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O fio da roupa

Posted by on 09/10/2025

Pedro era tão impopular que muitos se perguntavam como ninguém ainda não o havia matado. […] os camponeses o odiavam por convocá-los para o trabalho forçado que os retirava de sua casa, normalmente de sua família […]

Trecho retirado do livro “The Age of Louis XIV”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre Pedro I (1672-1725), imperador da Rússia

Veja-se como um único fio de tudo o que é usado para fazer uma roupa. … Não procure fazer com que as coisas que acontecem com você aconteçam conforme seus desejos, mas deseje que as coisas que aconteçam sejam como são, e você encontrará a tranquilidade.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, do filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) sobre o ex-escravo e filósofo estoico Epictetus (60-120)

Em geral, as mães se tornaram mães-solo. É raro um homem assumir o cuidado intensivo que é necessário o tempo todo. Quem cuida é a mulher. Pense em como deve ser ter em casa uma criança que tem convulsões, grita, sente dor e precisa ser levada com frequência a hospitais e serviços de saúde para fazer estimulação. A mãe acaba presa a essa rotina. Muitas tiveram de sair do trabalho e desistir dos seus sonhos. Elas escutam, em geral dos políticos, “vocês são umas guerreiras”. Recentemente uma delas me falou: “Doutora, não quero mais ser guerreira. Estou cansada.”

Trecho retirado da entrevista da pediatra da Fiocruz, Maria Elisabeth Moreira, sobre os problemas enfrentados pelas crianças com microcefalia causada pela epidemia do vírus zika, em 2015

    Prezados leitores, em julho deste ano estive durante sete dias em São Petersburgo, a cidade das noites brancas, onde o sol se põe no verão depois das 10 da noite. Não que o sol lá seja algo que surja em abundância, mesmo nessa época. Tive dois dias de firmamento azul, quando vi as pessoas deitadas na grama à beira do rio Neva, aproveitando cada minuto da raridade de um tempo agradável. Nos outros dias, o vento uivou e o céu nublou, como não poderia deixar de ser em uma cidade que fica no golfo da Finlândia a 737 quilômetros do Círculo Ártico. Apesar da minha alma tropical ter ressentido um verão que para mim parecia inverno dos mais rigorosos, eu voltaria à cidade pois não consegui ver tudo o que queria e passear de ônibus vendo os canais pela janela é sempre uma dádiva.

    Mas a cidade fundada por Pedro, o Grande em 1703 tem um lado negro, revelado por seu apelido, “Cidade Construída sobre Ossos”.  Os ossos no caso são dos trabalhadores que foram levados à força para lá, principalmente camponeses, criminosos e prisioneiros de guerra, o que fez Pedro ser odiado pelo povo, conforme o trecho que abre este artigo. À época o local, no estuário do rio Neva, não passava de um pântano cheio de mosquitos no verão e afundado na neve no inverno. O resultado foi que os infelizes que tiveram o azar de ter nascido na classe social errada e portanto, estiveram sujeitos ao trabalho forçado, sofreram com malária, diarreia, escorbuto e hipotermia, morrendo às pencas.

    Se a Veneza do Norte encanta pelos palácios à beira da água, pelas pontes por onde passam os barcos que levam turistas para passear, isso se deve ao sacrifício não reconhecido de milhares de pessoas humildes que deram seu corpo e seu sangue para que a cidade saísse do papel e se transformasse na janela da Rússia para o Ocidente. Talvez em um futuro próximo, seja esse o mesmo destino de Gaza, na Palestina. Caso os planos do presidente dos Estados Unidos Donald Trump saírem do papel e ele construir um empreendimento imobiliário à beira do mar Mediterrâneo, qualquer que seja o nome do local estará sobre os ossos dos palestinos mortos pelos bombardeios de Israel.

