Espera-se que o crescimento no Brasil diminua de 2,2% em 2026 para 1,9% em 2027, um reflexo de condições monetárias que ainda se manterão restritivas para colocar a inflação de volta no centro da meta, da suspensão do apoio proporcionado pela política fiscal e da incerteza global.
Trecho retirado do “World Economic Outlook”, publicado pelo FMI em outubro de 2026
A estratégia fiscal de médio prazo das autoridades tem como pressuposto que haverá um aumento constante do superávit primário: 0,5% do PIB por ano em 2027-2028 e 0,25% por ano em 2029-2030, chegando a 1,5% do PIB em 2030, com o superávit primário real atingindo 1,25% do PIB em 2030 (incluindo uma margem permitida). De acordo com essas projeções, a relação dívida/PIB começará a se estabilizar em 2029 na faixa de 88% do PIB. A Fitch considera que o superávit primário estabilizador da dívida será maior, ao redor de 2,5% do PIB. No entanto, percorrer essa rota requer ajustes sustentáveis bem além de 2027, cujas perspectivas permanecem obscuras.
Trecho de um relatório publicado pela agência de notação Fitch Ratings sobre o Brasil em 10 de setembro intitulado “Brazil’s 2027 Budget – Slow Consolidation Delays Debt Stabilization”
Prezados leitores, ouço lá fora buzinaços, vejo bandeiras tremulando nos carros, gritos de apoio. Nas calçadas, há cartazes colados nos postes falando que Bolsonaro é Trump, Lula é Brasil. Uma mulher dentro do vagão onde eu estava no sábado passado dizia que não deixaria que o Bolsonaro tirasse o BPC (benefício de prestação continuada) dos autistas. Em suma, quem vota em Lula tem medo de que um governo de direita corte benefícios sociais e que se alinhe com os Estados Unidos para tomar nossas terras raras, entre outras coisas. Quem vota em Bolsonaro acha que há benefícios demais pagos por quem trabalha e querem diminuição de impostos, além de ter medo de o Brasil se alinhar com o chamado eixo do mal (Rússia, China e Irã) e de se transformar em um país dominado por traficantes de drogas.
Estas são basicamente as razões pelas quais os eleitores escolhem um ou outro, independentemente da qualidade dos candidatos. Ora, tirante a política externa, que é usada como argumento para efeitos retóricos de luta contra o imperialismo ou luta contra o terrorismo, contra o comunismo ou contra o crime organizado internacional, o que determina em larga medida a escolha das pessoas é o interesse material delas, ou como disse em 1992 James Carville, então estrategista da campanha presidencial de Bill Clinton contra George H. W. Bush no Estados Unidos, “é a economia, estúpido”.
Meu objetivo nesta semana será tratar das finanças públicas, pois elas acabam tendo um efeito sobre o nível de investimentos, sobre o crescimento econômico, sobre o endividamento das famílias e das empresas e sobre a capacidade do Estado de entregar serviços públicos. O tema subjacente dos dois debates entre os dois candidatos foi “Como fazer um ajuste fiscal?”. Subjacente porque nenhum deles abordou a questão de maneira transparente, afinal, como eu disse na semana passada, as qualidades necessárias para se mostrar atraente aos eleitores são diferentes das qualidades necessárias para governar. Lula e Flávio contaram meias verdades ao público, quando não mentiram, porque se fossem tratar de um tema árido como o ajuste fiscal não poderia haver geração de cortes de vídeos para serem publicados nas redes sociais com insultos e tiradas.
E por que o tema era o ajuste fiscal? Porque é ele que vai redimensionar as receitas e as despesas do governo, em outras palavras é ele que vai determinar quem vai conseguir benefícios e quem vai pagar impostos para financiar esses benefícios. A necessidade de tal ajuste é consenso entre economistas, a questão é sobre como fazê-lo. De acordo com as estatísticas fiscais publicadas pelo Banco Central em 30 de setembro, a DBGG (Dívida Bruta do Governo Geral) – que compreende Governo Federal, INSS e governos estaduais e municipais – atingiu 82,9% do PIB (R$11,1 trilhões) em agosto de 2026. Em doze meses, o setor público consolidado acumulou déficit de R$82,1 bilhões, equivalente a 0,62% do PIB e o crescimento econômico acumulado em 12 meses (até agosto de 2026) foi de 1,6%. Em 2025, o déficit primário foi de R$ 61,7 bilhões em 2025 e o crescimento econômico foi de 2,3% O que significam esses números na prática e porque eles indicam a necessidade de reequilibrar receitas e despesas?
Registrar déficit primário significa ter menos receitas que despesas, não considerando as despesas com o pagamento dos juros da dívida. Isso significa que nossa política fiscal atual está aumentando a dívida, ao invés de diminuí-la, porque o governo precisa captar dinheiro no mercado tanto para cobrir o déficit primário quanto para pagar os juros da dívida. Se conseguíssemos gerar superávits primários isso significaria que a taxa de crescimento da dívida diminuiria porque teríamos dinheiro ao menos para pagar os juros da dívida existente, sem aumentá-la com déficits recorrentes nas contas públicas. Há inclusive um outro indicador de macroeconomia denominado superávit primário estabilizador da dívida que dá uma ideia mais precisa da situação fiscal. Não basta ter superávit primário, é preciso que ele seja suficiente para estabilizar a dívida, isto é, que ele seja grande o suficiente para estabelecer a relação entre dívida e PIB em um patamar estável. Caso o superávit primário registrado no ano seja menor do que aquele que estabiliza a dívida, isso significa que o saldo das receitas e despesas governamentais leva a um aumento na razão dívida/PIB.
