Socialismo Bolivariano S.A.

“But if you think of a start-up as an
aircraft, passion is the fuel and the
engine. It creates velocity. But logic
and reason are the engineering and
the steering mechanism; you need
both, and you’re not going anywhere
exciting without both”
John Bradberry, autor do livro
“6 Secrets to Startup Success”

 

         Deparei-me com o trecho acima quando um amigo mandou-me um artigo sobre os erros que as pessoas queestão montando um negócio próprio cometem. Para John Bradberry, o principal motivo por que depois de dois anos aproximadamente 80% dos novos empreendimentos fecham as portas (números dele) é que os empreendedores ficam cegos de paixão.Eles se entusiasmam tanto com a ideia que tiveram, e realmente esse tipo de gente tem ideais sensacionais, que se negam a enfrentar a realidade e a se perguntar coisas básicas como: Há um mercado para o meu produto?Ou é melhor mudar de ramo porque há oportunidades mais promissoras em outro setor? É claro que é preciso ter paixão, paixão para enfrentar os momentos difíceis, para ser determinado, mas a paixão deve ser temperada pelos fatos de maneira que ela se transforme no que o autor chama de “earned optimism”, um otimismo conseguido por uma avaliação das suais condições e possibilidades reais, de maneira que caso as coisas falhem você consiga mudar de rumo e seguir em frente com seu projeto, mesmo que ele ao final seja totalmente diferente do que você tinha imaginado.Easier said than done,mas fica a mensagem de que paixão e razão não são coisas intrinsecamente boas ou ruins, para que floresçam e possam dar bons frutos precisam se alimentar mutuamente.

          Caros leitores, perdoem-me a lição de auto-ajuda, mas esta metáfora do avião ajudou-me a entender um pouco as reações que a morte de Hugo Rafael Chávez Frias,presidente da Venezuela, em 4 de março,provocou. Herança sombria é o título da capa da VEJA desta semana. Nem preciso ler a reportagem, porque já sei muitodo que vai ser dito contra ele. Os destemperos verbais, ilustrados durante a última campanha para presidente em 2012, em que chamou o candidato da oposição, Henrique Capriles Radonski, de porco. Sua atuação econômicapolêmicainspirada pelo tal do socialismo bolivariano que na prática consistiu em nacionalizações e expropriações e no uso da estatal do petróleo, a PDVSA, para fins políticos, especialmente depois da greve de 2003, que levou à demissãode 20.000 funcionários, e pior, à emigração de milhares de engenheiros de petróleo para o Canadá, Colômbia e os Estados Unidos (https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/ve.html ).

        O resultado da sua tentativa de superar o capitalismo não é lá muito positivo: a inflação em 2012 foi de 20,9%, fruto de uma capacidade produtiva insuficiente, que não foi melhorada pelas cooperativas bolivarianas introduzidas pelo “Comandante”. O país tem que importar produtos agrícolas e industriais e continua muito dependente do petróleo, que responde por 95% de suas exportações, 45% das receitas públicas e 12% do PIB. O grave é que devido ao uso das receitas do petróleo, cujo barril passou de 17 dólares em 1999, quando Chávez assumiu a Presidência, para 100 em 2011, para programas sociais, as instalações petrolíferas carecem dos investimentos necessários à sua manutenção e modernização. A economia informal ocupava 41,6% da população ativa em 2011 (dados tirados de www.lemonde.fr).Em suma, Chávez, convicto de que uma economia solidária é melhor do que uma economia capitalista, deixou de prestar atenção aos fatos de maneira que o socialismo bolivariano melhorasse para algo mais próximo do socialismo de mercado chinês que decididamente cria riquezas.

          Por outro lado, a paixão deste homem o levou a ficar embuído de uma indignação ante o fato de que a Venezuela, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo, ser um país em que a maior parte da população não se beneficia da riqueza. Não há como negar queas taxas de pobreza, desemprego, analfabetismo e mortalidade infantil diminuíram consideravelmente sob o regime: em 1999 50% da população era considerada pobre, em 2011 esse número caiu para 17%. Programas de distribuição de benefícios a adolescentes grávidas, a menores pobres a pessoas deficientes foram introduzidos. Em 2011 Chávez lançou o “La Gran Mission Vivienda” para combater o déficit de 2,7 milhões de habitações.

           Muitos detratores do socialismo bolivariano dirão que tais conquistas sociais nada mais são do que uma consequência natural da alta dos preços do petróleo. Não há dúvida de que sem o ouro negro, a MisiónBarrio Adentro, de distribuição de medicamentos aos mais pobres, a Misión Robinson para a educação, a Universidade Bolivariana da Venezuela não teriam sido realizados. A pergunta é: considerando que a Venezuela explora petróleo desde o início do século XX, por que isso não havia sido feito antes? Chávez teve a coragem de fazê-lo, fruto da sua crença na justiça social.

           Coragem era uma marca deste tenente-coroneldesde que tentou o golpe militar em fevereiro 1992 para tomar o poder de Carlos Andrés Pérez. Para aqueles interessados em relações internacionais como eu, não deixa de lavar a alma ouvi-lo lançar impropérios contra George Bush. Chamá-lo de assassino e torturador não é coisa de aloprado, é simplesmente dar nome aos bois, pois o legado de George Bush foi e continua sendo nefasto. Se o ex-presidente americano não foi levado às barras do Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade é porque infelizmente a justiça é a dos vencedores, e enquanto os Estados Unidos forem o “Império” poderão agir impunemente. Palmas para Chávez que expressou a indignação que as pessoas de bem devem ter contra o alcoólatra responsável pelo famigerado Patriot Act.

         No frigir dos ovos o que dizer do empreendimento chavista? A paixão do seu fundadorlevou a Socialismo Bolivariano S.A. a fechar as portas? É impossível dizer no momento se as conquistas sociais serão mantidas, ou se tudo será desmantelado, ou se não passou de uma ilusão para ganhar o apoio das massas. Um dos efeitos da paixão é que ela causa divisões. Muitos dos que odiavam Chávez, como as classes média e média alta, foram embora (ao redor de um milhão de pessoas).  Talvez este tenha sido o grande erro do regime, rechaçar os setores com formação educacional suficiente para investir, criar empregos, fazer com que a principal riqueza do país possa ser explorada. Porque cuidar dos pobres permitiu ao presidente morto vencer eleições, mas não se pode dar costas à realidade e achar que os “lacaios do imperialismo” não vão fazer falta à Venezuela. Só nos resta torcer para que o avião venezuelano alce voo bem abastecido e comvelocidade de cruzeiro, mas que seja bem pilotado para enfrentar as turbulências e possa ter uma longa vida útil.

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Indignez-vous!

       Indignez-vous! é o nome de um livro de autoria de Stéphane Hessel, membro da Resistência Francesa que morreu no último dia 27 de fevereiro, aos 95 anos de idade. Nesse livro, o autor prega que as pessoas devem protestar de maneira não violenta contra as injustiças deste mundo, entre as quais ele incluía os ataques militares de Israel em Gaza e sua ocupação da Palestina. Tal conclamação inspirou dentre outros o movimento Los Indignados na Espanha, que protestam contra a classe política que os levou a uma situação em que 55% dos jovens estão desempregados.

     A indignação das pessoas ante situações de flagrante iniquidade pode assumir várias formas, que não sejam necessariamente protestos de rua como no caso espanhol. O banco suíço UBS foi um dos que mais perderam com a crise das hipotecas em 2008. Estabeleceu-se um consenso no país de que um dos fatores da crise foi o fato de os executivos do banco, na ânsia de aumentarem seus bônus, assumiram riscos de maneira temerária, apostando em instrumentos financeiros que acabaram virando pó. Pois bem, Thomas Minder, empresário e político na Suíça, propôs uma iniciativa de referendo sobre os esquemas de pagamento a serem feitos a executivos de sociedades anônimas. Para coibir abusos, propõe-se entre outras coisas que os pacotes de remuneração sejam votados pelos acionistas e estes também decidam sobre quem fará parte do Conselho de Administração.

       A Economiesuisse, que é a FIESP de lá, é contra a proposta, que será votada por meio de referendo a ser realizado no domingo 3 de março, por considerar que impor limites aos pagamentos feitos aos executivos helvéticos diminuirá a competitividade do país. É sempre assim nestes nossos tempos globais: qualquer medida que vise coibir ou diminuir as desigualdades provocadas pelo capitalismo deve sempre ser podada, afinal devemos nos render incondicionalmente ao capital para que ele floresça e seja investido e gere empregos. É uma bela justificativa, mas será que todo esse dinheiro acumulado será mesmo usado para fins socialmente úteis? Será que não vale a pena frear um pouco a desigualdade em benefício da harmonia social? Os suíços parecem pensar assim e provavelmente votarão a favor de cortar as asas dos executivos que estabelecem seus próprios salários na estratosfera e quando saem da empresa recebem gordas indenizações (o que em inglês denomina-se golden parachutes) mesmo que sua contribuição aos resultados tenha sido pífia ou até mesmo desastrosa. Espero sinceramente que o sim ganhe nesse referendo.

     Não sou ingênua o suficiente para achar que esse tipo de democracia direta poderia ser transplantado para o Brasil, pois organizar referendos para uma população de 8 milhões de habitantes é muito diferente do que fazê-lo com 200 milhões de habitantes em um país com grandes disparidades regionais como o nosso. Mas um pouco do espírito de indignação que animava Stéphane Hessel e anima os espanhóis e os suíços poderia nos ajudar a mostrar à nossa elite política e econômica que não se pode brincar com o povo, porque ele está atento aos desmandos. Infelizmente, sou pessimista a respeito da capacidade dos brasileiros de se levantarem, ou ao menos de o fazerem pelos motivos corretos. O episódio da morte do menino boliviano Kevin Béltran, de 14 anos, atingido por uma sinalizador na partida do seu time San José, realizada em Oruro no dia 20 de fevereiro contra o Corinthians, para mim ilustra nossas errôneas prioridades.

     Diante da punição imposta pela Comenbolcontra o time paulista, cujos torcedores foram responsáveis pelo lançamento do sinalizador na Bolívia, vários corinthianos entraram na justiça pedindo uma liminar para que pudessem assistir ao jogo no estádio do Pacaembu, que ficaria fechado na partida contra o Millionarios no dia 27 de fevereiro. Armando José Terreri Rossi Mendonça, Milton Guilherme Rossi Mendonça, Gerson Mendonça Neto, Karina Bellinato Mendonça, Maurício Andreanelli Pimenta e Rodrigo Adura obtiveram a permissão para entrar, afinal já tinham comprado o ingresso e lá estavam, vibrando com o time. É sempre bom ver as pessoas defenderem seus direitos, mas eu me pergunto: o que nos deveria causar indignação? A falta de respeito do Corinthians aos consumidores lesados pelo fechamento do estádio ou a morte de um menino que tinha a vida pela frente? O que é mais importante, o futebol ou o futuro dos nossos jovens, a harmoniasocial? Será que o interesse de não perder o dinheiro do ingresso não se apequena diante da enormidade de um acontecimento que não só destruiu a vida de Kevin, mas a de seus pais também, que com toda a certeza nunca superarão perderem um filho assim, a cabeça estourada por causa de um torcedor idiota que usa o futebol como válvula de escape de suas frustrações?

     Indignemo-nos, mas em nome de bens comuns, como a justiça, a ética na política, o respeito à vida humana. Torcedores do Corinthians, desculpem-me, mas as conquistas e históriado seu time não valem nada em face de um boliviano de Cochabamba que deveria ter o direito de crescer, tornar-se um adulto eassistir a jogos de futebol simplesmente como diversão e não como fonte de identidade pessoal, como parece ser o caso com muitos amantes do futebol no Brasil,incluindo corinthianos, flamenguistas, atleticanos, gremistas e todos esses fanáticos que levam a sério coisas risíveis e tratam levianamente coisas sérias.Quem sabe um dia nossa indignação permita que o Brasil, o país do futebol, transforme-se no país da democracia participativa?

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Rafael Correa: mero clone do Chavez?

    Nós brasileiros contemplamos os demais países da América do Sul com uma certa distância, determinada pela barreira da língua, dos Andes, da Floresta Amazônica, e tendemos a nos ver como diferentes. Isso fica bem claro quando tratamos de figuras políticas como Hugo Chavez, Rafael Correa e Evo Morales, que nossa mídia tende aconsiderar como caudilhos populistas em contraponto à Lula, que teria dado um passo além do esbravejar contra o imperialismo americano, adotando políticas econômicas normais, isto é, livres de congelamentos, confiscos, calotes etc. e ao mesmo tempo realizando uma política social decombate à miséria. Teríamos então a síntese perfeita aqui no Brasil, cabendo-nos apenas sorrir de maneira complacente ao ouvirmos falar de bolivarianismo, socialismo, indianismo e outras utopias propagadas por esses três líderes.

     Não vou falar aqui de Hugo Chavez, pela simples razão de que minha opinião sobre ele encontra-se atualmente indefinida. Não sei até que ponto suas políticas sociais colocaram a Venezuela no caminho do desenvolvimento econômico, isto é, do crescimento com distribuição de rendaque permita que o aumento do PIB seja duradouro e melhore as condições de vida. Não sei até que ponto as fanfarronices do Chavez são uma forma dese comunicar com os venezuelanos ou simplesmente manifestação de imaturidade. Quanto a Evo Morales, sinceramente acho a Bolívia um caso perdido. Não conheço nenhum país do mundo sem acesso ao mar que tenha dado certo, à exceção da Suíça, que está cheia de lagos. Portanto meu foco será em Rafael Vicente Correa Delgado, eleito Presidente do Equador pela primeira vez em novembro de 2006 e que no último dia 17 de fevereiro foi reeleito com 57% dos votos.

