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Meras coincidências?

Posted by on 15/05/2025

O botim das províncias fornecia os recursos para aquela orgia de riqueza corrupta e mesquinha que iria consumir a República em revolução. […] À medida que a moeda se multiplicava mais rápido do que as construções, os proprietários de imóveis na capital triplicavam sua fortuna sem mover um músculo ou nervo. A indústria ficava para trás, enquanto o comércio florescia; Roma não tinha que produzir bens; ela pegava o dinheiro do mundo e o usava para pagar pelos produtos mundiais. […] Roma estava se tornando não o centro industrial ou comercial, mas o centro financeiro e político do mundo do homem branco.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, escrito pelo filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) sobre o efeito das conquistas militares sobre Roma

Na verdade, a maioria dos americanos tornou-se desconectada da indústria. Eles realmente não entendem o que a indústria moderna exige. A ambição de restaurar a indústria americana é real, mas os instrumentos utilizados por Trump baseiam-se na economia e nas finanças (economia e finanças muito ruins, por sinal), não na indústria. Se os Estados Unidos quiserem realmente trazer a indústria de volta, eles terão que reconstruir todo o ecossistema para dar-lhe apoio. Não se trata de consertar um único setor, ajustar a direção das políticas, ou melhorar uma capacidade específica, muito menos somente aumentar tarifas.

Trecho retirado do artigo “Rare Earth and desindustrialziation” escrito por Hua Bin e publicado em 14 de maio

    Prezados leitores, em 2024 visitei a Tunísia, que foi o epicentro do Império Cartaginês (550 a.C.-202 a.C.), o qual se estendia por terras que atualmente se localizam na Tunísia, Marrocos, Espanha Portugal e Itália. O que se vê de autenticamente cartaginês é muito pouco. Há as ruínas do porto e dos locais onde os cartagineses guardavam os navios da sua famosa frota. E um cemitério onde, de acordo com a versão mais aceita da história, contada pelos vencedores, estão enterradas crianças que eram jogadas ao fogo vivas como sacrifício ao Deus Baal.

    As outras ruínas são na verdade construções que datam da época romana, porque depois que Roma destruiu Cartago em 146 a.C. o local foi abandonado e foi só décadas depois que Roma decidiu reocupar a antiga Cartago por sua localização estratégica. Tanto é assim que a joia turística da Tunísia é o Museu Nacional do Bardo, que reúne uma das maiores e mais belas coleções de mosaicos romanos do mundo. De maneira que, embora a famosa Cartago fique perto de Túnis, a capital do país, o que a Tunísia tem a oferecer em termos de tesouros artísticos é seu passado como província romana, e não como sede do Império Cartaginês.

    A destruição do maior rival de Roma no Mediterrâneo marcou um ponto de inflexão na história da cidade porque lhe permitiu não só se apossar dos espólios do império cartaginês, a Oeste, mas lhe deu o impulso de conquistar toda a bacia do Mediterrâneo a Leste, incluindo as colônias gregas na península itálica e a própria Grécia. O efeito desse domínio inconteste do Mar que ligava a Europa, a África e a Ásia foi a de viabilizar a construção de um império cujas características nos soam familiares em pleno século XXI.

    Conforme o trecho citado na abertura deste artigo, as conquistas militares de Roma lhe permitiram amealhar grande quantidade de dinheiro, o que revolucionou sua organização econômica. Da Espanha, ex-colônia de Cartago, os generais romanos trouxeram ferro, prata e ouro, além claro, de prisioneiros de guerra, que seriam transformados em escravos. Cartago, Macedônia e Síria tiveram que pagar grandes indenizações de guerra, além de contribuir também com mão de obra forçada. Esse influxo de dinheiro ficava muito além da capacidade de produção e construção de Roma, de forma que os proprietários de imóveis os vendiam a preços estratosféricos e o comércio com as províncias conquistadas era estimulado pela abundância de meios de pagamento e pela necessidade de suprir a demanda dos romanos por bens não produzidos localmente. De uma sociedade agrária, formada por agricultores que viviam de maneira simples, pois precisavam poupar para enfrentar os desastres da natureza, passou-se a uma sociedade de opulência, que tinha acesso a tudo o que podia ser comprado com o ouro e a prata obtidos pela pilhagem das regiões submetidas pela força das legiões, inclusive a produtos vindos da China.

