browser icon
You are using an insecure version of your web browser. Please update your browser!
Using an outdated browser makes your computer unsafe. For a safer, faster, more enjoyable user experience, please update your browser today or try a newer browser.

Escolher como?

Posted by on 24/09/2025

Um estudo das dinastias principescas mostra que os netos dos fundadores carecem das qualidades para governar. Isso é compreensível: homens ambiciosos que querem ascender socialmente terão mais energia, mais vontade de governar do que homens nascidos na elite. O grau de aceitação de recém-chegados pela classe dominante é uma característica importante em qualquer sociedade. A impermeabilidade inevitavelmente, com o tempo, faz qualquer classe dominante ilegítima aos olhos dos comandados, qualquer que seja a sofisticação da sua propaganda ou mitologia (sangue real, direito divino, etc.).

Trecho retirado do artigo “Our ruling class”, publicado em 19 de setembro pelo escritor francês Laurent Guyénot

O conhecimento tem valor somente como uma ferramenta da boa vida. “O que pode, então, nortear o homem? Uma coisa somente – a filosofia – não como lógica ou aprendizado, mas como um treinamento persistente em excelência moral. […] A virtude é a vida da razão.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ” do filósofo e historiador norte-americano Will Durant (1885-1981) sobre as Meditações escritas pelo imperador romano Marco Aurélio (121-180)

 

O jovem preferia modelar copos, dançar, cantar, caçar e praticar esgrima; ele desenvolveu uma aversão compreensível a livros, estudiosos e filósofos, mas apreciava a companhia de atletas e gladiadores. Logo ele superava todos os seus companheiros na mentira, na crueldade e na linguagem chula. Marco era exageradamente bom para ser grande o suficiente para discipliná-lo ou colocá-lo de lado; ele continuava esperando que a educação e a responsabilidade iriam endireitá-lo e fazê-lo um rei.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ” do filósofo e historiador norte-americano Will Durant (1885-1981) sobre o filho do imperador Marco Aurélio (121-180), Cômodo (161-192)

    Prezados leitores, o filme Gladiador de Ridley Scott, lançado em 2000, baseia-se mais ou menos em fatos reais. Sim, houve o imperador Marco Aurélio, cujo filho Cômodo o sucedeu, mesmo sem ter capacidade para liderar nada. Mas Cômodo não matou seu pai por sufocamento, como mostra o filme, pois Marco Aurélio morreu de doença em Vindobona, na atual Viena. E Cômodo não morreu no Coliseu nas mãos de um gladiador, mas foi estrangulado na banheira, quando tinha 31 anos de idade, depois que o veneno que lhe foi dado por sua amante Márcia falhou. O roteirista obviamente distorceu a história para poder criar o drama da luta entre o imperador assassino, paranoico e incompetente e o gladiador íntegro e com óbvias capacidades de liderança como era o personagem representado pelo ator neozelandês Russell Crowe.

    De qualquer forma, a disputa entre Cômodo e Maximus Decimus Meridius alude ao problema perene de como a sociedade deve escolher seus líderes e o estrago que a má escolha causa. Conforme o trecho que abre este artigo, Cômodo era totalmente diferente de seu pai, Marco Aurélio. Não tinha pendor intelectual nenhum e nenhum freio moral, preferindo dedicar-se a atividades físicas e às suas paixões. A diferença entre um e outro era tão gritante que corria o boato de que Cômodo na verdade era filho da esposa de Marco Aurélio, Faustina (130-175), com um dos gladiadores que ela tomou como amante. Como bom filósofo que era, o imperador considerava que a educação e a atribuição de tarefas militares a Cômodo iriam instilar-lhe aquela centelha de racionalidade que era o caminho da virtude. Afinal, para os estoicos, pensar servia para conhecer, que servia para descobrir a rota da vida moral, que servia para conduzir a vida da maneira eticamente correta.

    A trajetória de Cômodo como imperador mostrou que ele era totalmente refratário à racionalidade virtuosa de seu pai, ao controle das paixões rumo à vida moral. Os historiadores do período nos relatam que ele juntava aleijados para poder matá-los a flechadas, tinha um harém de 300 mulheres e 300 meninos, mandou que um devoto amputasse um braço para provar sua crença, lutava com os gladiadores na arena e mandou matar sua tia Lucila, acusada de tentar tirá-lo do poder. Em suma, Marco Aurélio, apesar de ter sido um líder de qualidade, enfrentando com galhardia as tribos bárbaras da Europa Central no rio Danúbio e a peste que assolou Roma em 166-167, errou redondamente ao fazer do seu filho seu sucessor, confiando que seu exemplo seria suficiente para inspirar o moço. Ou Cômodo não tinha os bons genes do pai ou ele não era filho de Marco Aurélio realmente.

