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O leitor

Posted by on 23/05/2026

Ele tinha suas dúvidas a respeito da criação do mundo no tempo, sobre a imortalidade do indivíduo, sobre o nascimento virginal e sobre outras doutrinas da fé cristã. Ao rejeitar as ordálias, ele perguntou: “Como pode um homem acreditar que o calor natural do ferro incandescente ficará frio sem uma causa suficiente, ou que por causa de uma consciência dilacerada, o elemento água recusará aceitar (submergir) o acusado?”

Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981) sobre o imperador do Sacro Império Romano Germânico e rei da Sicília Frederico II (1194-1250)

Pat Buchanan: Quem são seus autores favoritos?

Donald Trump: Bem, eu tenho vários autores favoritos. Eu acho o Tom Wolfe excelente.

Pat Buchanan: Você leu “A Fogueira das Vaidades?”

Donald Trump: Não.

Tom Braden: Que livro você está lendo agora?

Donald Trump: Estou lendo meu próprio livro porque eu acho fantástico, Tom.

Pat Buchanan: Qual o melhor livro que você leu além de “A Arte da Negociação”?

Donald Trump: Eu realmente gosto do Tom Wolfe. Eu acho que ele é um grande escritor. Ele fez um excelente trabalho …

Pat Buchanan: Que livro?

Donald Trump: O livro atual dele. O livro mais recente dele.

Pat Buchanan: A Fogueira das Vaidades

Donald Trump: Sim. E ele fez um trabalho muito, muito bom. Aliás, eu realmente não consigo ouvir com esse fone de ouvido.

Trecho de uma entrevista dada por Donald Trump à CNN em 23 de dezembro de 1987

Prezados leitores, imaginem um menino órfão de pai e mãe vagando a esmo pelas ruas de Palermo, capital da Sicília, na virada do século XII para o século XII. Ele andava livre pelas ruas da cidade ouvindo pessoas falando grego, árabe e hebraico. Ninguém cuidava verdadeiramente dele e o menino chegou a viver na pobreza, mitigada pela caridade dos habitantes de Palermo que lhe davam comida.  Desprovido de educação formal, educou-se a si mesmo, vendo e ouvindo o que as pessoas faziam e lendo avidamente livros de história. Este menino chamava-se Frederico de Hohenstaufen e vem a ser neto do Frederico Barba Ruiva (1123-1190) a que me referi no artigo “A História das verdades e das mentiras”.

Tornando-se um adulto, Frederico conseguiu a coroa do Sacro Império Romano Germânico e a coroa do Reino da Sicília. Sua curiosidade intelectual o levou a estudar a ciência e a filosofia e as obras-primas da cultura árabe, que àquela época era muito mais avançada que a cultura europeia. Era amigo do famoso matemático de Pisa Leonardo Fibonacci (1170-1250) e seu conhecimento filosófico era tanto que solicitou a alguns sábios muçulmanos que resolvessem as discrepâncias entre Aristóteles (384 a.C.-322 a.C.) e seu comentador póstumo, Alexandre de Afrodísias (198-209), sobre a eternidade do mundo. Em 1224, Frederico fundou a Universidade de Nápoles, uma instituição de ensino estabelecida sem o beneplácito da Igreja Católica, algo raro na época. Ele inclusive estabeleceu a concessão de bolsas para alunos pobres para que pudessem estudar e tornar-se futuramente membros da administração pública. Com base em suas próprias pesquisas experimentais, Frederico escreveu na década de 1240 um tratado sobre a falcoaria, De arte venandi cum avibus.

