Agradáveis salamaleques

            O Brasil surgiu para agradar aos outros, no caso os capitalistas que queriam ganhar dinheiro vendendo o pau-brasil, ouro e demais produtos exóticos para os europeus. Essa sina de agradar, por vir de berço, nos acompanha por toda a história. A escravidão foi organizada para agradar aos homens de negócio, e foi desfeita para agradar aos mesmos homens de negócio; nossa independência foi feita para agradar à Casa de Bragança que via a coroa fugir-lhe da cabeça em Portugal, com as revoluções liberais; o golpe de 64 foi feito para agradar aos americanos e nos colocar como bons meninos coadjuvantes na luta contra o comunismo.         Outros países como os Estados Unidos, que se fundaram para lutar contra a opressão de um governo que não representava seus interesses, nasceram para desagradar. Eles são sempre do contra: não seguem o sistema métrico, têm suas próprias normas contábeis, raramente ratificam algum tratado internacional, para não falar do total menosprezo pela ONU, tão bem mostrado na Guerra contra o Iraque. O desagradar para eles é motivo de orgulho, símbolo de sua independência, de sua soberania.

            O mesmo ocorre com a China, por razões diversas. O Império do Meio, por se considerar o centro do mundo, nunca deu muita importância ao que ocorria ao redor e por isso se isolou durante muito tempo, contribuindo para seu descompasso econômico e tecnológico com relação ao Ocidente, onde as novidades pululavam. O dragão só despertou mesmo no final do século XX, mas ainda que copie (ou pirateie) tudo o que os países desenvolvidos têm de bom, insiste em se considerar culturalmente superior e não quer nem saber de lições sobre democracia, direitos humanos, desvalorização do ri min bi, etc.

            Bem, voltando ao nosso país lindo e trigueiro o fato é que nós brasileiros temos essa constante preocupação com o que os outros, os estrangeiros, vão falar sobre nós. Quando eles nos elogiam isso merece menção na imprensa, comemorações, é motivo suficiente para nos orgulharmos. Quando nos criticam, lamentamos, nos envergonhando pelo papel feio desempenhado lá fora, ou nos enchemos de raiva pela injustiça da crítica. De qualquer maneira nunca ficamos imunes a esse olhar de fora, porque nascemos para satisfazer as necessidades de todos, menos as nossas.

            Esses pensamentos me vieram à cabeça nesta semana, quando ouvi um comentário a respeito da conveniência de elegermos a Marina porque ela é respeitada lá fora, da mesma maneira que Fernando Henrique Cardoso o era. De fato, a Marina ganhou prêmios internacionais por sua luta pelo meio ambiente e a cobertura que o jornal francês deu de nossa eleição focou no desempenho extraordinário da “ambientalista”. Mas talvez devêssemos analisar o porquê do entusiasmo dos “outros” por candidatos comprometidos com a causa ambiental, antes de elegermos tal boa imagem internacional como critério de escolha de candidato.

            Ora, os países desenvolvidos se industrializaram e enriqueceram às custas de suas florestas. Mas agora o barco está adernando, isto é, a Terra mostra sinais de exaustão do modelo capitalista de exploração econômica, que parte do pressuposto de que os nossos recursos são inesgotáveis, e que poderão sempre alimentar a fornalha do crescimento econômico. Isso faz com que se torne premente a preservação do que resta, mas aqui cabe a pergunta: Quem pagará o preço? Os países desenvolvidos nos ressarcirão com o que deixaremos de ganhar em termos de exploração agrícola das terras antes cobertas por vegetação original? Afinal, a epopéia do cerrado no Brasil mostrou que nossa agricultura pode ser extremamente forte e produzir produtos exportáveis que desafiam a primazia das potências como EUA e União Européia. O setor agrícola brasileiro, embora seja concentrador de renda, é inegavelmente eficiente. Seria absurdo pensar que os europeus estão preocupados tanto com a Mãe Terra porque também querem preservar seu sistema agrícola caro, subsidiado que só beneficia seus próprios cidadãos?

            Ao mesmo tempo que o Le Monde fazia salamaleques à Marina, a revista The Economist da semana passada enchia a bola do Lula. Apesar de o artigo apontar que ele deixou de fazer reformas estruturais, no geral o balanço era favorável ao nosso presidente, porque não enveredou pelo populismo econômico que tem sido a praga da América Latina e nos impede de nos desenvolvermos. Enfim o Lula é um contraponto aos rompantes bolivaristas do Hugo Chaves, às diatribes do Evo Morales e à quedinha dos Kischner por um bom calote. Ufa que ilha de racionalidade!

            Novamente, aqui é preciso perscrutar as razões profundas: o Fernando Henrique abriu a picada e o Lula seguiu-lhe os passos ao nos colocar na ciranda financeira mundial, deixando o câmbio flutuar ao sabor das idas e vindas dos capitais. Se de um lado isso nos tornou mais confiáveis à banca e possibilitou o controle da inflação, por outro lado esse dinheiro fácil é uma morfina que nos anuvia a visão do descalabro das contas públicas, cujo rombo é financiado com esse dinheiro. O resultado é a falta de investimento em infra-estrutura, desindustrialização e nossa transformação em bons meninos da globalização que têm o papel de se agarrarem à ponta da cauda do cometa China. O único passo em falso do Lula aos olhos dos nossos julgadores internacionais foi com relação ao presidente do Irã, mas talvez ele tenha feito isso só para mostrar aos seus colegas esquerdistas que é de alguma forma independente.

            Creio que essa nossa mania de agradar, por fazer parte do nosso DNA, nunca seja de fato extirpada da nossa psiquê, a não ser que nós brasileiros fôssemos bombardeados com uma intensa carga de radiação que modificasse esses genes malditos. Mas não custa sonhar com um dia em que o Brasil faria cortesia aos “outros” ou faria desfeita só quando lhe fosse do seu real interesse, isto é quando fosse para melhorar a vida do povo e não para receber aplausos ou para esconder de si mesmo suas próprias inseguranças.

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Zelites

            Na semana passada no nosso Montblatt Cristovam Buarque falava de como o Brasil fez ao longo de sua história poucas escolhas certas e muitas escolhas erradas. Não há como não concordar com ele, especialmente se consideramos que nossas escolhas erradas foram sempre fruto da nossa passividade, da nossa importação de idéias elaboradas alhures e transportadas para as terras tropicais com quase nenhuma “customização” para usar uma palavra da moda no mundo corporativo. Mercantilismo, liberalismo, industrialismo, socialismo, neoliberalismo, todos os ismos que fizeram maravilhas nos países do norte quando aportaram ao sul do Equador só serviram para satisfazer os interesses dos responsáveis pela importação sem que houvesse benefícios gerais.

            De fato, os resultados desastrosos que obtivemos – péssimos indicadores sociais, desenvolvimento insustentável, a depender dos altos e baixos das potências dominantes – tiveram culpados ao longo da nossa história, direta e imediatamente aqueles que executaram o programa estrangeiro, e indireta e mais remotamente aqueles que se deixaram engambelar pelas palavras doces ou pela embalagem agradável aos olhos. Os bestializados, como bem definiu José Murilo de Carvalho quando falou sobre o povo que assistiu à proclamação da república sem ter nenhuma participação, nunca perceberam que nossas elites estiveram sempre a instalar vírus cavalo de Tróia na máquina brasil. Se tivessem percebido talvez tivessem reagido de alguma forma consistente e forçado certas concessões reais.

            Infelizmente isso nunca aconteceu em nossa história. As mudanças que ocorreram no Brasil, a independência, a abolição da escravidão, a república, a nova república, o controle da inflação, o bolsa-família, não podem ser atribuídas a uma pressão constante das classes populares que levasse os donos do poder a ter medo de perder os anéis e a fazer mudanças substanciais para ficarem com os dedos. Afinal, não é assim que as revoluções funcionam? O projeto radical nunca vence é claro, porque os magnatas sempre conseguem arrumar um jeito de sobreviver mesmo que isso signifique às vezes cortar a própria carne. Os jacobinos da Revolução Francesa, aquela que serve de paradigma a todos nós, foram derrotados, Robespierre, o incorruptível de classe média, foi guilhotinado, os sans-cullotes ficaram em larga medida a ver navios, mas é inegável que houve um arejamento no andar de cima. De aristocráticas, vivendo da renda da terra herdada, as elites passaram a ser burguesas, vivendo da renda de seus empreendimentos financeiros e industriais. Pode ter sido uma mudança de forma, mas ao longo do tempo fez uma enorme diferença: permitiu que surgisse uma classe média que trabalhava nesses empreendimentos vendendo sua capacidade intelectual e não sua capacidade braçal. Napoleão pode ter sido um ditador que sufocou qualquer laivo de verdadeira democracia, mas ele chegou lá por seus próprios méritos e não por ter nascido em alguma família real.

            Como nunca tivemos no Brasil classes populares que demonstrassem seu descontentamento e nem setores médios que pensassem por si próprios sem se agregarem às elites, nossas mudanças sempre foram superficiais, ditadas pelas contingências do momento, geralmente externas a nós. Querem ver? A independência foi uma cartada dos Bragança para garantirem a coroa do imenso Brasil quando estavam a ponto de perder a do pequenino Portugal. A escravidão foi abolida no Brasil, entre outros motivos, para satisfazer os pruridos morais da opinião internacional. Quanto aos maiores interessados, os escravos, nunca exerceram qualquer influência sobre o processo, tanto é verdade que a execução da libertação na prática, da maior importância para eles, foi deixada a cargo de ninguém e o resultado foi o apartheid velado que vivemos até hoje no país. Nem vou falar da república, golpe de uma parte da elite que importou o tal do positivismo de Augusto Comte, aplicando idéias epistemológicas destinadas a dar uma qualidade científica às ciências sociais e as desvirtuaram transformando-as em veículo de ordem autoritária e progresso para poucos. Pulando no tempo temos a nova república, pequena satisfação dada aos otários que lutaram pelas diretas já e ao final foram presenteados com José Sarney, lídimo amigo da ditadura que virou a casaca no momento oportuno. Será que teríamos conseguido fazer essa pequena mudança se os Estados Unidos não considerassem a região livre dos seus maiores inimigos, os soviéticos? Afinal, eles ajudaram a derrubar Jango para evitar o mal maior do comunismo.

            Até aqui falei das mudanças políticas feitas por nossas elites, loucas por um produto importado. No terreno econômico elas não ficam atrás na insistência em dançar conforme a música da economia internacional. Fomos colônias agrícolas nos séculos 16-19 para contribuir com a industrialização da Europa, industrializamo-nos no século XX a reboque da necessidade de o sistema financeiro internacional, comandado pelos Estados Unidos, darem vazão à liquidez abundante, que culminou com a farra dos petrodólares. Controlamos a inflação na década de 90 e estipulamos renda mínima para os pobres no âmbito do Consenso de Washington, pavimentando nossa entrada no sistema global de livre comércio capitaneado pela OMC. Isso abriu nossas portas para o mundo dos produtos industriais importados que se mantiveram preços baixos aqui, acabaram contribuindo para consolidar nosso papel global de potência agrícola.

            Enfim, nunca tivemos elites que fossem obrigadas pelo povo a serem criativas e a inventarem modos alternativos de organização. Há três semanas vi o filme sobre Margaret Thatcher e admirei o nacionalismo dela, a clara visão que aquela mulher tinha de aonde queria levar a Inglaterra. Independentemente de concordar ou não com as idéias, não há como não se deixar fascinar pelo caráter firme da “afanadora de leite” (seus detratores a chamavam de Margaret Thatcher, milk snatcher). E a filha de quitandeiro teve que ter nervos de aço para penetrar no ambiente exclusivo da elite britânica, elite esta que nos áureos tempos mandava seus filhos a Eton para literalmente comerem o pão que o diabo amassou e passarem frio no inverno. Só assim os meninos adquiriam o caráter necessário para assumir responsabilidades, cuidar dos outros e comandar o império. A nata brasileira, ao contrário, vive refastelada em seu conforto tropical e o melhor rito de iniciação que temos à vida adulta no Brasil são as universidades públicas, que em muitos casos, como no local em que a que vos fala estuda, são antros de privilégios, cinismo, preguiça acadêmica, picaretagens e da filosofia um tanto quanto depassée do “É proibido proibir”. Nós, membros da elite no Brasil, longe de almejarmos altos padrões de realização, nos damos por satisfeitos em estarmos acima dos pretos e pobres. Enquanto essa mentalidade não mudar nunca daremos o salto de qualidade que permita que nossos lampejos de crescimento econômico levem ao desenvolvimento.

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Vida corporativa

            Neste mês de abril a empresa em que trabalho, que era brasileira, fundada por um brasileiro, foi vendida a uma multinacional. É difícil resistir nessa área de serviços, as margens de lucro são pequenas devido à competição e o que é o ponto mais fraco, como há falta de mão de obra qualificada, as multinacionais oferecem mais benefícios e portanto conseguem fisgar os profissionais disponíveis. Essa falta crônica de condições para fazer negócios inclui a infraestrutura urbana: o metrô em São Paulo está cada vez mais saturado e inoperante, os funcionários, a maioria moradores da Zona Leste, sempre se atrasam por conta das panes, e chegam irritados ao trabalho. Num cenário como esse, será cada vez mais difícil surgir empreendedores no Brasil que abram empresas e possam expandi-las. Não havendo fartura de recursos para que todos possam tentar sua chance, as multinacionais sempre terão uma vantagem comparativa insuperável.

            Então é preciso nos rendermos aos gringos. Desde que houve a integração, eu já tive que fazer vários cursos na internet, com prazos sempre exíguos que não levam em conta o fato que eu tenho meu trabalho normal a realizar. Gerenciamento de riscos, segurança da informação, normas de ética e conduta, cada um leva oficialmente três horas que parecem dez levando em conta que são traduzidos. A tradução é uma grande porcaria e a leitura se arrasta, porque não fazem o que se chama de localização, isto é a adaptação ao contexto local: os slides se sucedem falando de coisas totalmente irrelevantes no contexto brasileiro: fideicomisso, fundos mútuos, órgãos reguladores dos EUA. No final há sempre um prova, e é preciso ter uma pontuação mínima, do contrário não obtemos o certificado de conclusão. E a empresa não poderá cumprir os requisitos regulatórios se não tiver funcionários acreditados nos processos e regras da profissão.

            O objetivo das empresas ao nos obrigar a realizar essas atividades é o de introjetar os tais valores que normalmente giram em torno de trabalho em equipe, liderança e ética, tudo claro para “agregar valor aos clientes” e assim retê-los, criar uma boa imagem da marca e  “conquistar novas fatias de mercado”. Belas palavras, mas como diria o saudoso Vicente Matheus, presidente do “Curintia” na prática a teoria é outra.

            Percebi isso na quarta-feira, quando no elevador indo embora para casa, comentei que eu tinha finalmente acabado um dos treinamentos depois de uma tarde toda de luta e tinha passado na prova! Ao que um moço da informática retrucou, lampeiro: “Pois eu fiz em meia hora!”. Eu espantada perguntei: “Ué, mas como você consegui passar rapidamente pelos slides, não demora para carregar?” E ele disse: “Ah tem uma tecla que passa rapidinho e no final eu perguntei para um outro que tinha feito e ele me deu a resposta.” Eu otária, tinha lido tudo minuciosamente, respondido às perguntas sozinha e os espertos conseguiram achar uma gambiarra tecnológica e se livraram da incumbência de maneira indolor. E o mais engraçado de tudo é que eu, apesar de todo meu bom comportamento, posso ser mandada embora e ele ficar, porque aos olhos da corporação, nosso certificado de conclusão vale a mesma coisa, não importando os meios espúrios com que foi obtido. De quem é a culpa? Dos gringos que fingem não ver a cultura brasileira em ação e fingem não perceber a inutilidade dessa educação à distância? Dos funcionários, que não agem com ética e preferem ser malandros?

            Acredito que é uma mescla disso tudo. Os gregos já sabiam que a melhor lei é aquela não verbalizada, mas que está introjetada na alma do indivíduo por meio da educação. Não haveria necessidade de códigos de conduta se cada indivíduo aprendessse desde cedo como se comportar imitando o exemplo dos pais, dos professores.  Eu acho o treinamento tão insuportável quanto os que o fizeram em meia hora, mas minha formação me impede de driblar as regras: se a empresa está pagando meu salário, se tenho um vínculo empregatício, devo obedecer às ordens, e se não estiver contente com elas devo manifestar minha oposição ou então sair da empresa. Mas o comportamento das pessoas é normalmente o pior possível, porque mescla falta de responsabilidade e covardia: elas não têm coragem de enfrentar a instituição e ao mesmo tempo não querem perder o emprego, por isso fingem que são bons funcionários.

            Nesse sentido, todos os valores que eles querem que nós passemos a executar na prática se transformam em grande parte em letra morta. Alguns poucos indivíduos irão corresponder às expectativas corporativas, não porque aprenderam nos web learning, mas porque já tinham isso dentro de si. Fazer um curso de liderança não vai fazer de ninguém um líder, pois ser um líder verdadeiro é assumir responsabilidades, e ter um comportamento leal que inspire confiança em seus funcionários. Isso faz parte do caráter da pessoa, que se reflete na prática cotidiana, no modo de tratar as pessoas com respeito e com coerência. E caráter se forma não nos corredores corporativos, mas pela experiência de vida.

            Aí que está o problema. Em nossa sociedade de consumo tudo o que queremos está fora de nós, temos que adquirir pela compra. Temos cada vez menos tempo de ter contato com as pessoas, incluindo nossos próprios familiares, de observá-las, emulando-lhes as qualidades e reparando nos defeitos para evitá-los. Não sabemos lidar com perdas, porque na sociedade de consumo ilimitado, perdas não existem, quando muito coisas como morte, doença são apenas derrogações do prazer. Quantas capas da Caras, a expressão máxima de nossa psiquê, nos falam de celebridades que tiveram câncer, perderam algum familiar, levaram um pé na bunda e estão lá lépidas e faceiras, posando para o fotógrafo como se aquilo fosse apenas um pequeno incidente na marcha inexorável da felicidade a ser obtida?

            A caravana anda e não há tempo para se voltar a si mesmos e refletir sobre nossas angústias, incertezas, medos. O melhor a fazer é estampar o sorriso Colgate no rosto, mesmo que isso nos transforme em autômatos, que fazem apenas repetir o que lhe mandam sem atentar para os desdobramentos. Complete a prova! Sim, eu completo, mesmo que não saiba quais as conseqüências de eu estar dando meu acordo a tudo aquilo que está sendo imposto a mim, incluindo penalidades se eu não fizer o que eu prometi. Sorria sempre! Sim, eu sorrio, e ao fazê-lo estou escondendo de mim mesmo meus fracassos, minhas frustrações, meus vazios. E la nave va, sem rumo, ao sabor dos ventos, ou melhor das regras que nos são impingidas sem que tenhamos o caráter suficiente para ter consciência do que de fato significam. Nesse entrementes não adquirimos a experiência de vida que nos torna sábios, mas apenas acumulamos pontos no programa de milhagem: milhagens corporativas, amorosas, sexuais, etc.

            Uma feliz Páscoa a todos os leitores do Montblatt e espero que acumulem muito ovos de chocolate!

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Propaganda e o fim da discussão racional

            Tenho um amigo que vira e mexe manda a nós, que fazemos parte de seu grupo de contatos eletrônicos, e-mails com propagandas criativas. Realmente ele escolhe a dedo. Da última vez era um anúncio da Ferrari e da Shell, em que um carro Ferrari vai se tornando cada vez mais moderno e chega às suas feições atuais, à medida que ele percorre as ruas das grandes cidades do mundo. Nosso editor já repetiu aqui no Montblatt muitas vezes, uma imagem vale por mil palavras e as melhores propagandas são aquelas em que o meio e a mensagem se casam perfeitamente, impressionando o espectador de primeira e levando-o ao embasbacamento. Tanto é assim que nem vale a pena descrever em palavras as boas propagandas. Basta ver aquelas da organização ambientalista WWF para saber do que estou falando.

            Nesse sentido, talvez elas tenham substituído o papel antes desempenhado pela arte que, na sua vertente pós-moderna muitas vezes e até deliberadamente insiste em se desviar dos cânones tradicionais de beleza para nos fazer desconfortáveis. Basta lembrarmos do neto de Sigmund Freud, Lucian Freud, que morreu há duas semanas. Era considerado um dos maiores pintores do século XX e, no entanto, suas representações femininas estão longe de as mostrarem de maneira favorável. As mulheres de Lucien Freud são patéticas, velhas como bruxas, decrépitas até. Ele pode ter querido passar alguma mensagem com isso, cuja profundeza fez os críticos o considerarem um grande artista, mas convenhamos que para o homem comum a obra de Lucien ou qualquer outro artista de vanguarda é praticamente inacessível.

            Daí a onipresença da propaganda na vida das pessoas, que comentam, que riem, que se lembram das mais antológicas: “Denorex, parece mas não é” “Há coisas que o dinheiro não compra, para outras existe Mastercard”. Eu mesma cunhei um adjetivo “Doriana”, que uso no meu linguajar cotidiano, para me referir a famílias felizes, pois lembro sempre de um comercial da margarina em que a família estava toda reunida em volta da mesa saboreando o café da manhã, todos embevecidos uns com os outros, rindo, compartilhando comida e amor. A propaganda ainda se propõe, como a arte antes do modernismo se propunha, a encantar, a fisgar o indivíduo apelando para sentimentos profundos: amor, sexo, poder. Mas aí que mora o perigo da propaganda.

            Para além do objetivo de encantar, a propaganda se vale de todos as feitiçarias possíveis para convencer o indivíduo de maneira inapelável a realizar alguma coisa: seja comprar, seja doar dinheiro para alguma ONG ou campanha. Não há meio termo, é pegar ou largar, a eficiência de um anúncio no jornal ou revista, de um comercial na TV é medida por sua capacidade de detonar a resposta imediata, total, de fazer a coisa que os idealizadores querem que seja feita. A propaganda não admite nuances, zonas obscuras, sua mensagem é absoluta: este produto é maravilhoso, inesquecível, imperdível, não há nada a fazer senão comprá-lo e depressa! Infelizmente, tal atividade que deveria ficar restrita à finalidade de vender produtos de consumo, espalhou-se por toda a sociedade e se transformou em um método onipresente de argumentação.

            Não é preciso muito esforço para percebermos isso. Discutir idéias hoje em dia está longe de ser uma atividade intelectual, em que as partes em seus embates vão descobrindo novas perspectivas sobre a questão e aprimoram seus próprios pontos de vista. Em uma discussão digna do nome, os interlocutores, mesmo que não tenham conseguido convencer-se mutuamente, saem todos melhores da refrega, seja por terem aprendido coisas com o oponente, seja por terem conseguido defender sua posição e deixado suas ideias mais claras para si próprios. Hoje o que passa por discussão não passa de bordões, de frases bombásticas, lançados com o propósito de chocar aqueles que ainda não se renderam à idéia genial ou de reconfortar aqueles que já concordavam com o autor. Num caso e no outro o único resultado é reforçar preconceitos que nada contribuem para aprimorar os espíritos. A título de exemplo vou me deter sobre dois casos ocorridos nesta semana no Brasil.

            A declaração da Sandy de que é possível ter prazer anal reverberou na internet. A “douta” Adriane Galisteu felicitou a virginal Sandy pelo grito de libertação feminina da cantora, antes tão reprimida e agora tendo coragem de entrega-se aos prazeres da carne. Ontem estava no computador e minha mãe assistindo à TV quando ela parou em um programa em que a apresentadora falava triunfante: “O sexo anal é gostoso sim!”, ao que foi fragorosamente aplaudida pela platéia embasbacada. Para que serve esse teatro? Para deixar os evangélicos mais furiosos? Para fazê-los cada vez mais convencidos de que o fim do mundo está próximo? Se é para termos uma discussão séria sobre sexo anal, que leve ao esclarecimento das pessoas, é preciso levar em conta os possíveis efeitos, bons e ruins, sobre a saúde física e psíquica. Mas não, o importante é a fanfarra que traz audiência e deixa os patrocinadores contentes.

            Fora do mundo das celebridades, essa influência da propaganda sobre a cabeça das pessoas mostra sua face mais sinistra na política, dominada por marqueteiros que transformam candidatos em sabonete Lux de luxo e pior, transformam o debate político em mera troca de ofensas pessoais. A troco de quê o venerando agora ex-ministro da Defesa chama sua colega de Ministério de fraquinha? Qual o critério que utilizou para qualificá-la, como ele pode embasar sua opinião? O que Ideli Salvatti fez ou deixou de fazer CONCRETAMENTE para receber a bola preta do Nelson Jobim? O que importa para bem do debate público, da democracia brasileira e do povo brasileiro não é a opinião pessoal de fulano sobre sicrano, mas sermos corretamente informados sobre os atos de todo os membros do governo para então podermos cobrar responsabilidade pelo que foi feito ou deixou de ser feito. “Barracos”, fofocas, feitos com objetivo de conseguir algum vantagem ilícita são pura enganação, pura propaganda no que ela tem de pior.

            Estamos mergulhados até o pescoço na propaganda. Assim como o computador está enterrando a escrita manual, o modo binário-bipolar do sim/não característicos do mundo da publicidade podem estar marcando o fim do debate racional, cujas sementes forma lançadas lá na Grécia Antiga. Azar o nosso.

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Pais e filhos

            Na semana passada li na Veja uma matéria sobre o novo pai que está emergindo das mudanças por que passa a sociedade. Um pai amigo, que se coloca ao lado do filho e não acima dele, que o acompanha em baladas e com o qual tem uma relação de cumplicidade. Segundo o artigo da revista, que mostrava fotos de pais e filhos sorridentes, esse modelo combina o melhor de dois mundos, porque ao mesmo tempo que o pai dá bronca no filho quando precisa não perde seu lado humano e não se torna uma figura autoritária. A premissa que embasa todos esses novos papeis é a velha crença rousseauniana de que os homens são naturalmente bons, e a sociedade o corrompe. Assim, se tratamos as pessoas com amor, respeito e dignidade, natural e necessariamente elas responderão sendo bons cidadãos, obedecerão às leis, não infringirão os direitos alheios. Será isso verdade?

            Essa dúvida me veio à cabeça por causa dos distúrbios que têm ocorrido na Inglaterra envolvendo jovens de subúrbios que se lançaram em um frenesi de destruição, saques, invasão de casas, queima de carros. Os ingleses estão espantados antes tal descida em comportamentos de Terceiro Mundo. Li um artigo em uma revista eletrônica que assino a respeito de habitantes de bairros próximos ao epicentro que se organizaram em milícias para protegerem suas casas e suas famílias, pois a polícia não estava respondendo prontamente. O governo do primeiro-ministro David Cameron havia cortado verbas da polícia no bojo das medidas de aperto fiscal para conter o déficit público, e planejava, ao menos antes de tais distúrbios, cortar mais dois bilhões e meio de libras do orçamento de segurança.

