browser icon
You are using an insecure version of your web browser. Please update your browser!
Using an outdated browser makes your computer unsafe. For a safer, faster, more enjoyable user experience, please update your browser today or try a newer browser.

Exegeses

Posted by on 05/11/2025

A tarefa do comentarista é penetrar na alegoria, perceber no corpo material das Escrituras sua alma e seu espírito, descobrir sua referência existencial para o cristão. A exegese correta (interpretação crítica) é uma dádiva da graça àqueles que eram dignos do ponto de vista espiritual.

Trecho retirado do verbete da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica sobre o teólogo e estudioso da Bíblia Origines Adamantius (185-254) ou Orígenes

A Igreja pode ser desculpada por ter condenado Orígenes: seu princípio de interpretação alegórica não somente tornava possível provar qualquer coisa, mas de uma tacada só destruía as narrativas das Escrituras e a vida terrena de Cristo; e recuperava o julgamento individual justamente quando propunha defender a fé. Enfrentando a hostilidade de um governo poderoso, a Igreja sentia necessidade de unidade; ela não poderia permitir-se, de maneira segura, ser dividida em uma centena de partes frágeis a cada lufada do intelecto, por heresias desleais, por profetas enlevados ou por filhos brilhantes.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, do filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) sobre Orígenes

 

Eles desejam recompensar os assassinos pelos atos horrendos perpetrados em nossas crianças, mulheres, pais e amigos. Eles estão comprometidos em erradicar o mal deste mundo, para a nossa existência e, eu acrescento, para o bem da humanidade. Todo o povo e a liderança do povo os abraçam e acreditam neles. ‘Lembrem-se do que Amaleque fez com vocês’ (Deuteronômio 25:17). Nós lembramos e lutamos.

Trecho retirado do discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu, proferido em 28 de outubro de 2023

    Prezados leitores, de acordo com o Velho Testamento, os amalequitas eram uma tribo nômade que perseguiu os judeus quando do êxodo do Egito e os atacou em Refidim, perto do Monte Sinal. Os amalaquitas foram derrotados por Josué e de maneira definitiva no tempo do profeta Ezequiel, no século VI a.C. Essa é a história contada no Velho Testamento, mas o que exatamente é fato histórico e o que é mito não se sabe e nunca se saberá. O importante é que ela é usada no século XXI para justificar a ofensiva israelense em Gaza após os ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023. É preciso seguir a Bíblia ontem, hoje e no futuro. Não se esquecer do que Amaleque fez, como está no Deuteronômio, citado acima, significa no século XXI não se esquecer dos inimigos de Israel, assim como os amalequitas, supostamente liderados por Amaleque, eram os inimigos do povo judeu quando este saiu do Egito, o que também não se sabe se realmente ocorreu.

    Qualquer que seja o grau de historicidade dos amalequitas e do seu chefe Amaleque, a mensagem é clara: a Bíblia comanda os fiéis a jamais esquecerem e no contexto atual do Estado de Israel, essa exortação à memória é uma exortação à vingança contra os inimigos do povo judeu, no caso o Hamas. Temos aqui um duplo movimento intelectual: em primeiro lugar, toma-se uma narrativa bíblica como se os acontecimentos tivessem realmente ocorrido no tempo histórico e em segundo lugar interpreta-se o comando do Deuteronômio como uma ordem para atacar aqueles que no presente desempenham o papel dos amalequitas de outrora. Para entendermos como tal movimento é possível, é útil fazermos referência a Orígenes, o mais influente e importante teólogo e estudioso da Bíblia do início da Igreja Cristã na Grécia.