    Se os construtores de São Petersburgo soubessem, quando iniciaram as obras do Forte de São Pedro e São Paulo, que a cidade ficaria tão linda e seria admirada por pessoas de todo o mundo mais de 300 anos depois, eles não teriam odiado tanto o responsável pela ideia, o tzar de todas as Rússias. Talvez teriam seguido o conselho de Epictetus, o filósofo estoico mais uma vez citado neste meu humilde espaço, conforme o trecho acima. Ou seja, veriam os sofrimentos físicos que lhes foram impostos, os membros amortecidos pelo frio, as picadas de mosquitos, a falta de alimentação adequada, as gengivas sangrando e o sofrimento emocional, causado pelo isolamento no extremo norte do país, longe de seus familiares, como algo que valia a pena porque atendia um objetivo maior. A confecção da roupa de que fala Epictetus, para a qual cada um dá sua humilde contribuição, é a motivação para que todos aceitem sua cota de atribulações materiais e espirituais como algo necessário para o bem comum. Para os estoicos, essa consciência do nosso papel no grande esquema das coisas dá tranquilidade à alma, impedindo que chafurdemos no desespero.

    E se perdemos de vista a roupa que está sendo costurada ou pior, não a vemos de jeito nenhum e nos sentimos como um fio solto no ar voando por aí de déu em déu? E se não achamos sentido para o nosso sofrimento e nos vemos apenas como seres azarados que nasceram no local e no tempo errados? Esse parece ser o caso da mãe de uma criança com microcefalia atendida pela médica entrevistada pela revista Pesquisa Fapesp de outubro de 2025. Ela é chamada de guerreira por políticos que querem dourar a pílula, que querem motivar mulheres a continuar cuidando do filho doente porque sabem que em última análise elas estão sozinhas nisso e há muito pouca ajuda das autoridades e mesmo da família.

    Uma criança com microcefalia precisa de atendimento multidisciplinar, já que além do atraso no desenvolvimento motor e cognitivo, ela também pode ter disfagia, desnutrição, displasia de quadril, alterações auditivas e oculares. Ou seja, seria preciso que houvesse unidades de saúde à disposição com fisioterapeutas, neurologistas, cirurgiões, fonoaudiólogos, oftalmologistas, otorrinolaringologistas e outros profissionais de saúde que trabalhassem para que as sequelas do dano cerebral fossem as menores possíveis e a criança pudesse praticar o maior número de atividades que seu corpo permite. É óbvio que esse nível de serviços não é oferecido no Brasil para o alvo principal da epidemia de zika ocorrida há dez anos, nordestinos de baixa renda. O resultado é que as crianças serão sempre dependentes de alguém pelo resto da vida, porque não conseguirão ter cognição e mobilidade em um nível adequado para estudar, conseguir emprego e trabalhar. Serão, em suma, sempre um fardo para a família e principalmente para a mãe.

    Será que o sofrimento das vítimas do vírus zika no Brasil no século XXI é da mesma natureza que aquela dos construtores de São Petersburgo no século XVIII? Por mais que Pedro, o Grande tivesse escolhido como alvo do trabalho forçado aqueles que estavam na escala mais baixa da sociedade e portanto, não tinham poder para resistir, o fato é que, considerando o nível tecnológico da época, seria impossível estabelecer condições salubres e seguras de trabalho num pântano gelado e nauseabundo. Era injusta a escolha dos mais pobres para serem os braços que construiriam os palácios, as igrejas, as fortalezas e as pontes de São Petersburgo, mas as condições do trabalho em si eram inevitáveis e ao final os sacrifícios deram fruto, a nova capital da Rússia.

    No caso das mães e crianças brasileiras a injustiça é dupla. Foram afetadas pessoas vulneráveis economicamente e tanto a epidemia de zika quanto a microcefalia resultantes poderiam ter sido evitadas se houvesse saneamento básico universalizado em nosso país, se houvesse combate frequente aos mosquitos e se os serviços de saúde contassem com infraestrutura e profissionais adequados. O sofrimento aqui é eterno e sem razão, pois não leva a lugar nenhum, não gera nenhum fruto. Daí o desespero da mãe, que está cansada de lutar sozinha, pois sabe que sua luta é inglória e ocorre por incompetência das autoridades governamentais.

    Prezados leitores, o sofrimento faz parte da vida, mas como nos ensinou Epictetus ele se torna mais ou menos suportável se vemos um sentido para ele, se nos vemos como o fio que será costurado à roupa. Se o fio cai e é pisoteado, esgarçado e se perde deixamos de ser guerreiros e nos tornamos simplesmente vítimas de um sistema injusto, que não dá a cada um o que é seu. Oxalá possamos um dia evitar o sofrimento inútil no Brasil.

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