Temos que nos tornarmos melhores. Temos que ser mais prestativos. Ter mais inteligência emocional. Ser menos suscetíveis às manipulações da propaganda. Uma sociedade motivada pela verdade e pela compaixão e não pela mentira e pela busca do lucro.
Essa é a única maneira de vencermos essa etapa desastrada de transição adolescente, com esses grandes e hábeis cérebros ainda presos a um vestígio de condicionamento baseado no medo, fruto da evolução. Essa é a única maneira de concretizarmos nosso verdadeiro potencial e construirmos um mundo saudável juntos.
Trecho retirado do artigo “Australians Being Massacred Shouldn’t Bother Us More Than Palestinians Being Massacred” da jornalista australiana Caitlin Johnstone
Ela gostava tanto de filosofia que costumava parar nas ruas e explicar, a quem quer que perguntasse, trechos difíceis de Platão ou Aristóteles.
Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, de Will Durant (1885-1981) sobre a filósofa e matemática Hipátia de Alexandria (370-415)
Prezados leitores, imaginem a cena de uma professora de filosofia no Museu de Alexandria no Egito, que está em uma carruagem passando pelas ruas da cidade. É uma mulher bela, afável, de boas maneiras, que já escreveu comentários sobre a obra do astrônomo, matemático e geógrafo Ptolomeu (90-168) e do matemático e astrônomo Apolônio de Perga (262 a.C. — 194 a.C.). Seu brilhantismo intelectual e carisma atraem alunos de diferentes lugares para ouvir suas palestras neoplatônicas. De repente, ela é retirada da carruagem por uma turba de fanáticos cristãos que a levam a uma igreja, tiram-lhe a roupa e atiram-lhe azulejos até matá-la. Seu corpo é despedaçado e queimado. Estamos falando de Hipátia de Alexandria, cuja morte marca o fim da supremacia de Alexandria como centro da atividade matemática no mundo antigo e faz os professores pagãos restantes na cidade a fugirem para Atenas, onde quem não professasse a ortodoxia cristã ainda poderia lecionar a filosofia grega clássica.
Mais de 1.600 anos depois deste ato de barbárie contra uma mulher que era considerada esquisita por pensar de maneira diferente dos outros ao seu redor, em 4 de novembro de 2025 a China anunciou ter conseguido completar o ciclo de transformação do tório em combustível nuclear, abrindo grandes possibilidades de produção de energia, já que o tório é muito mais abundante que o urânio e gera muito menos resíduos. Além disso, sua combustão requer muito menos água para resfriar os equipamentos, o que torna o procedimento mais seguro. Ainda nessa veia de sustentabilidade, a China pretende construir uma estação de pesquisa na Lua em parceria com a Rússia e outros países para explorar os recursos do nosso satélite natural e torná-lo fonte de energia nuclear.
Esses acontecimentos ilustram a natureza ambivalente do ser humano, descrita por Caitlin Johnstone no artigo citado acima. 3 bilhões de anos de evolução levaram ao surgimento de uma criatura com um cérebro que não só é capaz de aprender com sua experiência passada, mas de reagir a situações inéditas em relação às quais é preciso adotar uma abordagem totalmente diferente das anteriores. Uma criatura que poluiu a terra, a água e o mar, compartilhando com todos o custo ambiental da atividade econômica de alguns, mas que é capaz de encontrar soluções para os problemas que ela própria cria. Se os chineses já acharam uma maneira de gerar energia nuclear de maneira mais limpa e mais eficiente, com menos utilização de recursos naturais, não tenham dúvida de que gente com formação científica e inspiração conseguirá criar algum produto para biodegradar os famigerados plásticos que infestam o planeta. Nesse sentido, a crise ambiental e a crise climática servirão como um catalisador para o homem fazer jus à sua capacidade cognitiva e responder ao desafio criando meios de combater todas as externalidades negativas criadas pela exploração da natureza.
Por outro lado, ainda permanecemos com aquele cérebro crocodiliano que nos faz reagir por medo e por instinto, que nos faz desconfiarmos do novo, daquilo que é diferente de nós, porque ele pode nos atacar. Nossa melhor defesa contra o inimigo acaba sendo o ataque e daí porque atacamos preventivamente, mesmo que o outro ainda não tenha cometido nenhum ato de violência contra nós. Hipátia foi barbaramente morta em sua Alexandria natal porque ela pertencia à tribo dos pagãos, dos cultores da filosofia grega e dos modos helênicos que estavam sendo substituídos pelo modo de ser cristão. A nova tribo tinha sua própria teologia, sua própria moral e tendo conquistado o território não podia permitir que qualquer resquício do modo de ser greco-romano pudesse sobreviver e desafiar o seu poder. Para consolidar a conquista, era preciso acabar de vez com os dissidentes e Hipátia era uma dissidente renomada que atuava nos tribunais, nas ruas e nas instituições de ensino de Alexandria, dando sua opinião e ajudando os governantes a tomar decisões. Retirá-la de cena era uma maneira de demarcar a jurisdição dos novos donos do poder, para evitar que vozes discordantes pudessem ter alguma influência.
Temos então duas potencialidades em nós: a curiosidade, a sanha pelo conhecimento e pela verdade que nos leva a adaptarmo-nos às condições exteriores e a inovarmos para tornar essas condições as mais propícias possíveis à nossa sobrevivência; mas também temos o medo do outro, do desconhecido, do diferente que nos leva a nos refugiarmos nas nossas ideias preconcebidas e nos nossos preconceitos e em última análise na violência para aniquilarmos o elemento estranho. Concretizando essas duas potencialidades, a aventura humana na Terra é feita de descobertas científicas, de manifestações artísticas e literárias, de elaboração de sistemas filosóficos e jurídicos rumo à ordem e à harmonia; e é feita de guerras, de conquista do poder, de manipulação do medo, levando à propaganda e à tirania, à corrupção e à injustiça.
No final das contas, quem vai prevalecer? Caitlin Johnstone acha que para não termos o mesmo fim dos dinossauros temos que usar nosso cérebro para aumentarmos nossa consciência sobre nós mesmos e sobre os outros em prol da compaixão e da tolerância recíprocas e da paz. Será que conseguiremos dar esse salto ou nosso pendor pela violência acabará nos levando à hecatombe nuclear?
Prezados leitores, podemos estar agora no final dos tempos ou no começo de um novo tempo em que o ser dotado de razão prevalecerá depois de tantas idas e vindas. Aguardemos, pois se a guerra nuclear e a catástrofe ambiental se concretizarem seremos a geração que terá visto o final da saga do homo sapiens.