    Para Orígenes, sob a letra das leis, das histórias, dos mitos e das parábolas havia uma verdade espiritual escondida que cabia ao exegeta revelar. Não se podia tomar as narrativas bíblicas como uma descrição de acontecimentos históricos, mas como símbolos a serem decifrados pelos poucos que, abençoados pela graça de Deus, conforme o trecho que abre este artigo, se dedicariam à exegese textual. Tal esforço intelectual revelaria que a Bíblia tinha duas camadas mais profundas de significado, além do sentido literal: um sentido moral e um sentido espiritual. Sob tal perspectiva, nenhum homem dotado de sensatez poderia considerar que a história da criação do mundo contida no Gênesis era uma descrição do que realmente havia se passado. Nem que Deus havia plantado a árvore da vida no Jardim do Éden ou que o Diabo havia levado Jesus ao topo de uma montanha e lhe oferecidos os reinos deste mundo. A literalidade dessas histórias escondia seu verdadeiro sentido: o Jesus Cristo de carne e osso descrito no Novo Testamento era o Logos ou Razão que organizava o mundo, o pensamento de Deus que se materializava na Terra e lhe dava ordem e racionalidade.

    Não é de se admirar que Orígenes, que morreu depois de ser preso e torturado por sua fé cristã em 250, tenha sido posteriormente declarado um herético pelo Papa Anastásio em 400. Conforme explica Durant no trecho que abre este artigo, se as narrativas das Escrituras não deveriam ser tomadas em seu sentido literal, a vida de Cristo na Terra era um mito: seu nascimento de uma virgem, seus milagres, sua ressurreição não eram fatos históricos, mas símbolos de uma verdade moral e espiritual. Nesse caso, como postular que a fé cristã era algo mais do que a miríade de seitas esotéricas que se propunham estabelecer o contato místico com a divindade? Se o exegeta poderia interpretar individualmente a Bíblia e tirar suas próprias conclusões, porque haveria a necessidade de uma Igreja que centralizasse em si os ritos e os sacramentos, que dissesse o que era acerto e o que era errado, o que pertencia a Deus e o que pertencia ao Diabo?

    Assim é que Orígenes, apesar de ter editado o Velho Testamento, colocando lado a lado seis versões diferentes na Héxapla, acabou sendo renegado pela Igreja Cristã. Sua visão da Bíblia como uma alegoria não permitia que a Igreja pudesse estabelecer seus dogmas em terreno firme, pois eles estariam sempre sujeitos à revelação de uma outra verdade por um outro estudioso das Escrituras. Em seus primeiros séculos de vida, em que a Igreja Cristã se enfrentava com o Império Romano e os deuses do amplo panteão clássico, ela não tinha necessidade de homens místicos cujo encontro com a divindade era uma experiência pessoal e intransferível. De místicos já bastavam João Batista e Jesus Cristo. Ela tinha isso sim a necessidade de estabelecer um conteúdo teológico, fundado na infalibilidade das Escrituras, que mostrasse como a religião cristã era superior a todas as outras, porque Jesus Cristo era filho de Deus, que se fez homem no mundo, viveu e ressuscitou.

    Prezados leitores, essas breves explicações sobre uma parte do pensamento de Orígenes e sobre a razão por que foi declarado herege pela Igreja Cristã permitem-nos ver que a Bíblia se presta a diferentes níveis de interpretação, a depender do objetivo de cada um. Em busca da transcendência espiritual, Orígenes via nos acontecimentos narrados uma mera porta de entrada para um sentido metafórico oculto pela literalidade do texto. A Igreja, querendo estabelecer e consolidar seu poder, apresentava a extraordinária vida de Jesus na Terra como o fundamento da superioridade intelectual da sua mensagem. E o primeiro-ministro de Israel, querendo justificar as ações militares do país nos territórios habitados pelos palestinos, cita a Bíblia para exortar os israelenses a fazer o que Deus manda e derrotar seus inimigos. Diferentes objetivos, diferentes exegeses. Uma coisa é certa, no entanto: mito ou testemunho histórico, poesia ou biografia de grandes profetas, literatura ou narrativa dos feitos de um povo e de uma pessoa em especial, a Bíblia será sempre invocada, manipulada, usada e abusada enquanto houver fiéis das três religiões monoteístas, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *