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As civilizações e o ciclo da História

Posted by on 26/11/2025

A taxa de natalidade maior fora do Império e o nível de vida maior dentro dele faziam da imigração ou da invasão um destino manifesto para o Império Romano àquela época como para a América do Norte agora.

Toda civilização é um fruto da robusta árvore do barbarismo, e cai na maior das distâncias em relação ao tronco.

Trecho retirado do livro “The Age of Faith”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C.

Se o homem não tem a visão, a iniciativa, a persistência e, acima de tudo o domínio de si mesmo, necessários para o empreendimento de tirar vantagens da potencialidade de algum fato geográfico, os melhores instrumentos não terão só por eles mesmos a capacidade de realizar a tarefa. No homem, o fato decisivo – o fator que inclina a balança para o sucesso ou o fracasso – não é a raça, e tampouco é a capacidade de conhecimento; é o espírito, com o qual o homem responde ao desafio da soma total do seu próprio aparecimento no Universo.

Trecho retirado do livro “Um Estudo da História” do historiador inglês Arnold Toynbee (1889-1975)

    Prezados leitores, quem já não ouviu falar que os Estados Unidos estão em decadência? Eu particularmente vira e mexe ouço alguns dos especialistas a quem empresto meus ouvidos falarem disso, de como o Império Americano está se desfazendo. Há números grandiosos que parecem corroborar tal visão apocalíptica. Os Estados Unidos têm a maior dívida externa do mundo, de 25,8 trilhões de dólares em 2025. A dívida total atingiu 38 trilhões de dólares em outubro de 2025, de acordo com a Wikipedia e em 2024 os gastos do governo federal com o pagamento de juros superaram os gastos com o Medicare, o equivalente ao nosso SUS e com a defesa.

    É verdade que os Estados Unidos devem ao mundo em sua própria moeda, a qual eles podem imprimir à vontade, mas se a utilização do dólar americano nas operações de comércio internacional diminuir, isso levará a uma menor procura pela moeda americana e colocará em xeque seu valor. O truque de emitir títulos de dívida para cobrir seu déficit e esperar encontrar ávidos compradores ao redor do mundo, que precisam do dólar para liquidar suas posições, seja perante outros indivíduos, seja perante outros países, terá fim. Assim, se houver um colapso da procura pela moeda americana, os Estados Unidos não conseguirão mais rolar sua dívida facilmente, e terão que entrar em acordo com os seus credores sobre o que fazer.

    É uma situação que seria inimaginável na década de 80 e mesmo na década de 90, mas que hoje, na segunda década do século XXI, faz parte das discussões de economistas e historiadores. E, em se falando de história, não há como deixar de traçar paralelos entre o Império Americano e o Império Romano do Ocidente, que caiu no século V. Parece haver em ambos os casos um ciclo percorrido desde as origens, passando pelo desenvolvimento,  pelo apogeu e pela decadência. Nas origens, povos trabalhadores, disciplinados, austeros, com um senso forte de pertencimento a uma família, a uma comunidade que lhes dava a força para enfrentar as dificuldades. No caso de Roma, as lutas para subjugar as outras tribos e povos que viviam na Península Itálica, como os etruscos. Nos Estados Unidos, os embates com as tribos indígenas autóctones e a Marcha para o Oeste. O desenvolvimento se deu num e noutro caso pela expansão territorial.

    Em 146 a.C. Roma derrotou definitivamente Cartago e tornou-se senhora do Mediterrâneo, passando a dominar as rotas comerciais daquele que ficou conhecido como o Mare Nostrum, o Mar dos Romanos. Com a conquista da Gália por Júlio César (100 a.C.-44 a.C.) em 52 a.C. e a conquista do que hoje é a Inglaterra e o País de Gales em 87 d.C., Roma formou um império que lhe permitiu dominar toda a Europa Ocidental e partes da África do Norte. Com a dominação vieram as riquezas obtidas como botim de guerra, tanto materiais quanto humanas. Estabeleceu-se um sistema pelo qual a elite romana, constituída de proprietários de terras, podia explorá-las utilizando escravos capturados nas guerras e podia viver uma vida de conforto e luxo importando toda sorte de produtos, se valendo das rotas de comércio estabelecidas pelas conquistas militares.

    O momento-chave para os Estados Unidos para estabelecer-se como Império deu-se ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando saiu vitorioso e credor dos países da Europa, incluindo sua ex-metrópole, o Reino Unido. Substituindo o Império Britânico, os Estados Unidos passaram a dominar os mares com sua marinha e as rotas comerciais. Não é por acaso que o livre comércio se desenvolveu depois de 1945, com o estabelecimento do GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) em 1947, que permaneceu vigente até 1994. Em 1995 entrou em cena a Organização Mundial do Comércio, também patrocinada pelos Estados Unidos, que procurava integrar os países ao comércio mundial para incorporá-los à ordem internacional que satisfazia os interesses americanos, na qual o dólar era a única moeda de troca.

    No apogeu de um e de outro, romanos e americanos viviam às custas do comércio viabilizado pelas rotas protegidas por suas respectivas forças militares. Roma importava trigo do Egito, cobre da Espanha, filósofos, pedagogos e escultores da Grécia e impunha suas leis às províncias, permitindo a todos viver em paz e segurança. Os Estados Unidos importavam roupas, sapatos, produtos eletrônicos e toda sorte de manufaturados dos países do Sudeste Asiático e principalmente da China, usando sua moeda, o dólar, aceita em todo o mundo sob os auspícios da ordem financeira mundial criada pelo Acordo de Bretton Woods de 1944 que atrelou todas as moedas ao dólar americano. Além disso, os americanos não se preocuparam muito com a transferência das indústrias para outras partes do globo, devido ao poder de compra do dólar e da capacidade de endividamento que seu status de moeda de reserva global dava ao país.

    No entanto, o conforto tem seu lado negro. Em Roma a vida fácil, feita da exploração comércio com as províncias, teve um impacto nas famílias. Ter filhos deixa de ser uma prioridade porque nem homens e nem mulheres querem sacrificar o divertimento proporcionado pelos jogos e combates de gladiadores, nem os banquetes preparados com as mais finas iguarias de todos os recantos da Europa e da Ásia Ocidental. Como aponta Will Durant no trecho mencionado na abertura deste artigo, com a queda das taxas de natalidade, passa a ocorrer um desequilíbrio entre a diminuição da população dentro das fronteiras do Império e o aumento da população daqueles que estavam fora do Império, a quem os romanos chamavam de bárbaros.

    De fato, com mais gente fora do que dentro e com as riquezas mais dentro do que fora, a tendência era que o Império Romano, despovoado mas rico, fosse invadido por povos mais pobres, mas bem mais numerosos. E foi o que aconteceu ao longo de vários séculos, até que em 476 o último imperador, Rômulo Augusto (465-511), foi deposto por Odoacro (433-493). Essa marcha dos povos em busca dos frutos maduros de uma sociedade próspera também se deu nos Estados Unidos, que em janeiro de 2025, de acordo com a Wikipedia, tinha 53 milhões de habitantes que haviam nascido no exterior e 18 milhões de migrantes ilegais.

    Considerando esse ciclo de origem, desenvolvimento, apogeu e decadência, fica claro o porquê de Durant definir a civilização como o fruto da árvore do barbarismo que cai longe do tronco. A civilização é criada por gente forte e implacável que destrói seus inimigos e perece com pessoas que se acostumam com a vida boa proporcionada pelas dádivas da ordem, da paz e da prosperidade e se esquecem de que nada é eterno e que tudo precisa ser cultivado e mantido para que não vire uma carcaça, sobra do repasto dos chacais. O Império Romano caiu, não sabemos se o Império Americano cairá se e quando sua moeda deixar de ser a moeda de reserva global.

    Tudo depende da resposta ao desafio que será dada pelos Estados Unidos, de acordo com a estrutura conceitual proposta pelo historiador Arnold Toynbee para explicar a dinâmica das civilizações. Conforme o trecho que abre este artigo, o fator fundamental é a atitude dos indivíduos em face da mudança nas circunstâncias. Não é quem tem a melhor tecnologia, o melhor conhecimento, as melhores condições geográficas, a melhor raça que consegue sobreviver, mas aquele que tem o espírito necessário para fazer a civilização se renovar e continuar a dar frutos. Para Toynbee, a História não é uma sequência inevitável de causas e efeitos, mas uma sequência de respostas aos desafios colocados aos grupos humanos, sejam doenças, sejam guerras, sejam desastres naturais, sejam novos concorrentes que encontraram uma maneira melhor de organizar a vida em sociedade. A melhor resposta será dada pelos indivíduos que cultivam seu espirito, isto é que exercem controle sobre si mesmos em busca de um objetivo e que são fortes o suficiente para enfrentar as adversidades.

    Prezados leitores, a história do século XX foi a história da ascensão do Império Americano. A história do século XXI ainda não são favas contadas, apesar de todas as previsões apocalípticas dos especialistas. Uma coisa é certa: o ciclo de nascimento, crescimento, amadurecimento e morte estará sempre presente, assim como a ressurreição sob um novo formato de algo que estava perecendo. Aguardemos e preparemos o nosso espírito para atuarmos no Universo.

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