            Aparentemente tais episódios poderiam corroborar os rousseaunianos, para quem a razão disso tudo está no fato de tais jovens não se sentirem conectados à sociedade, pois muitos são desempregados e vivem às custas de benefícios dados pelo governo. Em Tottenham, um dos palcos da violência, a porcentagem de residentes nessa situação chega a 20%. A sociedade estaria plantando o que colheu: sem emprego, sem perspectivas, esses jovens não encontram nada mais a fazer do que aquilo que se viu nesta semana. E a que se deve tal falta de perspectivas? Em uma economia como a da Inglaterra, em que o setor de serviços responde por 77.1% da criação de riquezas, não é mais possível a um indivíduo sem educação adequada conseguir emprego. E é aí que mora o perigo: 63% dos meninos de 14 anos da classe trabalhadora e 50% dos de ascendência caribenha têm a capacidade de leitura de uma criança de 7 anos ou menos. Por outro lado, a família na Inglaterra também vai mal das pernas. 45% dos meninos de 15 anos passam quatro ou mais noites na semana com amigos e 49% dos pais ingleses quando perguntados não sabiam onde estavam os filhos. E a Inglaterra tem a mais alta taxa de gravidez na adolescência da Europa, o que leva ao fenômeno de mães solteiras sendo sustentadas pelo Estado.

            Aqui eu lanço uma pergunta que também se aplicaria perfeitamente ao Brasil. Diante da selvageria que se viu em pleno coração do Primeiro Mundo, será que esse modelo de novo pai que se está a propor é adequado? Viu-se na televisão a galhardia com que os baderneiros desafiavam a ordem vigente, não se importando com a polícia ou qualquer tipo de sanção. 24% dos condenados na Inglaterra recebem penas que não a detenção e, portanto, mais leves (Como aliás é a tendência no Brasil com o novo Código de Processo Penal, a de evitar a prisão e impor medidas alternativas). Será que não seria mais producente se nossos filhos tivessem um medo reverencial dos pais? Será que a democracia política não seria mais bem servida se nossas famílias fossem capazes de criar filhos que tivessem clara noção do que é certo e do que é errado, que tivessem medo de serem punidos pelos pais por cometerem infrações e quando chegassem à idade adulta também tivessem medo da polícia e seguissem a lei?

            Isso me vem à cabeça quando penso que tais indivíduos que roubaram, queimaram e amedrontaram não passam fome, têm lugar para morar, ainda que não lá muito bom. Fizeram isso dando vazão a seus instintos selvagens em larga medida, mesmo que usem a justificativa espúria de que estavam protestando pela morte de um jovem por policiais. Afinal se querem criticar as arbitrariedades da polícia que façam protestos em frente ao parlamento, mandem petições, pressionem os órgãos de investigação para que a verdade seja revelada. Quebrar tudo ao redor da maneira como foi feito a mim parece que o que faltou a esses indivíduos foi menos direitos, que hoje se resumem ao direito de consumir, e mais obrigações, obrigação de respeitar os pais, de respeitar os professores. E a culpa está tanto nos adultos quanto nos professores e em geral em todas as autoridades que deixam de exercer seu papel de cobrar, de exigir um certo padrão de comportamento das crianças e insistem só no lado zen da educação, que é ser legal, ser amoroso, ser compreensivo.

            O ser humano precisa ser civilizado e a civilização é uma conquista que custa sangue suor e lágrimas como diria o famoso Winston Churchill. O que não podemos continuar é nessa ilha da fantasia em que a sociedade de consumo nos coloca, só feita de gratificações e direitos. Quando se abre a caixa de Pandora o resultado é muito desagradável de se ver. Perdoem-me os leitores do Montblatt pelas minhas idéias antiquadas, mas sou a favor de umas belas chapuletadas nas crianças, que lhes inculquem não só valores como a capacidade de desafiarem os valores dos pais e construírem seus próprios. O que não pode é este niilismo que se vê, esta anomia. Isso pode acabar muito mal.

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