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C’est Nicolas qui paie

Posted by on 29/10/2025

“É o Nicolas quem paga.” Esta meme, que circula nas esferas libertárias há vários anos, mas que recentemente teve um aumento de popularidade, consiste em reclamar que Nicolas, um membro da classe média alta de 30 anos, pagará, por meio dos impostos e de suas contribuições previdenciárias, por todo o resto da população.

Explicação retirada do perfil do jornal eletrônico Mediapart no Instagram sobre a meme que circula nas redes sociais na França “C’est Nicolas qui paie”

Certamente, na ausência de leis que limitem a dívida, os regimes políticos em que o sistema eleitoral é majoritário são tão vulneráveis a problemas fiscais quanto quaisquer outros – talvez mais ainda. A polarização política foi sua ruína. Uma teoria da dívida pública estabelece que ela é um meio pelo qual os governos podem sabotar seus opositores; há uma “guerra de atrito” em que cada lado prefere postergar o aperto de cintos do que aceitar a austeridade.

Trecho retirado do artigo “How to avoid high public debt”, publicado na revista The Economist de 18 de outubro de 2025

Confiando que só o debate do tema pode render a ele alguns pontos de popularidade, Lula pediu ao Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, um estudo sobre o custo da medida. A previsão é que a análise seja entregue até o final do ano, mas o valor que circula nos gabinetes do governo é de algo em torno de 100 bilhões de reais. Só para ter ideia do quanto isso representa, o Gás do Povo e a Farmácia Popular, juntos, custam anualmente menos de 10 bilhões de reais. O Bolsa Família consome 160 bilhões de reais por ano.

Trecho retirado do artigo “A conta não fecha”, publicado na revista VEJA de 17 de outubro de 2025 sobre a possibilidade de o governo federal oferecer transporte gratuito no país

    Prezados leitores, as redes sociais inventaram na França a meme do personagem Nicolas, um homem jovem que aparece sempre de mãos à cabeça, preocupado com tudo o que se gasta no país, pois é ele, profissional de nível superior, quem paga por tudo, desde a aposentadoria dos velhinhos até as obras públicas, passando pelas gratuidades destinadas a determinados grupos. A meme é uma crítica bem-humorada sobre o descontrole das despesas públicas na França, que fazem com que a dívida pública do governo represente 108% do PIB em 2025 e que as receitas governamentais abocanhem 51,9% do PIB, de acordo com dados do FMI, da Bloomberg e da The Economist.

    Nicolas é uma invenção da era digital, mas ele retrata a indignação de pessoas que consideram que elas dão mais ao sistema do que recebem. Se a desopilação do fígado por meio de memes compartilhadas na internet não é suficiente, o sujeito com qualificações parte para a ação concreta e pode acabar tomando a decisão mais drástica, que é sair do país. De acordo com o jornal Libération, quinze mil jovens diplomados formados nas escolas de engenharia e administração na França deixam a terra do Asterix, segundo o indicador da federação Syntec, publicado em 30 de setembro. A fuga de cérebros, representada por essa emigração de pessoas para locais onde vão pagar menos impostos e ser mais bem tratados pelo governo, cria assim um círculo vicioso. Os que têm o talento e a formação para criar riquezas e gerar receitas para os cofres públicos se vão, deixando para trás cidadãos cuja contribuição líquida é negativa, ou seja, recebem mais do Estado do que dão. Isso diminui ainda mais a capacidade do governo de investir para criar a infraestrutura de transporte, comunicação, escolas e hospitais e para garantir a segurança pública, piorando a qualidade de vida da população e enervando ainda mais os Nicolas que ainda insistem em permanecer no país. Se estes forem tentar a vida nos Estados Unidos, o Instituto Cato estima que cada um deles, com idade entre 25 e 34 anos e diploma universitário, gere ao longo de sua vida, para o governo que os recebe de braços abertos, benefícios fiscais da ordem de dois milhões e 300 mil dólares.

    As facilidades tecnológicas do século XXI tornam a emigração um evento cada vez menos dramático. Mesmo que o resto da família permaneça no país de origem, a comunicação é instantânea e constante e sempre é possível passar alguns meses na antiga pátria para matar as saudades se o Nicolas consegue um emprego que lhe dá direto a trabalhar em regime de home office. De forma que o jovem profissional irá sair da França, mudar seu domicílio fiscal e assim deixar de pagar pelas contas do governo francês. Os líderes do país terão que pensar em novas maneiras de arrecadar impostos dos Nicolas em uma era de livre circulação de pessoas e de capital, como é a nossa. Ou terão que cortar despesas para enfrentar o problema.

    Será isso politicamente possível? Conforme o trecho que abre este artigo, é muito difícil, independentemente do regime político e do sistema de votação. Quando o voto é proporcional e o regime é parlamentarista, a necessidade de coalizões para formar um governo faz com que os políticos busquem agradar a todos por meio do toma-lá-dá-cá. Quando o sistema político é dominado por grupos de interesse, os lobbies fazem pressão para ter seus pleitos atendidos às expensas da população em geral, que paga pelas benesses. E mesmo quando o sistema de votação é majoritário e o regime é presidencialista os males da coalização são substituídos pelos males da polarização. O partido no poder quer aproveitar o tempo que tem com a rédeas do orçamento em suas mãos para tomar medidas que garantam que ele permaneça no topo e que a oposição seja derrotada no próximo pleito. Não há nenhum incentivo para medidas de austeridade, porque elas só agem de maneira benéfica no longo prazo e o que importa no aqui e agora é viabilizar a reeleição pela gastança.

    Essa lógica se aplica à perfeição ao Brasil. Para ter sucesso na próxima eleição, o incumbente deve enfocar a distribuição de benefícios para os potenciais eleitores, que o premiam por sua generosidade dando-lhe seu voto. Em seu terceiro mandato, Lula já criou o Pé de Meia, bolsa de estudo para alunos do ensino médio, ampliou o Vale Gás, estabeleceu por medida provisória a isenção de tarifas de energia elétrica para 60 milhões de consumidores e, de acordo com a notícia veiculada no começo deste artigo, está estudando custear tarifa zero para o transporte público. No entanto, as bondades não são só para a classe baixa, porque é preciso agradar o andar de cima. Afinal, este controla os meios de comunicação tradicionais e seus membros são os principais credores do governo e roladores da enorme dívida, permitindo que ela não seja paga, mas administrada.

    Por meio de outra medida provisória em setembro, o governo federal lançou a Política Nacional de Datacenters, que, entre outras medidas zera os impostos federais sobre investimentos em datacenters, incluindo a aquisição de equipamentos. Como exigir que Lula agisse de outra maneira se seu antecessor no poder, Jair Bolsonaro, fez o mesmo, estabelecendo entre outras medidas o aumento do Bolsa Família para 600 reais para tentar se reeleger? Que incentivo um governante terá para ser comedido em seus dispêndios se a austeridade não será premiada com o voto dos que sentirão os efeitos dos cortes imediatamente? Se os eventuais benefícios não estão bem claros e não estão assegurados para o futuro?

    Prezados leitores, a responsabilidade fiscal só ocorrerá quando o Nicolas que paga as contas manifestar-se de maneira contundente contra o status quo, seja votando em candidatos que preguem uma racionalização das despesas seja emigrando no caso de se desesperar com as opções políticas disponíveis. Talvez no Brasil, se criássemos um personagem similar ao Nicolas francês que representasse o cidadão da classe média brasileira que dá muito mais ao Estado do que recebe, poderíamos dar o passo inicial de ao menos reconhecer que o problema existe.

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