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Planos

Posted by on 02/02/2014

Responsáveis pelo abastecimento de mais de 9 milhões de pessoas, os reservatórios do Sistema Cantareira estão no nível mais baixo da história. O volume armazenado no sistema é de apenas 21,9%. A situação chegou ao limite pro causa da seca em janeiro. Choveu 87,8 mm, contra média de 259,9 mm

Notícia extraída do jornal o Estado de São Paulo de domingo, dia 2 de fevereiro

          Prezados leitores, para quem acompanha esta que vos fala, na semana passada eu expressei aqui meu medo da falta d’água na cidade de São Paulo devido à falta de chuva e ao calor infernal, recorde em 71 anos. E não é que as autoridades admitiram a possibilidade? Para evitar o pior a SABESP dará desconto na conta a quem economizar água. É uma pena que no Brasil nós só pensemos em planejar quando estamos à beira do precipício, oque faz com que o planejamento na verdade seja um mero apagar de incêndio que evita o pior. O fato é que estamos ouvindo há anos a notícia de que os reservatórios estão incrivelmente baixos, mas nenhuma política de longo prazo é executada para fazer com que a relação das pessoas com a água seja alterada e o consumo torne-se mais consciente da importância da preservação de um bem tão escasso.

           Não estou aqui a falar em aumento das tarifas para estimular as pessoas a economizar na marra, mas de outras medidas que possam ser tão eficazes quanto a penalização pecuniária, por exemplo dando benefícios fiscais às empresas que produzirem equipamentos sanitários mais econômicos, deduções no imposto de renda às famílias que investirem na reforma da casa para torná-la mais sustentável ambientalmente falando. Mas estou aqui com quimeras. Se acaso os bônus de economia funcionarem, como funcionaram em 2004, quando a SABESP também adotou política de desconto, esqueceremos o problema crônico do déficit de água no Sudeste do Brasil até que de novo nos encontremos à beira do abismo.

         É da nossa psiquê comportarmo-nos assim. Os preparativos para a Copa do Mundo estão atrasados e as obras de infraestrutura ficarão muito aquém do prometido, a ponto de Carlos Alberto Parreira ter lamentado publicamente a perda da oportunidade de mostrarmos aos gringos um Brasil organizado, seguro e apreços razoáveis, para que o legado da Copa fosse positivo e de longo prazo. Corremos os risco de os preços extorsivos, fruto da falta de opções e do custo Brasil, e a qualidade ruim dos equipamentos de mobilidade urbana deixarem uma impressão indelével nos turistas que se aventurarem a vir aqui. Tão indelével e marcante impressão que esses turistas espalharão aos quatro ventos como a Copa do Mundo foi feita em um rincão do Terceiro Mundo que não tinha a mínima condição de recebê-la.

           É bem provável que nossa alma flex nos permita darmos um jeitinho e fazer com que a Copa não seja nenhum desastre, mas também nenhuma maravilha. Provavelmente conseguiremos isso, afinal estamos em um ano eleitoral e o governo terá todo o interesse do mundo em que nada de muito ruim aconteça que possa fazer-nos passar vergonha lá fora, coisa a que o brasileiro bem-pensante tem horror. Aliás, o fato de termos eleiçõesgerais a cada quatro anos, aliado à nossa vocação para o improviso, são uma combinação explosiva. O empurrar com a barriga torna-se uma prática corriqueira, chancelada pelo processo democrático. Anuncia-se para este ano de 2014 uma safra recorde de soja de 91,5 milhões de toneladas, 11% maior do que no ano passado. O gargalo logístico está longe de serresolvido, mas teremos uma boa gambiarra à nossa disposição: marcação de hora na agenda do Porto de Santos, para evitar as filas quilométricas que se formaram em 2013. O caminhoneiro que não tivermarcado horárioserá barrado no baile, sem dó nem piedade. Resolvemos o problema? Claro que não, apenas criamos mais um procedimento burocrático para evitar a cena embaraçosa dos caminhões esperando há dias o momento de desembarcar a mercadoria no porto.

             Por que será que temos tanta dificuldade de planejarmos o futuro no Brasil? Acaso será uma falta de coesão social, que impede que cada um de nós se sinta parte de um todo e contribua para ele? Será que herdamos o foco no presente dos colonizadores que vinham aqui para enriquecer e depois voltar para a Europa e dos escravos que não tinham o direito de ter esperanças de construir algo melhor? Sei que essas explicações que se pretendem sociológicas e históricas são na verdade inverificáveis porque irrefutáveis, e como nos lembrava Karl Popper, o filósofo da ciência austríaco, tudo o que é irrefutável não é científico. Quero dizer com isso que cada um de nós brasileiros, ante a constatação óbvia de que temos uma dificuldade enorme de planejarmos o longo prazo, de nos prepararmos para as contingências futuras com antecedência e segurança, terá uma explicação:uns dirão que esse despreparo é cultural, fruto da herança africana e portuguesa, outros dirão que é econômico, fruto da nossa eterna dependência dos países centrais do capitalismo que impede que elaboremos estratégias de desenvolvimento próprias.

            Bem, a pergunta fica no ar, e a resposta a ela dependerá dos valores de cada um. Só tenho uma certeza: estou neste país há 42 anos, desde que nasci, e os únicos planos com que me acostumei foram a infinita litania daqueles tentadosao longo da minha infância para evitar o desastre da hiperinflação que assombrava nossas vidas.A maioria deles fracassou, o Real deu certo, mas mesmo os planos que dão certo no Brasil têm pés de barro. Os ventos que sopram no cenário internacional estão pará lá de perigosos, e corremos o risco de ao dobrar o Cabo da Boa Esperança (ou das Tormentas, a depender do ponto de vista), naufragarmos no mar da falta de reservas cambiais e do descontrole da dívida pública. Osnúmeros anunciados semana passada mostram que nem o medíocre e nefasto objetivo a que nos propusemos desde o governo de FHC, de obter superávit primário para pagar juros da dívida, está sendo cumprido à risca.Em 2013 ele foi o menor desde 2002, 1,9% do PIB, enquanto o planejado pelo governo havia sido de 2,3%.

            Prezados leitores, como boa brasileira que sou resolvi viver o presente, elaborar um plano de emergência e tirar férias, gastando o que não tenho e esperando que no fim tudo se ajeite. Estou fugindo deste calor infernal rumo à terra dos mafiosos. Pretendo comunicar-me semanalmente como de costume, mas tudo dependerá se terei inspiração, à falta de contato diário com nossa realidade tupiniquim, e conexão com a internet. Volto só depois do Carnaval, e então tentarei fazer planos para 2014, afinal adoramos dizer que no Brasil o ano só começa depois do término da apuração do resultado dos desfiles da Marquês de Sapucaí, não é mesmo?

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