Pacto da mediocridade

       Caros leitores do Montblatt nosso editor vira e mexe menciona o fato de que perdemos muitos assinantes por causa das críticas que são feitas aqui ao Lula e ao PT, críticas estas que desagradam os partidários do Lula e que os levam a achar que o Montblatt é um ninho de tucanos. Digo são feitas porque eu também visto a carapuça e confesso que critico. Na semana passada, para os que me leram,eu me coloquei contra a ideia de cotas na universidade por achar que em matéria de educação justiça social deve ser feita no ensino primário e secundário e não no terciário, pois há um valor maior que deve ser protegido nesse caso que é o mérito. O país precisa de ilhas de excelência para que possamos ter ideias novas, sair do marasmo intelectual, político, econômico em que vivemos. Sim, sob um certo ponto de vista, a despeito de o PT ser mais populista e o PSDB ser mais privatista, os dois se irmanam tanto na corrupção (Mensalão e Banestado) quanto na adesão incondicional a um pacto da mediocridade que reina entre nós.

         Quando surgiu esse pacto, será que talvez exista desde 1500? Ou será que teve início naquela tarde trágica de 5 de julho de 1982 quando o Brasil perdeu da Itália e iniciamos nossa decadência futebolística? É uma hipótese plausível para explicar a mediocridade do futebol brasileiro, considerando que naquele dia fizemos a opção de ganhar de qualquer maneira, mesmo à base de chuveirinhos na área, chutões, jogadas ensaiadas etc. O resultado foi que depois de 30 anos temos uma seleção brasileira que não ganha nada e joga muito feio, ou seja o pior dos mundos. Devo alertar meus leitores que não sou dessas que tentam explicar a alma nacional por metáforas do futebol, é um exercício divertido sem dúvida, mas não me leva a lugar nenhum. O Brasil em 1982 já enfrentava o problema da dívida, da estagflação, da desigualdade social, portanto não se pode dizer que 1982 tenha sido um divisor de águas.

        Avancemos três anos e enfoquemos o fim da ditadura e a subida ao poder de um presidente civil. Será que foi em 1985 que optamos pela mediocridade e nos contentamos com José Sarney como líder da transição democrática? Será que foi naquele 15 de março de 1985 que decidimos que ficaríamos satisfeitos com uma democracia meia-boca, um regime econômico meia-boca, uma ordem social que deixa a desejar (para usar um eufemismo)? Para responder a essa pergunta eu teria que fazer uma análise detalhada do Brasil antes de 1985 e depois de 1985 e verificar que opções foram feitas e como tais opções foram feitas. Como além de não ser filósofa do futebol também não estou aqui a desenvolver uma proposta de dissertação de mestrado ou de tese de doutorado, lanço a pergunta e ao mesmo tempo já desisto de respondê-la. Meu singelo objetivo aqui será o de identificar da maneira mais geral possível a mediocridade nesses três campos.

        Em primeiro lugar nossa democracia é medíocre porque ela não nos dá escolhas reais. Decidir entre PT e PSDB, para falar dos partidos que hoje dominam a cena nacional, não contribui nada para decidirmos que tipo de papel queremos que o Estado tenha. Um e outro fizeram a opção preferencial por subordinar a capacidade de atuação do Estado brasileiro ao imperativo de manter o sistema financeiro internacional funcionando. FHC, Lula e agora Dilma em nada mudaram nossafunção de comprar títulos do governo americano para modestamente ajudá-los a resolver seu problema de déficit e vendermos internamente títulos de dívida do governo para cobrirmos nosso próprio déficit. A eterna falta de dinheiro que temos para as coisas de que o Estado brasileiro deveria se ocupar é mera consequência, assim como os truques na cartola de que tanto o PT quanto o PSDB valem para remediar o estrago: PPPs, PACs, Empresa Brasileira de Logística são todos expedientes de um Executivo que há mais de 30 anos optou por não ter dinheiro para investir em infraestrutura comme il faut, isto é não como mais uma fonte de negócios para a iniciativa privada, mas como objetivo de proporcionar um bem públicoque deveria ser de fácil acesso a toda a população.

       A esse reciclar de ideias medíocres do PT e do PSDB que atualmente caracteriza nossa democracia agora parece se juntar um componente religioso pela ascensão dos evangélicos ao poder. Não haveria nada de mais se eles pudessem traduzir seu esquema de valores particular em políticas que procurassem resolver os problemas práticos da população. A decisão do candidato Celso Russomano em São Paulo de não participar de debates parece mostrar que os evangélicos utilizarão o discurso sobre Deus mais como um bode expiatório para angariar votos de pessoas que são contra certa modernidades como casamento de gays do que para propor visões alternativas de organização da coisa pública.

            Quando falo de regime econômico meia-bocarefiro-me a uma economia que cresce na base dos empurrõezinhos: uma ajudazinha da China aqui que precisa dos nossos recursos naturais, uma isenção de impostos ali que dá um fôlego maior ao consumo, mas eu pergunto a vocês, leitores do Montblatt: o que estamos fazendo para aumentarmos a produtividade da economiae assim tornarmos o crescimento sustentável? Estamos aumentando o investimento em relação ao PIB (19,3% em 2011, para comparar a taxa da China é de 47% e a da Índia 32%)? Estamos qualificando nossa mão de obra (o menor índice de desemprego desde 2004 seria uma grande notícia se não houvesse um enorme contingente de jovens que não têm qualificações mínimas para entrarno mercado de trabalho- dois em cada dez jovens brasileiros entre 18 e 20 anos não estudam nem trabalham)?

           Qualificar nossa população é fundamental, considerando que estamos envelhecendo a passos largos e teremos que trabalhar cada vez mais anos para nos sustentarmos. E aqui falo do terceiro e último campo onde reina o chinfrim, que é a ordem social. OK, o bolsa família é imprescindível e palmas a FHC por tê-lo iniciado e a Lula por tê-lo ampliado, mas é preciso ir além de dar comida e capacitar as pessoas. E para isso não basta mais dinheiro, mais fatias do orçamento destinadas à educação, é preciso sair do marasmo. A educação no Brasil, do ensino primário à faculdade, é uma grande decoreba que facilita o trabalho dos professores, torna os alunos malandros e a escola uma perda de tempo para jovens que podem ter acesso a qualquer informação em um passeio rápido pelo Google. Temos que ensinar as pessoas a pensar, a resolver problemas práticos. Não vejo nenhum debate sério que se desenrole no Brasil sobre educação que não vá além da questão material (mais prédios, mais salário, mais piscinas, mais teatro, mais esportes, mais lazer). É preciso focar no essencial: tornar os brasileiros aptos a produzirem no e para o século XXI.

           Pronto, mostrei o que quis dizer com pacto da mediocridade. Nós brasileiros há muito tempo nos contentamos com pouco, quem há de nos inspirar a almejar as estrelas?

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O lado negro da força

Deu no The Columbus Dispatch, um jornal de Ohio, Estados Unidos, em 13 de janeiro de 2012 (tradução minha):

            O Doutor Markus Schmidt, do Instituto de Medicina do Sono de Ohio explicou aos jornalistas que “o envio de mensagens de texto durante o sono é uma extensão natural da dependência das gerações mais jovens com relação às modernas tecnologias. O envio de mensagens de texto pelos adolescentes está tão entranahdo neles quanto dirigir um carro para os pais deles. Os adolescentes enviam tantas mensagens de texto  quando estão acordados que fazer isso ao dormir ocorre naturalmente. Vimos adolescentes que trocam 4.000 mensagens de texto por dia envinado menasagnes a vários amigos ao mesmo tempo. O adolescente médio  gasta uma hora e meia mandando mensagens de texto por dia, e um em cada três adolescentes manda mais de 100 delas por dia, de maneira que a atividade tornou-se uma habilidade inconsciente.Recomendamos que eles desativem o alerta sobre mensagens de texto na hora de dormir, mas muitos deles não fazem isso, porque querem estar conectados o tempo todo. O celular é sua conexão com o mundo, mesmo quando estão dormindo. Sem ele, sentem-se perdidos.”

              Manchete da Revista O Globo de 21 de outubro de 2012:

            Festas de esbórnia – brincadeiras com farta distribuição de bebida mudam o perfil da noite do Rio e provocam debate sobre a banalização do álcool entre jovens.

       Abro minha coluna semanal no Montblatt com essas duas pequenas notícias para realizar um contrapónto com minhas reclamações anteriores sobre meu professor marxista. Os que me lêem hão de lembrar que entre o comunismo e o capitalismo, fico com o último, porque para funcionar ele não precisa que as pessoas visem o bem comum e que desejem compartilhar o que têm com os outros. Como não acredito que o ser humano possa ser aprimorado, prefiro um sistema medíocre que não alimente grandes ideais de justiça e de regeneração da humanidade, mas que não tenha as mãos sujas do sangue dos que foram sacrificados em nome da radicalidade revolucionária. A esse respeito, considero tanto o nazismo, quanto o stalinismo, maoísmo e o leninismo como farinhas do mesmo saco, porque todos quiseram romper paradigmas, fossem eles econômicos, como na Rússia e China, fossem políticos e culturais, como na Alemanha.

           No entanto, não é possível negar o lado negro da força, quando falamos do capitalismo. Como o lucro é o único objetivo do sistema, vão sendo criadas muitas externalidades, para usar o jargão dos encomistas, conceito que pode ser resumido no seguinte: o capitalismo cria contas que algum dia, alguém em algum lugar da Terra terá que pagar: para ficar nos mais óbvios, temos o passivo ambiental e o passivo da desigualdade, que é um dos fatores da violência. E isso porque esta criação econômica europeia precisa de uma fonte inesgotável de consumidores que façam o sistema girar e consumidores só são conseguidos quando investe-se na carência das pessoas, não digo só a material, mas a cultural, espiritual e moral.Esses exemplos de comportamento dos jovens tirados da imprensa mostram bem isso.

           De um lado as crianças são introduzidas cada vez mais cedo no mundo dos aparelhos eletrônicos, o que foi grandemente facilitado pelas tecnologias touchscreen, que permitem a catataus de dois anos já manusearem os brinquedinhos, brinquedinhos esses que já os preparam parao seu papel de adquirentes de produtos, afinal dos joguinhos no celular passa-se ao twitter e ao perfil no facebook, onde os pirralhos vão ser bombardeados com anúncios de todo tipo. Por outro lado, o álcool está se tornando tão banal quando refrigerante. Presencio isso em inha faculdade, povoada de indivíduos em torno dos 20 anos, a maioria dos quais não tem o mínimo interesse intelectual pela lei e pela justiça, e portanto fogem das aulas como o diabo foge da cruz.  Como a natureza abomina o vácuo, é preciso achar algo para passar o tempo e nada melhor do que uma boa “breja”vendida no centro acadêmico. Já vi moçoilos vagando pelo pátio com copo na mão, e um dia fiquei estupefata ao me deparar com uma aluna totalmenbte bêbada urrando pelas arcadas. É claro que não posso ser ingênua e achar que não havia cachaceiros há 40, 50 anos, afinal a faculdade de direito no Brasil sempre foi refúgio de todo indivíduo que quer de algum modo se dar bem na vida, mas tenho certeza quenos antigamentes o vício prestava tributo à virtude.

             Vício, esta é a palavra-chave, o capitalismo, por ser imoral, é perfeito para estimular o vício nas pessoas, afinal o viciado é um consumidor compulsivo. Os nobres empresários que lucram aos borbotões com venda de maquiagens, bebibas e parafernálias eletrônicas a crianças têm na ponta da língua a resposta clássica liberal: “cabe aos pais impor limites”. Bingo! como diria o hilário coronel das SS Hans Landa do filme Bastardos Inglórios. Mas onde está a família? Onde está a autoridade dos pais que acabaram sendo nivelados aos filhos para propósitos mercadológicos?Como estabelecer hierarquia e respeito quando o sistema econômico faz todos desempenharem o mesmo papel de consumidores?

