Natal e

     Caros leitores do Montblatt, muitos de vocês já devemter picado a mula para as festas natalinas, seja subindo a serra para tomar a fresca em Petrópolis, ou cruzando a ponte Rio Niterói para a região dos Lagos. Antes de mais nada, para os que lerão nosso jornal renascido das cinzas agradeço àqueles que me acompanharam durante o ano e os comentários bons e ruins que fizerão a respeito dos meus artigos. Boas festas a todos!

     Mas para falar a verdade, rabugenta que sou, desde pequena nunca gostei de Natal. Lembro-me que aos oito anos escrevi uma redaçãoreclamando que as pessoas só pensavam em consumir e esqueciam-se do verdadeiro sentido da celebração. Bem, minha opinião continua a mesma até hoje, mas para dar-lhe mais substância, vou relacionar aqui as coisas que mais me irritam sobre tudo o que ocorre nesta época do ano.

       O simulacro de Europa nos shopping centers

      Todos aqui sabemos que o passeio preferido da nossa classe média são os shopping centers. Lá nos sentimos seguros e longe das pessoas indesejáveis. Por isso cada vez mais eles se transformaram em centros de lazer se não de cultura. Pois bem, ver aqueles trenós, aqueles Papais Noéis vestidos com os trajes típicos, os trenzinhos que circulam pelas montanhas, a neve caindo nos vagões é demais para mim, especialmente quando o calor lá fora no Brasil real e tropical é de 35 graus e sujeito a chuvas e alagamento das ruas sujas de lixo jogado pelas mesmas pessoas que querem ter um gostinho de Primeiro Mundo nos shopping centers.

      As poses ao lado do velhinho, asfilas para pegar o trem rumo à estação de esqui mais próxima, os pais sôfregos tirando fotos dos filhos com seus smartphones, I-phones, câmeras e o escambal, tudo me faz lembrar o quão macaquitos nós somos. Por favor, não me entendam mal, não quero que substitutam o Papai Noel pelo Macunaíma ou o Saci Pererê, afinal há toda uma tradição por trásdos mitos natalinos, mas toda essa frenética atividade que ocorre dentro de espaços fechados nas grandes cidades brasileiras me faz pensar na direta relação disso com a falta de locais de socialização fora das bolhas dos shopping centers. O fato é que a formação de guetos, dentro os que têm e fora os que não têm, contribui para a exclusão e para a criminalidade. A rua, o espaço público vira terra de ninguém. As praças, com honrosas exceções são tomadas por mendigos, os parques se transformam em passeio de pobre, e com eesa demarcação de territórios, as diferentes classes sociais deixam de conviver e cada vez se estranham mais. Quem dera um dia possamos chegar ao nível de civilidade de Buenos Aires, em que domingo no parque não é progrma de televisão, é realidade.

        A hipocrisia familiar

       Como diria Tolstoy, “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira”. Ou para sermos mais prosaicos, “Ema, ema, ema cada um com seus pobrema”. Claro que nenhuma família é perfeita e não se pode esperar que o seja, mas nesta época do ano todos se desejam saúde, felicidades, feliz Natal, com sorrisos tão largos, com tanta ênfase, que nem parece que durante todo o ano os familiares brigam por causa de dinheiro, por causa de obrigações comuns que ninguém quer assumir,e no dia a dia mal conversam de fato. Mas vá lá, o importante talvez seja que no final do ano revovam-se as esperanças, fundadas ou infundadas, de que tudo vai ser diferente, que seremos menos mesquinhos, mais tolerantes, mais compreensivos. Afinal a montanha de lembrancinhas, presentes, que trocamos entre nos mostra o quanto nos amamos e respeitamos, não é mesmo.

