Um fazedor de milagres (theios aner, “homem divino”) e as histórias sobre ele constituíam uma aretologia (de areté, “virtude”; também ´manifestação do poder divino, milagre). As aretologias eram frequentemente utilizadas para representar as crenças de um movimento filosófico ou religioso. A Vida de Apolônio de Tiana, um filósofo neopitagórico e fazedor de milagres (transmitida pelo escritor grego Filóstrato), era amplamente lida.
Trecho retirado do verbete Literatura Bíblica da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica
Apolônio é apresentado como o filho de Deus que fez muitos milagres, incluindo a ressurreição dos mortos, e que ao final da sua vida subiu aos céus e apareceu aos seus seguidores. Esse texto muito provavelmente imitava os Evangelhos. Isso prova que Apolônio é um personagem de ficção? Não. Ele era um filósofo pitagórico real que viveu 50 anos depois de Jesus. Tais paralelos simplesmente provam que os biógrafos antigos não escreviam biografias no sentido moderno. Eles reciclavam padrões estabelecidos e tomavam emprestado elementos do léxico de temas narrativos preexistentes. A natureza estereotipada de alguns temas dos Evangelhos não é prova que que Jesus não existiu.
Trecho retirado do artigo “Save Jesus! Against Mythicism and Atwill’s Theory” publicado pelo escritor francês Laurent Guyénot em 2 de dezembro
Pregando a reincarnação, ele conclamava seus seguidores a não fazer mal a nenhuma criatura viva e a não comer carne. Ele os exortava a evitar a inimizade, a calúnia, os ciúmes e o ódio; “se somos filósofos”, ele dizia a eles, “não podemos odiar nossos companheiros”.
Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, de Will Durant (1885-1981) sobre o filósofo Apolônio de Tiana morto ao redor de 96 d.C.
Afinal, Jesus existiu ou não existiu? Se ele existiu na História como um pregador na Galiléia, o que podemos saber dele? E se ele não existiu quem o inventou e qual o motivo da criação do personagem? Estas são perguntas polêmicas que vem sendo feitas há séculos, desde que os protestantes começaram a ler a Bíblia de cabo a rabo e a estudá-la seriamente. E a resposta, em última análise, dependerá dos valores de cada um, porque a análise filológica das Escrituras e sua comparação com relatos de historiadores não cristãos nunca será suficiente para que os acadêmicos cheguem a uma conclusão definitiva.
Muitas obras de história se perderam em meio às guerras, às invasões de povos vindos de outros continentes, a desastres naturais. Quem poderia contar uma versão diferente do que ocorria nas províncias do Império Romano no primeiro século da nossa era jamais estará acessível a nós, no século XXI, porque suas obras viraram pó. Resta a nós, depois de termos feito nossa escolha sobre crer ou não na existência de Jesus, decidirmos qual versão podemos aceitar do personagem. Para isso, comparar sua trajetória à de outro místico que viveu no mundo greco-romano pode ser útil. O homem em questão chama-se Apolônio de Tiana, e sua história foi escrita pelo escritor ateniense Filóstrato (170-250) a mando da imperatriz Júlia Domna (170-217), esposa do imperador Septímio Severo (145-211), para contrabalançar a já crescente influência do cristianismo. Portanto, Apolônio foi proposto, enquanto personagem histórico retratado na literatura, como um herói pagão, em contraposição ao herói cristão.
Filóstrato elaborou uma representação aretológica. Conforme o trecho que abre este artigo, as aretologias eram histórias que ilustravam a perfeição moral. Contava-se a trajetória de um indivíduo não somente com base naquilo que de fato acontecera em sua vida, mas com base nas virtudes que ele encarnava. Assim é que A Vida de Apolônio de Tiana mistura elementos factuais e elementos que exemplificavam a tese de que ele era um homem virtuoso. Nascido em Atenas, aos 16 anos de idade, ele aderiu à irmandade dos seguidores de Pitágoras, os quais seguiam regras e rituais cujo objetivo era a purificação da alma para que ela concretizasse sua natureza divina.
Apolônio não comia carne, não bebia vinho, não se casou, não se barbeava e chegou a ficar calado por cinco anos. Depois de distribuir seu patrimônio a parentes, vagou pela Pérsia, Índia, Egito, Ásia Ocidental, Grécia e Itália. Ele cultuava o sol e aceitava os deuses do politeísmo, considerando que além deles havia uma divindade suprema que não podia ser conhecida. Por ser abnegado e piedoso, seus discípulos o consideravam filho de Deus e foram-lhe atribuídos vários milagres: o de atravessar portas fechadas, o de entender qualquer língua, o de expulsar demônios e o de ressuscitar uma menina. Tendo sido acusado de sedição e bruxaria, foi a Roma defender-se das acusações perante o imperador Domiciano (51-96), foi preso e depois conseguiu escapar, morrendo, em idade avançada, em 98. Seus seguidores alegaram que depois de sua morte ele apareceu para eles e que depois ascendeu ao céu.
É fácil ver os temas recorrentes tanto na vida de Apolônio de Tiana, quanto na vida de Jesus de Nazaré: a vida exemplar de negligência dos bens materiais e de ênfase na espiritualidade, os milagres, a perseguição, a filiação divina, a ressurreição. Essas recorrências seriam meras coincidências ou os pregadores religiosos, os ascetas, os filósofos do primeiro século da nossa era eram retratados da mesma maneira porque essas eram as virtudes cultivadas naquele mundo romano cujo império estava se esfacelando? É muito mais provável que todos os homens divinos da época fizessem mais ou menos a mesma coisa de acordo com a história contada de suas vidas porque havia estereótipos morais e filosóficos compartilhados em uma sociedade que estava passando por profundas transformações em virtude das invasões bárbaras.
Como explica Laurent Guyénot em seu artigo, esses moldes preexistentes usados para elaborar biografias não faziam do sujeito retratado simplesmente um mito, um personagem sem carne e osso, criado apenas para ilustrar determinada corrente filosófica ou teológica. Por outro lado, o fato de as biografias serem aretologia deve chamar nossa atenção para o quanto o personagem histórico, à medida que vão sendo elaboradas as narrativas a respeito dele, adquire um significado que vai muito além do que de fato ele experimentou em sua vida.
Sob essa perspectiva, a pergunta sobre se Jesus ou Apolônio realmente existiram ou foram uma ficção fica sem sentido. Se há um mito é porque houve um homem histórico cujas vivências e ensinamentos tiveram repercussão na sociedade de forma que essa história, contada e compartilhada por muitos, acaba incorporando os valores e as expectativas dos contadores e receptores dela. A realidade fática estará sempre subordinada ao objetivo de dar exemplos edificantes sobre a vida virtuosa ou ao menos estará combinada com tal objetivo. Mesmo que um cético considere que nem Jesus nem Apolônio viveram e morreram nesse mundo na época de crise do Império Romano, enquanto personagens eles existiram e sempre existirão enquanto o homem contar histórias e der uma moral a elas.
Prezados leitores, em tempos como os nossos, em que o discurso religioso no Brasil é usado para conquista de eleitores, é sempre bom lembrar que quem cita trechos da Bíblia como argumento de autoridade o faz no quadro de suas próprias crenças e valores, os quais não necessariamente serão compartilhados por todos. Os Evangelhos, assim como A Vida de Apolônio de Tiana, misturam biografia com mensagens edificantes e éticas. A verdade dessas obras não está necessariamente naquilo que ela descreve como o ser, mas também naquilo que ela descreve como o dever ser, i.e. o conjunto de valores morais a que a sociedade almeja. Esperemos que aqueles que são mais receptivos a essa verdade religiosa saibam perceber essas nuances de maneira a não denegrir aqueles que são menos receptivos a ela. Do contrário teremos que conviver eternamente com a tal da polarização política.