browser icon
You are using an insecure version of your web browser. Please update your browser!
Using an outdated browser makes your computer unsafe. For a safer, faster, more enjoyable user experience, please update your browser today or try a newer browser.

Barreiras aqui e acolá

Posted by on 08/05/2026

“Que novidades são essas por aqui?’, perguntou, quando o guarda-barreira, após um bom intervalo de tempo, saiu de sua guarita. “Privilégio senhorial”, respondeu este enquanto abria, “concedido ao junker e fidalgo Wenzel von Tronka.” […] Entretanto, mal havia passado sob a cancela quando ouviu uma nova voz vindo da torre atrás de si, “Alto lá, ó negociador de crinas!”, e viu o castelão bater uma janela e descer correndo em sua direção. ‘Ora, qual a novidade agora?”, perguntou-se Kohlhaas a si mesmo e deteve-se com os cavalos. O castelão chegou ainda abotoando um colete sobre o corpo largo e, inclinado para se proteger contra o mau tempo, pediu o passe de fronteira.

Trecho retirado do livro Michael Kohlhaas, do escritor alemão Heinrich von Kleist (1777-1811)

Ao final do século XII a revolução comunal foi ganha na Europa Ocidental. As cidades, em que pese não serem completamente livres, haviam jogado fora os senhores feudais, acabado com os pedágios ou os reduzidos fortemente e limitado bastante os direitos eclesiásticos. […] Uma onda de indústria e comércio levou embora obstáculos enraizados ao desenvolvimento humano e impulsionou os homens adiante, da glória dispersa das catedrais para o frenesi universal do Renascimento.

Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)

Lançado pelo governo na esteira da operação, o programa Barricada Zero, que tem como propósito arrancar as trincheiras do crime postas no caminho do Estado, um triste símbolo do poderio dos fora da lei, nunca chegou ao Alemão ou à Penha. Boa parte das que foram desmontadas naquele 28 de outubro acabou sendo reerguida ou substituída por grupos armados que formam uma barreira humana por onde só passa quem eles permitem […]

Trecho retirado do artigo “O desafio continua” publicado na edição da revista VEJA de 1º de maio

Prezados leitores, aqueles que assistiram ao filme Michael Kohlhass, Justiça e Honra, estrelado por Mads Mikkelsen em 2013, lembrar-se-ão das cenas iniciais. Um comerciante de cavalos chega nas terras de um senhor feudal, que no livro ficam às margens do rio Elba, mas que no filme ficam na França. As terras mudaram de dono: o antigo cavalheiro gostava de ver o movimento dos transeuntes passarem por sua propriedade e havia mandado construir um calçamento de pedras, pois uma das éguas do comerciante havia quebrado a pata. Quando Michael Kolhass passa desta vez pelo mesmo local com seus animais, ele constata que as coisas pioraram.

Conforme o trecho que abre este artigo, o novo dono, o fidalgo Wenzel von Tronka, mandou colocar uma nova barreira que não existia antes, exigindo pagamento para permitir a passagem. Pior: depois de passar pela cancela, é advertido que há outro tributo, um passe de fronteira. Michael Kohlhass nada pode fazer a não ser submeter-se à dupla exação, porque este é o caminho para chegar ao vilarejo onde negocia seus cavalos. Criar e vender cavalos é o ofício de Kohlhass e para continuar a exercê-lo é preciso aturar as arbitrariedades dos detentores dos direitos feudais.

A insatisfação do “negociador de crinas”, como o castelão em tom de desprezo o chama, reflete a insatisfação de toda a nova classe de comerciantes e industriais que começa a surgir na Europa no século IX e atinge o pleno florescimento nos séculos XII e XIII. Produzir mercadorias, comprá-las e vendê-las eram tarefas dificultadas pela ordem então vigente. Na rota de transporte das matérias primas e dos produtos finais havia uma miríade de propriedades feudais cujos senhores cobravam pedágios de passagem, mas que não necessariamente ofereciam como contrapartida a infraestrutura de hospedagem e boas estradas que garantissem que a viagem fosse segura e fácil. 

O objetivo dos castelões não era fomentar a atividade econômica facilitando-a, mas simplesmente tirar seu naco dela na forma de exações, porque a lei feudal assim lhes permitia. Para um proprietário de terras, tanto fazia se o negociante vendesse mais ou menos ou se o mestre da guilda produzisse mais ou menos, porque ele não participava das atividades. O que importava é que ele tinha o direito de cobrar pagamento pela passagem. Esse descompromisso do senhor feudal atrapalhava os negócios e não é de se admirar que os Michael Kohlhass lutassem por uma ordem mais justa, em que fossem eliminados os obstáculos postos por aqueles que gozavam de privilégios consolidados havia séculos.

E assim foi feito, conforme explica Will Durant no capítulo “A Revolução Econômica” do livro “A Idade da Fé”, cujo trecho abre este artigo. Ao final do século XII, as cidades haviam ganho a batalha contra a ordem vigente desde a queda do Império Romano e haviam conquistado sua liberdade, por meio de cartas régias em que era reconhecido o direito delas de não estar sob a tutela de um senhor feudal. As cidades eram o local onde não se pagavam pedágios aos Wenzel von Tronka, como Kohlhass foi obrigado a pagar, o lugar onde servos se transformavam em trabalhadores livres que podiam oferecer sua força de trabalho no comércio e na indústria sem estarem presos à atividade agrícola nos domínios senhoriais. 

Um admirável mundo novo se abria aos habitantes das cidades, um mundo em que o indivíduo podia tentar ser algo diferente do que fora seus antepassados, presos à terra pelas obrigações de entrega de produtos e de prestação de serviços ao senhor. Conforme explica Durant, esse impulso ao empreendedorismo dado pela emancipação de certos locais do jugo feudal lançou as bases da Europa moderna, pois permitiu o advento do Renascimento, caracterizado pela inovação econômica, científica, artística e intelectual.

Avancemos nove séculos para o século XXI. Barreiras arbitrárias, exações e demonstrações de poder do castelão sobre o negociador de crinas são coisa do passado na Europa. Mas no Brasil e especificamente no Rio de Janeiro fazem parte do cotidiano de milhões de moradores das comunidades cariocas que vivem sob o jugo do crime organizado. Saem os senhores feudais e entram os chefes do tráfico de drogas. Conforme a reportagem da revista VEJA sobre os desdobramentos da ação policial de 28 de outubro de 2025 que matou 117 membros do Comando Vermelho, tudo voltou como dantes ao Quartel de Abrantes. As quadrilhas continuam cobrando taxas de fornecimento de gás e internet dos moradores e homens com fuzis continuam na entrada dos territórios atuando como guardas da fronteira para determinar quem pode ou não entrar. Concessionárias de energia elétrica e de outros serviços públicos, provedoras de internet e demais empresas são permitidas desde que atendam as condições determinadas pelos chefes. A polícia, claro, só entra se fizer uma megaoperação militar como a que foi feita em 28 de outubro, à custa de muitas vidas.

Por outro lado, segundo o site de notícias Terra a prefeitura do Rio de Janeiro investiu 20 milhões de reais no show da cantora colombiana Shakira, realizado nas areias de Copacabana em 2 de maio. A justificativa é que a ocupação de hotéis, as compras no comércio da cidade e a movimentação nos restaurantes gerariam uma receita de quase 800 milhões de reais para a cidade. De um lado incentiva-se a indústria do turismo e as atividades que giram em torno dela. De outro, as 4 milhões de pessoas que vivem sob a mira dos fuzis do tráfico nas comunidades não têm liberdade de ir e vir nem de contratar empresas prestadoras de serviços, e precisam pagar taxas de proteção ao crime organizado e dele contratar serviços que são pirateados de empresas formalizadas. Livre iniciativa para os que vivem na cidade turística, grilhões e falta de oportunidades para quem vive sob o jugo dos castelões dos morros cariocas.

Prezados leitores, oxalá o Brasil um dia possa fazer a transição completa de um regime de barreiras para um regime sem barreiras para todo mundo. Quem sabe neste momento tenhamos também o nosso Renascimento, como foi o caso na Europa há sete séculos? Enquanto isso não acontece, torçamos para que a cidade que recebe Madona, Lady Gaga e Shakira faça também bondades para os cariocas que vivem sob o domínio dos senhores do tráfico.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *