O que isso significa é que o capitalismo não tem a capacidade de resolver os problemas que estamos enfrentando enquanto espécie. Não há como competir e consumir de tal maneira que consigamos sair do buraco em que nos colocamos por causa da competição e do consumo. Precisamos de novos sistemas. O comportamento humano não pode continuar sendo impulsionado pela competição e pela busca do lucro. Precisamos colaborar uns com os outros e com a nossa biosfera para sobrevivermos no futuro enquanto espécie, e não seremos capazes de fazer isso se estamos excluindo todas as possíveis soluções que não geram renda para a classe dos capitalistas.
Trecho retirado do artigo “A IA não vai nos salvar da necessidade de acabar com o capitalismo”, de autoria da ativista australiana Caitlin Johnstone
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos estima que um navio de cruzeiro com 3.000 pessoas a bordo gera 666.000 litros de esgoto por semana. Isso acaba totalizando mais de 3,7 bilhões de litros de esgoto por mês no setor – o equivalente a 1.515 piscinas olímpicas.
Retirado do artigo “O impacto ambiental dos navios de cruzeiro”, publicado no site earth.org
Os instintos sem a inibição acabariam com a civilização; as inibições sem os instintos acabariam com a vida. O problema da moralidade é ajustar as inibições para proteger a civilização sem enfraquecer a vida.
Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano Will Durant (1885-1981)
Prezados leitores, em maio de 2022 fui à Turquia e um dos locais que visitei foi a famosa Éfeso, que se constituiu como cidade por volta do terceiro século a.C. e durou até o período romano tardio, quando o império já tinha adotado o monoteísmo cristão. Entre as atrações do local estão a Biblioteca de Celso, cuja fachada ainda pode ser vista, e o Templo de Ártemis, que era uma das sete maravilhas do mundo e acabou sendo totalmente destruído, só restando umas pedras aqui e acolá. O Templo de Ártemis serviu de local de refúgio para o filósofo Heráclito (500 a.C. – 450 a.C.), considerado o fundador da dialética. Heráclito defendia a ideia de que a disputa é o princípio subjacente que mantém o mundo vivo e que o que parecem ser características conflitantes são na verdade partes essenciais de uma situação: não podemos entender o conceito de bem sem entender ao mesmo tempo o conceito de mal, um se define em contraposição ao outro.
Pois bem, estava eu caminhando tranquilamente pelas ruas de pedra da cidade, apreciando o que restou das esculturas e edifícios da Antiguidade, quando de repente chegou um enxame de pessoas, todas ao mesmo tempo. Eram os passageiros de um navio de cruzeiro, que tinham chegado à cidade de ônibus, depois de desembarcar do navio atracado no porto mais próximo. Passageiros de cruzeiro não têm muito tempo para ficar flanando como eu estava fazendo. Eles precisam aproveitar cada minuto, pois suas atividades são cronometradas de acordo com a programação do navio. No dia de estadia em terra, é preciso estar pronto para pegar o ônibus de volta. Daí por que as pessoas andavam apressadamente, tentando tirar fotos das principais atrações, mesmo que isso significasse passar ao largo da maior parte da cidade, que é relativamente grande. Quando eles foram embora senti um alívio porque eu poderia voltar a ver tudo no meu tempo.
Fazer visitas-relâmpago a locais turísticos em terra é apenas um dos itens do pacote de entretenimento oferecido por navios de cruzeiro. Quem não gosta de coisa velha ou não tem paciência com passeios históricos ou culturais pode permanecer no navio dançando, fazendo aulas de ginástica, comendo, bebendo, nadando na piscina e até dando voltas em uma montanha-russa cujo principal atrativo é oferecer uma visão de 360 graus do mar em volta. Em suma, há opções para todos os gostos e não surpreende que o setor de navios de cruzeiro oceânicos tenha registrado crescimento anual de 6,3% desde 1990 até 2025 (fonte: Earth.org). O resultado de tal popularidade é que em 2025 37 milhões de pessoas fizeram uma viagem de cruzeiro, de acordo com o relatório publicado pela Cruise Lines International Association.
No entanto, não se pode negar que há um lado negro desse tipo de turismo, conforme mostram os números sobre a geração de esgoto dos navios de cruzeiro citados na abertura deste artigo. É verdade que o esgoto produzido nessas cidades flutuantes é tratado antes de ser jogado ao mar, mas mesmo assim conforme explicado em Earth. org poluentes como metais pesados, nutrientes e produtos químicos orgânicos não biodegradáveis podem permanecer nessas águas residuais mesmo depois de elas serem submetidas a dois tratamentos. E não se pode deixar de mencionar também a quantidade de plástico gerada por turistas que podem passar o dia na piscina consumindo bebidas servida em copos descartáveis, ou comendo salgadinhos embalados. O plástico permanece no mar por um longo tempo por não ser degradável e animais como tartarugas marinhas podem vê-lo como alimento, levando ao seu envenenamento, sufocamento e inanição até a morte.
O impacto ambiental dos navios de cruzeiro é emblemático do problema causado pelo capitalismo, conforme explicado por Caitlin Johnstone no trecho que abre este artigo. O crescimento do turismo nessas cidades flutuantes cria empregos, oferece um novo produto que não estava disponível no mercado, permitindo que pessoas tenham uma ampla gama de opções de entretenimento concentradas em um único local. Por um lado, isso aumenta a conveniência para o consumidor, levando à realização de mais viagens, num círculo virtuoso do ponto de vista da criação de riqueza para os capitalistas. Ao mesmo tempo – conforme nos ensinou o pai da dialética Heráclito em Éfeso – cria-se um círculo vicioso de mais consumo de produtos descartados e não totalmente degradáveis e de mais poluição do meio ambiente. Para Johnstone, o capitalismo vai nos levar à destruição enquanto espécie porque não resolveremos o problema da pegada do ser humano na biosfera insistindo em mais atividades econômicas e mais consumo. É preciso parar com isso, estabelecer um outro sistema de produção em que a geração de riqueza a qualquer custo não seja a motivação principal, mas que enfatize a colaboração dos homens entre si e com o meio ambiente para o bem comum de todos.
Será que isso é possível ou é apenas uma ideia inocente? Será que conseguiremos reeducar as pessoas para que elas ao fazer suas escolhas pessoais levem em conta o impacto ambiental delas? Será que podemos ensinar os comuns mortais a privar-se de certos regalos como fazer uma viagem de cruzeiro, comer carne bovina, consumir produtos para ficarem mais belos e saudáveis? Será que é possível convencê-los a comer farinha de gafanhoto ou baratas criadas em laboratório, não usar carros para se movimentar e deixar de lado o sonho de conhecer belos locais ao redor do mundo para garantir a sobrevivência da biosfera?
Will Durant colocou bem o dilema imemorial enfrentado pela humanidade que se repete hoje no século XXI em escala global. Para construirmos a civilização precisamos frear os instintos que incluem o instinto da reprodução, da liberdade de ir e vir, do prazer de comer uma comida saborosa, do prazer de passar horas agradáveis à beira de uma piscina bebericando e beliscando comidinhas, do prazer de ver coisas belas. Ao mesmo tempo, se reprimirmos todos os instintos perdemos a motivação para viver. O segredo do código moral é conseguir um equilíbrio de maneira a ser rígido o suficiente para garantir um bem-estar mínimo a todos e flexível o suficiente para dar liberdade ao indivíduo viver e sonhar. Em um cenário de exaustão dos recursos naturais como enfrentamos agora, o desafio é encontrar um sistema econômico que faça florescer a inovação e a criatividade de indivíduos livres e responsáveis, conscientes de que fazem parte de um todo e que são responsáveis pela proteção tanto da vida dos seus familiares e entres mais próximos quanto da vida da tartaruga marinha que nada no oceano à cata de alimentos.
Prezados leitores, mesmo que essa grande síntese entre instintos e inibições num todo ecologicamente sustentável seja irrealizável num futuro próximo, ao menos podemos adotar uma atitude de consumo consciente e nos perguntarmos antes de tomarmos uma decisão: será que preciso mesmo viajar em um navio de cruzeiro? ou posso poupar o mar dos meus dejetos e mesmo assim ter uma experiência de turismo satisfatória? Eu por mim nunca fiz e nunca farei uma viagem em uma dessas cidades flutuantes que singram os mares do planeta. Estamos entre a cruz e a caldeirinha, no meio de uma luta entre princípios opostos, preservação e criação, civilização e liberdade, inovação e estagnação, capitalismo e sustentabilidade ambiental. Será nossa tarefa reconhecer, à la Heráclito, essa dialética fundamental e achar uma terceira via para escaparmos do colapso da aventura humana na Terra.