              Aqui está a grande externalidade do nosso sistema de trocas livres: os pioneiros dele, os puritanos protestantes de Max Weber, tinham como herança uma cultura cristã que lhes dava estofo moral, os fazia serem retos e econômicos para conseguirem a salvação eterna. Esse acervo culturaI foi perdido para sempre e não adianta chamar Inês de Castro que ela está morta e sue corpo já virou pó. As sociedades ocidentais estão passando por uma balcanização que prejudica muito a coesão social e o compartilhamento de valores: é negro contra branco, homossexual contra heterossexual, mulheres contra homens, cotistas contra não cotistas, evangélicos contra ateus, muçulmanos contra cristãos e por aí vai. Nossso capitalismo do século XXI é imoral como sempre foi, mas por não ter nenhum mecanismo de compensação dado por uma base espiritual há muito perdida, leva muitas vezes à delinquência e ao vício.

             Agora talvez meus leitores entendam o porquê de eu me rotular uma reacionária: tenho saudade do burguês quenunca conheci: reto, probo, pão duro, hipócrita, cuja ganância era temperada pelo seu medo da danação eterna. No lugar dele ficou o tuiteiro que leva a vida num Suzuki, não tá nem aí com ninguém, porque cada um que cuide de si. Por favor, quem vai chamar o Luke Skywalker?

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Precocidade

          Confesso a vocês, leitores do Montblatt, que tenho uma alma ludita. Tenho uma aversão natural à tecnologia, aversão que me torna incapaz de ler manual de instrução, de fuçar em programas de computador para descobrir novas funcionalidades. Aquilo que eu sei sobre computadores é suficiente para eu não perder meu emprego por flagrante analfabetismo cibernético, mas não é o  suficiente para eu me entusiasmar com tecnologia e compartilhar os pressupostos hoje em vigor e aparentemente inquestionáveis.

              O mais óbvio deles é o de que tudo o que é novo é necessariamente melhor e qualquer versão mais antiga é como uma praga que deve ser extirpada, tão logo um novo herbicida, isto é, uma atualização, apareça no mercado. No meu trabalho eu uso um programa de tradução que memoriza aquilo que traduzi criando um banco de dados que recupera os segmentos para um novo projeto. Eu trabalho há seis anos com memória de tradução e já tenho um acervo respeitável com mais de 246.000 unidades. Um colega meu, que não chegou aos 30 anos, e claro, é mesmerizado pela tecnologia, vive me pressionando para eu aderir à versão mais novas, apesar do risco de eu perder uma parte do meu banco de dados. Por que eu haverei de arriscar o desaparecimento do patrimônio arduamente acumulado se o programa que eu uso satisfaz minhas necessidades? Na minha modestíssima opinião, devemos trocar o certo pelo duvidoso se a possibilidade de sucesso do incerto for de tal grandeza que valha a pena dar o salto no escuro, caso contrário perder o que se tem por mera idolatria da novidade é bobagem.

              Não só bobagem por não ter uma relação custo-benefíco adequada, mas ambientalmente incorreto. Afinal, como garantiremos a sustentabilidade, tão apregoada aos quatro ventos por ONGS, governos, diplomatas desde a Rio 92? Há um mês tentei consertar uma impressora Lexmark que me servia fielmente há 10 anos. Pois bem, ao levá-la à assistência técnica recebi uma sentença de morte. A peça que precisava ser trocada não estava mais disponível em nenhum lugar no planeta Terra. Com dor no coração deixei minha companheira na câmara de gás para ser desmanchada, incinerada ou sei lá mais o que. Minha única saída foi comprar outra impressora, sendo que eu podia ter minha antiga recauchutada e assim impedir um ato de consumo. Como poderemos preservar o meio ambiente se o sistema econômico não leva em conta o impacto ambiental da compra de um novo produto e torna mais barato jogar fora um artigo mais velho do que consertá-lo para que ele dure mais e tenha um aproveitamento que justifique o gás carbônico que foi emitido, as árvores que foram cortadas, as minas que foram exploradas para sua manufatura?

            Outro pressuposto amplamente compartilhado diz respeito à nova geração, que é considerada antenada, rápida, já nascendo familiarizada com as novas tecnologias e que ensina aos seus pais embasbacados como usar smart phones, blackberries e I-phones, como tuitar, como criar perfis no facebook e tudo o mais. Quem nunca viu um pai se pavonear das habilidades do filho com os equipamentos eletrônicos? E de fato, não há como negar que os mais jovens mostram uma velocidade impressionante para captar tudo o que é novo, para baixar músicas e joguinhos, para descobrir como funciona um aparelho siumplesmente apertandotodos os botões, usando como nunca dantes o velho método da tentativa e erro. Dizem certos psicólogos até que os que nasceram já com a internet têm maior capacidade cognitiva do que as gerações mais velhas.

            Eu, que sou uma incorrigível rabugenta, vejo um lado sinistro nesses jovens imersos na tecnologia, que cultuam o novo pelo novo e estão sempre adaptados à mais nova versão de tudo. A precocidade que eles demonstram muitas vezes revela uma maturação fora do tempo, como um desses cachos de banana que foram colhidos antes do momento certo e que fora da bananeira nunca conseguem chegar ao ponto ideal de textura e sabor. Isso me veio à mente outro dia enquanto eu zapeava a TV e peguei o anúncio de um programa com a Sabrina Sato em que ela era “sabatinada” por crianças de não mais de 10 anos que ficavam ao seu redor fazendo perguntas. Um dos pimpolhos disparou: “Como é que a gente faz para pegar uma mulher gostosa como você?”

              Eu, quarentona antiquada, fiquei chocada com a vulgaridade do “pegar” e da “gostosa” especialmente porque brotavam da boca de uma criança que ainda nem havia entrado na adolescência e portanto ainda não tinha testosterona suficiente para começar a sonhar com transar com uma mulher que lhe instigasse o desejo. Sabrina Sato, obviamente mais antenada do que eu com o novo, riu desbragadamente e disse: “Meu Deus, que garotada esperta!” Realmente ouvindo-os falar fica a impressão de que sabem tudo sobre sexo, como abordar uma mulher, como levá-la para a cama. E claro que sabem! Afinal, podem ter acesso a esse conhecimento facilmente em vídeos no You Tube. Para que aulas de educação sexual na escola, e mesmo para que professor, se eu posso num clique ter a informação que quiser baixada diretamente da Wikipedia?

            Aliás, convivendo com meus colegas da faculdade, sempre me horrorizo com a maneira prosaica com que homens e mulheres falam de sexo, usando palavras de baixo calão como se tivessem larga experiência na zona do meretrício, como se já tivessem experimentado todas as posições sexuais, todos os modos de proporcionar prazer e ser gratificado. Enfim, todos precoces, espertos, mas a mim me parece que esse acesso fácil a tudo de maneira indiscriminada acaba tirando o encanto e a profundidade da descoberta do conhecimento, da complexidade das relações humanas. Ao final, corremos o risco de nos transformarmos em uma banana que terá sempre um gosto amargo, porque não cumpriu as etapas normais do ciclo da vida, em que a inocência precede a experiência, que leva à decepção, ao conhecimento e às vezes à sabedoria.

          Quando penso nisso sinto-me felizarda em ter nascido e me criado antes da explosão de tecnologia do século XXI. Consigo aproveitar o que ela tem de bom, mas sem a precocidade característica danova geração. Falo com os meus melhores amigos pela internet, pois estão geograficamente muito distantes de mim, leio as publicações de que gosto na internet, não fico sem acessar meus e-mails nem um dia do ano, ganho meu dinheiro porque envio arquivos traduzidos para qualquer lugar do mundo e paro por aí.  Tenho minha própria escala de valores, conseguida a duras penas tendo grandes expectativas e perdendo ilusões aos poucos, e coloco o computador no seu devido lugar porque sou humana e ele é uma simples ferramenta que atende algumas das minhas necessidades, mas não me diz o que é certo e o que é errado, o que devo ou não devo fazer.Antiquada e reacionária posso ser, mas recuso-me a me transformar em banana eternamente verde por excesso de precocidade.

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Dúvidas existenciais

                Há várias coisas neste mundo que me intrigam e gostaria de compartilhar minha perplexidade com vocês leitores do Montblatt, por meio de perguntas. Aqui vão elas:

                Por que eu devo me sentir inferiorizada por não ser fã incondicional da tecnologia?

           Essa pergunta sempre me vem à mente quando alguém faz questão de se mostrar superior a mim porque está mais antenado com as últimas novidades tecnológicas. Há alguns anos uma amiga gozou da minha cara quando saquei da minha bolsa um celular de 99 reais e me incitou a comprar outro, porque um celular daquele “não dava”. Claro, ela tinha um aparelho melhor do que o meu, mas em compensação eu tinha e tenho emprego com carteira assinada, benefícios trabalhistas e todas “as regalias” que querem tirar de mim para aumentar nossa competitividade. Minha amiga mais bem equipada tecnologicamente vendia biscoitos em uma feira em Moema aos domingos. Quem é mais moderna, eu ou ela, que literalmente não tem onde cair morta?

           Mas o pior para mim é quando falam que a geração Y é mais inteligente, ou melhor, “tem mais conexões neuronais” porque sabe tudo de computador. Ouço isso de psicólogos e tenho calafrios. O que vejo na faculdade é que alguns membros da geração Y utilizam seus conhecimentos para ficar navegando no facebook durante a aula, incapazes de prestar atenção ao que o professor fala. Se inteligência hoje em dia significa saber pular de uma janela a outrado notebook sem conseguir concentrar a mente e colocá-la para realizar algo eu prefiro ser analfabeta tecnológica.

            Por que exigir a manutenção de certos padrões é considerado algo elitista e ruim?

         Na semana passada eu assisti a uma palestra na empresa sobre gerenciamento do tempo dada por uma consultora de recursos humanos com duas pós-graduações. Apesar de seu alentado currículo, a mulher não colocava o plural em nenhuma palavra que o exigisse. E a apostila que nosentregou estava cheia de erros de português, os quais eu apontei a ela ao final da sua fala. Quando comentei o episódio com uma colega de trabalho, ela disse: “Na boa, acho que você está exagerando.” Fiquei a princípio me sentindo a exagerada, mas depois pensei: “Oras bolas! Já tenho que aturar ouvir falar em “time” quando não há ninguém jogando, palavrinhas-chave do mundo corporativo como “sinergia”, “alinhamento”, “budget”, “compliance”, “tomar ações” e outras pérolas do ingsoc martelado diariamente. Por que ainda tenho que ouvir alguém maltratar ainda mais minha vilipendiada língua e ainda considerar isso normal e inclusivo? Por acaso democracia é somente nivelamento por baixo ou é dar oportunidades reais a todos de desenvolverem suas potencialidades? Aliás, depois que eu apontei os erros à palestrante ela me perguntou se eu gostaria de revisar o livro que está escrevendo.

            Por que as pessoas sempre pressupõem que para tudo há um jeitinho?

        Essa pergunta me veio à mente quando um colega da faculdade hoje me relatou uma singela indagação de um amigo: “Qual o esquema para entrar na universidade pública?” Ao que ele respondeu: “Ué estudo!” É realmente impressionante como está entranhado em nossa cultura essa ideia de haver um caminho fácil para conseguir coisas que povos menos “espertos” levam décadas. Tal traço cultural se revela facilmente pela quantidade de palavras que usamos para designar o jeitinho: “esquema”, “mutreta”, “mutretagem”, picaretagem”, “bem bolado”, “bagulho”, “costura política”, “pacto nacional”, “flexibilização” e por aí vai. Não admira que entra governo e sai governo no Brasil e cortes pontuais de tributos sejam considerados política industrial, fazer a corda arrebentar do lado mais fraco, o dos trabalhadores, vire política de fomento à competitividade, e dar uns trocados para que a pessoa não passe fome vire política social. Enquanto isso as famílias continuam inviabilizadas pela falta de oportunidades de qualificação e emprego, a indústria continua sendo desmantelada por falta de infraestrutura física e humana e a economia cresce a taxas muito menores do que é o necessário para o país mudar de patamar de desenvolvimento.

          Por que é tão difícil às pessoas pensar de maneira não maniqueísta?

         No sábado passado fiquei o dia inteiro em treinamento para a empresa sob a batuta de um ex-palhaço que nos levou a um orfanato fora de São Paulo e nos fez fazer trabalho “voluntário” para melhorar as instalações das crianças. Nos intervalos ele falava de quanto estava feliz em imaginar a alegria das crianças quando vissem tudo bonito, chorou várias vezes e chamava a mulher dele no palco com a filha de colo para mostrar seu lado família. Tudo, claro, seguindo o script ditado pela empresa para nos inculcar os valores de trabalho em grupo, colaboração, espírito de equipe e de doação e, mais importante, nos orgulharmos de trabalharmos em uma empresa socialmente responsável.Eu comentava isso com uma colega (outra) e ela retrucou que “não achava que ele estava mentindo”. Eu então esclareci que não o achava um mentiroso, apenas um hábil palestrante que se utilizava de certas armas (causar comoção e empatia) para atingir determinados objetivos. Meu intelectualismo claro só piorou as coisas e ela se calou sem querer conversdar comigo.

        O fato é que ao menos coletivamente somos bipolares em nossas escolhas: ou é Fla ou é Flu, ou é PSDB ou é o PT, ou é monetarismo ou é desenvolvimentismo, ou é direita ou é esquerda,ou é conservador cruel e reacionário ou é progressista sensível, ou é política externa independente ou é vassalagem ao imperialismo, ou é imprensa golpista ou imprensa chapa branca, ou é evangélico fundamentalista ou é ateu militante, entre tantas outras polêmicas. Esses maniqueísmos definitivamente não nos ajudam em nada a resolvermos nossos problemas porque ficamos obcecados em destruir o outro e fazer valer nossas certezas ideológicas.

       Bem, essas são algumas das minhas dúvidas existenciais. Eu apenas expus o problema e agradeço se alguém me der uma resposta não maniqueísta, reta e em bom português a alguma delas.

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Obama, o negro de alma branca

         Prezados leitores do Montblatt, nesta semana de eleições municipais eu talvez como brasileira deveria estar aqui analisando os candidatos a prefeito da minha cidade, São Paulo, mas a verdade é que não tenho nada a acrescentar ao que o editor já falou aqui. Portanto, faço uma opção de falar das eleições presidenciais americanas, que ocorrerão em 6 de novembro. Haveria um motivo óbvio porque os Estados Unidos exercem uma grande influência no mundo e portanto nós, que historicamente temos estado sob as garras da água americana, devemos prestar atenção ao que ocorre lá. No entanto, tenho uma especial predileção por falar desse assunto porque eu sempre me espanto e me irrito com o fato de Barack Obama ser uma unanimidade para todo mundo, isto é, ele é sempre o mocinho da história. Como quem me lê sabe que sou rabugenta deixem-me desconstruir um pouco, nos limites dos meus poderes, a figura mítica do primeiro Afro-Americano que chegou lá.

         Por favor, não me entendam mal.Pensando como uma cidadã do mundo, a eleição do Prêmio Nobel da Paz seria menos pior do que a de Mitt Romney, pela simples razão que se o presidente americano é rendido ao lobby de Israel, o candidato mórmon é mais ainda, não perdendo nenhuma oportunidade de puxar o saco do Benjamin Netanyahu, o psicopata primeiro-ministro da Terra Prometida que não vai sossegar enquanto não conseguir arranjar uma guerra com o Irã. Como tenho medo de que isso deflagre uma Terceira Guerra Mundial, eu tenho a tênue esperança que Obama ao menos reflita um pouco antes de obedecer aos comandos dos falcões que querem a presença militar dos Estados Unidos em todos os recantos do planeta. É verdade que ele não fechou Guantanamo, como prometera, inteferiu na Líbia para depor Khadafi, que antes era amigo dos EUA, e está financiando os rebeldes na Síria por motivos muito mais escusos do que a defesa da democracia. De qualquer forma, a situação é tão dramática ante o imperialismo crescente dos Estados Unidos, na exata medida da sua decadência econômica, quepor mais que Obama tenha mudado muito pouco de fato a política externa americana, ele é menos histérico do que seria um republicano na presidência.

       Feita essa ressalva, dedicar-me-ei agora a levantar alguns fatos sobre a presidência do Senhor Barack para chegar a algumas conclusões sobre o que há de substância nas atividades presidenciais do príncipe Afro-Americano, eleito em 2008 com os votos de 96% dos negros americanos. Essa esmagadora adesão se deveu a uma identificação de raça que ele conseguiu de maneira brilhante consolidar ao longo de sua carreira política. Apesar de ter crescido com seus avós brancos e nunca ter vivido em guetos ou ter tido uma experiência real de vida em meio aos Afro-Americanos, Obama sempre se colocou como negro, beneficiando-se da boa vontade que isso poderia lhe angariar em nossos tempos politicamente corretos. Casou com uma negra 100% e fez largo uso do sistema de ação afirmativa para frequentar universidades de elite.Yes, we can, entoavam os negros em 2008 esperançosos com a possibilidade de ter um deles, mesmo que fosse um mulato, na Casa Branca. Infelizmente, os quatro anos da presidência de Obama não trouxeram nenhum benefício a seu eleitorado cativo.

         Em junho de 2012a taxa de desemprego dos Afro- Americanos era de 14,4%, face aos 11% dos latinos e hispânicos e aos 7,4% dos brancos. Em comparação com dezembro de 2008, o último mês final antes de Barack Obama adentrar o Salão Oval Oval Office, a taxa de desemprego dos brancos era de 9,2%, a dos negros era de 11,9%. Para resumir esses números pode-se dizer que um em cada sete Afro-Americanos está atualmente desempregado. Além disso, no período entre 2009 e 2011, os trabalhadoresnegros que ganham salário mínimo aumentaram 16,6%, ao passo que somente 5,2% mais trabalhadores brancos passaram a ganhar salário mínimo. Em suma, se havia uma desigualdade econômica e social entre negros e brancos antes de Obama ela só piorou sob seu reinado. As mazelas que atingem a comunidade negra ­ reveladas pelo fato de que menos de 40% das crianças negras viverem comambos os pais, de que as crianças negras tem sete vezes mais chance de ter um dos pais na prisão e de que mais de 70% das crianças negras nascem de mães solteiras­ continuam firmes e fortes. Os defensores de Obama dirão que tais problemas são seculares e ele não pode ser cobrado por isso. Oras bolas, mas o lema da campanha dele não era “Yes, we can!”?

       Bem, dirão os Obamites, Obamaé o presidente de todos os americanos, e sua principal façanha neste primeiro mandato foi a de assinar a lei que proporciona assistência médica a todos os americanos, indo contra a direita que quer cortar benefícios sociais. É verdade que agora a lei dita Obamacareprevê cobertura de saúde a todos, mas isso será feito obrigando todos os americanos (obrigar é a palavraporque haverá a fiscalização por parte de 16.500 funcionários da Receita Federal dos Estados Unidos, conhecida pela sigla IRS) a contratarem um plano de saúde privado. Isso vai dar de mão beijada às seguradoras mais 50 milhões de consumidores e o dinheiro que será descontado na fonte dos trabalhores servirá antes de mais nada para engordar os lucros dessas empresas e os bônus dos seus executivos. Se quiserem saber a quantas anda a medicina na terra do Tio Sam (e o que nos espera daqui a alguns anos, quando tudo estiver privatizado aqui no Brasil), leiam por favor o artigo deum médico oftalmologista americano, Robert Dotson, que fechou seu consultório porque as despesas com advogados, contadores e consultores necessárias para prestar contas aos planos de saúde e para se proteger contra ações judiciais são maiores do que os rendimentos cada vez mais magros (http://www.paulcraigroberts.org/2012/08/02/reflections-medical-career-robert-s-dotson-m-d/). Hoje nos Estados Unidos operar catarata em cachorro paga mais do que fazê-lo em um ser humano.

         Essas breves pinceladas no que foi de fato a presidência de Barack Obamapermitem ver como hoje é difícil termos líderes políticos que não sejam meras celebridades movidas a factóides. Longe do mito propagandeado pela mídia, este negro de alma branca continuou a política de George Bush de ajuda aos bancos e não fez nada para enfrentar os problemas estruturais da economia americana, a saber a desindustrialização do país devido à transferência da produção das multinacionais americanas para locais mais baratos principalmente na China e Índia. Mas a aura que se construiu em torno do príncipe será dificilmente destruída em vista da falta de alternativas. Entre o mórmon que quer intensificar ainda mais as ações militares do EUA no mundo muçulmano e o negro de alma branca que joga para a plateia de aficcionados, talvez a antipatia mútua entre o louco do Bibi e Obama seja o melhor que o mundo possa desejarneste momento.

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