    Para Laurent Guyénot no trecho que abre este artigo, a escolha de líderes por sucessão hereditária é inerentemente falha, porque depois de algumas gerações aquele espírito ambicioso, que tinha vontade de poder e a a capacidade de conquistá-lo e de mantê-lo se perde. A virtù maquiavélica se dilui de pai para filho e se transforma apenas em privilégio de classe. O desafio em uma sociedade que escolhe seus líderes pelo critério do parentesco é oxigenar esse grupo restrito permitindo que ele seja renovado por membros de outras classes que tenham as qualidades necessárias para ascender ao poder.

    Se as monarquias não conseguem manter o nível da liderança porque os genes falham, será que as democracias são o melhor sistema de escolha porque permitem alternância de poder? A questão da escolha democrática pelo voto é que ela requer eleições e ter as qualidades para conquistar votos não necessariamente leva o indivíduo a ter as qualidades para governar e entregar resultados. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, soube ganhar duas eleições por falar aquilo que os americanos queriam ouvir, dando vazão a sua frustração com o status quo. Resta saber se nesses três anos e meio que Trump tem de governo ele conseguirá executar as promessas de campanha, entre as quais realizar a reindustrialização do país e parar com as guerras no exterior. É cedo demais para saber se a dança das tarifas a que se dedica Trump, ora aumentando-as, ora diminuindo-as, a depender do país exportador, irá incentivar as empresas a de fato construir fábricas nos Estados Unidos. Quanto à política externa, Trump encontrou-se com Putin para falar de paz, mas a guerra na Ucrânia continua. E a guerra dos dozes dias travada em junho contra o Irã teve participação de mísseis americanos. Para não falarmos da conivência americana com o que acontece em Gaza.

    Na verdade, se formos utilizar como critério de avaliação da qualidade da liderança os indicadores econômicos e sociais do país, a China, por exemplo, tem melhores líderes que o Brasil, apesar de o método de escolha deles não ser pelo voto da população. Em 1980, a China tinha um PIB per capita de 195,15 dólares, e em 2024 esse número era 13.313,15. Já o Brasil tinha um PIB per capita de 1.958,57 em 1980 e de 10.280,31 em 2024. Portanto, enquanto a riqueza por habitante da China aumentou quase 7.000% em 44 anos, no Brasil o aumento foi de 524%. Quanto à desigualdade de renda, no Brasil, de acordo com o World Inequality Report de 2022, os 50% mais pobres ganham 29 vezes menos que os 10% mais ricos. Na China, o número fica entre 13 e 16 vezes mais. Esses números mostram que, sob líderes escolhidos pelos membros do Partido Comunista, a China produziu muito mais riqueza que o Brasil e a distribui melhor do que nós, governados por pessoas eleitas pelo voto da maioria da população.

    Isso significa que a democracia é ruim e deve ser descartada? Não, simplesmente significa que ela não é uma panaceia nem um fim em si, mas um instrumento a ser utilizado para perseguir os objetivos de melhora das condições da população. E o aprimoramento da democracia passa pela forma como conduzimos as eleições. Menos obsessão com pesquisas eleitorais, clips no Tik Tok para chamar atenção de eleitores, vídeos que viralizam por causarem polêmica e mais foco em questões pertinentes. Ou será que isso é impossível e o povo prefere diversão do que reflexão? Será que formamos uma maioria de Cômodos que querem se divertir assistindo a lutas entre candidatos como vimos na disputa para a prefeitura de São Paulo entre Pablo Marçal e Luiz Datena? Será que esperar que o conhecimento e a razão iluminem nossa conduta na hora de votar seja uma quimera?

    Prezados leitores, a questão de como escolher líderes dignos do nome é um desafio desde a época do Império Romano. O pai adotivo de Marco Aurélio, Antonino Pio (86-161), o escolheu bem, adotando-o, Marco Aurélio escolheu mal seu sucessor, por amor pelo seu próprio filho. Nós no Brasil escolhemos ao sabor cada vez mais do que é manchete nas mídias sociais. Oxalá um dia possamos chegar a um método que escolha aqueles que mais conseguirão entregar resultados à população.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *