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Verdade ou mentira?

Posted by on 22/10/2025

A história da vida, da obra e da morte de Jesus de Nazaré não revela nada do movimento mundial o qual ele fez surgir. Ele viveu e ensinou em uma área remota (Palestina) na periferia do Império Romano. Sua vida foi de curta duração e o conhecimento dela permaneceu escondido da maior parte do mundo contemporâneo. Nenhuma das fontes da sua vida e obra pode ser traçada até o próprio Jesus; ele não deixou uma única palavra escrita conhecida. Além disso, não há narrativas contemporâneas escritas sobre sua vida e morte. O que pode ser estabelecido sobre o Jesus histórico depende quase sem exceção das tradições cristãs, especialmente do material mais antigo utilizado na elaboração dos três primeiros Evangelhos do Novo Testamento (Marcos, Mateus e Lucas), que refletem o ponto de vista da igreja posterior e sua fé em Jesus.

Trecho retirado do verbete da Edição de 1974 da Enciclopédia Britânica sobre Jesus Cristo

Um homem foi morto, se não foi Jesus Cristo, foi da mesma forma que ele, ele foi colocado neste sudário. Não pode ser uma falsificação da Idade Média. Uma falsificação não poderia jamais ser realizada dessa maneira. É algo estritamente objetivo isso que digo a vocês. […] O corpo não permaneceu muito tempo envolto pelo sudário, do contrário ele teria se putrefeito e não há sinais de putrefação.

Trecho da palestra dada pelo médico legista belga Philippe Boxho em 26 de setembro de 2023 sobre o Santo Sudário de Turin, que teria envolvido o corpo de Jesus Cristo (6 a.C.-30 d.C.) após sua morte

    Prezados leitores, há duas semanas lhes revelei que estive em São Petersburgo na Rússia em julho. Na mesma viagem passei por Turim, na Itália, e não pude deixar de visitar a catedral que guarda desde o ano de 1578 um pedaço de linho com a imagem impressa da parte da frente e da parte de trás de um homem que apresenta as marcas de alguém que foi flagelado e crucificado. O Santo Sudário, como é chamado em português (Suaire de Turin em francês e Shroud of Turin em inglês) fica guardado no altar em uma capela protegida por um vidro à esquerda da nave da catedral e de tempos em tempos é mostrado ao público. Quando estive lá ele não estava à mostra. As pessoas podem simplesmente sentar-se em bancos e rezar ou tirar fotos.

    Há os que defendem a autenticidade da peça de linho e os que dizem tratar-se de uma falsificação da Idade Média. Não entrarei em detalhes sobre os argumentos de cada uma das partes beligerantes porque não tenho conhecimento técnico para tal, mas é possível, sem incorrer em erros, estabelecer os pontos fortes e fracos de ambos os lados da contenda. Para os que consideram que o Santo Sudário é falso, o fato de sua história só poder ser contada a partir da segunda metade do século XIV, portanto em plena Idade Média é um forte argumento. Afinal, trata-se de uma época em que possuir uma relíquia de Jesus Cristo, ou dos Apóstolos ou de algum santo, era uma grande vantagem, porque atraía peregrinos ao local e movimentava a economia, além de conferir prestígio à igreja que a guardava. Dessa forma, havia um incentivo à produção de falsas relíquias. Se a cadeia de custódia dessa peça de linho não pode ser estabelecida com segurança desde a morte de Jesus, mas apenas mais de 1300 anos depois, como acreditar que ela seja autêntica? Como prova da falsificação, os detratores citam os resultados da datação da presença de carbono-14 no Santo Sudário realizada em 1988 em três laboratórios diferentes: no Arizona, nos Estados Unidos, em Zurique na Suíça e em Oxford na Inglaterra, que colocam a origem do pano há mais ou menos 700 anos, portanto no século XIII, em plena Idade Média. Caso encerrado então?

    O caso não está encerrado para os defensores da autenticidade do Santo Sudário. Eles questionam a confiabilidade dos testes de carbono-14 considerando que a peça de linho foi remendada pelas irmãs Clarissas que tomavam conta do Santo Sudário depois de um incêndio que a danificou enormemente. Além disso, conforme o médico legista Pierre Boxho, que se confessa um homem sem fé, mas que, como homem da ciência, está disposto a descobrir o que o Santo Sudário pode revelar, a análise da imagem impressa na peça fornece detalhes que condizem com a história conhecida da morte e transfiguração de Jesus Cristo: há marcas de feridas produzidas por flagelação; há presença de sangue (AB negativo), bilirrubina e plasma, o que condiz com a causa da morte de um homem crucificado, que é a asfixia pela impossibilidade de respirar devido à posição do corpo; há presença de pólen de plantas encontradas em áreas desérticas do Oriente Médio; os órgãos genitais e as orelhas não aparecem na imagem no linho devido à posição em que fica um homem crucificado; e finalmente o corpo ficou pouco tempo envolto pelo Sudário, pois não há sinais de putrefação, o que condiz com a história narrada nos Evangelhos de que Jesus Cristo ressuscitou ao terceiro dia.

    Infelizmente, a tecnologia atual não permite extrair DNA suficiente para traçar um perfil genético do homem que media entre 1,78 e 1,81 e que tinha ao redor de 35 anos. O DNA obtido limita-se a algumas centenas de pares de bases e além disso foi contaminado porque inúmeras pessoas manipularam o Santo Sudário ao longo dos séculos. Talvez algum dia esse problema técnico seja resolvido e os cientistas possam estabelecer a que grupo populacional pertence este homem. Pois Pierre Boxho não tem dúvidas de que não se trata de uma pintura, mas de um homem que um dia existiu em carne e osso e cujo corpo flagelado se torna visível somente por meio de imagem fotográfica negativa.

    Talvez o mistério do Santo Sudário nunca seja resolvido pela ciência de maneira categórica. Para repetir os testes de carbono-14 seria preciso retirar outras amostras do tecido de outras partes da peça e a Igreja Católica não tem interesse em fazer isso, pois tal procedimento poderia danificá-la e se o resultado fosse o mesmo de 1988 poderia ser um desrespeito à fé dos crentes. Para a Igreja, é melhor que a questão da autenticidade ou da falsificação fique em uma zona cinzenta, pois assim ela não se compromete com afirmações não respaldadas pela ciência e ao mesmo tempo mantém a chama acesa para os crentes que veem o Santo Sudário como prova da ressurreição de Jesus Cristo. Nesse sentido, a relíquia de Turim segue o mesmo destino do próprio Jesus.

    Por um lado, há razões para acreditar na existência histórica de Jesus, pois autores não cristãos fazem referência a ele ou aos seus seguidores: o historiador Tácito (56-117) nos Anais, escritos em 110, faz referência aos cristãos como o bode expiatório escolhido pelo imperador Nero (37-68) para serem responsabilizados pelo incêndio de Roma; Plínio, o Jovem (62-114), governador da Síria, aconselha o imperador Trajano (53-117) sobre como tratar os cristãos; Suetônio (69-141), outro historiador, relata como os cristãos instigavam os judeus à revolta em Roma. Flávio Josefo (37-?), historiador judeu, se refere à morte do irmão de Jesus por apedrejamento em 62, referindo-se a ele como Tiago, o irmão daquele “que chamavam de Cristo”.

    Por outro lado, conforme o trecho que abre este artigo, nenhum autor não cristão descreve a vida e a morte de Jesus Cristo. O que sabemos sobre esse homem palestino é o que nos contam os evangelhos, que só foram escritos de 60 a 100 anos depois de sua morte, em uma língua – o grego – que não era a falada nem por Jesus nem por seus apóstolos, usuários do aramaico. Tem-se assim um retrato nebuloso, como é o Santo Sudário: é muito provável que Jesus realmente tenha existido, mas o que ele fez e realmente falou foram filtrados pela tradição oral que se transmitiu por décadas antes de ser consolidada em um meio escrito, pela tradução desse conteúdo de vida e de pensamento do aramaico para o grego e pelos vieses e objetivos teológicos dos que escreveram os evangelhos para conquistar fieis judeus e não judeus.

    Prezados leitores, à pergunta sobre se o Santo Sudário é uma falsificação ou é autêntico pode ser respondida da mesma maneira que se pode responder à pergunta se Jesus Cristo é verdadeiro ou falso: para além do que as ciências exatas (química e física) e a biologia podem estabelecer sobre o que há naquele pedaço de linho, o que resta é a fé ou a falta de fé de cada um. Assim como a ciência histórica não tem e nunca terá acesso a fontes originais escritas que façam menção contemporânea ao carpinteiro de Nazaré, na Galileia, os testes que possam ser feitos do Santo Sudário sempre estarão sujeitos a contestações devido à antiguidade e à contaminação do material. Resta a cada um tirar suas próprias conclusões com aquilo que temos, que será sempre pouco para os descrentes e sempre suficiente para os crentes.

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