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Dependências agora e outrora

Posted by on 08/04/2026

A fotografia da dependência brasileira é reveladora. O diesel é o caso mais
crítico: as importações respondem por cerca de 25% do consumo interno.
[…] No caso do GLP, as importações também corresponderam a 25% das
vendas internas. O querosene de aviação apresenta dependência externa de
15%. […] O Brasil importa 85% dos fertilizantes que utiliza.
Trecho retirado do artigo “Os gargalos do planeta e os riscos ao
agronegócio”, de Marcos Jank, publicado na edição de 5 de abril do jornal O
Estado de São Paulo

Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido,
porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China
por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras.
Trecho de discurso do candidato à presidência Flávio Bolsonaro em 28 de
março na Conferência da Ação Política Conservadora

Já levaram nossa prata, todo o nosso ouro, já levaram todo o diamante, já
levaram todo o nosso minério, o que mais querem levar? Quando é que a
gente vai aprender que Deus colocou toda essa riqueza pra nós, e nós
ficamos dando para outros?”, questionou Lula
Fala do presidente Lula durante encontro com o presidente da África do
Sul, Cyril Ramaphosa, no Palácio do Planalto, em 9 de março

A indústria, de seu lado, se obteve inesperados mercados para exportação,
devido ao colapso da produção nos países avançados, tornou-se ao mesmo
tempo ainda mais obsoleta do que já era pela impossibilidade de
importação de máquinas e equipamentos.
Trecho retirado do livro “A Capital da Vertigem – Uma história de São Paulo
de 1900 a 1954” de Roberto Pompeu de Toledo sobre os efeitos da Segunda
Guerra Mundial sobre a economia brasileira

Prezados leitores imaginem o cenário de penúria: preço do leite entre
Cr$ 1,80 e Cr$ 4,50, a depender da qualidade do produto, com mais ou
menos água. Falta de alimentos da cesta básica como feijão, arroz, batata e
milho, por impossibilidade de transportá-los do interior do Estado para a
capital. Falta do mero pãozinho, pela impossibilidade de importar trigo. 87%
do transporte rodoviário de mercadorias ameaçado pela falta de
combustível, devido à falta do petróleo importado.
Como explica Roberto Pompeu de Toledo em seu segundo volume da
história da cidade de São Paulo, essa era a situação no ano de 1944 na
cidade de São Paulo, em virtude da Segunda Guerra Mundial. Em que pese
o conflito ter se desenrolado na Ásia, Europa e África, longe do continente

americano, seus efeitos se fizeram sentir no Brasil em virtude de nossas
fragilidades estruturais: não produzíamos trigo suficiente para atender
nossas necessidades e a única fonte de energia alternativa ao petróleo
importado era o gasogênio, fruto da queima de carvão. E mesmo a
oportunidade de que o Brasil gozou durante a guerra de passar por um
surto de industrialização para substituição de importações corria o risco de
ser desperdiçada porque, conforme descrito no trecho que abre este artigo,
em que pese termos criado indústrias, elas se tornaram obsoletas pela
impossibilidade de importar máquinas e equipamentos que permitissem
modernizá-las.


O século XX, marcado pela Pax Americana passou e já estamos na
segunda década do século XXI. Americanos e israelenses travam uma
guerra contra o Irã que já teve vários impactos sobre a economia mundial.
O fechamento do Estreito de Ormuz pelos iranianos, o qual, diga-se de
passagem, já foi controlado outrora por nossos colonizadores portugueses,
é dramático. Na qualidade de um dos sete gargalos marítimos do planeta, o
estreito é a artéria mais sensível do sistema global de comércio. O artigo de
Marcos Junk mostra os números: 20% do consumo mundial de petróleo
passa por lá, assim como um terço do comércio marítimo de fertilizantes do
mundo e 19% de todo o gás natural liquefeito.


A interrupção quase que total do tráfego no Estreito de Ormuz pega o
Brasil de calças curtas por vários motivos, conforme descrito no trecho que
abre este artigo. Dependemos de fertilizantes para abastecer nosso
agronegócio, o setor mais pujante da nossa economia, representando quase
30% do PIB em 2025. Dependemos do diesel para movimentar os
equipamentos que fazem a roda da agricultura girar e para fazer rodar os
caminhões nas estradas que transportam 65% de todas as cargas
movimentadas no território brasileiro. E apesar de produzirmos gás
offshore, precisamos importar da Bolívia e dos países do Golfo Pérsico para
suprir nossas necessidades.


Talvez essa guerra no Irã realmente tenha terminado com o cessar-
fogo negociado entre os Estados Unidos e Irã após 40 dias de hostilidades e
o fluxo de navios no Estreito de Ormuz seja regularizado.
Independentemente disso, nós já havíamos notado nossa vulnerabilidade
em relação a um produto essencial para nossa economia há quatro anos,
em 2022, quando se iniciou a guerra na Ucrânia e houve o risco de
desabastecimento de fertilizantes, devido ao bloqueio de outro gargalo
marítimo do planeta, os Estreitos de Bósforo e Dardanelos, no Mar Negro.
Para não mencionarmos o fato de que vira e mexe há uma guerra no Oeste
da Ásia (nome mais politicamente correto do que o Oriente Médio
comumente utilizado), desde que o Estado de Israel foi criado, em 1948.
A despeito de todo esse risco que corremos, nunca fizemos nada para
mitigá-lo, quer seja incentivando a abertura de fábricas de fertilizantes ou
investindo em refinarias de petróleo que permitam um melhor
aproveitamento do petróleo bruto que temos agora em abundância.
Qualquer distúrbio geopolítico que afete as cadeias de suprimento mundiais

nos pega desprevenidos, encarecendo os preços dos insumos que utilizamos
para fazer girar nossa economia. E no entanto, nossos candidatos à
Presidência da República adoram falar das tais das terras raras, das quais
temos uma das maiores reservas do mundo. E como devemos seguir o
script da polarização, Flávio Bolsonaro, o candidato da direita e Lula, o
candidato da esquerda, têm ideias opostas sobre o assunto.


Conforme o trecho que abre este artigo, Flávio quer entregar nossas
reservas para os Estados Unidos, colocando o Brasil ao lado dos americanos
para servir de contrapeso à China, que não só tem grandes reservas, mas
também é responsável por quase 90% do processamento e refino dos
minérios raros. Lula, bem ao seu estilo de defensor retórico da soberania
nacional contra o colonialismo, não quer entregar nada, quer ficar com as
terras raras, já que já entregamos muito para os gringos. Ele quer que a
etapa de transformação industrial ocorra aqui pela implementação de uma
estratégia de exploração das terras raras como instrumento de
“desenvolvimento tecnológico e econômico”, conforme explicado no artigo
sobre a fala de Lula mencionada acima. Quem está com a razão? O
entreguista de direita ou o desenvolvimentista da esquerda?


O fato é que quer escolhamos ser parças da China ou dos Estados
Unidos, a depender se elegermos Lula ou Flávio Bolsonaro, precisaremos de
cooperação em termos de capital ou de tecnologia. Se Flávio Bolsonaro quis
nos vender ao Tio Sam, as belas palavras de Lula, sobre fazermos a coisa
nós mesmos, sem ajuda dos imperialistas, não servem de nada se não
tivermos dinheiro. Afinal, ele é necessário tanto para investirmos no
desenvolvimento da tecnologia de processamento de terras raras, quanto
para construirmos fábricas cuja produção seja viável economicamente, isto
é que seja mais vantajosa que a simples importação do produto pronto. E
quem nos dará o dinheiro? Alguém que queira algo em troca, simples
assim. Mesmo se estivermos com todas as ganas de sermos soberanos,
teremos que entregar algo, porque dependemos de capital estrangeiro.
Prezados leitores, enquanto aguardamos que as terras raras um dia
floresçam no Brasil, poderíamos começar com o objetivo mais modesto de
nos tornarmos autossuficientes em fertilizantes, um produto cuja fabricação
não requer tanta habilidade quanto o refino de nióbio ou tungstênio ou
grafite. Já seria um grande passo rumo à tão sonhada soberania, palavra
amplamente usada por essas plagas para efeitos retóricos, mas parcamente
concretizada, como vemos desde os nossos percalços na Segunda Guerra
Mundial até a atual Guerra no Irã.

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