Ora, no atual momento estamos em um estágio anterior tanto ao superávit primário quanto do superávit primário estabilizador da dívida, pois registramos déficit primário em 2025 e 2026, combinado com queda no crescimento do PIB de 2025 para 2026. O jornalista econômico Celso Ming, em seu artigo “A tartaruga e a lebre; o PIB e a dívida”, publicado em 18 de outubro, afirma que a dívida pública cresce 4% ao ano em termos reais, muito além do crescimento do PIB.
O governo atual tem um plano para atacar o descompasso entre o baixo crescimento do PIB e o crescimento da dívida, de acordo com o trecho citado na abertura deste artigo. O relatório da Fitch explica que a equipe econômica atual pretende atingir um superávit primário de 1,25% do PIB para estabilizar a dívida em 88% do PIB em 2029. Para a agência de notação, o superávit primário estabilizador da dívida é muito maior, da ordem de 2,5% do PIB. Fazer um ajuste fiscal desse tamanho, considerando que atualmente temos um déficit primário de 0,6% do PIB, exigirá que várias condições estejam presentes ao mesmo tempo, o que não é certo.
Será preciso manter um crescimento econômico robusto. A equipe econômica do atual governo projeta crescimento do PIB de 2,6% em 2027, a Fitch prevê 1,7%, o FMI 1,9%, conforme o relatório do “World Economic Outlook”. Como aumentar o crescimento econômico se a taxa de juros real no Brasil, que está em 8,45% (fonte: MoneYou), está muito além da lucratividade possível dos investimentos? Por que investir, ter trabalho e correr o risco de fracasso se eu posso adquirir títulos do Tesouro Nacional e ganhar mais sem ter problema nenhum? E como diminuir a taxa de juros se o governo tem necessidade constante de financiamento do déficit? Afinal, no cenário internacional, há uma tendência de aumento nas taxas de juros de longo prazo nos países desenvolvidos pelo fato de eles mesmos terem que financiar seu déficit vendendo títulos do tesouro, o que cria a necessidade para o nosso Banco Central de manter taxas altas de juros para que o governo brasileiro possa captar recursos. E quanto mais altos os juros que pagamos maior o estoque da dívida.
Sair desse círculo vicioso de juros altos, crescimento econômico baixo, dívida alta e necessidades crescentes de financiamento é o X da questão. Um governo do PT não vai “rifar os pobres” cortando benefícios sociais para diminuir despesas. Os eleitores suspeitam que Bolsonaro cortará aposentadorias, pensões e verbas assistenciais sem dó nem piedade. Isso claramente é um exagero, mas sua “Chicago Girl” Daniella Marques pode propor desvincular o reajuste do salário mínimo do reajuste dos benefícios previdenciários. Bolsonaro negou que fará isso no Jornal Nacional, mas não se pode confiar em nada do que é dito por um candidato que precisa agradar os eleitores com histórias de alegria e esperança.
O que fazer? Esperar que as expectativas otimistas de crescimento do PIB da equipe de Lula se concretizem e a dívida se estabilize pela geração de receitas da atividade econômica? Cortar despesas sociais? Mas em cortando despesas sociais, os beneficiários das verbas deixarão de consumir e haverá efeito sobre o crescimento econômico. Aumentar impostos? Mas em aumentando impostos os empresários podem desistir de investir pelo aumento do custo, o que acaba diminuindo as receitas governamentais. Haverá a necessidade de uma calibragem bem feita entre o esforço de arrecadação e o corte de despesas do Estado, de maneira que não se exagere na dose e o tiro não saia pela culatra, o que em termos econômicos significará menos crescimento econômico, mais inflação, mais déficit público, ou seja estagflação.
Prezados leitores, qualquer que seja o governo eleito, a equipe empossada terá que responder a várias perguntas. Cortar quais despesas? Quais são as despesas cujo corte não causará graves diminuições na demanda agregada? Será possível diminuir impostos para estimular a atividade econômica? Ou o aumento de impostos é inevitável para diminuir o déficit público? Como fazer o PIB crescer sem ser pelo aumento do crédito, considerando que as altas taxas de juros acabam levando ao endividamento? Como substituir o nacional-consumismo dos anos Lula que fez com que 8 em cada 10 famílias brasileiras tenham dívidas por um modelo econômico que não seja de soma zero? Aguardemos os próximos meses para ver se teremos algumas dessas respostas que determinarão o poder de compra e a qualidade de vida dos brasileiros. Afinal, o que importa é a economia, estúpido!
, Uma abordagem normalmente usada para avaliar a sustentabilidade da dívida pública é estabelecer uma determinada razão dívida/PIB e então calcular o superávit primário necessário à sua manutenção mais conhecido como superávit primário estabilizador da dívida.
A DBGG – que compreende Governo Federal, INSS e governos estaduais e municipais – atingiu 82,9% do PIB (R$11,1 trilhões) em agosto de 2026