caitlin Johnstone me deu a motivação para retomar a escrita. Precisamos resistir à inteligência artificial, feita para nos substituir e nos aniquilar. A única saída é exercitarmos o cérebro.
Se houve muitos obstáculos à minha atividade neste meu humilde espaço, ao menos as férias serviram para embasar o conteúdo oferecido aos leitores na reabertura da temporada. Em julho deste ano estive no sítio arqueológico de Delfos, na Grécia, onde se situava o famoso oráculo, pelo qual as sacerdotisas, denominadas pitonisas, transmitiam as profecias do deus Apolo. Para falar a verdade, subir até o topo, onde estão as ruínas do estádio, é cansativo no calor e estando em excursão nunca é possível fazer as coisas no seu tempo. Por outro lado, como já sou turista experimentada nas ciladas e desafios da atividade, consegui percorrer todos os níveis do sítio e depois me dedicar ao atrativo que para mim era o mais importante: o museu de esculturas e frisos.
Delfos encontra-se em uma área montanhosa e na volta para Atenas o guia nos permitiu tomar um lanche em um restaurante com uma vista sobre as montanhas. Não é coincidência que em todas as civilizações os templos religiosos sejam construídos no alto. A majestade e a placidez das montanhas fazem entrarmos num estado espiritual diferenciado e sentirmo-nos parte de algo muito maior do que nós. Macchu Picchu no Peru também tem a mesma localização estratégica de onde é possível contemplar os grandes maciços cobertos pela vegetação tropical. Minhas pobres fotografias dão uma ideia da paisagem. A primeira mostra o anfiteatro, a segunda mostra o estádio.


Se havia um grande estádio, é porque ocorriam competições esportivas. Os jogos não eram olímpicos, obviamente, porque Olímpia ficava alhures, mas pan-helênicos. A tradição diz que quem foi o responsável pela instituição dos jogos em Delfos foi Clístenes, tirano de Sícion entre 600 a.C. e 570 a.C., que teve como um de seus descendentes o estadista ateniense Péricles (495 a.C.-429 a.C.). Aproveitando a oportunidade eu acabei fazendo uma pergunta às pitonisas – Quem devo escolher para Presidente do Brasil em outubro – e talvez inspiradas pela lembrança de Clístenes, elas me responderam “O bom tirano”.
Brincadeiras à parte, toda resposta oracular era expressa em palavras sujeitas às mais variadas interpretações. A origem histórica dos tiranos é explicada por John Bagnell Bury no trecho mencionado na abertura deste artigo. De acordo com ele, houve tiranos brilhantes e benéficos como Clístenes, tiranos brilhantes e opressores e outros que exerceram o poder por um curto período de tempo e causaram ainda mais lutas políticas depois de serem derrubados. A tirania foi uma resposta a uma crise interna em que as elites brigavam entre si para saber quem controlaria a riqueza e o poder na sociedade, na qual quem realizava o duro trabalho manual nas minas e nos campos tinha poucos direitos.
A solução, temporária, porque baseada na força, era escolher uma pessoa que se colocasse além dessas disputas de grupos rivais e fosse capaz de oferecer respostas aos anseios da maioria do povo por uma vida menos sofrida e mais livre. Nem sempre a tirania atendeu a demanda das classes populares por mais liberdade, mas de acordo com John Bagnell Bury em muitos casos ela proporcionou um intervalo de repouso e crescimento que permitiu ao povo adquirir a experiência e o conhecimento necessários para que no futuro pudessem se autogovernar em um regime democrático.
A democracia, quando foi praticada na Grécia nas cidades-Estado, era uma democracia de participação direta. Atualmente no mundo ocidental, temos a democracia representativa e no Brasil temos eleições para Presidente da República desde 1989. Depois de 37 anos, qual o balanço geral? Será que o voto em vereadores, deputados, senadores, prefeitos, governadores e presidente é suficiente para que exerçamos influência decisiva sobre as políticas públicas e realmente nos autogovernemos? Ou será que a democracia representativa acaba se transformando em uma oligarquia e na verdade ainda estamos na fase anterior à democracia, isto é, na fase de escolher o bom tirano, aquele líder que no momento de brigas intestinas nas elites consegue dar vazão às demandas do povo e tornar a sociedade mais próspera e justa?
Para Rémi Carlu, citado na abertura deste artigo, a democracia representativa apresenta inúmeras falhas. A necessidade de o político apresentar-se aos eleitores para ser escolhido o leva a vender sonhos e negligenciar a realidade, a bajular os eleitores e veicular sempre uma mensagem positiva ao invés de falar a verdade, de ser sóbrio e de ser honesto sobre as condições em que se encontra o país. E quando o político vence a eleição porque dourou a pílula da verdadeira situação e escondeu os esforços e sacrifícios que terão que ser feitos para solucionar os problemas, ele tem mais um incentivo para continuar nessa trilha fantasista. Haverá uma próxima eleição num horizonte de poucos anos e o melhor a fazer para garantir a permanência no cargo é manipular as políticas públicas – sejam elas a econômica, a previdenciária ou outras – em função do ciclo eleitoral, evitando soluções de longo prazo e enfocando expedientes de curto prazo que permitam ao líder político permanecer popular e ao mesmo tempo empurrar o problema com a barriga.
O resultado para Rémi Carlu, é que a democracia representativa escolhe pessoas que apresentam as qualidades necessárias para ganhar eleições, mas não para governar. Escolhemos pessoas carismáticas, que falam bem, que conseguem transmitir mensagens que ficam na mente e nos inspiram, mas não escolhemos estadistas, que sabem ouvir especialistas, ponderar e tomar decisões difíceis, considerando o que é melhor para a sociedade no longo prazo. Elegemos mágicos que fazem seus truques e encantam a plateia ao longo de vários ciclos eleitorais, mas não elegemos líderes capazes de identificar os problemas, eleger prioridades e atuar de maneira firme, orientada por uma estratégia e objetivo claros.
Qual a solução? Esperar que na falta da participação direta nas decisões politicas o povo, cheio de frustração por não ver os problemas resolvidos, eleja no quadro da democracia representativa o bom tirano que será carismático o suficiente para ser escolhido pelos eleitores, mas estadista o suficiente para, uma vez no poder, saber tomar decisões impopulares no presente, mas fundamentais para garantir o futuro?
Prezados leitores, depois de muita reflexão sobre como interpretar o oráculo das pitonisas de Delfos, cheguei à conclusão de que o bom tirano é uma figura altamente improvável, cujo surgimento depende de uma série de fatores intelectuais, econômicos, sociais e psicológicos que são difíceis de estarem presentes ao mesmo tempo. Afinal, como o próprio Napoleão Bonaparte (1769-1821) disse a respeito de si mesmo, um homem como ele só surge a cada 500 anos. Vou continuar a participar da nossa democracia representativa votando, mas sabendo que ela tem a tendência a escolher pessoas com vocação de mágicos, artistas e influenciadores. Por isso, entre um ciclo eleitoral e outro, continuarei a cuidar do meu jardim, sem nada esperar dos nossos líderes, mas procurando votar no veneno menos letal. O que mais posso fazer?