Maquinas maravilhosas

            No último final de semana fui convidada por uma amiga a ir à casa de veraneio dela em um condomínio em Embu Guaçu, na região sul de São Paulo. Diante dos dias tórridos que vêm ocorrendo nada melhor do que uma escapada a um lugar cheio de mata, com cachoeira, piscinão, ar puro. Como eu tinha coisas a fazer durante o dia, não pude aproveitar a carona de minha amiga na sexta-feira e então combinei que iria no sábado no final da tarde. Ela deu-me instruções sobre o ônibus a tomar, Embu Guaçu Cipó no terminal Jabaquara. Eu desceria no ponto final e lá ela me pegaria.

            Lá fui eu toda animada sonhando acordada com meu pulão na água no domingo. Cheguei ao ponto de ônibus exatamente às 18:10 e depois de 50 minutos de espera em que para passar o tempo li o jornal de domingo, o ônibus intermunicipal chegou. Quando o vi estacionado senti um alívio: putz, minhas pernas já estão doendo! Graças a Deus eu poderia sentar e apreciar minha experiência antropológica de reconhecimento de Parelheiros, bairro de que já ouvira tanto falar e que nunca tinha tido a oportunidade de conhecer. Duas horas sentada seria suficiente para eu observar o povo, os lugares, protegida pela janela do ônibus.

            Meu alívio durou pouco. Quando vi o cobrador e o motorista saindo do carro, pensei: droga,vai demorar ainda para nós partirmos! E de fato o cobrador sumiu e o motorista pendurado no celular também. Eu já não tinha mais o que fazer, já tinha lido o jornal de cabo a rabo. “Caramba, o que está acontecendo? Este motorista só fala no celular e o cobrador fica correndo de cá para lá! Foi então que ouvi a notícia trágica do motorista, dada aos primeiros da fila: o pneu dianteiro esquerdo tinha furado e não havia outro carro para substituir. Fiquei atarantada. O que fazer, esperar o próximo ônibus ou voltar à minha casa? Com um fio de esperança já descendo pelo ralo, fui em direção ao motorista. Lá estava ele ao lado do pneu, totalmente arriado. Eu perguntei: O senhor tem previsão de quando vem o próximo ônibus? Ele disse não sei, não dá para saber. Eu pensei: realmente é demais, ficar esperando aqui mais uma hora, sem nada para matar o tempo! Como diria Machado de Assis, nós matamos o tempo e o tempo nos mata…

            Fui embora, bufando: “onde já se viu, a EMTU não fazer a manutenção do ônibus? Como deixam chegar a esse estado? Será que não vêem que aumenta o risco de acidente?” Mas pensando bem deveria me considerar uma felizarda, pois deixei para trás umas trinta pessoas que não tinham a opção como eu de voltar à “Rive Gauche” de metrô porque moram na periferia a que se tem acesso somente de ônibus. Fui privada do direito a um simples dia de lazer e os infelizes que ficaram lá privados do direito de voltar para casa mais cedo. Por essas e por outras, incluindo a superlotação de metrô e ônibus, é que os usuários de transporte público se sentem excluídos, excluídos de conforto, de pontualidade, de segurança, de ar condicionado (não há ar condicionado na maioria dos ônibus porque mesmo em um calor de 40 graus no verão, isso é considerado item de luxo, inacessível aos tipos que freqüentam os veículos públicos).

            Daí o sonho de todo brasileiro é pertencer à classe dos incluídos, o que para nós não significa ser um cidadão que pode exercer de fato seu direito ao transporte público de qualidade. Que nada, tudo o que é público no Brasil é coisa de pobres, pretos e otários. Ser incluído é não depender de transporte público, é resolver seu próprio problema pela compra, que é o que a lavagem cerebral da propaganda nos ensina, o consumo resolve seus problemas. No caso a compra milagrosa que cura todos os males é a do carro. Ser incluído é ter um carro. É verdade que há mais incluídos do que outros, como diria George Orwell. Há os que têm um “carrinho”, geralmente carros mil pagos em 50 prestações, há os que têm um carro legal, os modelos nacionais mais sofisticados e há os happy few que têm “the car, the legend”: SRVs, SUVs e todos os vs importados. Ser importado é fundamental. O Audi A3 no início era coisa fina, depois que começou a ser fabricado no Brasil, foi rebaixado de patamar.

            O carro em nossa sociedade de fato é um dos maiores símbolos de pertencimento. Um homem que têm um carro “top de linha” tem poder, têm um membro sexual maior, e portanto têm mais mulheres, ou homens, a depender da preferência é mais bem sucedido. Mulheres independentes que fazem questão de mostra seu novo poder aos homens compram carros cobiçados pelo sexo oposto. Talvez seja um bom estratagema para conseguir um namorado: compre um carro e ele, atraído pelo bólido gostará de você, afinal você é uma pessoa que pertence à sociedade. Pobre de mim, sinto-me uma ovelha negra: nunca me interessei em dirigir, apesar das pressões familiares, e sempre que tenho alguma dificuldade de chegar a um lugar, seja fora ou dentro de São Paulo, há alguém para me lembrar do meu pecado original e me fazer sentir culpada: “tá vendo, se você tivesse seu carrinho…”

            Se eu tivesse meu carrinho seria mais uma contribuinte ao engarrafamento constante em São Paulo, que tende a aumentar exponencialmente, já que batemos recorde em cima de recorde, foram 3,5 milhões de unidades vendidas em 2010, faltam autopeças para suprir a demanda.  Este é um dos símbolos do sucesso brasileiro, a transformação radical por que passou a indústria automobilística na nossa terra. Há 20 anos a produção patinava em 700 mil unidades e tínhamos que nos contentar com as “carroças” vendidas pelas quatro montadoras aqui instaladas. Agora há uma profusão de máquinas maravilhosas para todos os gostos, facilitada pela alta do real, e novas montadoras instalar-se-ão no Brasil, Honda, Hyundai, além daquelas que já abriram fábricas no Brasil, para atender a sofreguidão dos brasileiros em pertencer.

            Agora finalmente somos modernos! Mas será que somos desenvolvidos? Temos carros, mas não temos onde pô-los, porque a malha viária está em pandarecos no Brasil, dada nossa crônica insuficiência de investimentos em infra-estrutura. E aqueles que não têm condições de comprar um carro ou não querem, como eu? Bem, aos excluídos, virem-se! O Estado não pode ou não quer concretizar o direito do trabalhador ao transporte, previsto na Constituição Federal em seu artigo 7, inciso IV.

            Dirão alguns leitores do Montblatt que sou uma rabugenta, afinal as estradas, ruas, viadutos para escoarem tantos carros virão com o tempo, à medida que o PAC frutificar, que o nosso déficit em conta corrente seja coberto pelos investidores internacionais, ansiosos por aplicar seu dinheiro a taxas escorchantes, com garantia de pagamento. Afinal, o real valorizado “é conseqüência natural do nosso progresso”. Quem disse isso foi o egrégio banqueiro, um dos donos do BTG Pactual, doutor no MIT, Pérsio Árida no Globo do dia 6 de fevereiro, que acaba de comprar a parte boa do Banco Panamericano (a parte podre será custeada por nós otários contribuintes).

            Parafraseando Claude Lévi-Strauss, ser Terceiro Mundo é isso: é se atracar à modernidade, sem passar pelo estágio civilizador de desenvolvimento, que permita que a modernidade seja mais que uma fachada, seja mais do que truques destinados a agradar certas pessoas à custa da maioria. Espero poder viver um dia em um país em que não ter uma máquina maravilhosa seja uma opção viável a qualquer indivíduo, que antes de ser consumidor, é um cidadão. Será que viverei para ver esse dia chegar?

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Dica na internet

            Consultando a imprensa brasileira, a escrita, a falada e a eletrônica, temos a impressão de que vivemos no melhor dos mundos possíveis: níveis recordes de emprego, boom imobiliário, capitalização recorde da Petrobrás, consolidação democrática, crescimento econômico impulsionado pela Copa, investimentos estrangeiros crescentes etc. Não há nenhum fator de risco, nada que possa atrapalhar nosso caminho. Ou melhor, se há, ele fica bem escondido pelas meias-verdades que nos são contadas. O boom imobiliário é à custa da alienação fiduciária, em que os grandes beneficiários são os bancos, a consolidação democrática veio à custa de um debate político mínimo, os investimentos estrangeiros são para comprar dívida, aproveitando nossa taxa de juros recorde, não são produtivos, geradores de emprego.

            Caso os leitores do Montblatt queiram ter uma visão mais ácida da realidade consultem o site www.globalresearch.ca., que se propõe a analisar os efeitos da globalização. Ele tem muitos artigos, incluindo de Fidel Castro, e o melhor é selecionar o que se vai ler. Eu às vezes vou pelo tema. Outro dia peguei um artigo sobre o Brasil, intitulado “Brazil’s Debt Crisis” que me permitiu entender o porquê de a privatização de serviços públicos como educação, saúde e de infra-estrutura é, ao contrário do que dizem os panglossianos, contraproducente do ponto de vista econômico.

            Mas meu principal critério de escolha é pelo autor. Há um colaborador, chamado Paul Craig Roberts, que foi secretário assistente do Tesouro americano no governo Reagan que me é particularmente caro. Cheguei até a lhe mandar um e-mail de agradecimento pelas suas sábias palavras, e ele respondeu-me brevemente, mas de maneira cortês. Paul Roberts fala principalmente dos Estados Unidos, da decadência econômica, moral e política do Tio Sam, que se desindustrializou, se endividou para financiar guerras injustas e inúteis e agora vê seu povo empobrecer sem que a classe política, comprometida com o consenso das elites globais financeiras, faça nada para salvar o povo. Ao contrário, ela contribui para enterrar o futuro dos americanos de vez, ao insistir em distribuir maná aos bancos, cortar benefícios sociais e aprofundar a dependência dos manufaturados da China e da disposição desta de financiar o déficit americano comprando títulos do Tesouro.

            Um outro site que sempre consulto é o www.takimag.com. Fundado por um colaborador da revista inglesa The Spectator, ele é a princípio impalatável para nós habitantes do Sul, porque seus colaboradores são politicamente incorretos: defendem controles à imigração por considerar que ela mina a unidade cultural e racial dos EUA, nos consideram inelutavelmente inferiores, mas desconsiderando a parte que nos toca, são acerbamente críticos do papel atual dos EUA como potência imperialista que se arvora o direito de impor seus valores mundo afora. Entre seus colaboradores está um ex candidato a presidente Pat Buchanan. Recentemente ele passou por uma transformação que o tornou mais fútil, com fofocas sobre celebridades, coluna social, mas mesmo assim merece uma olhada. É sempre interessante saber o que os arianos do Norte verdadeiramente pensam sobre nós, para além dos discursos regado a sorriso Colgate que falam sobre cooperação, metas do milênio, e toda a lenga lenga hipócrita que nos impingem para fingir que se importam conosco.

            O fato é que a internet, além de ser repositório dos orkuts, facebooks e outras inutilidades, também vem se transformando num canal alternativo para pessoas que não encontram espaço para suas idéias na mídia tradicional, controlada por grupos econômicos. (O editor do Montblatt que o diga) O pior na imprensa não é que seu conteúdo seja comprometido com determinados interesses, afinal todo e qualquer ser humano que escreve ou fala algo o faz à luz de seus valores que, por serem subjetivos, são passíveis de crítica. O que é insidioso é que as opiniões nos são passadas como se fossem verdades naturais e portanto, indiscutíveis. Deveria ser tarefa do jornalista, ao dialogar com seus usuários, admitir abertamente de que lado está, no que acredita, e assumir a responsabilidade por isso. Imprensa livre é aquela em que o debate de ideias fica mais fácil quando sabemos das premissas dos debatedores. Assim evitam-se desentendimentos e chega-se mais rápido a posições esclarecedoras. A internet talvez venha realizar a tarefa de desmistificar o trabalho do jornalista, mostrá-lo em suas verdadeiras cores.

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Tropa de Elite e o sistema

            A aguardada continuação do filme Tropa de Elite estreou há duas semanas e tem feito bastante sucesso de público. Os críticos no geral acham que houve uma evolução no pensamento do Capitão Nascimento, que começa a ver que para acabar com o tráfico não basta somente matar os “vagabundos”, pois os que comandam o tráfico estão alhures, além das favelas do Rio de Janeiro. Ao longo do filme ele vai mostrando o papel das milícias que teria tomado o lugar dos traficantes no controle dos moradores, dos políticos que se valem desse poder das milícias para conseguir votos na favela, dos jornalistas sensacionalistas que se elegem com o discurso do prenda e arrebenta.

            Sem dúvida sob um certo ponto de vista a visão do Capitão Nascimento se torna mais complexa, mais nuançada, no mínimo porque o rol de “vagabundos” não é composto só da ponta do iceberg, representada pelo chefes de tráfico na favela que estão na linha de frente do tiro. Mesmo assim, uma coisa que me incomodou foi ele fazer insistentemente menção a um tal de “sistema” que impede que as coisas mudem para melhor, um sistema tão poderoso que quando um de seus membros é eliminado, ele o repõe de pronto e por isso demorará anos até que o problema se resolva. Aqui cabe a pergunta: que raios de sistema é esse? A cena final do filme é um vôo sobre Brasília, onde estão os políticos que aparentemente comandam o sistema de manipulação dos pobres que os mantém na miséria e os levam ao tráfico. Será que a moral do filme é que o sistema corrupto é o culpado?

            A questão de culpar o sistema é que acabamos dando vida a um ser inanimado e deixamos de ver que há pessoas que tomam certas decisões que têm enorme repercussão. Se fôssemos analisar o sistema do tráfico, veríamos que ele se alimenta não só da indigência material e cultural do nosso povo, mas de decisões das grandes potências que escolhem não fazer nada para coibir os paraísos fiscais, ou escolhem até estimular-lhes a criação, paraísos estes que permitem a lavagem do dinheiro sujo do tráfico; veríamos que a lavagem de dinheiro é uma bem azeitada indústria que movimenta bilhões de dólares em todo o mundo, porque criou-se um consenso na sociedade, por certo estimulado por aqueles que dele se beneficiam, que o “sistema financeiro” é por demais importante para a economia e deve ter rédea solta para fomentar o crescimento; veríamos que há grandes empresas de armamentos que ganham muito dinheiro vendendo seus produtos em todos os rincões do mundo sem que os governos que as promovem se importem com o fato de que tais armas serão usadas nas guerras dos traficantes.

            Muitas vezes nos sentimos orgulhosos do nosso realismo quando dizemos, tal como o Capitão Nascimento: O sistema é muito poderoso, é muito difícil ser combatido”. Achamos com isso que estamos entendendo as engrenagens do poder.  Nada mais falso, pois ao não darmos nome aos bois, estamos simplesmente deixando de responsabilizar pessoas que fazem determinadas coisas que trarão conseqüências à sociedade. Quero dar dois exemplos tirado desse nosso período de campanha.

            A celeuma em torno do aborto é um deles: os dois candidatos à presidência, Dilma e Serra, tergiversaram e nós, que escolheremos um ou outro, diremos em sua defesa: “O sistema exige concessões, para que se possa fazer alguma coisa. Faz parte do jogo tentar conquistar o voto dos evangélicos.” Ora, será que nossa melhor reação deve ser o cinismo informado? Ou será que deveríamos nos questionar o porquê de os candidatos ficarem debatendo questões não pertinentes e deixarem de falar do que realmente interessa, que é o rumo que o Brasil deve tomar neste século XXI, em que haverá profundas transformações no ordenamento econômico mundial?

            O leitor do Montblatt Rui Daher em sua crítica ao editor, reconhece que o PT aderiu ao fisiologismo, que houve o Mensalão, que o setor financeiro dá dinheiro à candidata Dilma mas parece relevar tudo isso, implicitamente aderindo à tese de que se o Lula fez inevitáveis concessões ao sistema, isso tudo é compensado pelo fato de ter tirado milhões da miséria, ter aumentado o emprego e a renda. Novamente aqui me parece que se abandonássemos essa idéia de sistema e enfocássemos as pessoas veríamos que o Lula e o PT têm um projeto de permanecer no poder, assim como o PSDB de Serra tiveram quando compraram no Congresso a reeleição e mandato de quatro anos. Para isso batalharam pelo voto cativo dos beneficiados do Bolsa Família e pelo beneplácito da elite financeira que se locupleta com nossa dívida pública monstruosa, dívida esta cada vez mais alta, descontrolada, que nos deixa em posição vulnerável ante qualquer crise financeira, crise esta que se vier levará de roldão todo nosso modesto crescimento econômico, geração de emprego e renda.

            Talvez há os que achem que responsabilizar as pessoas pelos seus atos seja algo de liberais de direita que querem mandar os pobres para a cadeia. Talvez seja mais confortável pensar em grandes sistemas impessoais, sobre os quais não temos controle, e assim não precisamos assumir responsabilidade por nossas escolhas. Eu ainda quero crer que a única saída para nós seres humanos é acreditar que podemos tomar decisões de acordo com o que nós acreditamos ser certo e ser errado. Isso evita que mistifiquemos as pessoas ou as amesquinhemos, pois elas não estão contra ou a favor do sistema, mas simplesmente tomam decisões num determinado contexto. E ao tomar decisões temos sempre uma prioridade em mente, relegando o não prioritário. O debate político no Brasil seria muito mais profícuo se parássemos de rotular pessoas como de direita ou de esquerda, querendo com isso dar-nos uma pretensa superioridade intelectual em relação aos que não compartilham de nosso preconceito e começássemos com duas perguntas básicas: por que tomar tal medida? A quem ela beneficia? A quem ela prejudica? Oxalá um dia cheguemos a esse estágio de maturidade, para além do Fla x Flu que impera em nossa terra.

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Questão de Fé II

                        A pobreza do debate nesta eleição presidencial reflete uma característica muito nossa, que é a pouca disposição que temos de fazer uma análise da realidade e agir de acordo com tal análise. Exemplos disso podem ser vistos em várias áreas. A educação no Brasil, do ensino primário ao superior, consiste simplesmente em uma tarefa burocrática de cumprimento de requisitos para conseguirmos um diploma: decorar o conteúdo exigido pelo professor ou simplesmente colar e despejar tudo na prova. É um ensino escolástico de simples reprodução daquilo que as “autoridades” falaram.

                        Discussões sérias, isto é, embates em que pessoas com diferentes pontos de vista expõe suas idéias são evitadas porque para nós discutir não é uma atividade intelectual, mas uma questão pessoal: se estamos discutindo é porque estamos brigando e como somos conciliadores é melhor não discutir. O que prevalece no Brasil é a falsa discussão, em que ou os indivíduos tecem elogios inócuos uns aos outros porque concordam sobre a questão em pauta, ou então se ofendem mutuamente desqualificando o oponente com base em julgamentos de valor e não em uma análise ponderada da consistência do argumento.

            Esse “Fla-Flu” eterno é gritante em nossa grande imprensa”, falada e escrita. A Revista Veja é anti-lulista e ao noticiar o governo faz uso sempre de adjetivos hiperbólicos, “aloprados” “diplomacia terceiro-mundista” etc. A Carta Capital fecha com Lula incondicionalmente e apesar de todos os escândalos, da malandragem de Lula de fingir que não é com ele, etc. varre tudo para debaixo do tapete e considera que nosso atual presidente realizou a promessa do governo para os trabalhadores, pelos trabalhadores.

            Quanto à televisão, ela se dedica no mais das vezes a assuntos prementes na pauta dos problemas nacionais – as peripécias do psicopata Bruno, o poder de cura das plantas da Amazônia, a beleza do Pantanal, a separação do casal global Cláudia Raia e Edson Celulari, que tragédia! Tudo que nos poderia fazer acordar para realidade não é mostrado.

            Hoje fiquei sabendo em um programa da BBC que o Brasil se transformou no destino número um dos pedófilos safados europeus que vêm pegar meninos e meninas, principalmente no Nordeste. Suplantamos o Sudeste Asiático como Meca do turismo sexual, porque a polícia está apertando o cerco aos pedófilos lá, então eles vêm para cá atrás de crianças de até 7 anos que muitas vezes são colocadas pelos pais na prostituição. Será um pacote maravilhoso para a Copa: além de poderem assistir aos jogos terão direito a chupetinha feita nas proximidades dos estádios. Viva as potencialidades econômicas do turismo!

            Esse mascaramento da realidade, fruto e efeito da falta de discussão, impede que estabeleçamos políticas sensatas e afeta a tal da governança de que falava nosso editor no Montblatt passado. Aumentamos por meio do Prouni o acesso ao ensino superior, mas tal acesso é profícuo ou é mera enganação? Estamos formando os engenheiros, técnicos e cientistas de que o Brasil precisa ou estamos apenas enriquecendo os donos de faculdades particulares e enganado os otários detentores de diplomas inúteis? Essa opção que fizemos, imitando os americanos, de uma economia baseada no consumo e não na poupança, nos levará a um desenvolvimento sustentável ou será uma bolha de euforia que um dia estourará deixando uma tremenda ressaca?

