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Os entreguistas de ontem e de hoje

Posted by on 04/06/2026

“O governo JK priorizou a atração de multinacionais em detrimento do fomento de marcas locais. O Brasil consolidou-se como um polo de montagem e adaptação, mas não de concepção e pesquisa e desenvolvimento (P&D)”, explica Pascoal. O campo de ação dos engenheiros brasileiros restringiu-se, principalmente, à adaptação de modelos europeus às condições de uso brasileiras – a chamada “tropicalização” […]

Trecho retirado do artigo “Obstáculos à frente do carro nacional”, publicado na edição de abril de 2026 da revista Pesquisa Fapesp

Dessa forma, a arrecadação aos cofres da Coroa portuguesa acabaria caindo, já que, com as taxas de importação baixas, as poucas indústrias locais não teriam como fazer frente aos produtos manufaturados ingleses. Além de retardar a indústria brasileira, as compensações para o equilíbrio fiscal acabariam incidindo, em algumas ocasiões, em impostos praticados sobre mercadorias brasileiras exportadas. 

Trecho retirado do livro “D. João VI – A história não contada” do historiador Paulo Rezzutti, sobre o Tratado de Comércio e Navegação assinado com a Inglaterra em 1810

Prezados leitores, às vésperas do início da Copa do Mundo de futebol de 2026 os brasileiros estão na expectativa sobre qual hexa será conquistado: o hexa campeonato ou o hexa da falta de campeonatos, pois se perdermos agora será a sexta Copa do Mundo em que ficaremos a ver navios, depois de 2002, quando obtivemos nossa quinta estrela. Eu pretendo assistir a algum dos jogos do Brasil se chegarmos às semifinais, do que duvido muito, mas mesmo ganhando, a seleção não vai me encher de orgulho patriótico como se fosse um feito marcante sermos os únicos hexacampeões de futebol. Confesso que o que me fez estufar o peito e até chorar foi ver a bandeira brasileira estampada em um avião da Swiss Air que me levou de Zurique a alguma outra cidade da Europa de que não lembro mais. Aquele pequeno retângulo verde com uma bola amarela no meio era a prova de que o avião era um modelo da Embraer, a única fabricante de aviões do Hemisfério Sul.

Em 2025, a empresa que é a minha fonte de orgulho por ser brasileira exportou bens no valor de R$ 42 bilhões de reais, um aumento de 18% em relação ao ano anterior. Infelizmente, exportar bens de alto valor agregado é a exceção, não a regra, para nós. Desde 2010, os produtos de média-baixa e baixa intensidade tecnológica ocupam cada vez mais espaço na balança comercial brasileira, ao passo que os produtos de alta e média-alta intensidade tecnológica vêm diminuindo sua presença. Como não produzimos os produtos farmacêuticos, as aeronaves (à exceção dos aviões executivos da Embraer) e equipamentos e os produtos do complexo eletrônico de alto valor agregado de que precisamos, precisamos importá-los. O resultado é que registramos um déficit dos bens típicos da indústria da transformação de 71,1 bilhões de dólares em 2025 (57,4 bilhões de 2024), que foi compensado pelo desempenho positivo dos produtos agropecuários e minerais, que registrou um saldo de 139,4 bilhões em 2025, levando a nosso superávit comercial de 2025, de 68,3 bilhões de dólares.

Esses números, retirados da revista Pesquisa Fapesp citada na abertura deste artigo, mostram que está ocorrendo uma intensificação da assimetria estrutural da balança comercial brasileira. Não inovamos, não conseguimos nos inserir nas cadeias globais de maior valor agregado e nos especializamos na produção de commodities, cujo preço é ditado pelos compradores que compram mais ou menos de algo que eles podem achar facilmente alhures 

De quem é a culpa por esse estado de coisas? Se olharmos para nossa história eu elegeria um bode expiatório, os entreguistas, ou seja, os partidários do entreguismo. Segundo a definição do dicionário Houaiss, entreguismo é “o preceito, mentalidade ou prática político-ideológica de entregar recursos naturais de uma nação à exploração por outro país ou entidades, empresas etc. de capital internacional. Ora, vou lhes mostrar dois exemplos de personagens históricos que colocaram isso em prática.

O primeiro deles foi Dom João VI (1767-1826), rei de Portugal, que entregou o mercado brasileiro aos ingleses, como compensação pelo fato de a Inglaterra ter-lhe salvado o trono, escoltando-o até o Brasil para fugir dos exércitos napoleônicos que invadiram a Península ibérica no final de 1807.  Dois anos depois de chegar ao Brasil, em março de 1808, Paulo Rezzutti nos conta que D. João VI concordou em estabelecer taxas alfandegárias de 15% para os produtos britânicos, ao passo que os produtos portugueses pagavam 16%. Isso era um golpe para a economia brasileira de duas formas: em primeiro lugar matava a possibilidade de a indústria local competir com um país como a Inglaterra que já estava desde a segunda metade do século 18 passando por uma revolução industrial; em segundo lugar, prejudicava as exportações brasileiras, porque para compensar a diminuição das rendas auferidas com impostos alfandegários, o governo português instalado no Rio de Janeiro taxou em até 8% as mercadorias brasileiras exportadas.

O segundo deles foi Juscelino Kubitschek (1902-1976), presidente do Brasil entre 1956 e 1961. Sim, prezados leitores, Juscelino sabemos agora, foi assassinado pelos militares no poder, mas ele com certeza era um entreguista. Para que montadoras multinacionais se instalassem no Brasil, ofereceu-lhes nosso mercado sem exigir em troca que houvesse desenvolvimento de tecnologia local, conforme explica Erik Telles Pascoal, engenheiro mecânico da Universidade de Alfenas, citado no trecho que abre este artigo. O resultado foi que a indústria automobilística no Brasil nasceu com o pecado original de ser uma maquiladora que montava as peças trazidas do exterior. 

Um raio de luz surgiu nesse setor em 1969, quando o engenheiro João Augusto Conrado do Amaral Gurgel (1926-2009) fundou a Gurgel Motores S/A, que se propunha como missão fabricar um carro 100% nacional. Gurgel tentou com galhardia. De 1987 a 1991 produziu o BR-800, que não resistiu à concorrência dos veículos importados que se beneficiaram em 1990 da redução do IPI sobre veículos com motorização abaixo de mil cilindradas. Entre 1981 e 1982, Gurgel fabricou o Itaipu E-400, o primeiro veículo elétrico produzido em série na América Latina, que acabou saindo de linha devido ao alto custo das baterias e ao elevado tempo de carga. A Gurgel Motores faliu em 1994, porque nas terras tropicais os não entreguistas enfrentam obstáculos em série, entre eles a falta de uma política industrial que seja uma política de Estado, de modo que possa ser perene e não flutuar ao sabor dos diversos governos, permitindo previsibilidade e investimentos.

No dia 1º de junho o Escritório de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) propôs a aplicação de tarifas de 25% sobre mercadorias brasileiras, que afetarão, entre outros, os setores que agregam mais valor à nossa pauta de exportações: equipamentos de engenharia civil e construção, máquinas e componentes de energia elétrica, pneus, dormentes, motores de pistão e peças, geradores elétricos e peças, motores e máquinas não elétricos. O que podemos fazer para nos proteger? Retaliar e esperar que os Estados Unidos retrocedam? Procurar outros mercados? Esperar que a política Nova Indústria Brasil, lançada pelo governo federal em janeiro de 2024, dê frutos logo? 

Prezados leitores, se esse novo tarifaço do presidente americano Donald Trump diminuir ainda mais a presença de produtos de alta e média-alta intensidade tecnológica na nossa pauta de exportações, ficaremos ainda mais dependentes tecnologicamente do que já somos, pois as empresas que hoje exportam esses produtos não terão dinheiro para investir no futuro se perderem receitas. A culpa começou com Dom João VI, passou por Juscelino e por todos os governos que deixaram de implementar uma política industrial e tecnológica que aumentasse nossa capacidade doméstica de inovação. Pagaremos um preço cada vez mais alto por esta negligência em pleno século XXI, em que as transformações tecnológicas se aceleram pelo uso da IA. Os entreguistas ao longo da nossa história tiveram um grande impacto em nossa economia, como mostram os números aqui citados. Esperemos que surjam outros João Gurgéis por aqui, que não deixem de sonhar fazer do Brasil mais do que a terra do futebol e das commodities.

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