[…] estado deveria subordinar-se à Igreja – a Cidade dos Homens à Cidade
de Deus – em todos os assuntos envolvendo doutrina, educação, moral,
justiça ou organização eclesiástica. […] A Igreja, como instituição divina,
merecia ter autoridade universal; o papa, como o vice-rei de Deus, tinha o
direito e a obrigação de depor maus reis e confirmar ou rejeitar a escolha
dos governantes feita pelos homens ou pelas circunstâncias. […] Quem […]
podia ignorar que os reis e príncipes originavam-se daqueles que,
ignorantes de Deus e cobrindo-se de orgulho, violência e perfídia, de fato
cometendo praticamente todos os crimes – pretendiam governar seus pares
– isto é, os homens – em luxúria cega e arrogância intolerável?
Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano
Will Durant (1885-1981) sobre o pensamento do papa Gregório VII (1020-
1085) no contexto do episódio conhecido como a Querela das Investiduras
Não tenho medo do governo Trump e nem de bradar em alto e bom som a
mensagem dos Evangelhos.
Papa Leão XIV comentando em 13 de abril a crítica a ele dirigida pelo
presidente americano Donald Trump dizendo que ele deveria preocupar-se
em ser um Grande Papa e não um político
Prezados leitores imaginem a cena. Em 25 de janeiro de 1077, em
meio a um dos mais rigorosos invernos que a Itália já experimentara, chega
um homem com os pés descalços, vestido em roupas de lã grossa, que
feriam a pele, às portas do castelo da condessa da Toscana em Canossa.
Este homem é nada mais nada menos do que o imperador do Sacro Império
Romano Germânico, Henrique IV (1050-1106), que viera ali pedir perdão ao
papa Gregório VII por seus pecados. Depois de três dias esperando ao
relento, Henrique consegue que o papa revogue a excomunhão que lhe
havia imposto, permitindo que o imperador retorne ao seio da Igreja
Católica.
E que pecados eram esses? Como podem se lembrar aqueles que
estudaram História Geral no colégio na década de 1980, havia no século XI
uma disputa de prerrogativas entre o Papa e o Imperador sobre quem tinha
direito de escolher os bispos e abades. Conforme o trecho que abre este
artigo, Gregório VII considerava que a Igreja tinha mais legitimidade que
qualquer Estado em determinados assuntos. Sendo representante de Deus
na Terra, era ela quem deveria decidir sobre assuntos que envolvessem a
aplicação dos ensinamentos dos Evangelhos à vida prática, o que incluía
competência para ditar a moral, decidir quem estava certo e quem estava
errado em uma disputa e educar as crianças para que quando adultas se
transformassem em bons cristãos.
Além disso, havia outro elemento que lustrava a legitimidade da
Igreja, que era o modo como os reis e príncipes eram escolhidos. Esses
indivíduos ascendiam ao poder por meio da intriga, da violência, da mentira,
em suma pelo exercício daquelas qualidades que, conforme o
historiador e filósofo Maquiavel (1469-1527) iria descrever em plena
Renascença, eram fundamentais para conquistar e manter o poder, mas que
não tinham nada a ver com as virtudes associadas ao cristianismo, a saber:
humildade, paciência, bondade, obediência e misericórdia. Daí porque
Gregório VII insistisse na importância de reservar para a Igreja a
exclusividade na escolha daqueles que ocupariam os cargos eclesiásticos
mais elevados e assim comandariam a instituição. Considerando que os reis
e príncipes deste mundo não conquistavam o pode praticando virtudes
cristãs, se lhes fosse permitido escolher bispos e abades nas igrejas de seus
respectivos países eles tornariam a Igreja tão corrupta quanto eles eram,
pois a nomeação para cargos eclesiásticos seria uma moeda de troca em
disputas de poder.
Assim, para Gregório VII a autonomia da Igreja para escolher seus
próprios representantes era condição necessária para que ela exercesse o
poder espiritual sobre a Cristandade, servindo como a bússola moral que
teria a palavra final sobre quem agia certo e quem agia errado. A Cidade
dos Homens, povoada de pecadores, estaria subordinada à Cidade de Deus
descrita por Santo Agostinho (354-430), a fortaleza espiritual em que
predominaria o amor, a fé, a esperança, a sabedoria, a justiça. Caso os
líderes políticos de então escolhessem quem administraria a Igreja, haveria
uma inversão dos papeis e a Cidade de Deus ficaria subordinada à Cidade
dos Homens, levando à sua descaracterização.
O pecado de Henrique IV pelo qual ele foi em penitência pedir perdão
ao papa foi então este: o de ter insistido em nomear os bispos nas terras
sob a jurisdição do Sacro Império Romano Germânico, o que incluía o que é
hoje a Alemanha e o Norte da Itália. A chamada Querela das Investiduras
teve vários rounds: Henrique prostrou-se em Canossa em 1077, mas em
1084, à frente de um exército, ele invadiu Roma, obrigando Gregório a
refugiar-se no Castelo de Sant’Angelo. A vitória de Henrique foi efêmera:
pedindo a ajuda de Roberto Guiscardo (1015-1085), que governava o sul da
Itália, incluindo a Sicília, o papa conseguiu libertar-se do seu cativeiro, mas
o condottiere normando saqueou Roma e incendiou grande parte da cidade.
Gregório VII, tornando-se impopular com os romanos pela violência de
Guiscardo, acabou deixando a cidade e morreu em 1085, desgostoso com a
derrota para um homem a quem ele havia perdoado em Canossa.
Mais de 1.000 anos depois e temos agora em pleno século XXI, uma
disputa entre o papa e um líder político, no caso o presidente dos Estados
Unidos, Donald Trump. Tudo começou no Domingo de Páscoa, no dia 5 de
abril, quando o papa Leão XIV, em sua homilia, conclamou aqueles que
“têm poder para desencadear guerras a escolher a paz”. O papa voltou à
carga depois que Trump ameaçou em 7 de abril destruir uma civilização
inteira, dizendo que essa ameaça à população do Irã era absolutamente
inaceitável. Trump fez então várias críticas a Leão XIV, dizendo que ele era
leniente com o crime e que favorecia a esquerda radical. A última
manifestação do papa é aquela que abre este artigo, insistindo que não irá
parar de divulgar a mensagem dos Evangelhos, que é a paz, não a guerra.
Prezados leitores, na Idade Média, apesar de Gregório VII ter sido
vencido por Henrique, a Igreja acabou fazendo valer sua prerrogativa de
escolher seus próprios líderes sem interferências do poder temporal e com
isso conquistou um poder político que só seria questionado e abalado com a
Reforma Protestante. A Cidade de Deus, símbolo do poder espiritual,
conseguiu se sobrepor à Cidade dos Homens, símbolo do poder terreno, até
o início da Idade Moderna. Em pleno século XXI, a Igreja Católica não tem
nem o poder político nem o poder espiritual de que outrora gozou. Imaginar
qualquer governante ir prostrar-se contrito, aos pés do papa, para que este
lhe perdoe os pecados, está fora de cogitação. Mas bem que uma ida a
Canossa, com os pés descalços sobre a neve, poderia fazer bem para o
presidente americano refletir sobre seus atos e fazer uma autocrítica. Oxalá
que os americanos encontrem no futuro um chefe do Executivo que faça
isso para que o país possa ser mais bem gerido. O mundo com certeza
respirará aliviado.