    O resultado sobre o modo de vida dos cidadãos romanos não tardou a vir. A riqueza obtida pelas conquistas militares, sem que nenhum esforço agrícola ou industrial precisasse ser feito, levou a uma vida de luxo e de indolência, em que a atividade econômica mais importante era a especulação, seja pelo comércio, seja pela participação em organizações que prestavam serviços para o governo, que hoje chamaríamos de empreiteiras. A indolência levou a um relaxamento da moral, pois viver uma vida fácil e libertina não trazia nenhuma consequência ruim. A abundância de mão de obra escrava tirou das classes mais baixas a oportunidade de trabalhar, levando ao surgimento de um proletariado urbano que sobrevivia às custas da distribuição de alimentos pelo governo e que não tinha nenhum papel a desempenhar na sociedade.

    Resumindo, economia dependente de redes de suprimento globais, excesso de moeda, desigualdade crescente de renda, financeirização da economia, desindustrialização, elites interessadas apenas em manter seus privilégios, sem propor nada de novo, pois o status quo as beneficiava, guerras constantes para a obtenção de mais espólios e fazer o sistema continuar a funcionar. Ora, não são essas as características do Império Americano em pleno século XXI? Os números não nos deixam mentir.

    Em 2024, o déficit comercial dos Estados Unidos, isto é a diferença entre importações e exportações foi de 1.202,329,50 de dólares, de acordo com o United States Census Bureau. De acordo com o Banco Central Americano, em 1º de janeiro de 2025 havia 2,37 trilhões de dólares americanos circulando no mundo. Em 2024, a atividade industrial contribuiu com 10% do PIB americano, ao passo que o setor financeiro, securitário e imobiliário contribuiu com 21,2% (fonte: Estatista). Quanto às guerras, desde 1775, com o início da Guerra de Independência, os Estados Unidos estiveram envolvidos em 12 grandes guerras (fonte: Wikipedia), para não falar das intervenções militares pontuais, como bombardeios, envio de mísseis, ajuda militar a grupos rebeldes. Finalmente, os gráficos preparados pelo Gabinete de Orçamento do Congresso dos Estados Unidos mostram que os 20% mais pobres viram sua renda estagnar desde 1980 até a década de 20 do século XXI, ao passo que o 1% mais rico viu sua renda aumentar em mais de 800% no mesmo período.

    Não é de estranhar que consideradas as semelhanças que o Império Americano tem com o Império Romano, o presidente americano Donald Trump queira fazer algo para evitar a implosão dos Estados Unidos, tal como aconteceu com Roma, que em 476 d.C. sucumbiu às invasões dos povos bárbaros. Além de estar procurando fazer a paz com a Rússia a respeito da guerra na Ucrânia e conversando com o Irã em busca de um acordo sobre o uso de energia nuclear por aquele país, Trump quer trazer prosperidade para os americanos fazendo a indústria voltar aos Estados Unidos. Quais são as chances de ele ter sucesso?

    Para Hua Bin, cujo artigo é citado na abertura deste artigo, impor tarifas em produtos importados para torná-los mais caros e incentivar a produção local não é a solução. É preciso ir muito mais fundo e criar o ambiente adequado, construindo fábricas e infraestrutura, fazendo investimentos que só terão retorno no longo prazo, adquirindo equipamentos, treinando trabalhadores. O esforço industrial exige o concerto de vários setores da sociedade – universidades, empresários, instituições governamentais – de maneira a estabelecer as políticas de incentivo, a infraestrutura física que diminui o custo de fazer negócios para a iniciativa privada, a oferta de recursos humanos qualificados que viabiliza a inovação. Isso é tarefa não para um mandato presidencial de 4 anos, mas para décadas de planejamento, persistência e trabalho duro contínuos. No máximo, Trump pode começar a executar o projeto de reindustrialização, começar a estabelecer as fundações do edifício, e torcer para que o próximo governo dê continuidade à obra.

    Prezados leitores, a lição da história parece ser que todo império morre, porque a vida se torna tão fácil para alguns que eles acabam deitando-se em berço esplêndido e não têm mais incentivos para achar novos caminhos quando as circunstâncias mudam e surgem desafios.  Roma e os Estados Unidos começaram como sociedades de cidadãos diligentes e autônomos e acabaram se tornando sociedades dependentes do comércio internacional e gozando dos privilégios do poder do seu dinheiro para comprar e conquistar tudo. Já vimos como terminou Roma. Aguardemos para ver se o Império Americano será desmantelado pacificamente ou acabará em sangue e violência.

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