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Esse est percipi

Posted by on 12/11/2025

O fornecedor do Pentágono, Elon Musk, atualmente o homem mais rico do mundo, postou um videoclipe mostrando como as pessoas podem usar a ferramenta de geração de vídeos por meio de IA, a Grok Imagine, para criar a imagem do rosto de uma mulher dizendo “Vou sempre amar você.” O clipe gerado por IA parece falso e horripilante, e tudo em relação ao post de Musk é decididamente deprimente. Mas não é tão falso, horripilante e deprimente quanto a distopia capitalista que deu origem a ele. Isso é tudo o que a classe dominante tem a oferecer a você. Amor fake. Conexões fakes. Truques inúteis para nos entreter à custa da biosfera agonizante.

Trecho retirado do artigo “This is All Our Rulers are Offering Us”, publicado em 10 de novembro de 2025 pela jornalista australiana Caitlin Johnstone

Ele não negava a realidade de um mundo externo, uma fonte externa das nossas percepções; ele apenas negava a materialidade daquele mundo. Os objetos externos podem continuar a existir quando não os percebemos, mas isso só ocorre porque são objetos de percepção na mente de Deus. E na verdade (ele continuava), nossas sensações são causadas não pela matéria externa, mas pelo poder divino atuando sobre os nossos sentidos. Somente o espírito pode atuar sobre o espírito; Deus é a única fonte das nossas sensações e ideias.

Trecho retirado do livro “The Age of Louis XIV”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), sobre o filósofo irlandês George Berkeley (1685-1753)

    Prezados leitores, quem não se entretém com videoclipes do TikTok ou do YouTube? Sou fã de videoclipes chamados PUPPET REGIME, que mostram bonecos representando líderes mundiais como Vladimir Putin, Donald Trump, Nicolas Maduro, Xi Jinping, Narendra Modi e até Lula e Bolsonaro conversando entre si. O boneco de Donald Trump cantando “I brought peace to the Middle East” é impagável. O topete loiro está lá, a profusão de adjetivos que ele usa, o tom de voz que ele adota para proferi-los e principalmente o cacoete que o Trump real tem de sugar saliva na boca antes de começar uma nova sentença depois de uma pausa. Recomendo PUPPET REGIME a qualquer um que queira dar umas risadas com uma sátira às vezes inteligente e às vezes estereotipada do que fazem todos esses políticos citados. A inteligência artificial tem esse poder cada vez maior de imitar vozes e trejeitos das pessoas. Não há nada melhor para um esquete cômico do que tal verossimilhança.

    Por outro lado, há o lado negro dessa capacidade de imitação da realidade da IA, apontado por Caitlin Johnstone em seu artigo. Fazer um videoclipe em que uma bonita mulher diz ao espectador aquilo que ele quer ouvir pode ser à primeira vista um feito e tanto, mas o perigo está em substituir o real pelo fake: contentar-se com a interação com uma mulher fake, falando de maneira falsa que ama o espectador.  A pessoa que assiste a esse videoclipe está gastando o tempo dela consumindo aquele conteúdo quando poderia estar se dedicando a estabelecer conexões de verdade com o sexo oposto no mundo físico e não no mundo virtual dos aparelhos eletrônicos. Para Caitlin Johnstone, a distopia que os bilionários que estão desenvolvendo a IA estão criando consiste em colocar o ser humano em um ambiente cada vez mais fake, de contatos virtuais, de mensagens virtuais, de relacionamentos virtuais e a consequência disso é que vamos pouco a pouco nos desumanizando. O futuro é distópico porque as pessoas falarão de seus problemas emocionais com um terapeuta virtual, farão sexo com bonecos e terão namorados ou namoradas que serão criações de IA feitas sob medida para o usuário. Imerso na virtualidade total, o ser humano se transformará em um consumidor passivo de conteúdos fake destituído de autonomia, da capacidade de pensar e de atuar no mundo. Esta é a visão pessimista de Caitlin Johnstone se deixarmos que a revolução tecnológica proporcionada pela IA crie raízes na sociedade.

