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Resistamos!

Posted by on 10/12/2025

A IA não é apenas outra ferramenta —
Ela redefinirá como nosso mundo trabalha.

Por que memorizar fatos, elaborar códigos, pesquisar qualquer coisa —
quando um modelo pode fazer isso em segundos?

O melhor comunicador, o melhor analista, o melhor solucionador de problemas —
é agora aquele que faz a melhor pergunta.

O futuro não recompensará o esforço. Recompensará a alavancagem.

Então comece a colar.
Porque quando todo mundo cola, ninguém o faz.

Manifesto da empresa Cluely, que presta serviços de inteligência artificial

Sorte nossa que ainda haja muitos aspectos da nossa humanidade que eles não podem infiltrar ou controlar, e faríamos bem se nos familiarizássemos com essa área. Inspiração. Criatividade. Consciência. Renascimento espiritual. Essas são áreas em que os plutocratas da tecnologia e os engenheiros sociais do império não podem pisar.

Trecho retirado do artigo “It’s Getting Harder and Harder to Preserve our Mental Sovereignty” da jronalista australiana Caitlin Johnstone

Os alunos usam a IA para fazer trabalhos, os professores a usam para corrigi-los, os diplomas se tornam sem sentido e as empresas de tecnologia fazem fortunas. Bem-vindo à morte da educação superior.

Trecho retirado do artigo “AI is destroying the University and Learning Itself”, de Ronald Purser

    Prezados leitores, vocês sabiam que o cérebro libera dopamina quando é recompensado pelo esforço de conseguir algo como, por exemplo, pela prática de exercício físico ou pela finalização de um trabalho difícil? E você sabia que as drogas e quaisquer fatores viciantes em geral como apostas, pornografia, mídias sociais capturam esse mecanismo de recompensa, liberando dopamina sem que haja a realização do esforço necessário para obtê-la? O resultado desse atalho é que se o ser humano não percorrer o caminho para chegar à recompensa ele dependerá de doses cada vez mais altas desses fatores para liberar a dopamina. O santo graal da recompensa fácil, sem esforço, torna-se um pesadelo na forma do círculo do vício, pelo qual quanto mais você tem, mais você precisa.

    Antes tínhamos apenas o álcool e as drogas em geral para nos colocar na trilha da dopamina fácil. Agora, em pleno século XXI, as opções são cada vez maiores. Se quer emagrecer, esqueça reuniões de vigilantes do peso, dietas rígidas, adoção de uma rotina de exercícios físicos, pois basta uma consulta a um médico e a obtenção de uma receita de semaglutida injetável. O problema é resolvido mediante pagamento em dinheiro na farmácia, mas a recompensa pelo árduo esforço de perder quilos se perde. Fica só o corpo enxuto. Afinal, como diz o trecho que abre este artigo, o futuro não premiará o esforço, premiará a alavancagem. E a alavancagem por excelência atualmente nada mais é que a plataforma proporcionada pela inteligência artificial. Explico-me, abordando outra área da aventura humana na Terra, que sempre exigiu esforço, mas que está sendo totalmente modificada, que é a da aprendizagem.

    Ronald Purser explora em detalhes o impacto que a IA está tendo sobre a educação. Chat GPT, Grok e outros modelos de inteligência generativa estão sendo usados pelos estudantes para escrever trabalhos e ensaios, para resumir livros, para responder a perguntas. Para isso basta que o usuário elabore um bom prompt, isto é, formule uma boa pergunta à ferramenta de IA ou dê as coordenadas e os detalhes sobre o formato e o conteúdo do produto final que deseja. Não é mais preciso ler muitos livros, anotar as partes importantes, resumi-las, cotejá-las, estabelecer o que é importante e o que não é, estabelecer uma linha de raciocínio que norteie a elaboração dos parágrafos até a conclusão a que se deseja chegar. Isso tudo é desnecessário se o aluno tem à disposição uma plataforma que alavanca seu desempenho proporcionando-lhe tudo ao mesmo tempo: o resumo do conteúdo dos livros, os dados retirados de outras fontes, o texto escrito de acordo com o prompt fornecido.

    O resultado de todas essas facilidades, na visão de Ronald, é que o valor do diploma que certifica a aprendizagem, fica esvaziado. O que quer dizer que fulano de tal é formado em Direito, por exemplo? Na época em que fiz a faculdade significava que eu tinha lido o material exigido pelos professores, feito pesquisas, escrito trabalhos. O famigerado TCC custou-me seis meses sentada todos os domingos escrevendo no computador, depois de ter despendido um mês das minhas sagradas férias lendo livros e artigos sobre a disputa do Brasil contra o Canadá na OMC a respeito dos subsídios dados à EMBRAER. Hoje, esse mesmo diploma pode ser obtido depois de cinco anos fornecendo prompts a alguma IA.

    O resultado final é o mesmo pedaço de papel com o nome do estudante, da universidade e do curso, mas o aluno que se transforma no rei dos prompts ao longo do período acadêmico não terá adquirido nenhuma habilidade cognitiva, nenhuma capacidade de raciocínio, de ponderar argumentos, de priorizá-los, de concatená-los em torno de uma ideia básica. Um estudo realizado em 2025 pelo Massachusetts Institute of Technology, citado por Renata Cafardo no jornal o Estado de Sâo Paulo de 7 de dezembro, mostrou que as pessoas que usam somente o bom e velho cérebro para escrever “exibiram maior conectividade neural em áreas relacionadas à criatividade, memória e processamento semântico”. Aqueles que usaram o CHatGPT mal se lembravam do que haviam produzido com a ajuda da ferramenta, ou seja, a retenção de conteúdo foi mínima, o que significa que não houve processamento e absorção de informações, pois o cérebro não passou pela via-crúcis do esforço para chegar à recompensa do aprendizado.

    O que fazer? Render-se à inteligência artificial como preconiza o manifesto da empresa Cluely? Resistir a ela é como resistir à calculadora, ao corretor ortográfico, ao Google. Melhor do que ser ludita é ser malandro e usar as facilidades do ChatGPT porque todo mundo vai usar e se você não o fizer ficará para trás. Para Catlin Johnstone o caminho é outro, é o da resistência, conforme o trecho que abre este artigo. É investir naquilo que nos faz humanos e não nos rendermos às facilidades da IA para que não sejamos escravizados pelos plutocratas da tecnologia. O fato é que eles não se importam conosco e se puderem ganhar dinheiro fazendo-nos viciados nas drogas cognitivas que oferecem, eles o farão sem peso na consciência. Quanto mais pessoas incapazes de realizarem o esforço cerebral para pensar e obter conclusões, maior será a dependência dos modelos de IA que farão isso por nós. E se não oferecermos algo que a máquina não oferece, como a criatividade, a consciência e a espiritualidade, seremos rapidamente substituídos e descartados.

    Prezados leitores, a tarefa é árdua porque há pessoas ganhando muito dinheiro com a IA, mas resistamos! Nada mais humano e mais prazeroso do que dar tudo para conseguir um objetivo e ter diante de si algo palpável que, embora possa não ser aquilo com o que você sonhou, é obra sua e autenticamente sua. As mudanças climáticas são um desafio que exigirá da humanidade capacidade de adaptação com base em nosso talento para inovar. A IA coloca-nos um desafio de outra natureza: ele não vem para reforçar a inventividade dos homens, sua capacidade de sobreviver às intempéries achando uma solução, mas para nos tornarmos inúteis, desmotivados, preguiçosos e viciados. Resistamos a esse cálice envenenado dos plutocratas do século XXI.

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