O pragmatismo enfatiza a irracionalidade das opiniões e a psicanálise enfatiza a irracionalidade da conduta. Ambos levaram muitas pessoas a adotar o ponto de vista de que não há um ideal de racionalidade ao qual a opinião e a conduta podem conformar-se de maneira vantajosa. Daí parece seguir-se que, se eu e você temos opiniões diferentes, é inútil recorrer aos argumentos, ou procurar a arbitragem de um indivíduo de fora imparcial; não há nada a fazer a não ser disputar para ver quem ganha, pelos métodos da retórica, propaganda ou pela guerra, de acordo com o grau da nossa força militar ou financeira.
Trecho retirado do ensaio “Can Men be Rational?”, incluído na coletânea “Skeptical Essays” do filósofo e matemático britânico Bertrand Russell (1872-1970)
O ministro Fux terminou calado e mesmo hostilizado por um voto “exageradamente apegado à lei”, como escutei de um advogado. Haveria algo errado nisso? Cada um pode responder. O tempo dirá, como de resto sempre acontece, quem tem a razão.
Trecho do artigo “O divórcio brasileiro”, escrito por Fernando Schüler, doutor em Filosofia e mestre em Ciências Políticas pela UFRGS, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 14 de setembro de 2025
Prezados leitores, no Museu Capitolino em Roma, há uma famosa estátua do imperador Marco Aurélio (121-180) sentado em um cavalo com o braço estendido em posição de comando. Ele foi um dos governantes de Roma pertencentes ao seleto grupo de reis-filósofos que governaram entre 96, com a ascensão de Nerva (30-98) ao poder naquele ano, até a morte do autor de Meditações em 180. Os historiadores consideram que neste ínterim exerceu o poder a melhor série de bons e grandes soberanos que o mundo jamais conheceu. Bons porque no geral eram pessoas virtuosas, não corruptas, que pensavam em servir às pessoas sob seu comando e não em satisfazer suas paixões pelo exercício do poder; e grandes porque comandaram o império romano aprimorando a justiça, garantindo a paz e a segurança das fronteiras e expandindo a infraestrutura pública.
Marco Aurélio em particular optou logo cedo por priorizar a filosofia não só como objeto de estudo como objeto de prática de vida. Como já mencionado aqui neste humilde espaço, ele era um estoico e por isso procurou ao longo de sua vida ser modesto, paciente, viril, abstêmio, piedoso e benevolente e levar uma vida simples. Apesar de ter carinho pelo seu professor de retórica Cornelius Fronto, ele deixou-a de lado, porque a considerava uma arte vã e desonesta, preferindo a especulação filosófica que lhe oferecia a possibilidade de elaborar hipóteses sobre o funcionamento do mundo e o comportamento das pessoas que nele vivem.
Não é diferente a ideia de retórica do filósofo Bertrand Russell, de acordo com o trecho que abre este artigo. No ensaio “Can Men be Rational?”, ele tenta responder à pergunta sobre se é possível ao homem agir de maneira racional ou guiar-se pela racionalidade, isto é, pela ponderação de todas as evidências disponíveis e as probabilidades do caso para chegar a uma conclusão de maneira objetiva. Para os pragmáticos, a racionalidade não existe. O que o homem diz que é verdade é simplesmente a opinião que ele adota como uma ferramenta na luta pela sobrevivência. Assim, uma religião é adotada não por ser a verdadeira, que fala do verdadeiro e único Deus, mas por ela trazer benefícios a quem detém o poder. Para os psicanalistas, a racionalidade é apenas racionalização, o verniz que o ser humano dá aquilo que ele decide com base em seus impulsos, desejos e paixões. Nesse sentido, a decisão não é fruto da análise desapaixonada de todas as facetas de uma situação, mas do esforço de dar vazão ao conteúdo inconsciente do homem por meio de uma forma consciente, que é a razão elaborada a posteriori, isto é como justificativa para determinado comportamento instintivo.
Se a irracionalidade é a norma, seja em termos de opiniões, como no caso dos pragmáticos, seja em termos de conduta, como no caso dos psicanalistas, isso significa que a decisão sobre quem está certo e quem está errado é pura e simplesmente uma luta. Argumentos, se os há, são baseados nas armas disponíveis, seja a retórica, seja a propaganda, de maneira que eles sejam elaborados para serem atraentes e conquistarem as pessoas. Em último caso, quando não há nem esforço de argumentação, por não haver mais possibilidade de diálogo entre os contendores, a guerra resolve a disputa, estabelecendo pela força o vencedor e, portanto, aquele que tem direito ao discurso.
Bertrand Russell não é partidário do irracionalismo nem sob a ótica pragmática, nem sob a ótica psicanalítica. Ele defende a possibilidade da racionalidade com base no que ele chama de egoísmo esclarecido. Não conseguimos nos desvencilhar totalmente dos nossos vieses, temos nossas preferências e preconceitos, mas podemos trabalhar em busca desse horizonte de racionalidade. A única maneira é termos consciência dos nossos desejos e paixões momentâneas, mas também daqueles que não prevalecem agora, mas que estão latentes em nós. Temos, ódio, raiva ou inveja de uma pessoa, mas também devemos procurar nos conscientizar que tais paixões passam e que no longo prazo agir de acordo com esses instintos nos prejudicará no longo prazo, cegando-nos para o que nos é benéfico no frigir dos ovos, isto é, quando levamos em consideração nossas circunstâncias presentes e futuras.
É nesse sentido desassombrado que a racionalidade é possível, se não como realização perfeita, ao menos como um ideal a ser perseguido. Não podemos nos iludir que a objetividade está facilmente ao nosso alcance. Ao contrário, ela requer um esforço cotidiano de contrabalançar nossas motivações atuais com aquelas que se revelarão num futuro próximo ou nem tão próximo, o que queremos agora e o que queremos em última análise para nós, nossos desejos atuais e nossos objetivos de vida. Só assim conseguiremos vislumbrar a gama de aspectos de uma situação e fazermos julgamentos, não nos detendo somente naqueles que são mais chamativos a nós no momento presente. Só assim a irracionalidade presente na religião, na política, na imprensa poderá ser superada.
Prezados leitores, na semana passada, de acordo com os princípios estoicos que embasaram o Direito Romano, propus aos ínclitos Ministros do Supremo Federal que na dúvida não condenassem o ex-presidente Jair Bolsonaro por golpe de Estado. Bem, o único que teve dúvidas e as externou foi Luiz Fux, que conforme relata Fernando Schüler no artigo citado acima, foi considerado extremamente legalista. Os outros quatro Ministros tinham absoluta certeza da culpabilidade do réu. Mas que certeza foi aquela? A certeza como artifício retórico para convencer as pessoas a aderir aos argumentos dos donos do poder, no caso o Judiciário? A certeza da propaganda pela democracia de forma que vale tudo para defendê-la, inclusive não garantir o devido processo legal àqueles considerados como inimigos dela? A certeza pragmática de que Bolsonaro é culpado porque é melhor que assim seja considerando seu despreparo para exercer o cargo de presidente? A certeza de que ele só pode ser culpado porque ele é uma figura odiosa e nojenta?
A mim me parece que o modesto caminho da racionalidade proposta por Bertrand Russell seria melhor para nós brasileiros, o caminho que levasse em conta o frenesi do momento, pelas lembranças da depredação do patrimônio público e pelas incivilidades de Bolsonaro, mas também considerasse que esse frenesi vai passar e que mais uma condenação presidente – considerando a de Lula por Sérgio Moro – por juízes que tinham o objetivo de dar uma lição de moral em um inimigo político em última análise enfraquece a figura do chefe do Executivo e mina nossa confiança nas instituições. Oxalá que da próxima vez sejamos mais racionais.