A chantagem emocional das cotas

Leitores do Montblatt, lanço-lhes uma pergunta à queima-roupa e espero que me respondam com sinceridade: alguma vez em sua vida já foram submetidos a uma chantagem emocional? Digo logo a vocês que eu fui, desde a mais tenra infância. Mas uma experiência que me marcou e me fez refletir muito sobre a luta de classes velada que existe na sociedade foi uma amizade que eu tive com uma colega de faculdade, cujo nome não interessa divulgar. Ficamos amigas logo no primeiro ano e viajamos muitas vezes juntas, nos divertimos e vivemos bons momentos. Mas haviauma tensão no nosso relacionamento que era muito sutil e da qual eu só fui me dando conta ao longo dos anos. Nossa origem social era muito diferente: ela era filha de mãe solteira e não tinha nem o nome do pai nacertidão de nascimento, morava na periferia de São Paulo e com seus próprios esforços e ajudada por sua inteligência havia entrado na universidade pública. Eu era totalmente diferente: cresci em uma família de classe média, estudei em escola particular e minha entrada na universidade pública foi uma consequência natural das oportunidades a que tive acesso e da minha seriedade nos estudos.

          A princípio considerávamo-nos muito íntimas e em pé de igualdade, mas na verdade quando penso retrospectivamente percebo queela sempre estava acima de mim, tanto porque ela se colocava lá quanto porque eu a mantinhana posição. No pedestal estava a self-made woman que em razão das dificuldades que enfrentou, dos obstáculos que teve que superar era naturalmente mais virtuosa do que eu, uma menininha mimada que nunca teve que traballhar de recepcionista e estudar à noite. De fato, como eu poderia negar isso? Como poderia negar que as coisas que me preocupavam, como por exemplo o objetivo moral de ser professora, eram muito aristocráticas e platônicas em face das questões práticas que minha amiga tinha que enfrentar, tais como como pagar as contas, onde morar etc? Isso me fazia me sentir muito culpada quando eu vinha com minhas crises existenciais e lembro da mal disfarçada condescendência com que ela me escutava e me dava conselhos. Sim, porque como pobre e sofredora virtuosa era ela sempre quemme dava sua opinião sábia, era ela sempre que ralhava ligeiramente comigo por coisas que eu dizia e que feriam suas suscetibilidades de pessoa que não se sente bem aceita em um novo meio social diferente do seu de origem. Eu ficava sempre mortificada por ela ter entendido que eu estava gozando dela ou estava sendo cruel e preconceituosa porque no fundo eu não passava de uma burguesa mimada.

             Com o passar do tempo, fui amadurecendo e tornando-me mais assertiva ecomecei a perceber que a indignação moral dela com minhas “infantilidades” tinha muito de má fée rancor. A gota d’água foi quando um diacompartilhei com minha cara metade a opinião de que o Departamento de Recursos Humanos das empresas era uma grande picaretagem, porque o que contava mesmo não eram as regras de boa governança corporativa ou o Manual de Conduta Ética, masas relações de poder. Ela me replicou, dizendo que estava muito magoada, afinal ela trabalhava com RH. Foi a minha vez então de pela primeira vez me rebelar e não pedir desculpas. Afinal, eu tinha feito a ressalva que estava discutindo ideias, não estava falando dela pessoalmente. Sabia que ela era uma pessoa honesta e se eu abordava o assunto é porque a achava de posse da experiência e da inteligência suficientes para que tivéssemos uma boa discussão.

           O fato é que a partir daí eu fui me afastando desta paladina dos pobres e oprimidos e fui me assumindo como eu sou, uma pessoa que nunca foi pobre, pelo menos até agora, mas que não se considera menos boa cidadã do que os que tiveram menos oportunidades que eu. Parei de me sentir culpada por coisas que eu não fiz: afinal não fui eu quem se envolveu com o homem errado e ficou grávida de maneira indesejada, não fui eu quem tornou a vida das mães solteiras no Brasil difícil por causa da falta de assistência do Estado. É verdade que não dôo o dinheiro que ganho em virtude das melhores oportunidades que tive como forma de compensação pelas injustiças que não sofri, mas ao menos nunca na vida eu soneguei impostos, apesar de pela minha profissão ter a oportunidade de fazê-lo.

           Este grande intróito leitores, a respeito da minha disputa com uma ex amiga, é para tratar de um assunto que já foi abordado aqui neste Montblatt, mas sobre o qual gostaria de apresentar minha opinião, que é a questão das cotas nas universidades públicas. Pelo modo como contei minha história de vida fica claro de que lado fico nesta polêmica. Sou terminantemente contra estabelecer esse segundo critério paralelo de entrada no ensino superior. Acho isso pura chantagem emocional, mais uma que politicamente se faz com a classe média brasileira tradicional, isto é , aquela que surgiu no bojo do grande crescimento econômico que experimentamos na segunda metade do século XX até meados dos anos 70.

           Por favor, não me entendam mal. Não acho a classe média imune a críticas, pelo contrário. Realmente, somos bem mimados em termos de educação superior e pior, damos muito menos do que poderíamos dar em troca desse privilégio. Há muita vagabundagem nas universidades públicas brasileiras, e para muitos alunos estar lá durantequatro, cinco ou seis anos é apenas um álibi para mostrar aos pais enquanto estão no hotel (coincidentemente ontem à noite estava descendo a Rua Riachuelo para voltar para casa depois da aula quando vi saindo de um hotel um casal de namorados da minha classe) no bar ou na balada. Sou uma típica aluna nerd, e me espanta sempre como tudo é nivelado por baixo, como os professores, com honrosas exceções, se abstém de exigir a excelência porque dá menos trabalho e se acostumam com a mediocridade.

     A solução no entanto, não está em punir os burgueses privilegiados tirando-lhes pelo sistema de cotas uma vaga que eles conquistariam pelo seu mérito acadêmico, mas uma vez eles tendo chegado lá, lembrar-lhes constantemente que estão usufruindo um privilégio e que devem fazer por merecê-lo. Na minha opinião, isso implicaria tornar as condições de aprovação nas disciplinas muito mais rígidas do que são na atualidade, de modo que se não preenchidas houvessem punições severas , como a perda da vaga. A vaga perdida por um burguês mimado mas preguiçoso seria oferecida a alunos de universidades privadas que prestassem um exame de admissão. Minha modesta proposta é portanto fazer das universidades públicas que congregam os melhores alunos os centros de excelência que vão formar os melhores profissionais. Não nego o elitismo da minha visão, mas acredito sinceramente que o Brasil como um todo se beneficiaria se nossas instituições de ensino superior públicas moldassem melhor o material humano que lhe cai nas mãos. Infelizmente, o que muitas vezes acontece é queelas acabam despejando profissionais medíocres no mercado.

      Os defensores dessa democratização do ensino superior alegam que as pesquisas indicam que o desempenho dos alunos que entraram por meio de cotas é equivalente ao dos outros alunos. Só acredito nesses resultados se me provarem que os critérios de avaliação adotados antes são os mesmos  deagora, do contrário esses resultados equivalentes são mera estratégia do professor que ao ver seu público mudar vai simplesmente nivelar por baixo parater menos trabalho. Podem chamar-me de metida, mas estudei um ano em uma universidade particular, e nós tínhamos aula de como estudar porque o público não sabia o que era ler e resumir o texto para absorver as ideais principais.

          A ideia de cotas é uma grande chantagem emocional que faz a alegria de políticos de todos os quadrantes que vendem a maravilha da democratização da universidade,de burgueses preguiçosos que ao apoiarem a cota poderão fazer média, dirimir sua culpa atávica pelas injustiças seculares do país e principalmente se livrar daobrigação de apresentar resultados mais satisfatórios de seus estudos,e claro dos que entrarem na universidade por este atalho. Quem perde é o país, que precisa de pessoas bem formadas e cônscias dos seus deveres de elite em relação ao nosso desenvolvimento.

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Tanatos e Eros

Acho que qualquer leitor do Montblatt sabe daquela história freudiana do Tânatos, o impulso da morte e Eros o impulso da vida, o lado negro e o lado brilhante de nós mesmos em constante embate. Quantas vezes não nos pegamos chafurdando na auto-comiseração, no derrotismo, no rancor contra tudo e todos, num sentimento exagerado de que o mundo nos é injusto? E no outro momento conseguimos dar a volta por cima e acreditar que para que as coisas dêem certo basta que queiramos lutar e perseverar sempre, basta que sempre optemos por nunca desistir, basta que estejamos sempre bem dispostos em relação àqueles que nos rodeiam.

           Uso a  palavra basta plenamente consciente de que tudo isso é muito óbvio, está em qualquer dos livros do Paulo Coelho, mas na prática requer mais do que a leitura atenta de algum livro de auto ajuda. É óbvio dizer que o segredo da vida é o de tentar prolongar os períodos “eróticos” pelo maior tempo possível e minimizar os efeitos do Tânatos que vira e mexe dá as caras, mas é o indivíduo sozinho com seus botões que tem que executar a receita, misturar os ingredientes na medida certa e aplicar as instruções no seu cotidiano, que nunca está previsto em nenhum lugar.

        Todo este meu intróito de rasteira filosofia é para eu dizer que talvez os países também sejam assim, possuidores de uma faceta solar que luta constantemente coma  faceta soturna. Vejo isso no Brasil de uma maneira gritante e isso me faz às vezes sentir-me pessimista em relação ao nosso futuro e outras vezes criticar a mim mesma por não querer ver coisas ululantemente positivas.

         Como negar que o Brasil atualmente tem muitas coisas das quais se orgulhar? Há poucos dias Dona Dilma anunciou um plano que pode ter impactos fascinantes para o país. Ao custo de três bilhões de reais planeja-se enviar até 2015 100.000 estudantes brasileiros ao exterior para realizarem graduação nos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, França e Itália. Imaginem o efeito cascata que esses brasileiros formados terão sobre nossa educação a longo prazo. Nas décadas de 1970 e 1980 levas de brasileiros formados nas melhores uiniversidades do país deixaram a terra do samba e do pandeiro em busca de novas perspectivas e nunca mais voltaram, o que foi uma perda inestimável em termos de riquezas que deixaram de ser produzidas. Agora formaremos nosso capital humano lá fora com a intenção de fazê-lo germinar aqui, produzindo conhecimento, emprego e bem estar. É um grande desenvolvimento sem dúvida, mesmo que represente por enquanto uma gota no oceano de lágrimas que é a educação no Brasil.

          E o que dizer da nossa reputação internacional? Por acaso é possível negar que avançamos várias dezenas de kilômetros nessa trilha? Em 2003 a Petrobrás lançou títulos para captar financiamento e teve que pagar aos investidores taxa de 9,1%. Atualmente o retorno sobre os t[itulos lançados pela Petrobrás é de menos de 5%. Isso permite que empresas brasileiras com presença global como a Vale e a Embraere outras menos famosas possam fazer investimentos e alavancar seus negócios competindo de igual para igual com concorrentes de países desenvolvidos. Quando pensamos que em 1991 a Bombardier canadense entrou com reclamação contra o Brasil por causa de um programa de incentivo às exportações pelo qual nosso governo oferecia juros menores às exportadoras para compensá-las pelo custo Brasil, vemos como as coisas mudaram para melhor. Nossa reputação foi sendo construída aos poucos,  com base na recusa sistemática em dar calotes em nome da soberania nacional, como tantas vezes fez nossa hermana Argentina. É claro que isso vem a um preço, a que eu mesma me referi algumas vezes neste espaço. Somos em larga medida dependentes de  capitais especulativos para financiar nosso déficit público atraído por taxas astronômicas de juros pagas religiosamente. Mas o fato de que um fundo de pensão na Inglaterra possa achar hoje mais seguro investir nos títulos da Petrobrás do que comprar títulos do seu endividado governo éum benefício palpável que beneficia toda a população brasileira e não só as grandes campeãs nacionais, porque em um momento de emergência é de se esperar que nos beneficiemos de uma melhor boa vontade para captar recursos. O ideal seria que nós tivéssemos poupança interna e que quase nunca precisássemos do dinheiro da banca internacional e de investidores de fundos soberanos árabes, mas já que a perspectiva de conseguirmos nos transformar em uma nação poupadora é bem longínqua, melhor que tal captação ao menos seja em condições razoavelmente suportáveis.

      O fato é que o Brasil pode se beneficiar da crise nos países ricos, vergados sob o peso de suas dívidas e de suas populações envelhecidas. Ofereçendo segurança aos investidores poderemos fazer florescer as áreas em que somos naturalmente competitivos, como energia, matérias primas, agronegócio. Mas é aqui que nosso lado Tânatos pode nos atrapalhar. A riqueza que conseguiremos produzir ficará restrita a algumas áreas, enquanto outras perecerão em razão de nossa exposição aos ventos da globalização. Nossa indústria está sentindo a pressão a cada ano e diminuindo sua participação no PIB. O que faremos a respeito disso? Continuaremos a ter uma sociedade extremamente desigual ou tentaremos usar o dinheiro conseguido nas áreas de sucesso para achar alternativas inovadoras para o resto que não se encaixou? No primeiro caso continuaremos a ser um país de segunda categoria, modernizado, mas não realmente desenvolvido, no segundo caso teremos dado um salto de qualidade e deixado para trás nossas tristes memórias de corrupção, pobreza, hiperinflação.

         Eu seria ingenuamente pessimista ou otimista se optasse de maneira taxativa por um ou outro cenário, se me arvorasse em dizer que Tânatos ou Eros predominarão absolutamente. Talvez fiquemos no meio do caminho, tendo nossos bolsões de desenvolvimento verdadeiramente sustentável e ao mesmo tempo convivendo com mazelas seculares. Veremoso que a sorte ou melhor, nosso esforço coletivo, nos reserva.

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Liberdade de expressão ou de avacalhação

            Liberdade de expressão. O sentido dela está magnificamente resumido nas palavras de Voltaire: “posso não concordar com nenhuma das palavras que você diz, mas defenderei até a morte o direito de você dizê-las”. Em suma, devemos desenvolver a virtude da tolerância, respeitar o que as pessoas têm a dizer, por mais que nossos valores sejam diametralmente opostos. Essa é uma das pedras de toque da cultura ocidental, não é mesmo? A liberdade de criticar, de inovar foi um dos fatores que permitiu a explosão de riqueza material e cultural nos países capitalistas desenvolvidos. Ultimamente, no entanto, acho que essa grande virtude ocidental tem sido tão usada e abusada que acaba sendo um dos signos da malaise espiritual dos nossos tempos.

            Os leitores do Montblatt devem ter ouvido falar do grupo de punk rock feminista russoPussy Riot, formado de jovens mulheres que realizam apresentações em Moscou para manifestarem-se contra alguma coisa. A última delas foi na Catedral de Moscou em que começaram a cantar em protesto contra o Patriarca de Moscou, Kirill I, que segundo elas ama mais Putin do que Deus. Elas estão sendo agora processadas sob a acusação de blasfêmia e podem terminar na cadeia. Como seria de se esperar, vários artistas e celebridades ocidentais manifestaram-se a favor dasmoças, que estariam sofrendo perseguição política do regime autoritário de Putin.

            Não sou lá muito fã de Putin pelo que foi feito na Chechênia, mas confesso que não pude deixar de concordar com algo que ele disse que eu tentarei parafrasear: se elas tivessem cantado punck rock em alguma sinagoga em Israel ou em uma mesquita de algum país muçulmano teriam sido imediatamente caladas por seguranças e acusadas de anti-semitismo ou racismo. Como seu show foi feito em uma igreja cristã, asopiniões se dividem de maneira radical: para os que acreditam em Deus e na Igreja Ortodoxa Russa foi uma afronta a um lugar sagrado, para os que acreditam na liberdade de expressão acima de tudo e de todos foi um protesto sadio, uma manifestação política que deve ser protegida e estimulada.

           Decidir quem está com a razão depende dos valores de cada um e como não me furto a expor os meus na medida do que é relevante para desenvolver meus argumentos, digo logo que não vi nada de edificante em um bando de mulheres mascaradas fazendo uns trejeitos dentro de uma igreja. Sim, havia um conteúdo, mas quando estudei Letras aprendi que a forma cria seu próprio conteúdo e a forma não me agradou de jeito nenhum: vociferar vitupérios em frente a ícones religiosos nesses nosso tempos em que cada um quer ter seus cinco minutos de fama não importa como a mim parece apenas mais uma maneira de chamar a atenção para si e realizar o desejo narcíssico de ser o centro das atenções, tornando-se hit no you tube. Afinal, crítica verdadeira pressupõe diálogo e não há diálogo verdadeiro sem que uma parte tenha a capacidade de reconhecer que a outra possa ter valores diferentes que afetam o entendimento mútuo. Uma coisa é colocar-se contra a religião depois de entender o porquê da religião, quais são suas premissas etc. Outra coisa é chegar chutando a porta, fazendo pouco caso de símbolos e locais considerados de especial valor para os crentes de maneira explícita e acintosa. Para mim, longe de ser uma legítima expressão de ideias, é ao contrário prova cabal da total falta de ideias e devalores. Ou melhor, se valores há, não são aqueles que normalmente respaldavam os livres pensadores como Voltaire, que lutaram contra a prepotência dos poderosos: a busca de um melhor entendimento das coisas pelo debate, pelo cotejamneto de diferentes pontos de vista até chegar-se a um consenso. Parece-me que a intenção das moças russasestava longe disso: se quisessem realmente dialogar com o patriarca de Mosocu e tentar demovê-lo do seu apoio a Putin, elas teriam levado em conta suas sensibilidades religiosas e não teriam de maneira chocante ferido todas as convenções estabelecidas sobre como se comportar em umlocal de culto religioso.

            Podem chamar-me de careta, mas muito do que passa por expressão do pensamento hoje no Ocidente resvala para a vulgaridade e a gozação fátuas, desprovidas de sentido. Aqui incluo o humor de um Rafinha Bastos, que declarou na TV que queria comer a Wanessa Camargo. Muitos lamentaram o processo aberto pela vítima da “comida”, em nome da ideia de que o humor para ser humor não deve poupar ninguém. De fato, uma das coisas mais abomináveis que surgiram nos últimos tempos foi a camisa de força do politicamente correto, que nos proíbe de usar determinadas palavras para com isso moldar aquilo que pensamos e sentimos em relação aos grupos vitimizados.

           Por outro lado, não há como não ter nostalgia dos nossos grandes humoristas, dentre os quais posso citar dois ilustres recentes falecidos, Ivan Lessa e Millôr Fernandes. Quando o Ivan Lessa referia-se ao Brasil como o “bananão” ele não estava provocando o choque gratuito, pelo mero prazer de aparecer. Havia todo um universo de valores e sentimentos por trás: seu desencanto e ceticismo em relação a um Brasil que era incapaz de tomar decisões corajosas, que empurrava tudo com a barriga, que evitava conflitos a todo custo, mesmo que isso significasse a total paralisia e a não resolução de problemas seculares. As piadinhas de um Rafinha, em comparação, parecem-me dignas não de um verdadeiro humorista, que precisa ter indignação moral, mas de um mero bobo da corte, que imita tudo e todos apenas para manter o rei satisfeito.

           Liberdade de expressão é fundamental para que possamos criticar, lutar e mudar o status quo. Liberdade de avacalhação, ao nivelar tudo e todos em torno do mínimo denominador comum da vulgaridade, só serve para fazer com que tudo continue como está.

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As idades do homem

        Há muitos anos eu assisti a um monólogo do Sérgio Viotti chamado As Idades do Homem em que ele tomava de empréstimo  um poema de Shakespeare que consta da peça “As you Like it”que é intitulado “The Seven Ages of Man” em que o poeta descreve as fases da vida do homem desde a infância até a velhice. Uso esse título para falar não das sete mas das três idades do homem, na minha humilde visão.

          Em primeiro lugar devo esclarecer que vou falar do homem ocidental, porque não conheço nada do homem oriental, se é que existe uma categoria que possa ser descrita como tal. E a razão da minha escolha é simples. No Brasil não estudamos nada a respeito da história antiga que não seja europeu, portanto seria leviano eu tentar falar de confucionismo, shamanismo ou qualquer outro conceito filosófico dos povos amarelos. Nós brasileiros somos um efeito colateral do expansionismo ocidental, não pertencemos ao núcleo duro do Ocidente, mas mesmo assim culturalmente, pelo menos a classe social a que pertenço, absorve aquilo que o Ocidente tem a oferecer, para o bem e para o mal.

          Como segundo esclarecimento, devo ressalvar que não sou teóloga nem falo alemão como o Leonardo Boff, portanto perdoem meu amadorismo ao lidar com religião, mas ultimamente tenho pensado sobre a questão da ética e da justiça, que são também questões religiosas, e acho que está na hora deeu colocar isso no papel. Afinal, aqui no Monblatt falamos tanto sobre o mensalão, sobre a corrupção que grassa no país, sobre as mentiras que nos contam, que nada mais natural do que tentar entender de onde isso vem.

           É minha firme convicção que o Homem Ocidental, pelo menos tal como ele é concebido teoricamente, mesmo que sua existência prática seja muito mais complexa, passou por três fases. Vou chamá-las para fins didáticos de o Homem Racional, o Homem Cristão e o Homem Técnico. O primeiro é fruto do caldo de cultura do mundo grego, o segundo da ascensão do cristianismo, e o terceiro do Iluminismo e do Capitalismo.

           Não tenho condições aqui de fazer um percurso pela filosofia grega, mas para meus fins quero dizer que a razão dos gregos era uma razão ao mesmo tempo prática e subjetiva. Prática porque ela se prestava a revelar a realidade e subjetiva porque era fruto da iniciativa do homem de empreender esse esforço de conhecimento tanto do mundo exterior quanto de si mesmo. Sócrates falava dos seus daimones, sua vez interior que funcionava como uma bússola moral dizendo-lhe o que não fazer e dando-lhe a oportunidade de fazer escolhas morais. Sim, porque o homem racional grego é um animal político inserido na pólis, que toma decisões a respeito da vida da cidade e de sua vida com base em certos valores. Um homem é justo, na visão de Aristóteles, porque ele age conscientemente com justiça, decidindo no caso concreto como ser justo em vista das circunstâncias.

             E isso requer um esforço mental e moral, mental de análise dos fatos e moral de como moldar os fatos em vista dos objetivos que se quer ver concretizados. Se o Ministro Ricardo Lewandowski estivesse fazendo justiça na Grécia, muito provavelmente ele não se ateria tanto ao aspecto técnico da insuficiência de provas para condenar os réus do mensalão. De fato, há o brocardo jurídicoquod non est in actis non est in mundo (“o que não está nos autos não está no mundo”), e ao seu pautar por ele o Ministro Relator está seguindo a estrita técnica que é ensinada nas faculdades de direito e o Código de Processo Penal. Mas para além da mera aplicação da lei, há a equidade aristotélica que requer que se pergunte: como posso fazer justiça neste caso? Como terei dado a cada um o que é seu de acordo com os critérios de proporção escolhidos pela sociedade? Como terei tirado de quem tem mais para dar a quem tem menos e tirado de quem tem menos para dar a quem tem mais? É justo não condenar criiminosos de colarinho branco que assaltam o erário, que estabelecem máfias de maneira acintosa, simplesmente porque eles fazem um serviço bem feito de não deixar rastros? O Estado de Direito, tão propalado pelos constituintes de 1988, pelos advogadosa torto e a direito, estará bem servido se a população perceber que os ricos têm mais simplesmente porque as provas ocntra eles nunca são cabais? Por acaso não é preciso calibrar a lei a depender do tipo de crime? Provas não cabais não quer dizer que não haja provas, mas simplesmente que o tipo de crime com que se está lidando é um crime praticado por pessoas finas, que sabem ser sutis. O grego levaria issso em conta para fazer justiça na prática.

        Toda essa preocupação com a equidade, com a atuação do homem em sociedade, foi praticamente enterrada com o cristianismo. Para um dos pais da Igreja como Santo Agostinho, a vida na terra era um vale de lágrimas, em que a injustiça, a crueldade e a miséria estavam sempre presentes. A única saída era a contemplaçãodo paraíso, contemplação esta que tem um quê de platonismo no sentido do mundo ideal, mas que na prática acaba tornando o homem refém do status quo e incapaz de utilizar sua razão para fazer escolhas e mudar o mundo. O Homem Cristão é um homem amedrontado, que se preocupa com a salvação da sua alma mais do que qualquer outra coisa.

        A terceira idade do homem vem como uma reação ao fatalismo cristão, e por isso é cheia de energia e otimismo. Os Iluministas acreditavam que a miséria e a ignorância podiam ser combatidos pela razão, que lançaria luz sobre as trevas e levaria a humanidade a ser feliz por se livrar de superstições milenares. Mas como parte do projeto de combate à religião, a razão secular iluminista é uma razão prática e objetiva, destinada a controlar a natureza, a criar meios que melhorassem a vida do homem e o permitissem se livrar do sofrimento. O aspecto moral das escolhas que fazemos com base em certos valores foi deixado absolutamente de lado, pois falar de valores, do certo e do errado, do justo e do injusto, era voltar ao maniqueísmo cristão. Daí ter surgido esse Homem Técnico, homem que usa a razão para conceber projetos fantásticos e para colocá-los em prática, mas que nunca se pergunta do efeito deles sobre os membros da sociedade.

           Vimos essa insensibilidade moral tantas vezes no século XX.  Mao Zedong, Stalin, Pol Pot, Hitler foram todos homens para quem dilemas morais eram preocupações infímas em vista da grandeza do que deveria ser colocado em prática. Qual era a importância de milhões de mortos, mutilados, traumatizados,em vista doReich de Mil Anos ou o comunismo ou a Grande Marcha para a Frente?. Pode-se argumentar que eram todos psicopatas e que não devemos tomar tais líderes políticos como parâmetros para estabelecer as características do homem moderno, fruto do Capitalismo e do Iluminismo. Mas, o que dizer dos engenheiros que participaram do Projeto Manhattan? De acordo com os valores do Homem Técnico eles apenas cumpriram suas tarefas e não podem ser responsabilizados pelo uso que foi feito do resultado do seu trabalho, a bomba atômica. Esta é a tragédia moderna: tal qual em uma linha de montagem em nossa sociedade as escolhas morais são feitas por um grupo e as escolhas técnicas por outro. É por isso que nossa especialidade é darmos desculpas à la Eichmann, que era apenas um cumpridor de ordens e não podia ser culpado pela morte dos judeus que ele despachou nos trens: o meu dever limita-se a cumprir minha pequena tarefa no grande esquema das coisas, se o produto do que faço causa algum mal, eu não posso ser responsabilizado, o uso é em outro departamento…

         E assim caminha a humanidade, prezados leitores, e aqui deixo a indagação sobre qual será a próxima Idade do Homem, que suplantará este Homem Técnico. Quem sabe o desastre ambiental do total esgotamento dos recursos naturais inaugure uma nova era? A queda de Roma trouxe à luz o Homem Cristão, os grandes descobrimentos trouxeram o Homem Técnico, uma guerra nuclear entre Estados Unidos e seus muitos inimigos pode trazer grandes novidades. Com certeza nós não estaremos aqui para testemunhá-las.

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A liberdade de avacalhação continua

                Prezados leitores do Montblatt, permitam-me usar meu espaço semanal para responder à minha maneira, como diria o Frank Sinatra, aos questionamentos colocados pela leitora Monica, que mora na Nova Zelândia. Na sua carta ao editor a Mônica disse entre outras coisas que não há liberdade de expressão na Rússia e que as moçoilas do grupo Pussy Riot não poderiam ter protestado em outro lugar.

              Não vale a pena discutirmos aqui se na Rússia há democracia e se o Ocidente pode dar lições de moral na China, que está se tornando agora um dos inimigos dos Estados Unidos ou no ex-inimigo mortal dos tempos da Guerra Fria. Eu seria leviana em afirmar categoricamente que na Rússia há tanta liberdade de expressão, um dos indícios de democracia, quanto nos países da Europa e da América do Norte. Leviana porque nunca fui à Rússia e muito menos aos Estados Unidos e tudo o que sei sobre o que acontece atualmente naquelas paragens tem como fonte a imprensa oficial, isto é aqueles órgãos considerados como confiáveis, e a imprensa alternativa que hoje floresce na internet.

              Devo confessar que cada vez mais eu me apóio nessa, porque eu tomei uma grande ojeriza por publicações que antes me davam prazer e agora só me aborrecem. Um exemplo é a revista inglesa The Economist da qual fui assinante por quase 20 anos, até decidir neste ano abandoná-la quase que completamente, a não ser por algumas leituras no site deles na internet. Depois que comecei a ler outras versões dos fatos na internet, o tom monocórdico de defesa do capitalismo mais ou menos como ele está, salvo por alguns pequenos ajustes, ajustes esters sempre às expensas do lado mais fraco, me é um tanto quanto insuportável.

             Por isso, a única revista que leio impressa (além da inevitável Veja, é claro) é uma revista de humor inglesa publicada a cada 15 dias que se chama Private Eye. Além de tirar sarro dos políticos ingleses de maneira inteligente, ela denuncia as maracutaias financeiras perpetradas por meio de bancos que lavam dinheiro de cleptocratas africanos, os respeitáveis homens de negócio como Richard Branson que fazem uso de todos os esquemas possíveis e imagináveis para pagar o mínimo de impostos possível (sonegação ou planejamento tributário?), a incompetência do governo que contrata empresas privadas para realizar serviços públicos, paga rios de dinheiro e recebe pouco em troca (conhecem algum outro país em que isso acontece?). Essa podridão eu não via retratada na vetusta Economist, e por isso comecei a me sentir enganada. Por outro lado lado, as arbitrariedades do imperador da Rússia são amplamente divulgadase a punição das Pussy Riots por vandalismo é mais uma prova de que aRússia do ex chefe da KGB não é um país democrático.

                 Toda essa digressão sobre minhas leituras na imprensa foi para que eu possa esclarecer aos leitores que minhas considerações sobre as punkeiras russas baseiam-se naquilo que eu pesquisei na internet, particularmente no blog de um americano chamado Llewellyn Harrison Rockwell,cujas ideias libertárias me agradam. Mas não pretendo nesse momento discutir os valores que compartilho com ele, pois isso não levaria a nenhuma discussão produtiva. O que pretendo aqui é expor os fatos que foram apurados por pessoas que desconfiam dessa conversa toda de apresentar a Rússia de Putin como um antro de opressão e corrupção. Os leitores do Montblatt podem achar que tal fonte não é confiável, e tem todo direito de ter tal opinião e descartar tudo o que falo. De qualquer forma, se isso levar as pessoas a refletirem sobre o outro lado das coisas que estão aparentemente consolidadas já me darei por satisfeita.

            Em primeiro lugar a canção de protesto que as moças entoaram na igreja tinha os seguintes dizeres (transcrevo em inglês por respeito ao original de onde tirei):

Holy shit, shit, Lord’s shit!

 Holy shit, shit, Lord’s shit!

 St. Maria, Virgin, become a feminist…

 Patriarch Gundyaev believes in Putin

 Bitch, you better believed in God

                Pressupondo que tais palavras realmente foram ditas pelas críticas do poder de Putin, deixo aos leitores o julgamento sobre que tipo de liberdade de expressão é essa que quer chocar usando palavras de baixo calão a torto e a direito sem a formulação de um pensamento coerente.

Em segundo lugar devo agora passar às manifestações prévias do grupo formado em 2008:

          Elas incluíram pintar o membro masculino em uma ponte emSão Petersburo, encenar uma orgia pública no Museu Timiryazev em Moscou que tinha nudismo e aparentemente um ato sexual completo com penetração (Nadezhda Tolokonnikova, uma das acusadas no episódio da igreja, participou da performance já em adiantado estágio de gravidez), jogar gatos vivos nos funcionários de um restaurant McDonald’s em Moscou, capotar carros de polícia, sendo que em uma ocasião aparentemente havia um policial dentro, jogar coquetéis Molotov em edifícios, simular o enforcamento de um imigrante e de um homossexual, jogar cinco baratas vivas sobre estômago da grávida Tolokonnikova e o roubo de um frango congelado de um supermercado que foi enfiado na vagina de uma dasmulheres do grupo.

            Leitores, reitero aqui que não tenho como confirmar essas informações, mas se elas forem fidedignas como acredito que sejam, meu objetivo com isso é o de frisar um ponto:o de que caímos em uma cilada perigosa quando levamos a sério pessoas cujo propósito é o de mera avacalhação, o protesto niilista, e as defendemos com unhas e dentes em nome da liberdade de expressão, e por outro lado, não levamos a sério pessoas como o Julian Assange, que prestou serviços inestimáveis de revelar muitos trambiques perpetrados à custa da população em geral, e está refugiado na embaixada do Equador e considerado como simples estrela mediática. O perigo é que nossa indignação contra a sorte de mulheres oprimidas seja a de inocentes úteisque acabam servindo a agenda daqueles que querem eleger determinados bodes expiatórios para satisfazer seus próprios interesses.

Uma última palavra: Mônica, agradeço por ler meu artigo e ter me levado a escrever este outro.

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