       Mensagens corporativas

     Fim de ano é a época em que as empresas mostram o quanto se preocupam com seus funcionários, distribuindo cestas de natal, participação nos lucros, décimo-terceiro, festas com comida e bebidas de graça. Mas tudo isso tem um preço, que é o ser obrigado a ouvir aquela mesma lenga-lenga dequanto somos importantes, quanto melhoramos e quanto ainda temos que melhorar, quanto economizamos e quanto ainda podemos economizar, quanto contribuímos para o sucesso da corporação e quanto ainda podemos contribuir… Ufa, cansei. Além do exercício passivo da escuta, tenho que me emocionar quando o chefe chora agradecendo o trabalho da equipe, achar interessantíssimas as palestras motivacionais que me enfiam goela abaixo no fim de semana para fechar o ano com chave de ouro e entrar com tudo no próximo. Enfim, o Natal é o período em que fingimos vestir a camisa da empresa e a empresa finge que nos vê como seres humanos e não, como diria o velho sapo barbudo, um fator de produção como outro qualquer.

       Queridos leitores, para surpresa de vocês, este meu Natal promete ser para mim um dos melhores que tive. Ao menos farei coisas diferentes: vou assistir à Missa do Galo no Mosteiro de São Bento, vou visitar o Parque Burle Marx e o Sesc Intelagos, onde há uma grande área florestal. Enfim vou tentarevitar tudo o que odeio no Natal: a hipocrisia, o consumismo e a empulhação. Se eu conseguir me livrar de apenas uma parte deste ranço já me darei por feliz e ficarei menos acabrunhada do que normalmente fico ao se aproximar o 25 de dezembro.

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Reacionários do mundo, uni-vos!

                Eu descobri ontem algo muito importante a respeito da minha personalidade. Para falar a verdade eu já sabia disso, mas meu professor de Filosofia do Direito, que é marxista ferrenho, me fez ver demaneira inquestionáveluma verdade que para bem da minha honestidade intelectual devo compartilhar com meus leitores. Para que vocês entendam o que sou vou transcrever o quadro que ele colocou na lousa durante a aula:

Progressismo (crítica) futuro esperança
Reacionarismo passado ódio
Conservadorismo presente indiferença

                Tenho certeza que aqueles que me acompanham semanalmente saberão que me encaixo na linha dois, ou pelo menos saberão que minha rabugice é absolutamente incompatível com a linha um. Tendo vestido a carapuça de reacionária, eu só não me conformei com algumas omissões do meu competentíssimo mestre (realmente ele é digno de dar aulas num cursinho, algo fenomenal em uma faculdade em que a maioria dos professores não tem a mínima qualidade de palestrante).

                Ele falou do Francisco Franco, do George Bush e de Adolf Hitler como exemplos de reacionarismo, mas “esqueceu-se” de falar de outros tiranos igualmente famosos do século XX, entre eles Stalin, o pai dos Gulags, Mao Zedong, o mentor da Revolução Cultural, e Pol Pot, líder do Khmer Rouge, todos com um saldo de mortes na cada dos milhões de pessoas. Curiosa em saber como poderiam ser classificados esses três gênios do mal, eu me dirigi ao digníssimo professor ao final da aula e travamos o seguinte diálogo (P para professor e M para Maria Elisa):

M: Professor, como o senhor classificaria Stalin, Pol Pot e Mao Zedong? Eles podem ser considerados progressistas?

P: Stalin era um conservador.

M: Então ele não era progressista, apesar de pregar o marxismo e de se apropriar do discurso do progresso para reformar a União Soviética, é isso?

P: Stalin foi um progressista no começo, foi ele, não Churchill, quem derrotou Hitler, não se esqueça.

M: Com certeza foi ele. Mas o senhor não acha que é um passa-moleque dos marxistas dizerem que o Stalin era um conservador a despeito da sua mensagem flagrantemente marxista de luta contra a burguesia,de abolição da propriedade privada, somente porque ascoisas ao final não deram muito certo e Stalin foi denunciado pelo seu sucessor, Kruschev?

P: Havia pressões sobre ele.

M: O que o senhor quer dizer, pressões externas?

P: Sim, entre outros fatores.

M: Mas foi ele quem mandou os indivíduos do próprio país para o Gulag, não foram os estrangeiros.

P: Houve até agora no mundo uma única maneira tentada de criar o socialismo. O caminho correto ainda não foi descoberto.

(Fim da conversa)

                Meus caros leitores, meu objetivo aqui não é fazer uma comparação do número de mortos da direita e da esquerda, ou qual regime foi o mais bárbaro. Não tenho espaço aqui para analisar as condições históricas que levaram ao poder esse rol de psicopatas. Meu objetivo simplesmente é chamar a atenção para as dificuldades enfrentadas por todos aqueles que quiseram reformar o mundo. Foi preciso matar e matar de maneira sistemática, para se livrar dos reacionários, dos burgueses, dos kulaks que não se enquadravam no padrão do novo homem. E mesmo assim, ao final todos esses sistemas desmoronaram.

                Não estou aqui a dizer que Marx tem as mãos sujas de sangue. Provavelmente ele se horrorizaria com tudo o que foi feito em seu nome. Mas não se pode negar que para uma reacionária como eu, a proposta do autor de O Capital e seu predecessor nesse otimismo existencial, o suíço Jean Jacques Rousseau, tem algo que para mim é completamente ininteligível. Para que o homem volte a ser feliz na civilização ou para que ele realize todas as suas potencialidades sob o socialismo, é necessário que mude de natureza. Para Rousseau a educação moldaria cada pessoa para se tornar generosa e desejar espontaneamente o bem comum. Para Marx, a superação das relações de produçãocapitalistas faria com que acabasse a exploração do homem pelo homem e chegaríamos a um momento da história em que “de cada qual, segundo sua capacidade; a cada qual, segundo suas necessidades”.

           Minha experiência de vida, particular e portanto irreproduzível, me impede de acreditar que o ser humano possa ser aprimorado. Acredito que haja uma natureza humana: não me perguntem se genética, espiritual, material ou sei lá o que, mas de qualquer forma ela nos faz sermos o anjo caído da metáfora religiosa. Este ser que tem seu lado negro da mesquinhez, da crueldade, da ganância, da inveja, da covardia e o lado brilhante do amor, da abnegação, da generosidade, da coragem. E acredito que em qualquer época, enquanto o ser humano estiver na Terra, haverá este embate entre a luz e as trevas, sem um vencedor defnitivo. Cabe a nós enquanto indivíduos e membros da sociedade, assumir a responsabilidade moral de tentarmos fazer com que a luz prevaleça, mas a luta é sempre incessante. Há momentos em que as circunstânciasmateriais conspiram para que as pessoas deem vazão a seus instintos mais baixos e há outros em que a paz, a harmonia florescem, e estaremos sempre presos a essa dinâmica.

             Querido professor,excelentíssimo Doutor em Filosofia Marx, caro Rousseau, perdoem-me, mas acho que há pessoas neste mundo que não podem e não querem ser educadas, há momentos em nossas vidas em que só pensamos em nós mesmos e em nosso entes mais próximos, e as alianças que as pessoas estabelecem entre si quase sempre se pautam por vínculos tão reacionários quanto os do sangue, da raça, da nacionalidade. Fundar a possibilidade de melhorar as condições de vida do homem na premissa de que somos reformáveis tem um quê de sinistro porque acaba levando a um controle demasiado sobre as pessoas para que elas se comportem da maneira adequada.

           Por isso conclamo os reacionários como eu, que não têm esperança que no futuro tudo será totalmente diferente, a saírem do armário e se unirem. Não para embuídos de ódio saírem à caça dos progressistas, mas para sugerirem com serenidade: que tal admitirmos que certas coisas não podem e não devem ser mudadas, e a única saída é fazermos o melhor com o que temos?

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Impressoes de uma turista

      Há três semanas comuniquei aos leitores do Montblatt que eu iria viajar à Grécia e nosso editor prometeu que eu iria manifestar minhas impressões sobre o país quando voltasse. Para falar a verdade fiquei um pouco angustiada com esse anúncio, porque iria ficar no país somente sete dias, o que é insuficiente para ter noção de como as pessosas de fato vivem. E o turista, por razões óbvias, tem contato sempre com o lado bom das coisas, com as lindezas do lugar, porque seu objetivo não é fazer um estudo antropológico de campo, mas divertir-se, descansar e fazer seu dinheiro ter sido bem gasto, sem que qualquer incompetência ou desastre natural atrapalhe sue investimento.