    O que é chocante para pessoas nascidas ainda no século XX é a disrupção do paradigma materialista tão entranhado na sociedade ocidental há séculos, desde o começo dos ataques ao cristianismo e sua espiritualidade engessada por parte dos filósofos iluministas. Esse paradigma postula basicamente que o mundo consiste em objetos materiais, duros, corpóreos, que podem ser vistos, tocados, cheirados, degustados, ouvidos. Objetos que têm uma certa consistência, um certo volume, uma certa maleabilidade, uma certa forma, uma certa cor, um certo odor. Há uma maneira objetiva de verificar a existência desses objetos, descrevendo-os e medindo-os de modo a estabelecer suas qualidades e quantidades. Tudo muito óbvio antes do advento do mundo virtual da internet e dos simulacros da IA, não? Não necessariamente, pois houve quem questionasse esses pressupostos materialistas que embasavam nossa visão de mundo até pouco tempo. Um desses indivíduos, foi o filósofo George Berkeley, cuja filosofia pode ser resumida na frase “Existir é perceber” ou “Esse est percipi”, como ele escreveu em latim.

    Berkeley nega o materialismo colocando a seguinte indagação: como podemos ter certeza que os objetos externos que causam uma impressão nos nossos órgãos do sentido realmente existem? Como ter certeza de que eles não passam de imagens vívidas surgidas durante o dia como os sonhos o são durante a noite? Para Berkeley, aquilo que consideramos como as marcas do que fazem os objetos terem uma realidade independente e a que chamamos de matéria, não passam de qualidades e quantidades determinadas por nossa mente. A extensão, a solidez, o formato, o número, o movimento, o repouso dos objetos são percepções da nossa mente e os objetos só adquirem existência para nós na medida em que são percebidos, daí o “Esse est percipi”.

    Nesse sentido, aquilo que chamamos de átomos, prótons, ânions, elétrons, nêutrons ou partículas fundamentais são convenções baseadas em nossas premissas materialistas. A existência de tal matéria é verificada por meio das qualidades e quantidades que determinamos e medimos por meio dos equipamentos que o ser humano teve a capacidade de inventar: a massa, a carga elétrica, a posição, a velocidade, o momento, o atrito e outras categorias. Para Berkeley, não há existência sem percepção, pois uma pressupõe a outra, o objeto só existe porque é percebido por uma mente que o descreve. Daí que uma mente inativa, que não está exercitando a percepção, não pode existir a não ser que ela mesma seja objeto de percepção de outra mente ativa. É nesse ponto que Berkeley introduz a noção de Deus, conforme o trecho que abre este artigo: a divindade é a mente que percebe tudo, que dá existência a tudo, inclusive a nós, seres humanos, é a consciência universal que é a fonte de todas as percepções e ideias. A ideia de Deus é o instrumento pelo qual Berkeley garante a existência eterna das mentes e daquilo a que chamamos de objetos físicos, os quais sob a ótica berkeliana são somente construções mentais.

    Como não deixarmos de traçar um paralelo entre essa consciência universal que dá vida a tudo por meio de sua constante atividade mental e a IA que hoje está sendo desenvolvida pelos bilionários capitalistas denunciados por Caitlin Johnstone? Afinal, ambos os pontos de vista substituem o paradigma da matéria pelo paradigma daquilo que só existe virtualmente e, em assim fazendo causam a subversão da noção de realidade: para Berkeley no século XVIII nada existe fora e independente de uma mente, assim como no mundo da IA no século XXI nada existe além do ambiente virtual, pois tudo pode ser criado dentro dele: pessoas, conexões, relações, mensagens.

    Prezados leitores, a disrupção do paradigma do materialismo e do realismo tão naturalizado na sociedade com o advento da Revolução Industrial no século XIX pode ser maléfica aos olhos de uma pessoa da geração de Caitlin Johnstone, educada com base naqueles princípios fundamentais. No entanto, o idealismo de Berkeley, isto é a noção de que o que quer que existe só é conhecido pelo homem por meio das ideias e como ideias, pode nos ajudar a entender e aceitar melhor o inevitável advento do mundo virtual criado pela IA.

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