Mais rabugices

      Meus caros leitores do Montblatt, nosso editor sempre reclama com razão que vocês não fazem comentáriosnem positivos nem negativos a respeito dos artigos. Não há como obrigá-los a fazê-los, portanto a saída é conformar-se ou ir atrás de “fidibéqui” alhures. Foi o que fiz semana passada, quando mandei meu artigo sobre o Obama a uma amiga que coincidentemente falara sobre a biografia dele e quanto admirava sua trajetória de vida. Depois de receber meu artigo criticando o Prêmio Nobel da Paz de 2009, ela me espinafrou dizendo que eu me negava a ver qualquer qualidade nele e o nome de rabugenta vinha bem a calhar. Quando eu repliquei que me mandasse algum artigo falando dascoisas que o Obama realmente fez, e não o que ele falou, ela quis me mandar informações tiradas do twitter dele e do site da presidência. Eu agradeci e disse que essas não são fontes fidedignas porque são promocionais.

        Este intróito serve para que eu reitere minha posição rabugenta e a explique de maneira mais detalhada. Reitero minha posição porque, apesar de achar que com Romney o desastre seriamais total para o mundo, isso não exime o presidente das suas falhas. Mitt Romney já declarou expressamente que vai ajudar ainda mais os rebeldes na Síria, que vai aumentar a presença americana no Afeganistão e que vai pressionar ainda mais o Irã. Em suma ele é uma criatura do complexo industrial militar em nível mais elevado que Obama, o que não significa que o Prêmio Nobel da Paz tenha feito algo que contribuísse para acalmar os ânimos na cena mundial.

         As intervenções no Oriente Médio e na África, particularmente a derrubada de Gaddafi na Líbia e a destruição em curso do regime de Bashar al-Assad, só servem para mostrar que os EUA agem como um império, defendendo seus interesses econômicos e geopolíticos sem nenhuma preocupação com os efeitos a longo prazo em termos de aumento da violência e miséria do povo. Na Síria, um dos objetivos é atingir um dos inimigos dos EUA, a Rússia, que tem sua última base naval no Mediterâneo na costa da Síria, em Tartus. Na Líbia, Gaddafi havia se tornado ovelha negra porque ousara fazer negócios com os chineses, que exploravam petróleo no leste da Líbia. E para isso vale tudo, apoiar a Al-Qaeda, antigo inimigo número um, na Síria contra os alauitas de Assad,derrubar os sunitas de Saddam Hussein no Iraque que que os Estados Unidos haviam apoiado antes na Guerra Irã-Iraque e lutar ocntra o talibã no Afeganistão, antigo aliado contra a antiga União Soviética.

         O lema é dividir para governar, estratégia sempre bem sucedida, pois infelizmente os muçulmanos preferem continuar brigando entre si e acabam se aliando aos países do Ocidente para ganhar força contra o grupo rival.As escaramuças atuais entre Turquia e Síria, que podem fornecer a desculpa parauma intervenção da Otan na guerra civil, é um exemplo típico disso. E quem mais sofre com governos que se vendem ao Ocidente obviamente é a população muçulmana, que é a vítima cotidiana dos ataques terroristas, das intervenções militares, da indigência econômica. Em suma, o primeiro Afro-Americano a chegar lá segue os script dos seus antecessores quando o assunto é política externa e longe de se pugnar pela paz perpétua sonhada pelo filósofo Kant em 1795 a faz um instrumento desprovido de princípios e de consistência,para atingir os quedesafiam o poder americano, como a China e a Rússia.

         O fato é que esta mistura de politicamentecorreto com a face mais negra do capitalismo me faz ser uma rabugenta. O Obama usou sua “negritude” em sua carreira políticapara conseguir votos dos negros e dos brancos que se sentem culpados pela escravidão. E como ele teoricamente pertence a uma minoria está imune a ataques. Mostrem-me realizações de fato dele e serei toda ouvidos, mas não vale falar do aspecto simbólico da eleição de um negro para a presidência. Símbolos são importantes se eles galvanizam providências práticas, mas se são usados como máscaras para encobrir a inação, o indivíduo politicamente correto que fala coisas bonitas como “estender o arco da justiça” acaba pornão se diferenciar em termos de resultados efetivos deum homemque se reconhece como sendo de direita como Mitt Romney, que declarou que não espera que os 47% dos americanos que não pagam imposto de renda votarão nele, porque ele propõe o corte dos benefícios sociais.

          Leitores do Montblatt, infelizmente minha alma rabugenta tem tido muito com que se alimentar. A última é este Prêmio Nobel da Paz à União Europeia. É verdade que a União Europeia, com a ajuda dos americanos,em seu início evitou novas brigas entre países europeus. Hoje ela insufla os cidadãos contra os governos nacionais,fazendo-os descrerem da democracia com esses infindáveis e inúteis programas de austeridade. Ter paz não significa só não ser convocado para uma guerra militar, mas ter emprego, poder pagar suas contas, não viver ansioso esperando pelo pior. Perguntado sobre a concessão do prêmio pela BBC, um dos membros do movimento dos Indignados na Espanha disse que a União Européia foi uma força do bem nos primeirostempos, mas nos últimos dez anos ela é apenas um instrumento do mercado para negar direitos ao povo. Concordo em gênero, número e grau.

Chega de rabugices, semana que vem tem mais, para os que aguentam meus rompantes.

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Liberdade ainda que tardia

           No dia 15 de agosto, ocorreu um pequeno evento de que tenho certeza quase ninguém ficou sabendo, mas que em minha modesta opinião é bastante revelador do estado atual das liberdades no mais poderoso país do Ocidente, os Estados Unidos. Brandon Raub, que serviu no Iraque e no Afeganistão, foi preso pelo FBI e mandado para um hospital psiquiátricopor causa de suas opiniões divulgadas no Facebook, esta maravilhosa ferramenta de comunicação que teoricamente protege a confidencialidade dos dados dos seus usuários. Brandon Raub conversava em um chat “privado” a respeito de suas dúvidas sobre a versão oficial dos atentados de 11 de setembro de 2001 e manifestava sua simpatia pelo candidato derrotadoà indicação do Partido Republicano, Ron Paul.

           Para quem não sabe, Ron Paul é um velhinho tratado pela mídia americana como um ser lunático que defendeu em sua campanha o fim de todas as intervenções militares dos EUA pelo mundo, o fim do apoio incondicional dos EUA a Israel, e propostas libertárias, isto é, em defesa do Estado mínimo, como o fim da previdência social e do Federal Reserve, considerado por Ron Paul como o grande responsável pela completa degradação da moeda americana. Degradação esta ainda não foi percebida pelo mundo pela infindável capacidade do Federal Reserve de malabarismos financeiros, que têm permitidoao órgão encontrar compradores para os Treasury bonds americanos, a despeito do déficit público monstruoso, que está ao redor de um trilhão e trezentos bilhões.

        Não me interessa aqui discutir se o Ron Paul é um republicano insensível ou se acreditar que há muitas coisas não reveladas sobreo 11 de setembro é o mesmo que acreditar que Elvis não morreu. O meu ponto é que no país que adora dar lições de moral sobre liberdade de expressão para todos os países, especialmente aqueles que contrariam seus interesses, as pessoas que ousam externar opiniões consideradas subversivas são perseguidas e amordaçadas. Felizmente, a mãe do ex-mariner acionou logo um advogado, que conseguiu convencer o juiz que não havia motivo palpável para ele ser internado num hospital psiquiátrico. John Whitehead, o advogado, disse em entrevista que há atualmente mais de 20.000 pessoas no Estado da Virgínia, onde ocorreu o incidente, que foram internadas à força, sem acusação formal de crime. Leitores do Montblatt, para mais informações queiram, por favor consultar o seguinte sitehttp://libertycrier.com/u-s-constitution/rutherford-institute-attorneys-to-file-civil-lawsuit-over-wrongful-arrest-detention-in-psych-ward-of-marine-brandon-raub-because-of-facebook-posts/

        Realmente é algo inacreditável. Tratar pessoas como loucas é uma típica ferramenta detrabalho de ditaduras e regimes totalitários. Um caso de que eu me lembro é o de Mussolini que enfurnou sua ex-amante em um hospício, porque sua existência e a de um filho, que foi colocado em outra “casa de repouso”, manchavam sua imagem de homem de família. Os dois mofaram “em tratamento” até morrer. Por outro lado, tal tipo de arbitrariedade não é de se espantar em vista dos poderes cada vez maiores com que está sendo investido o Poder Executivo federal dos Estados Unidosa cada ano. Em 31 de dezembro de 2011 o “Presidente da Paz” Barack Obama assinou o National Defense Authorization Act, que tem como um de seus mais polêmicos dispositivos a possibilidade de detenção por tempo indefinido, sem julgamento, de pessoas acusadas de terrorismo que atentem contra a segurança nacional, inclusivo por membros das Forças Armadas. A novidade está no fato de que as pessoas incluem não só defensores da Al-Qaeda ou do Taliban, mas também cidadãos americanos em solo americano.

        Na prática, isso significa o fim do habeas corpus e do devido processo legal se o Poder Executivo,e só ele, considerar que o indivíduo está realizando atividades subversivas. Conceito propositalmente vago, que pode incluir tanto barbudos muçulmanos que explodem bombas quanto loiros da Virgínia que manifestam opiniões considerada extremistas nas redes sociais, as quais na verdade acabam sendo usadas como mecanismo de controle do cidadão pelo governo.

           Mas há pessoas de bem, intelectuais bem pensantes que ainda consideram que os Estados Unidos é um paradigma da liberdade de expressão e que qualquer acusação de que o Tio Sam está perseguindo alguém por suas opiniões é leviana e arrogante. Uma dessas pessoas é o Mario Vargas Llosa, de quem li um artigo no jornal O Estado de São Paulo, espinafrando o Julian Assange. Para o peruano a acusação de Julian, feita da sacada da Embaixada do Equador onde ele está refugiado, de que o governo americano está querendo amordaçá-lo é uma piada de um homem vaidoso, uma mera celebridade vulgar, como tantas outras por aí. Para Llosa, tal intenção malévola seria uma impossibilidade lógica, afinal países como os Estados Unidos e a Inglaterra são os principais defensores das liberdades fundamentais frente às “satrapias” orientais.

        Não estou aqui a dizer que os países muçulmanos, a China ou a Rússia sejam modelos de livre manifestação da opinião. Pelo contrário, considero que os cidadãos globaisde hoje têm cada vez menos capacidade e oportunidade de exercitar sua capacidade crítica, ameaçada por todos os lados por governos despóticos, mídias sociais que enfatizam a fofoca, a maledicência da turba, e uma quantidade infinita de informações que confudem antes de explicar. Por outro lado, considero que imunizar os países centrais do Ocidente contra qualquer tipo de ressalva a respeito daquilo que seus habitantes na prática podem e não podem dizer acaba servindo os interesses dos grupos que estão no poder e que precisam que tudo fique no lusco fusco porque têm muito a esconder.O objetivo de intelectuais como Mário Vargas Llosa, que ressaltam as virtudes ocidentais para melhor combater os vícios dos países que em pleno século XXI não adotaram um mínimo de valores liberais, acaba lhes obscurecendo a visão sobre o real estado de coisas no Ocidente.

         Por isso, em vez de optarmos por um duvidoso “menos pior”, acho que deve ser um compromisso das pessoas que consideram que o preço da liberdade é a eterna vigilância de ficarem atentas ao que os ditos modelos de democracia têm feito em nome do combate ao terrorismo. Tomando de empréstimo o lema dos nossos inconfidentes mineiros: “liberdade, ainda que tardia.”

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Olimpíadas

      Não há como deixar de falar das Olimpíadas que se desenrolam em Londres. Não vou aqui tentar explicar o porquê de o Diego Hypolito ter “amarelado” pela segunda vez, o porquê de o César Cielo ter se cansado tanto e o Michael Phelps não se cansar nunca e estar sempre abocanhando uma medalha, o porquê de as atuais campeãs olímpicas de volêi terem tido um desempenho decepcionante, blá, blá,blá. Deixo isso para os palpiteiros, que têm explicações para tudo na ponta da língua e para os psicólogos do esporte, que são igualmente palpiteiros, mas têm uma aura de autoridade científica. O que me interessa étirar algumaslições para nós brasileiros, ou melhor antever alguns problemas, já que não espero que nossa gestão do negócio das Olimpíadas vá ser melhor.

       Digo negócio porque essa história de espírito de congraçamento, de solidariedade é obviamente pura balela. Os Jogos Olímpicos são a versão moderna das lutas de gladiadores, entretenimento para as massas que obtêm alguma satisfação pessoal em ver a equipe ou o indivíduo do seu país ganhar medalhas e derrotar outros países.Isso fica claro quando levamos em conta que as pessoas torcem e assistem a disputas esportivas que normalmente não acompanham. A maioria dos espectadores é formada de pessoas que não apreciam a beleza do esporte em si mesmo, mas como um meio de conseguir uma vitória ou derrota.

        Essa fissura das massas por ver sangue na arena precisa ser alimentada para que o show possa continuar. Se na arena romana era preciso colocar animais selvagens de locais exóticos, simular batalhas navais, hoje é preciso haver uma constante quebra de recordes para manter a plebe colada na televisão. Ora como se faz isso, considerando que a evolução genética do homem é lenta demais em comparação à instantaneidade da transmissão via satélite? Ora, todos sabem, a resposta é ululantemente óbvia: dar uma ajudinha artificial, na forma do doping. Alguns dirão que até agora ninguém foi pego e que os controles prévios e as ameaças de sanção estão sendo eficazes. Provavelmente, ao menos as substâncias que melhoram o desempenho estão sendo ministradas de maneira mais sutil, assim mantemos as aparências para que o Barão de Cubertin não se revire no caixão…

        De qualquer forma, o segredo de qualquer negócio é a contante inovação.O negócio das Olimpíadas cria novos produtos, ou pelo menos os recicla a cada quatro anos e neste ano as atrações incluem: o nadador prodígio ganhador de 17 medalhas (o nome todo mundo já sabe), a menina que venceu o trauma do abuso sexual e tornou-se campeã olímpica (Kayla Harrison no judô que derrotou a brasileira), a primeira negra a ser a melhor na ginástica, tradicional reduto de brancos privilegiados (Gabby Douglas), e por aí vai.

      Um negócio bem azeitado sem dúvida. Mas será que as Olimpíadas mostram o melhor do capitalismo?. Empredendedores se arriscando e criando para obter lucro? Infelizmente, os Jogos quase sempre mostram a pior face do nosso sistema econômico: aquela em que osvirtuosos homens de negócio entram com o “corpinho sarado” e os contribuintes entram com o dindin, construindo a infraestrutura. Os Jogos de Londres, que se desenrolam no país que foi o berço do capitalismo tal como o conhecemos hoje, é o exemplo típico. Orçado inicialmente em 2,4 bilhões de libras esterlinas, passou em 2007 para 2,7 bilhões. Em abril deste ano o comitê de contas públicas do parlamento britânico revelou que os custos estavam em torno de 11 bilhões, enquanto as más línguas colocaram am cifra em 24 bilhões de libras esterlinas. Meu bolso treme quando eu penso no superfaturamento que vai ocorrer no Brasil e no mico que será deixado para nós contribuintes. Sim, porque em Londres a participação da iniciativa privada foi de menos de 2% do que foi gasto. A vila olímpica seriaconstruída por uma empresa australiana, Lend Lease, mas com a crise imobiliária de 2008 ela saltou fora e o Estado teve que arcar com tudo.

      No caso do Reino Unido, esse tudo incluiu até despachar soldados para cumprir a importante tarefa cívica de ocupar estádios vazios. Ora, se Londres, que está a um pulo da Europa Continental, não consegue atrair espectadores, mesmo com o Reino Unido sendo o terceiro país mais admirado no mundo de acordo com o Anholt-GfK Roper Nation Brands Index,que dirá o Brasil, que ocupa a vigésima posição em um univeros pesquisado de 50 nações? Corremos o risco de termos que convocar não só o Exército oficial, mas o paralelo, formado pelo Comando Vermelho, O Primeiro Comando daCapital, as milícias etc e tal.

         Bem, para não dizer que sou totalmente pessimista, acho que uma coisa poderemos fazer melhor: a cerimônia de abertura. Aquela história condensada do Reino Unido, que jogou no lixo pelo menos 1000 anos de história e partiu da Revolução Industrial, não precisa ser repetida aqui: afinal, temos apenas um pouco mais de 500 anos, e portanto poderemos ser mais fiéis aos fatos sem cansar os espectadores, para cuja maioria o passado é apenas o que já passou e portanto já deletado. A cara catatônica da Rainha durante a cerimônia, que mal escondia seu desgosto com a música pop, o paraquedas, e toda aquela parafernália pirotécnica,traduz o estado de espírito de uma rabugenta como eu que acha que a Copa e os Jogos Olímpicos serão a maior furada em que o Brasil terá se metido, mil vezes pior que Brasília, Angra I ou a Transamazônica.Caros leitores do Montblatt, torçam para que possam daqui a quatro anos me fazer morder a língua por todo o meu catastrofismo, e que os Jogos do Rio de Janeiro sejam uma oportunidade de edificação moral, cultural e econômica como os de Londres não tem sido.

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Merito, com o perdão da má palavra

           Estamos às voltas no Brasil de 2012 com o problema do magro crescimento econômico. Há os culpados de sempre. O custo Brasil, a crise econômicas mundial, a diminuição da demanda chinesa por commodities, a valorização do real. Dona Dilma está tomando várias medidas para contornar a situação: diminuição do preço da energia elétrica, redução do IPI para certos produtos, proposta de alíquota única do ICMS, queda das taxas de juros. São esforços louváveis, paliativos é certo, mas é o que é possível ser feito em um país em que simplesmente não é possível fazer nenhuma grande reforma tributária, política, previdenciária, nada.

             Independentemente da absoluta falta de consenso sobre o conteúdo de tais mudanças, o fato é que há uma reforma ainda mais difícil e ainda mais profunda que é a mudança de mentalidade. É um clichê dizer que nossa cultura precisava mudar, mas não é menos válido porque vemos isso todos os dias: como nosso modo de ver as coisas determina nossa maior ou menor adesão a leis que pretendam modernizar o país. Quero compartilhar com vocês um aspecto da minha vivência estudantil, como aliás faço frequentemente no Montblatt que me mortifica: o solerte desprezo que nós brasileiros temos inconscientemente à ideia de mérito. Nossas relações de compadrio, de amizade, falam mais alto sempre, o que faz com que qualquer reforma que se proponha da educação (maiores salários aos professores, mais cotas, mais ProUni, mais dinheiro, mais merenda ou o que for)não terá nenhum efeito prático de melhoria da qualidade dos alunos.

          Nesta semana participei de um juri simulado na minha faculdade, organizado pelo meu professor de Processo Penal, que é desembargador no Tribunal de Justiça de São Paulo (salário ao redor de 40.000 reais). O jugamento era o do caso real de um homem acusado de matar a facadaso marido da sua amante. A participação era facultativa, mas valia três pontos na média. Havia vários papéis: jurados, juiz, oficial de justiça, policial, promotor, advogado de defesa, organizador, réu, testemunha. Os mais espertos alunos entre aqueles que se dignaram a ir à aula em que seria feita a escolha, escolheram os papeis fáceis em que não era preciso prática nem habilidade. As pedreiras eram os cargos de promotor e advogado de defesa. Ninguém se prontificou. No final, eu e meu amigo nos oferecemos para sermos os advogados de Antonio Carlos Batista dos Santos, natural de Itambé, Bahia.

         Lemos 400 páginas de processo, preparamos a defesa e na quarta-feira estávamos lá a postos. Os espertos simplesmente de espectadores, quer como jurados, policiais, testemunhas (que só precisavam ler o depoimento dados pelas pessoas reais nos autos). Eu e o meu colega nos esfalfamos, rebatíamos os argumentos da promotoria, procurávamos detalhes nos autos. No momento dos debates orais fui eu a falar, e modéstia à parte falei muito bem, eu havia estudado bastante: a plateia prestou atenção em mim e no final privadamente o professor me elogiou. Eu perdi a causa, meu cliente, foi condenado, mas era um caso difícil, porque ele havia confessado na delegacia e quando interrogado durante o processo caiu em contradições. Além do mais, os jurados estavam contra nós, a promotora era mais conhecida das pessoas, apesar de não falar tão bem quanto eu, tem perfil no facebook e é estagiária do professor.

         Enfatizei a palavra privadamente porque quando a “sentença” foi proferida o professor agradeceu todos que tinham comparecido, mas o fez de maneira geral, como se todos tivessem contribuído da mesma forma, o que não era verdade. Acho que como educador ele deveria ter elogiado o esforço da acusação e da defesa que tinham ficado com o grosso do trabalho intelectual e físico. Mas não, como somos todos amigos, como somos apegados ao consenso, é melhor que todo mundo saia bem na fita. Fazer distinções entre o melhor e o pior é algo que não cabe porque gera discórdia e nós brasileiros temos horror à discórdia, não é mesmo? O importante é varrer as diferenças para debaixo do tapete e fingir que tudo é legal.

             Assim é o tempo todo, em nome do que os alunos dizem ser solidariedade franciscana. É preciso colar e principalmente dar cola, para os colegas que “não conseguiram estudar”. É preciso dar trabalhos feitos a aluno retardatário para ele entregar ao professor (hoje uma menina mandou um e-mail desesperado de ajuda com esse objetivo). O aluno estudioso tem a obrigação moral de ajudar todo mundo a se virar para conseguir o seu diploma, direito de todos consagrado na Lei Maior, como dizem os meus futuros colegas de profissão. Para os professores essa solidariedade também é muito conveniente, porque lhes permite ir levando na banguela. Isso significa por exemplo que sabendo ou pressupondo que pelo menos uns 30% dos alunos comprarão ou reciclarão o trabalho de conclusão de curso, nem se dão ao trabalho de orientar os franciscanos otários que se esforçam para escrevê-lo por eles mesmos.

            Isso tudo para dizer, meus caros leitores, que mérito é uma palavra que ainda não aderiu ao nosso DNA cultural, por razões que o grande Sérgio Buarque explicou em Raízes do Brasil. E na minha opinião, a solução de todo os nossos males passa por considerarmos o mérito um bem em si, algo a ser protegido e incentivado. A corrupção, o apagão da mão de obra, a baixa produtividade do nosso trabalhador, a falta de investimento, a falta de crescimento, o custo Brasil, tudo tem alguma relação direta ou indireta com a falta de cultivo do mérito em terras tropicais. Eu teria ficado muito feliz se o meu professor tivesse feito menção especial àqueles que queimaram neurônios, tivesse nos avaliado e reconhecido nossos pontos fortes e pontos fracos.

           Mas não me iludo, porque sei que aqui o mais importante para os que estudam em universidade pública não é mostrar desempenho, mas signos de status, de pertencer ao seleto grupo dos que vão herdar os privilégios de bons empregos. O maisimportante em suma é ser bom não porque almejou e conquistou o máximo, mas porque fez o mínimo necessário para se distanciar da ralé, dos que não pertencem, dos que não herdam as capitanias hereditárias. Com o perdão da má palavra: mérito, oh mérito, algum dia você desembarcará na Terra de Santa Cruz?

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Cronicas academicas

       Estou agora no quarto ano de faculdade e os alunos começam a focar seus estudos. É uma corrida atrás de créditos, em uma perfeita análise de custo benefício: qual matéria oferece o maior número de créditos a um custo menor, isto é, sem que seja preciso fazer muito esforço? Uma das campeãs é Cinema e Direito do Trabalho. São polpudos quatro créditos à sombra fresca do projetor, pois as aulas consistem em assistir a filmes e discutir sua mensagem jurídica subliminar. Como a discussão geralmente é algo perfunctório que só se faz quando necessário para conseguir algo prático, como nota e aprovação, fazer das aulas uma harenga de debates é um convite aos alunos entrarem na sala, darem uma disfarçada, assinarem a lista e picarem a mula. Eu até cheguei a matricular-me nessa matéria, mas cancelei o registro sentindo-me culpada. Acabei optando por Direito dos Seguros Privados, onde há não mais que dez gatos pingados.

          Essa matéria tem defeitos mortais. Em primeiro lugar oferece dois créditos, concorrendo no horário com a maravilhosa disciplina trabalhista. Em segundo lugar, o professor não é “cocha”, gíria estudantil para aqueles acadêmicos que facilitam a vida dos alunos em termos de notas, em parte por um resquício do lema dos anos 60 “é proibido proibir”, de acordo com o qual os alunos têm o direito de fazer o que querem com seu tempo porque são adultos e não podem ser manietados pela autoridade repressora; e também porque alguns dos professores são macacos velhos cínicos que acham que todos os alunos são irremediavelmente vagabundos e qualquer compromisso em educá-los e redimi-los seria pura perda de tempo.Em terceiro lugar, e talvez este seja um pecado de lesa-majestade, porque a matéria versa sobre direito privado e as únicas matérias relevantes em uma faculdade pública são as de direito público, isto é para falar em um português claro, aquilo que é pedido em concursos.

           Aqui chego no ponto central da minha “fala”. No nosso Brasil do século XXI a tarefa da faculdade de direito de uma universidade pública é ser um trampolim para um cargo público, seja no Judiciário, no Legislativo ou no Executivo. Uma faculdade pública não é um lugar que presta serviços públicos à população, onde há uma reflexão sobre o estado das coisas no país feito por uma elite pensante que formula estratégias para o futuro da nação. Pode até haver tais iniciativas entre os professores, para justificarem seus salários de servidores do povo, mas na prática discente o ensino gratuito é um privilégio a ser usufruído até as últimas consequências. Os alunos fogem de matérias que formam mentes e correm atrás daquelas que treinam para provas, isto é que passam conteúdos de exames.

Dou um exemplo. Neste semestre estou cursando Instituições Judiciárias, que se propõe a discutir os males que afligem o judiciário brasileiro: excesso de demandas, poderosos interesses que querem aumentar ainda mais a máquina judiciária, falta de canais alternativos de solução de conflitos, por exemplo departamentos jurídicos bem estruturados nas empresas e arbitragem mais acessível, o papel atual do CNJ, a mania de mudar as leis a todo instante. Em suma, questões prementes que permitiriam aos jovens ter uma visão geral do que é o direito na prática no Brasil, como ele se manifesta de acordo com nossa cultura e espírito tropicais. No primeiro dia de aula, o professor, esperançoso, lançou-nos um desafio: “cabe a vocês mudarem este estado de coisas”. Uma colega minha, aliás muito boa aluna, ao final da palestra, comentou irritada: “essa matéria é inútil para concurso, vou me matricular em Contratos Administrativos”.

         Sob esse aspecto a universidade pública torna-se para o felizardo que consegue lá entrar um meio de adquirir de graça os conhecimentos que são vendidos a peso de ouro em cursinhos jurídicos pelo país afora. Isso lhe dá uma vantagem muito grande. Mesmo que trabalhe durante o dia, poderá economizar dinheiro para ao final da graduação ter aulas particulares de reforço além daquilo de que já gozou a custo zero. Assim herdam-se as capitanias hereditárias, isto é, os empregos bem remunerados da Administração Pública, a maioria dos quais é ocupada por egressos de universidades públicas. Temos então um círculo vicioso ou virtuoso em que o privilégio cria mais privilégio e o tipo de serviço prestado à população em termos de justiça efetiva fica um sonho cada vez mais distante. Afinal, o que esperar de juízes, promotores e afins que entram na carreira sem terem tido na maior parte das vezes real experiência de vida, além de estudos preparatórios nos seus recantos de conforto? Só estrelismo e arrogância, como vemos tanto por aí.

           Bem, já perdi muito tempo com esse meu artigo de conteúdo irrelevante. Preciso voltar para a corrida maluca, mesmo porque tenho que fazer um esforço redobrado para competir com os jovens membros de nossa juventude dourada: meu hardware cerebral de velhinha é mais cheio e portanto tenho menos capacidade de decorar letra de lei, o que é pedido em concursos; trabalho o dia todo em empresa privada, que não me oferece licença prêmio, horário de estudante ou faltas abonadas como meus colegas oficiais e escreventes de justiça (que formam a grande maioria do corpo estudantil); e confesso ter uma ojeriza a ficar ouvindo as histórias da carochinha a respeito de direitos fundamentais, de princípios constitucionais e tal que muitas vezes no Brasil são apenas beletrismo sem sustância. Quem sabe eu vencendo todos esses obstáculos vocês leitores do Montblatt ainda não ouvirão falar de mim como egrégia servidora do Estado? Aguardem-me!

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