       Feitas essas ressalvas, para aqueles de nossos leitores que nunca foram à Grécia, o cálculo do custo e do benefício é amplamente favorável. Para os glutões comer lá é muito barato e bom. Eu não cheguei a frequentar restaurantes porque queria economizar a todo custo, mas as lanchonetes, bares e cafés oferecem saladas frias e sanduíches regados a muito pimentão, pepino,  azeitonas, azeite de olíva, manjericão e todos aqueles ingredientes da tal cozinha mediterrânea que dizem os doutores é a que garante a longevidade, livre dos anti-oxidantes cancerígenos. E sabe a que preço? Com quatro euros e meio, um pouco mais de 10 reais eu comia para bater perna pela cidade. Definitivamente Rio de Janeiro e São Paulo não ficam nada a dever aos europeus em matéria de custo de vida, apesar de ainda faltar um bocado para que nós possamos usufruir dos salários e dos benefícios sociais de que eles, por enquanto, desfrutam.

        Para aqueles que estão atrás de cultura Atenas também tem muito a oferecer a bons preços. Não falo nem do Parthenon, para falar a verdade foi um local que não me impressionou lá muito, ou melhor, obtive menos do que eu esperava. As construções estão muito mutiladas, após séculos de depredações e destruição, para que possamos apreciar a beleza do templo que abrigava a estátua da deusa Athena. Turcos, católicos fanáticos, imperialistas ocidentais, todos literalmente tiraram uma lasca do Parthenon e hoje, em que pese estar sendo restaurado, não dá uma pálida idéia do que foi nos tempos áureos de Péricles.

       Para termos idéia do que foi a Grécia de antanho é preciso ir aos museus, onde os gregos guardam aquilo que permaneceu no país. Falarei apenas de dois. Em primeiro lugar o Museu Arqueológico Nacional, fundado sob o patrocínio de um mecenas exilado, Demetrios Bernardakis, que nos anos 1950 e 1960 adquiriu suas feições atuais, após ter escapado por poucode ter a coleção dilapidada na Segunda Guerra Mundial. Esculturas, monumentos funerários, vasos, ânforas nos permitem vislumbrar um dos períodos mais férteis da história humana que deve com certeza encher de orgulho os herdeiros da cultura grega, entre os quais os ocidentais que reivindicam para si tal patrimônio espiritual. Eu fiquei quatro horas andando pelos imensos corredores, e tive a sorte de não encontrar muitos turistas em meu caminho, o que me permitiu apreciar ainda mais tudo o que eu vi. Não é à toa que esse museu é considerado um dos 100 lugares que você deve visitar antes de morrer. Como diria Camões, cessa tudo quanto a antiga musa canta que um valor mais alto se alevanta. Depois de ver todas aquela figuras orgulhosas, altaneiras, ou plácidas e tranquilas a depender se estavam no auge da vida ou de cara com a morte, ficamos um pouco enfastiados com a arte moderna. O preço pago é de seis euros, equivalente ao que se paga para ir ao MASP, em São Paulo, cuja coleção em exibição, ao menos em termos numéricos, não faz sombra ao que é mostrado no museu grego.

       Para não aborrecer os leitores, mencionarei somente o Museu da Acrópole que fica em frente ao local epônimo e custa o mesmo preço que o National Archeological Museum. Não o abordo por ter uma coleção estupenda, pelo contrário, tudo o que contém lá poderia muito bem ser exibido  em uma ala do outro,  mas o objetivo da moderna construção, financiada pela União Européia e com toda a parafernália de segurança e conservação mais atualizada, parece ter sido o de mostraro quão a Grécia faz parte da Europa  por ter sido o berço da cultura ocidental. Fins mais ideológicos do que museológicos, uma fortuna gasta para convencer as pessoas do sonho da Europa unida. Há um vídeo sobre o que era o Parthenon nos tempos pagãos e algumas peças de grande importância para justificar um museu de última geração com uma coleção tão pequena: as assombrosas cariátides retiradas da Acrópole e frisos do Parthenon em processo de restauração. Por mais que saibamos que tudo aquilo fez a alegria dos empreiteiros, não se pode deixar de admirar aquelas formas humanas e animais de tanta plasticidade e movimento. Aqueles homens sentados em seus cavalos em plena refrega são muito mais sexy do que qualquer modelo pegador do Big Brother. É realmente um privilégio poder ter contato com o que o hommo sapiens pode fazer de melhor e que nos aproxima das estrelas.

         A esta altura devo dizer que a turista deslumbrada com o que via também teve contato com o lado digamos não clássico da Grécia, fruto dos desacertos dos últimos anos. Vi demonstrações na Praça Sintagma, sede do Parlamento, vi muitas lojas e estabelecimentos fechados, e em um dos meus dias de estada lá o metrô parou às cinco horas em greve, o que abreviou meus passeios. E na volta ao Brasil tive a desagradável surpresa de receber um e-mail da dona do apartamento em que fiquei acusando-me de ter roubado duas xícaras e pedindo indenização mais alta do que o que eu pagara pelo apartamento. Felizmente, a agência da internet que mediou as relações entre mim e Konstantina aceitou meus argumentos e acabei só pagando por um café derrubado no tapete, sobre cuja limpeza eu já tinha me comprometido com a dona ao vivo. Enfim, pode ser desespero em face da situação econômica, esperteza, sei lá. Mas fiquei um irritada por ter sido acusada de ser ladra. Espero que os gregos em geral não sejam como minha “senhoria”.

         Minha impressão geral é que a Grécia é um país como o Peru: herdeiro de um passado maravilhoso e que não conseguiu fazer nada que contribuísse a essa herança. O jeito é eles se contentarem em ser um parque temático para apreciadores de arte, amantes de belezas naturais e da boa comida.Que os deuses protejam a Grécia dos comissários europeus e da Angela Merkel, que querem fazer uma interferência branca no país, leiloar seus bens públicos e confiscar suas receitas na fonte, independentemente do que isso custará à população. Na próxima semana, se eu estiver inspirada, contarei a segunda parte da minha viagem às “Europas”.

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Impressoes de uma turista II

      Na semana passada, para aqueles que me leram, eu disse que se estivesse inspirada eu falaria sobre a segunda parte da minha viagem. Digo inspiração porque creio que eu cansaria os leitores se fizesse um relato detalhado que só interessaria aos meus amigos. Falar o que eu comi, o que eu vi seria maçante, mesmo porque não fiz nada que fugisse do padrão de turista de primeira viagem.  Não sofri nenhum acidente, não conheci ninguém famoso, ninguém falou-me coisas ignorantes sobre o Brasil, mesmo porque oficialmente eu passei por italiana na Europa, para facilitar minha vida. Como o objetivo do Montblattnão é ser um mero blog narcisista, mas um espaço de reflexões alternativas sobre o país, a inspiração para minhas impressões veio hoje depois de ler sobre um dia de caos nos aeroportos. Dessa vez a TAM falhou, mas o fato é que vivemos no limite em termos operacionais e qualquer coisa que dê errado provoca efeitos cascata.

     A solução que está sendo proposta para que possamos ter uma infraestrutura decente no Brasil é a privatização por meio de concessões do Poder Público. Como já foi noticiado aqui no Montblatt, em 6 de fevereiro saiu o resultado da licitação de uma parceria público privada com a Infraero para gerir o aeroporto de Guarulhos. Aparentemente o resultado foi um sucesso: a oferta vencedora bateu 16,2 bilhões de reais, 12,8 bilhões de reais a mais do que o mínimo estipulado no edital. Tal valor será pago ao governo em 20 anos em suaves prestações mensais reajustadas pela inflação e além disso o consórcio vencedor terá que dar 10% da receita ao Estado. Não falarei aqui sobre a qualidade desse consórcio, já abordada por nosso editor, ou sobre o fato de os participantes incluírem o fundo de pensão da Petrobrás, o Banco do Brasil e serem financiados pelo BNDES, o que faz da utilização do termo privatização algo meio capicioso.

      Falarei dos benefícios que advirão desta PPP. É óbvio que o governo sai ganhando se as prestações forem pagas, é óbvio que o consórcio explorará o aeroporto mais movimentado do país, mas e nós consumidores, onde ficamos nessa? Alguns dirão que teremos serviços melhores e portanto também seremos beneficiados. Sim, muito provalvemente Guarulhos ao menos deixará de ser tão decrépito como atualmente é, mas a que preço? Para que o consórcio possa pagar o valor recorde prometido ao governo e auferir lucros será preciso tirar leite das tetas de nós usuários e por isso preparem-se para aumentos expressivos nos próximos anos nas tarifas portuárias. O quão expressivos dependerá do tipo de regulação e fiscalização a serem exercidas pela ANAC e outros órgãos do governo, as quais por sua vez dependem do estabelecimento dos objetivos do governo: será o de fazer o maior caixa possível para si e para o concessionário às custas dos consumidores, ou tornar o acesso a tal infraestrutura democrático, permitindo que muito mais pessoas possam usufruir de serviços aeroportuários eficientes e a preços razoáveis?

       Aqui amarro as duas pontas deste meu relato. Porque se falo do modo como estamos tentando resolver o problema da mais suma imoportância para nossas perspectivas de crescimento é para fazer um contraponto ao meu segundo destino turístico depois da Grécia, a Suíça. Por razões pessoais-sentimentais resolvi conhecer o país dos lagos, das várias línguas, dos cantões, dos referendos, dos bancos. Mas o que me marcou mesmo é que a Confederação Helvética (os helvetii eram um grupo de tribos célticas que habitavam o vale entreos Alpes e o Jura que foram derrotadas pelas tropas de Júlio César) é um país de trens. Eu comprei o Swiss Pass com validade para quatro dias a um preço ao redor de 500 reais e ele me dava direito a quantas viagens eu quisesse incuindo bondes, ônibus e entradas em museus. A vantagem é que uma vez de posse dele bastava mostrá-lo ao fiscal e pronto, não era mais necessário preocupar-se em comprar bilhetes de transporte. Os habitantes do país não tem direito ao Swiss Pass, mas podem comprar uma carteira, pagando mensalmente, que lhes dá direito a número ilimitado de viagens em qualquer meio de transporte por um ano.

      Não precisarei aqui mencionar o óbvio, que eram todos muito limpos, modernos, ao contrário dos trens da Itália (muito mais pobrezinhos), e que são irritantemente pontuais. Irritantemente porque se você se atrasa 30 segundos, já era: pode até ver o trem na plataforma, mas quando vai apertar o botão para a porta abrir, ele já terá iniciado o movimento (isso me aconteceu duas vezes). Tudo muito previsível: em um dia de manhã dormi em SaintLouis na França, andei 10 minutos, atravessei a fronteira, peguei o bonde na Basiléia, cheguei à estação, peguei o trem até Visp, passando por Berna, a capital, e de Visp peguei outro trem até Zermatt, onde vi o Matterhorn, o pico mais famoso da Suíça. Andei trezentos quilômetros em um dia. E quando fui à parte italiana, no dia seguinte, cruzei o país do noroeste ao sudeste até chegar a Lugano.

       A confiabilidade do sistema permite que os turistas aproveitem seu Swiss Pass até o último tostão, que o indivíduo que more em Berna e trabalhe na Basiléia possa chegar em 1 hora e meia no serviço, que o nativo que deseje passar o dia esquiando possa se divertir, em suma que a vida econômica, cultural e social flua sem atropelos. Em outras palavras, é um patrimônio compartilhado por todos, subsidiado pelo governo para que cada cidadão faça uso dele da maneira que lhe aprouver, para trabalhar, para se divertir, para tratar da saúde.

      Será quimera sonhar que no Brasil haja um dia trens que nos livrem do engarrafamento e poluição causados pelos carros? Trens que integrem o país, que permitam o escoamento da produção, que diminuam o famigerado custo Brasil, que torne desenecessário todos se aglomerarem nas grandes cidades. Se pudéssemos nos conscientizar de que a função do Estado é proporcionar bens públicos e não atender grupos de interesse específicos talvez fôssemos capazes de fazer pressão para isso.

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