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Modesta proposta de paz

Posted by on 03/09/2025

“Veja, eu sinto minto em dizer isso a você, mas as crianças que estão morrendo em Gaza realmente não me chateiam de maneira nenhuma. Nem a fome que lá existe ou não. Realmente não me interessa. Vou falar claramente: com relação a mim, elas podem cair todas mortas lá”’

“Genocídio como legado do Exército de Israel, para o bem das futuras gerações”; “Para cada israelense em 7 de outubro, 50 palestinos têm que morrer. Não importa agora, crianças. Não falo de vingança; é uma mensagem para as futuras gerações. Não há nada a fazer, eles precisam de uma Nakba de vez em quando para pagar o preço

Trecho retirado do artigo “‘As crianças em Gaza não mais importam’, disse o general ‘moderado’ do Exército de Israel”, escrito por Gideon Levy e publicado no jornal Haaretz em 17 de agosto

O imperativo categórico assume duas formas: “Aja de maneira que a máxima de que sua vontade sempre continua válida como princípio de legislação universal”; aja de tal maneira que se todos agirem como você, tudo ficará bem. […] em uma segunda formulação, “Aja de forma a tratar a humanidade, seja na sua própria pessoa ou na de qualquer outra, em todos os casos como um fim, nunca como um meio.”

Trecho retirado do livro “Rousseau and Revolution”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre o conceito de moral do filósofo Immanuel Kant (1724-1804)

    Prezados leitores, há uma exposição de fotojornalismo no prédio da Caixa Econômica Federal, no centro de São Paulo, intitulada World Press Photo. Há fotos de vários conflitos ao redor do mundo, na África, sobre os quais nunca ouvimos falar porque não interessam ao Ocidente, e na Ucrânia e em Gaza, sobre os quais ouvimos cotidianamente porque estão na órbita de interesse da Europa e dos Estados Unidos. As fotos da Ucrânia mostravam adultos e crianças, as fotos de Gaza só mostravam crianças, entre elas um menino sem os dois braços. E realmente o que chama a atenção no conflito que se desenrola no Oriente Médio desde 7 de outubro de 2023 é a quantidade de crianças imoladas.

    De acordo com o ex-embaixador britânico Craig Murray, a porcentagem de crianças mortas em Gaza é de 37,7% e na Ucrânia é de 0,3%. Os israelenses estão seguindo uma prática bélica pela qual se as crianças não são um alvo especialmente escolhido, pelo menos não é leviano dizer que eles não se importam se uma infinidade de crianças morra. De fato, analisando as palavras do general israelense Aharon Haliva citadas no artigo de Gideon Levy mencionado acima, quem está comandando as operações militares em Gaza considera que mutilar, matar de fome, assassinar crianças não é um ato de vingança, mas uma medida necessária para que os palestinos aprendam de vez a obedecer, a não reivindicarem autonomia e a aceitarem aquilo que os israelenses se dignarem a lhes darem, mesmo que seja somente comida que mal dê para a sobrevivência.

    Se não é vingança pelo ataque do Hamas há quase dois anos, talvez seja maquiavelismo: fazer o mal de maneira incisiva e rápida para causar o maior dano possível em um curto espaço de tempo e instilar o medo no alvo da violência de forma a coagi-lo à submissão. Ou então é a aplicação da moral retirada das conclusões de Charles Darwin (1809-1882) sobre a evolução das espécies: a vida é uma luta pela sobrevivência e cada indivíduo ou grupo que faça uso das ferramentas que tem a seu dispor para se impor e derrotar seus concorrentes por terra e recursos naturais. Olho por olho dente por dente, maquiavelismo ou darwinismo podem ser fundamento para estabelecermos regras de convivência social e de tratamento de um ser humano pelo outro? O filósofo de Konisberg propôs uma outra moral, fundada no conceito de imperativo categórico.

    Para Immanuel Kant, o ser humano difere dos outros animais por ter uma consciência, um senso do dever, a consciência de haver mandamentos morais. Nesse sentido, os conceitos éticos são apriorísticos, isto é, existem como categorias mentais, inerentes à estrutura da mente e totalmente independentes do mundo das sensações e da experiência. Outra característica tipicamente humana para Kant é a de ter livre arbítrio, isto é, a de ter liberdade de escolher que conduta tomar.

    Combinando esse senso moral do homem e a capacidade de obedecer às suas próprias escolhas éticas, Kant chega ao conceito de imperativo categórico. Um preceito moral, para ser definido como tal, deve impor-se ao homem como uma lei universalmente válida, aplicável em qualquer circunstância, em virtude de sua objetividade. Ele deve atender aos dois critérios expostos no trecho que abre este artigo: de um lado estabelecer uma obrigação para o indivíduo de tal forma que ele possa exigir que a mesma obrigação seja cumprida pelos outros; de outro lado, respeitar a dignidade humana, isto é, o conceito de que o ser humano não é nunca um instrumento, mas um fim em si mesmo, pois é dotado de racionalidade e do senso ético.

    Em suma, o imperativo categórico de Kant estabelece um princípio de boa vontade mútua entre as pessoas: prometo que tratarei você como gostaria de ser tratado e que nunca farei de você um meio de satisfazer minhas paixões e concretizar meus desígnios e que possa ser manipulado e descartado quando não tem mais utilidade. Para Kant, a razão por si só não pode estabelecer se Deus existe, se a alma imortal existe, se o livre arbítrio existe, etc. Mas ela pode estabelecer um dever-ser aplicável a todo e qualquer indivíduo na face da Terra, de forma que possamos pautar nossas relações pela boa-fé mútua, pela confiança de que se eu participar do jogo das relações humanas não serei dolosamente prejudicado.

    Prezados leitores, à luz das lições de Kant, podemos perguntar aos executores do genocídio em Gaza: Vocês gostariam de ser tratados como estão tratando os palestinos? Vocês gostariam de ser tratados como instrumentos de um plano geopolítico de estabelecer Grande Israel, o Israel do Velho Testamento, que ocupa uma área muito maior do que a área ocupada pelo Estado de Israel atualmente? Se a resposta for um sonoro não para as duas perguntas, isso significa que não há justificativa moral para o que está sendo feito em Gaza e que por essa razão haverá sempre desconfiança mútua geradora de violência. Oxalá a comunidade internacional possa algum dia convencer o Estado de Israel da conveniência de seguir os preceitos kantianos para conquistarmos a paz naquela região.

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