Nossa dívida bate 80% do PIB e deve subir algo em torno de 10%, ao longo do atual governo. O déficit é crônico, houve um sistemático aumento de impostos e nenhuma reforma crível na estrutura do poder público. Em um estudo recente, os economistas Samuel Pessoa e Fábio Serrano alertam que as vinculações à receita dos pisos da saúde e educação, somadas à indexação da seguridade social ao aumento do salário mínimo, no atual governo, irão gerar um aumento acumulado de R$1,397 trilhões nas despesas federais entre 2027 e 2034.
Trecho retirado do artigo “A tentação populista” do cientista político Fernando Schüler, publicado no jornal o Estado de São Paulo em 24 de maio
Fernando Montero afirma que o aumento das transferências governamentais – como Bolsa Família, Benefício de Prestação Continuada (BPC), aposentadorias, seguro-desemprego – fez a renda total das famílias ultrapassar o patamar anterior à pandemia frente ao PIB. Esses benefícios representam hoje 21,36%, acima dos 19% de dezembro de 2019. Ele calcula que 21,6 milhões de novas rendas foram criadas no país desde 2020, mas só 41% provenientes das novas ocupações geradas no período. Para ele, essa combinação de ocupações de baixa remuneração e benefícios que dão acesso ao crédito bancário ajuda a explicar o alto endividamento.
Trecho retirado do artigo “Salário Limitado – Renda do trabalho sobe, mas não recupera o patamar pré-pandemia”, publicado no jornal O Globo de 24 de maio
Prezados leitores, todos os dias no horário do meu almoço vou a um bistrô tomar café e vez ou outra comer uma sobremesa, que a carne é fraca. O negócio é de um casal homossexual que juntou as economias angariadas ao longo de anos trabalhando em salões de beleza. Como sou cliente assídua, fico inteirada dos acontecimentos do negócio. Recentemente eles têm enfrentado vários problemas. A cozinheira adoeceu e parou de trabalhar, mas eles precisam continuar pagando-lhe o salário porque o perito do INSS não concedeu à funcionária o afastamento por doença por erros na papelada. Uma outra perícia demora algum tempo para acontecer. Além disso, uma jovem atendente pediu demissão e eles não conseguem encontrar ninguém para substituí-la.
Difícil a vida do pequeno empresário. Ele tem que lidar com a ineficiência do governo, que não consegue fazer o INSS funcionar na velocidade necessária para atender as necessidades da população. E não tem cacife suficiente para oferecer benefícios que sejam atraentes o suficiente para que pudesse contratar funcionários mais facilmente, em um cenário em que a taxa de desemprego atingiu 5,1% no trimestre de outubro a dezembro de 2025 (fonte: IBGE), recorde histórico, o que torna a disponibilidade de mão de obra mais difícil, já que a população economicamente ativa vem diminuindo devido ao envelhecimento da população. O resultado é que os donos do bistrô têm que fazer as vezes de cozinheiros, atendentes, gerentes de compra e de finanças. Com isso, ficam muito cansados e decidiram por enquanto não mais trabalhar aos sábados, o que diminui o faturamento.
Todos os dias também convivo com uma mulher solteira que há dois anos têm me pedido que a ajude a preencher a declaração de imposto de renda. A razão é simples: ela contraiu alguns empréstimos com o banco e não sabia como registrá-los: um foi integralmente pago ao longo do ano, o outro foi parcialmente pago e um terceiro é produto de uma negociação com o banco que consolidou dívidas anteriores em um único empréstimo. Eu fiquei espantadíssima ao ver uma mulher que não tem filhos para sustentar ter que tomar tantos empréstimos assim. Mas claro, não perguntei a razão porque não é da minha conta. Apenas a ajudei no ano passado e neste ano a declarar as dívidas e ônus à Receita Federal do Brasil. Considerando que segundo o SERASA, em março de 2026 82,8 milhões de pessoas estavam endividadas no Brasil, eu não deveria ter me espantado.
Essas duas pequenas histórias, tiradas da minha experiência diária, revelam algumas das características da economia brasileira nesta segunda década do século XXI. Mercado de trabalho aquecido, alto endividamento, Estado ineficiente. Qual o mecanismo por trás disso? Ora, estamos presos em uma armadilha de baixo crescimento econômico (2,3% em 2025 de acordo com o jornalista Rolf Kuntz), baixo investimento (16,8% do PIB de acordo com o mesmo jornalista), baixa produtividade (de acordo com os cálculos do economista Samuel Pessoa, nos 30 anos entre 1995 e 2025, a produtividade cresceu 30%, menos de 1% por ano). Não havendo dinamismo na economia que agregue valor e permita o aumento real dos salários, o único modo de aumentar a renda e melhorar a qualidade de vida das pessoas é pelo nacional-consumismo praticado no país há décadas desde a estabilização monetária na década de 90, mas que vem se intensificando desde 2019.
O nacional-consumismo tem dois fundamentos. O primeiro deles são as transferências governamentais relacionadas no trecho que abre este artigo e que compõem a maior parte das novas fontes de renda (59%) geradas para os brasileiros desde a pandemia da COVID-19. A massa dos rendimentos do trabalhador, que em março de 2026 atingiu 34,48% do PIB, estava em 34.75% do PIB em janeiro de 2020. Já as transferências governamentais aumentaram sua participação no PIB: em janeiro de 2020 correspondiam a 19,25% do PIB e em março de 2026 correspondiam a 21,36% do PIB.
O segundo fundamento é o acesso ao crédito bancário, viabilizado pela garantia de renda proporcionada pelas transferências governamentais. Assim, mesmo que a economia seja de baixo crescimento e não gere empregos de alta remuneração por causa da baixa produtividade, as famílias conseguem ter acesso a bens de consumo duráveis porque compram tudo em suaves prestações mensais fazendo uso de cartão de crédito, de empréstimo consignado, do cheque especial, do PIX e por aí vai. Não admira que o governo federal já esteja lançando o Desenrola 2.0 para ajudar as pessoas a saldar as dívidas.
Como sair dessa armadilha e superar o modelo do nacional-consumismo, que proporciona bens à população, mas a acorrenta ao endividamento eterno? Segundo o já citado Samuel Pessoa, o potencial do PIB brasileiro está entre 1,2% e 1,8% ao ano, limitado por baixa produtividade e esgotamento do bônus demográfico, isto é, do período em que a proporção de pessoas em idade ativa para trabalhar é significativamente maior do que a de dependentes (crianças e idosos), o qual atingiu seu auge em 2022 e se encerrará por volta de 2050 no Brasil. Soma-se a isso o fato de que a dívida pública aumenta constantemente e já está em 80% do PIB, conforme os dados apresentados por Fernando Schuler no trecho que abre este artigo, e a armadinha parece cada vez mais inescapável. Se as despesas públicas aumentam mais que as receitas, as taxas de juros fixadas pelo Banco Central precisam ser altas o suficiente para convencer investidores a comprar os títulos do tesouro nacional que permitirão a rolagem da dívida. Por outro lado, será que a SELIC a 13,25% ao ano incentiva empresários a investir na produção? Qual setor da economia proporciona uma rentabilidade mais alta que a SELIC? Como colocar os juros em um patamar suficiente para remunerar poupadores e ao mesmo tempo incentivar investimentos produtivos que possam iniciar um círculo virtuoso de crescimento econômico sustentável, aumento da produtividade, aumento real de salários, aumento da renda e diminuição do endividamento das famílias?
Prezados leitores, são essas as perguntas que deveriam ser parte da agenda das eleições de outubro. Mas é mais excitante ver a escolha do próximo chefe do executivo federal como uma corrida de cavalos e dá-lhe pesquisa eleitoral a cada semana e um escândalo a cada três dias. Enquanto o circo é montado, os espectadores estão tentando se desenrolar de suas dívidas, fazer bicos para aumentar a renda e pagar as contas. Quem for beneficiado pelo fim da escala 6 x 1 de trabalho e estiver endividado com certeza irá usar o tempo livre para ir atrás de mais uma fonte de renda. E os pequenos empresários do país terão que lidar com a dificuldade ainda maior de contratar pessoas quando a nova escala estiver em pleno vigor, após o período de transição, já que precisarão de mais funcionários para cobrir todos os horários da operação. Oxalá consigamos um dia escapar dessa armadilha de baixo investimento, baixo crescimento, baixa produtividade e alto endividamento. Para isso, será preciso primeiro enxergarmos o problema.