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Sejamos realistas!

Posted by on 14/08/2025

Por isso os romanos, vendo vir de longe as dificuldades, sempre lhes deu remédio, jamais deixando que elas prosseguissem para recusar uma guerra, sabendo eles que a guerra não se evita, mas se posterga para vantagem dos demais; assim, fizeram a guerra contra Felipe e Antíoco na Grécia para não ter que fazê-la contra eles na Itália; e podiam então esquivar-se de uma e de outra, mas não quiseram fazê-lo. Nem nunca foi do gosto dos romanos isto que está frequentemente na boca dos sábios da nossa época, isto é, beneficiar-se da passagem do tempo, mas sim ao contrário, conduzir-se segundo sua virtude e prudência: ocorre que o tempo arrasta tudo consigo e pode comportar-se bem ou mal, ou mal e bem.

Trecho retirado do capítulo três do livro “O Príncipe”, escrito por Nicolau Maquiavel (1469-1527)

 

Se desejamos dissuadir futuros presidentes americanos e garantir resiliência para enfrentá-los, precisamos ser uma nação democrática e educada, entendendo o mundo e com o necessário conhecimento de ciência e tecnologia, além da economia diversificada, insista-se, e um sistema de defesa preparado. O atual confronto, preocupante, pode ser uma janela de oportunidade para mudanças.

Trecho retirado do artigo “Dissuasão e resiliência”, de Cristovam Buarque (1944-), ex-governador e ex-senador do Distrito Federal

 

A discussão reflete visões de mundo opostas sobre o futuro das relações internacionais e o potencial de cooperação em meio aos desafios. Sachs acredita que a paz e a cooperação internacional são factíveis, ao contrário da visão de Mearsheimer sobre a tragédia inerente em um mundo anárquico. A perspectiva de Mearsheimer é moldada pela sua crença em um jogo de soma zero, em que as grandes potências lutam inevitavelmente pela dominação.

Resumo retirado do site Sillicon Valley Innovation Channel, a respeito de uma entrevista com o economista americano e professor na Universidade de Colúmbia Jeffrey Sachs (1954-), em que este comenta sobre suas diferenças de opinião em relação ao cientista político americano e professor na Universidade de Chicago John Mearsheimer (1947-)

    Prezados leitores, o mundo gira e a Lusitana roda… Desde que me ausentei por dois meses para desfrutar de minhas férias, muitas coisas aconteceram e fica cada vez mais claro que vivemos tempos interessantes, no mau sentido do termo, isto é, tempos em que os velhos paradigmas estão sendo destruídos e nenhum paradigma novo ainda surgiu para substitui-los. Nosso Brasil foi atingido pelo furacão do tarifaço de Donald Trump, isto é, a imposição de uma alíquota de 50% sobre produtos brasileiros, que foi excepcionada para alguns itens, mas que por enquanto vale desde o dia 6 de agosto. O que podemos fazer? Ou será que o que poderíamos ter feito não fizemos e agora não dá mais para fazer nada? Este humilde artigo pretende responder a essas perguntas à luz de duas correntes das relações internacionais: a dos realistas e a dos internacionalistas.

    Os realistas têm como um dos seus patronos Nicolau Maquiavel, que inaugurou a ciência política no Ocidente escrevendo O Príncipe. Acusado de cínico, o florentino foi o autor de uma obra que subverteu todas as premissas que então predominavam sobre como deveria se dar a atuação de um príncipe cristão. A conquista e a manutenção do poder exigem do líder um comportamento que não tem nada a ver com a moralidade pregada por Cristo, de amar aos outros, de perdoar-lhes os defeitos, de almejar o reino de Deus e não o de César, etc. Se o príncipe for bom, tolerante e desprendido ele logo perderá o poder, porque sempre haverá aqueles que são implacáveis e não se furtam a mentir, matar e manipular para conquistar o que querem. A tarefa de um líder digno do nome é a de uma vez tendo chegado ao topo, trabalhar para lá permanecer e criar um Estado seguro e estável que leve à prosperidade de todos.

    A receita para isso está no trecho que abre este artigo e pode ser resumida em: “Prepare-se para a guerra!” Roma consolidou seu poder prevendo que desastres poderiam acontecer e atuando para evitá-los, o que significava manter-se forte e atacar os Estados inimigos para enfraquecê-los e impedir que eles viessem a se fortalecer e desafiar Roma. Para Maquiavel era estúpido confiar na passagem do tempo e na sorte para resolver os problemas sem ter que quebrar ovos, isto é, sem ter que tomar medidas duras para estar apto a defender os interesses do Estado na arena internacional. A sorte é traiçoeira, ela pode ser favorável ou desfavorável e quem mais se beneficia dela é quem está sempre preparado para aproveitá-la ao máximo quando ela se oferece.