            O fato é que sempre optamos pelas soluções mais fáceis, menos trabalhosas, porque como sociedade somos incapazes de nos livrar dessa oscilação entre euforia e desalento total que nos caracteriza: ao milagre econômico dos anos 70, sobreveio a depressão da década perdida, e agora estamos em plena euforia, embalados pela Copa, pelas Olimpíadas, pelo crescimento econômico baseado em endividamento e na dependência da China. Tanto o otimismo de agora de achar que tudo está no rumo certo quanto o pessimismo de outrora de achar que o Brasil não tem jeito é uma questão de fé e para combater a fé só há um remédio: a verdadeira discussão, em que as partes se enriqueçam mutuamente e não se espezinhem. Só assim deixaremos de ser bipolares e nos tornaremos mentalmente saudáveis.

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Quero mais saúde

Os leitores do Montblatt têm todos idade suficiente para lembrar-se das mentiras que nos foram impostas quando do martírio de Tancredo Neves, ao fim da ditadura militar. A princípio uma diverticulite diagnosticada às vésperas da posse, o recém-eleito presidente posou garboso em robe de chambre cor de vinho ao lado de sua esposa e dos médicos sorridentes, esbanjando otimismo com sua recuperação. Mas o caldo entornou, Tancredo foi transferido para São Paulo, a Meca da medicina brasileira. E foi então que as mentiras se avolumaram. Médicos que diziam uma coisa e depois se desdiziam, um cozinhar de galo que durou “coincidentemente” até o dia 21 de abril, dia do outro mártir de Minas, Tiradentes.

Até hoje não sabemos o que ele teve. Câncer? Tumor benigno? Envenenamento? Houve claro, alguns livros, mas o importante é que ao povo brasileiro ficou faltando uma explicação, oficial e consistente, do que ocorreu com o fundador da Nova República.

Toco nesse assunto em primeiro lugar pelo motivo óbvio do câncer da candidata Dilma. Quando ela acabou de fazer a quimioterapia os médicos do Hospital Sírio Libanês emitiram um comunicado dizendo que ela estava curada. O que quer dizer isso? Não haveria a obrigação de eles, dada a circunstância de já naquela época ela ser candidata, fazerem a ressalva de que cura deve ser usada com cautela considerando que durante cinco anos pode haver a chamada recidiva? Por que os médicos se eximem do seu dever de informação? Acaso há algum interesse de angariar benefícios? Sabemos que o Hospital Sírio Libanês, onde muitos chiques e famosos se tratam, goza do status de entidade filantrópica, e portanto de incentivo fiscal, apesar de não receberem em suas luxuosas dependências NENHUM paciente do SUS. Será que a contrapartida dessas benesses é dar salvo-condutos médicos a todos esse políticos que na verdade estão com a saúde por um fio?

Sim, por que não é só Dona Dilma que tem ficha médica suja. O candidato Serra já teve problemas cardíacos, e também é tratado no Sírio Libanês. Mas os outros dois candidatos menos reluzentes não têm histórico melhor. A idade provecta do Plínio de Arruda Sampaio já mostra que ele não tem energia física suficiente para ser o timoneiro da nação e Dona Marina Silva teve malária e hepatite. A nós não foi esclarecido de que tipo de hepatite se trata. Pois se se trata da hepatite C, teríamos uma presidente condenada, como talvez a Dilma se o câncer voltar.

A candidata do governo, ao ser perguntada sobre sua saúde, disse que era uma pergunta deselegante. Por que? Por que é deselegante querermos saber sobre a capacidade física dos candidatos? Acaso não é dever deles nos informar sobre  suas reais condições para que possamos decidir de maneira mais consciente? Nos Estados Unidos, na última eleição para presidente, tanto o velhinho Mc Cain quanto o jovem Obama apresentaram relatórios médicos, esclarecendo as dúvidas: Mac Cain já teve um câncer de pele no passado, o que foi devidamente apontado pela imprensa do país.

Por que nossos candidatos a presidente não fizeram o mesmo já no início da campanha? Além de apresentarem declarações de renda, deveriam apresentar laudos informando-nos sobre seu histórico médico. Se fizessem isso não seriam mais ou menos elegantes, apenas cumpririam sua obrigação básica de prestar contas a nós que os elegemos e os colocamos lá em cima, confiantes de que terão no mínimo, senão a virtude maquiaveliana que esperamos de nossos líderes, ao menos a capacidade física para tomar o Boeing Presidencial, apertar a mão dos representantes estrangeiros, etc.

Chega de meias-verdades, transparência já sobre a saúde de Dilma, Serra, Marina e Plínio!

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