Pode-se argumentar, claro, que tal comportamento obviamente errado sempre ocorreu: porque quando se trata de desvios sexuais não há nada de novo neste mundo e a história mostra muitos exemplos de quase todas as perversões ou condutas desonrosas. Mas essa é a primeira vez na história que houve uma negação em massa de que as relações sexuais são um tópico adequado para reflexões morais ou que deve ser governado por restrições morais. […] A revolução sexual foi acima de tudo uma mudança na sensibilidade moral rumo a uma brutalização completa dos sentimentos, do pensamento e do comportamento.
Trecho retirado do ensaio “All Sex, All the Time” incluído na coletânea “Our Culture, What’s Left of It” do escritor Theodore Dalrymple, peseudônimo do médico psiquiatra britânico Anthony Malcolm Daniels (1949- )
“Era como um tumor que se alimentou de mim, que eu carreguei na minha carne entumescida, só esperando o momento abençoado em que eu finalmente me livraria dele », revela em seu livro. Ela inclui também a observação de que “teria preferido dar à luz a um cachorro”.
Treco retirado das memórias da atriz Brigitte Bardot (1934-2025), publicadas em 1996, a respeito do nascimento de seu filho Nicolas-Jacques Charrier, em 1960
Prezados leitores, eu sempre tive uma admiração pela atriz francesa Brigitte Bardot por causa do modo como ela encarou o envelhecimento. Nunca fez plástica, nunca fez preenchimento facial, nunca se mumificou para fingir que continuava nova. Elle était bien dans sa peau como se diz em francês, talvez porque não se sentisse insegura. Afinal, durante seu tempo de juventude, ela tinha sido idolatrada pelos homens por sua boca carnuda, sua cintura fina, seus seios generosos, seus olhos amendoados, seus cabelos longos e lisos, seu ar inocente, petulante e sensual. Provavelmente teve ao seu dispor todos os homens que quis e que não quis, de forma que pode passar com tranquilidade à idade em que a mulher deixa de ser atraente sexualmente para o sexo oposto. Não é fácil fazer tal transição, se fosse os cirurgiões plásticos, os médicos dermatologistas e as esteticistas não teriam serviço. Mas Brigitte Bardot tirou o envelhecimento de letra, pois achou uma motivação de vida que foi a luta pelo bem-estar animal.
Por outro lado, minha admiração pela Lolita francesa, como Simone de Beauvoir (1908-1986) se referiu a ela aludindo à ninfeta que é a personagem do livro de Vladimir Nabokov (1899-1977), tem limites. Brigitte Bardot foi a epítome da liberação sexual dos anos 1960, época em que as sociedades ocidentais decidiram viver sob a premissa de que cada um deve ser livre para perseguir sua felicidade e que tal felicidade passa necessariamente pela satisfação dos nossos apetites e desejos. Ela foi a epítome dessa liberdade porque além de ter colecionado vários parceiros no seu período áureo de beleza e frescor, ela rebelou-se contra um dos tabus sagrados que ainda era um resquício da moralidade cristã que tinha prevalecido na Europa por mais de 1.000 anos, qual seja o da maternidade.
Conforme o trecho que abre este artigo, experimentou a gravidez e o parto do seu filho como algo imposto a ela, algo que ela rejeitou desde o início, mas que foi obrigada a aturar por não ter conseguido fazer um aborto, como tinha feito antes. Seu desgosto foi tão grande que logo depois do parto ela decidiu se divorciar do marido e pai da criança Jacques Charrier (1936-2025) e dar-lhe a guarda do rebento. Em 1997, pai e filho entraram com um processo contra Brigitte depois da publicação das “Mémoires” por violação à vida privada do feto. A mulher que confessou não ter querido ser mãe foi condenada pela justiça francesa a pagar 22.900 euros a Jacques e 15245 euros a Nicolas a título de indenização.