    Já os internacionalistas têm outro padroeiro, Immanuel Kant (1724-1804), o filósofo nascido em Konigsberg, que em 1795 escreveu o panfleto “Paz Perpétua”, em que ele vislumbrava a criação de uma federação supranacional de países unidos pela submissão a princípios comuns para a resolução dos conflitos e pelos objetivos de paz e prosperidade para todos. Em vez de um palco de gladiadores lutando para sobreviver no Coliseu, a arena internacional para Kant era o lugar onde deveria ser estabelecida a Commonwealth das nações por meio de uma racionalidade compartilhada, livre dos preconceitos étnicos e nacionais.

    Estabelecidas essas diferenças, podemos mencionar dois expoentes dessas respectivas correntes no mundo contemporâneo, o realista-maquiavélico John Mearsheimer e o economista do desenvolvimento Jeffrey Sachs. O trecho que abre este artigo deixa claras as diferenças entre os dois americanos. Para Mearsheimer, as relações internacionais são uma fonte de eterno conflito porque não há instância superior que tenha o poder de arbitrar as disputas. Cada Estado defende seus interesses e sua soberania, às expensas dos interesses e da soberania do outro. Quem não atua assim é simplesmente engolido pelas grandes potências, que estabelecem suas zonas de influência como forma de conter o expansionismo das potências rivais. Para Sachs, as relações internacionais podem ser regidas pela cooperação mútua de forma que todos floresçam. Em um mundo em que a tecnologia avança a passos largos e difunde-se rapidamente, é possível que todos os Estados participem da bonança mundial seguindo os princípios do desenvolvimento colocados em prática pelos países que já chegaram a níveis avançados de qualidade de vida. A China é o exemplo clássico dessa possibilidade de o sol brilhar para todos: há quarenta anos, era um país em que predominavam vilas de camponeses produtores de arroz. Na segunda década do século XXI, a China é o país com a maior economia do mundo, se medida em termos de poder de compra.

    Esses dois pontos de vista sobre as relações internacionais contribuem para a análise da situação do Brasil. De um lado estamos em um momento de disputas entre os grandes do mundo – Estados Unidos, China e Rússia –, nas quais cada um desses países utiliza suas armas para marcar pontos. Diante da imposição de tarifas sobre importações pelo presidente americano, na tentativa de cobrir o déficit comercial dos Estados Unidos e estimular a reindustrialização do país, a China usou as cartas que têm na manga, a principal delas sendo o monopólio na prática (quase 90%) que os chineses souberam construir sobre o processamento das terras raras que são usadas em todos os produtos com eletrônica embarcada. Diante da expansão da aliança militar capitaneada pelos Estados Unidos no Leste Europeu por meio da OTAN, a Rússia reagiu invadindo a Ucrânia e neste verão de 2025 está ganhando a guerra.

    Por outro lado, a cooperação internacional tem um papel a desempenhar. A China aproveitou o livre comércio que vigorou a partir de 1986 com a Rodada Uruguai para enriquecer produzindo e vendendo produtos primeiramente para o maior mercado consumidor, o dos Estados Unidos e depois em todo o mundo. E ela quer continuar a fazer negócios com seus parceiros investindo em infraestrutura na África, América Latina e Sudeste Asiático em troca de mercados para seus produtos manufaturados.

    Voltando à pergunta colocada no início. O que o Brasil deve fazer em um mundo em que o realismo mostra sua cara na forma de tarifaços e guerras, mas ao mesmo tempo em que o internacionalismo oferece alguma chance de desenvolvimento para países como o Brasil que precisam de capital e de know-how externo para avançar? Cristovam Buarque, no texto mencionado na abertura deste artigo, descreve nossos pontos fracos em matéria econômica, militar e educacional para enfrentarmos os desafios colocados pelas medidas de Donald Trump e propõe que façamos um esforço para nos tornarmos mais resilientes e menos dependentes, investindo em educação, estimulando a inovação, diversificando a economia, aumentando a renda e criando um mercado consumidor interno que nos torne menos sensíveis a choques internacionais. Só assim poderemos trilhar um caminho de prosperidade nesse mundo em que uma grande potência como os Estados Unidos age para manter sua área de influência e evitar intromissões da China no continente americano.

    Prezados leitores, sejamos realistas. Somos fracos, e portanto, nossa soberania fica vulnerável a qualquer lufada de vento de um bully como Donald Trump. Precisamos nos prepararmos para sobreviver nesse mundo de disputas imperiais, tornando-nos fortes o suficiente para não sermos vítimas de assédio. Ao mesmo tempo, devemos aprender a manobrar nosso barquinho de maneira hábil, porque escolher um lado de maneira radical pode ser contraproducente se este lado for o perdedor em uma eventual guerra mundial. Melhor adotarmos uma postura de cooperação com todos os países, em prol da prosperidade de todos, mesmo que alguns prosperem mais do que outros. Neste momento tão interessante em que estamos, há uma oportunidade para identificarmos nossas falhas e fazermos as mudanças necessárias. Oxalá tenhamos essa sabedoria, e não fiquemos querendo achar bodes expiatórios em países ou líderes. Avante, Brasil!

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