Talvez o maior legado do seu reinado tenha sido o Liber Augustalis, elaborado por Pier della Vigna (1190-1249), jurista da faculdade de direito de Bolonha e considerado o primeiro código de leis elaborado sob os auspícios da ciência. O Liber Augustalis, promulgado em 1231, aboliu um instituto jurídico da Idade Média, as ordálias, que eram uma prova a que o acusado era submetido para mostrar sua inocência: por exemplo, caminhar sobre brasas, ser jogado na água com um peso. A ideia era que se o indivíduo conseguia passar ileso pela prova, não se queimando ou não se afogando, isso era sinal de sua inocência, pois Deus não deixaria que um homem inocente fosse injuriado e interviria, salvando-lhe a pele. No entanto, conforme o trecho que abre este artigo, um imperador/rei filósofo como Frederico não poderia aceitar que um ferro quente esfriaria sem que uma causa natural atuasse para que isso ocorresse ou que um homem não se afogasse sendo mais pesado que a água porque a água se recusaria a fazer afundar uma pessoa inocente. Acreditando que o mundo sempre estivera presente e não havia sido criado, Frederico não acreditava na intervenção divina nas leis naturais para produzir resultados que fugissem da normalidade dos fenômenos físicos tais como eles se desenrolavam na prática.

Um ponto alto de sua carreira como estadista foram suas aventuras na Palestina, em 1228, quando resolveu cumprir seu voto de realizar uma cruzada na Terra Santa a despeito da excomunhão imposta a ele pelo papa Gregório IX (1145-1241). Ao chegar a Acre, Frederico não precisou lutar para obter uma conquista territorial. Negociando com o sultão Al-Kamil (1177-1238), Frederico obteve Jerusalém, Belém e Nazaré conquistando o sarraceno apenas pelo brilho dos seus conhecimentos da filosofia, da literatura e da filosofia árabes e em 18 de março de 1229 coroou-se a si mesmo rei de Jerusalém na Igreja do Santo Sepulcro, pois o papa proibira qualquer homem de obedecê-lo. Michael Scot (1175-1232), o polímata escocês, exclamou a ele: “Eu realmente acredito que se algum homem pudesse escapar da morte por meio do seu conhecimento, este homem seria Vossa Majestade.”

  Enfim, em Frederico, o último grande representante da dinastia dos Hohenstaufen, temos um líder que fez do conhecimento sua paixão e um modo de governar pelo exercício da tolerância e da apreciação de culturas e fés diferentes e pelo emprego das suas faculdades mentais para resolver problemas concretos e aprender com isso. Frederico exemplificou a máxima de que o conhecimento traz poder e pode levar a resultados positivos, como a resolução diplomática de conflitos e o aprimoramento do sistema de justiça.

Nada mais longe de Frederico do que o presidente dos Estados Unidos, por quem esta humilde escrevinhadora deixou-se enganar. Com base no que ele falava considerei que ele buscaria a paz e livraria o povo americano da sina de lutar guerras infindáveis em todo o mundo que são um sorvedouro de recursos. Infelizmente Trump provou ser um líder especialmente belicoso: começo pelo sequestro do presidente da Venezuela, Nicolas Maduro em janeiro, passou pelo ataque ao Irã no final de fevereiro e agora a próxima parada certamente será Cuba. Na entrevista que abre este artigo, Trump é pego em flagrante na inconsistência. Ele a princípio diz que não leu A Fogueira das Vaidades, do autor Tom Wolfe (1930-2018) e depois perguntado sobre de que livros gosta, menciona a obra-prima do escritor nascido em Richmond e falecido em Nova Yorque. Em suma, O Aprendiz não lê, mas mente dizendo que lê.

Prezados leitores, ávido leitor, Frederico sabia que havia outros modos de ser e de pensar que não fossem os do cristianismo ocidental. Talvez se Donald Trump tivesse mais cultura e conhecimento ele saberia um pouco da história da Pérsia; saberia que o Império Persa foi raramente conquistado ao longo de seus mais de 2.000 anos de história; saberia que o Irã não seria uma presa fácil como é um país latino-americano como a Venezuela, fraturado por disputas raciais, econômicas e sociais. Talvez Donald Trump não designasse todos que resistem ao expansionismo militar dos Estados Unidos como terroristas e seria capaz de ter nuances de pensamento sobre os diferentes caracteres nacionais. Oxalá num futuro próximo tenhamos à frente de um Império Global um leitor como Frederico que seja mais tolerante com as diferenças culturais e mais consciente da história de cada povo. Do contrário, a hecatombe nuclear ficará cada vez mais próxima.

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