Enfim, Brigitte queria desfrutar da liberdade sexual, poder dar vazão às suas paixões sem arcar com o ônus delas, que fosse a gravidez, o parto ou os cuidados de uma criança. E ao confessar seus reais sentimentos pelo petit Nicolas em suas memórias ela não se importou com o efeito que isso iria causar em um filho que já havia sido rejeitado logo ao vir ao mundo. Para ela, ser autêntica e ser livre para dizer o que pensava era mais importante do que preservar a higidez psicológica de um filho que embora tendo sido criado longe dela, não deixava de tê-la como mãe.
São esses efeitos colaterais da revolução dos costumes nas sociedades ocidentais que Theodore Dalrymple descreve em seu livro, fruto de sua experiência clínica como psiquiatra em prisões. Nicolas teve sorte, porque apesar de sua mãe ter-lhe abandonado, ele não foi dado em um orfanato, já que nasceu em um meio privilegiado da burguesia parisiense. O comportamento libertário de Brigitte, que não queria sacrificar sua carreira, sua individualidade, sua satisfação sexual em prol de uma criança, não fez os estragos que ocorrem quando esse comportamento livre de amarras é praticado pelos extratos mais baixos da sociedade. Neles, a sede de liberdade tem consequências como o vício, a violência, o crime. Filhos negligenciados e sem estrutura familiar recorrem às drogas ou às amizades com membros de gangues para preencher o vácuo da figural materna ou paterna, e tais amizades muitas vezes os levam a cometer crimes, incluindo assassinatos e estupros, perpetuando a fragilidade das famílias.
Theodore Dalrymple, além de dar exemplos práticos da desestruturação da unidade básica da sociedade, teoriza sobre o conjunto de valores que está por trás disso. A moralidade fundada na religião, que estabelecia proibições rígidas em nome da preservação da ordem social estabelecida por Deus para o bem da humanidade, não tem mais vez no mundo ocidental pós-cristão. A visão predominante é que o caminho da felicidade é ser livre para concretizar sua potencialidade enquanto indivíduo que tem certas paixões e inclinações. Reprimir esse conteúdo interior por meio de tabus religiosos e proibições costumeiras só dá ensejo à ansiedade, à angústia e à frustração. Daí ser terminantemente proibido fazer julgamentos morais sobre o comportamento de uma pessoa, principalmente o comportamento sexual, o qual segundo Freud nos ensinou, é a fonte da verdadeira felicidade.
Os obituários sobre Brigitte Bardot, morta em dezembro exemplificam essa atitude. Ela é descrita como uma figura polêmica, de vanguarda, que quebrou tabus arraigados sobre o papel da mulher. Mas julgá-la de um ponto de vista moral, em função do trauma que ela causou em seu filho rejeitado e em função do motivo fútil que a levou a deixá-lo para trás – por não estar a fim de ser mãe, apesar de ter plenas condições econômicas para criá-lo – nem pensar, pois julgamentos morais são considerados preconceituosos, arbitrários e tirânicos.
Prezados leitores, não me entendam mal. Consigo compreender perfeitamente que uma mulher não tenha aptidão para ser mãe e que prefira deixar a criança com alguém que fará um melhor trabalho do que ela. Mas a musa francesa poderia ter tido compaixão suficiente por seu filho para não revelar em um livro que vendeu mais de um milhão de exemplares que ela o considerava um câncer na sua vida. A autenticidade deve ter limites, porque como ensina Dalrymple, a suspensão da moralidade em nome dela leva à brutalização. Somos todos pecadores, e quem não tiver pecados que atire a primeira pedra, como pregou Jesus Cristo, mas isso não quer dizer que não devamos tentar perseguir um ideal de bom comportamento, em prol daqueles que nos cercam e em última análise em prol da melhor versão de nós mesmos. Espero que o filho de Brigitte tenha perdoado a mãe e que tenha estado presente em seu leito de morte. Espero também que ao final da vida BB tenha se dado conta do erro de ter exposto seu filho em um livro que escreveu para satisfazer sua ânsia de reconhecimento.