       Prestei atenção nele pela primeira vez quando do episódio Julian Assange, que pediu asilo político ao Equador, graça concedida no dia 16 de agosto de 2012. Digo graça porque se trata de um ato soberano de um Estado, um favor a quem se acha perseguido ou a quem se nega o devido processo legal. Vi muitas charges no Brasil fazendo troça da atitude de Rafael Correa, que aparentemente quis dar um golpe de marketing, projetando sua imagem como paladino da liberdade de imprensa ao mesmo tempo em que quer controlar a imprensa em seu próprio país. Independentemente das intenções do presidente do Equador, considero haver fortes razões para a concessão do asilo, afinal se os Estados Unidos conseguirem colocar as mãos no fundador do Wikileaks e levarem-no para ser julgado lá ele poderá ser condenado à pena demorte por traição e espionagem. Em uma entrevista na TV, Rafael Correa fez uma pergunta sensata: se é para processar Julian na Suécia por estupro por que ele não pode ser interrogado na Embaixada do Equador?

    As palavras sábias deste economista, que vai completar 50 anos em 2013 e que antes de entrar na política era professor universitário, me impressionaram também quando assisti ao discurso dele na Rio + 20. Para quem quiser está emhttp://www.youtube.com/watch?v=rBxeyyW_Kko. Foi uma aula sobre a lógica econômica da destruição ambiental. Nosso sistema econômico parte do pressuposto de que os recursos naturais são ilimitados e por isso não incorpora ao preço das mercadorias o custo em termos de danos ao meio ambiente que sua produção provoca. De acordo com Rafael, essa falha do capitalismo, ao não internalizar o passivo ambiental, faz com que os bens ambientais públicos, que em sua maior parte estão nos países em desenvovlimento, não sejam pagos, isto é são usufruídos por todos de graça, ao passo que as mercadorias trocadas entre os agentes, principalmente nos países desenvolvidos, que fazem uso desses bens, são pagas. Nesse sentido, o problema ambiental é um problema político, que requer uma solução pelos donos do poder, isto é, que aqueles que fazem uso dos bens ambientais para produzir mercadorias paguem por eles. Infelizmente a imprensa brasileira acabou destacando apenas os “ataques de Correa aos países ricos”, mas considero queo mais importante é o fato de ele ter explicado as raízes do problema ambiental no próprio funcionamento do regime econômico.

     Bem, alguns argumentarão que já ouvimos muitas palavras sábias de economistas que não nos levaram a nada e de fato no Brasil fomos cobaias deles por várias décadas. Cabe aqui indagar o que Rafael Correa tem feito em seu país além de adotar umapolítica externa independente dos Estados Unidos e de um discurso crítico em relação aos países ricos. De acordo com o “The World Factbook” da CIA, acessível em https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/ec.html em janeiro de 2007, em dezembro de 2008 o Presidente do Equador deu o calote na dívida do país de 3,2 bilhões de dólares, e em maio de 2009 recomprou 91% dos títulos em forma de leilão. Como já argumentei aqui em relação à Argentina na semana passada (ver o artigo Viúva Negra), nada mais sensato do que reconhecer o óbvio, de que pagamentos de dívida não podem sacrificar o futuro de um povo, como está ocorrendo na Grécia, que está em recessão desde 2008, sem previsão de mudança no cenário econômico.

       O crescimento da economia equatoriana foi de 3,6% em 2010, 7,8% em 2011 e 4% em 2012, nada mal quando comparado ao nosso, que foi de 7,5%, 2,7% e 1,5%, respectivamente. À parte os números, o que Rafael Correa oferece em termos de estratégias de desenvolvimento? Meu problema com Lula, além de ele ter inventado a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016, é que sua política é o samba de uma nota só, girando em torno do Bolsa Família. Precisamos ir além disso, para que evitemos a bipolaridade que nos tem caracterizado: nos anos 70 crescemos feito doidos, mas não distribuímos rendae o resultado foi que o crescimento se esvaneceu no ar e ficamos praticamente 20 anos patinando. Agora parece que fomos jogados para o pólo oposto: diminuímos as desigualdades mas perdemos o rumo do crescimento, como demonstra nosso “pibinho” do ano passado.

      A menina dosolhos de Rafael Correa é Yachay,palavra que em quechua querdizer conhecimento. Yachay é a cidade que está sendo construída no norte do Equador na província de Imbabura e pretende ser “o mais importante centro de conhecimento da América Latina em produção de tecnologia aplicada em um entorno sustentável” (www.yachay.ec). Há incentivos fiscais para investimento e Rafael Correa tem visitado vários países para divulgar seu projeto, procurando atrair interessados em desenvolver atividades nas áreas de petroquímica, naonociência e nanotecnologia, ciências da vida, tecnologia da informação e da comunicação, energias renováveis e mudança climática. O projeto, inciado em abril de 2010, prevê a inauguração em outubro de 2013 de uma Universidade de Investigação em Tecnologia Experimental.

      Só o tempo dirá se yachay vai ser mais do que uma boa intenção. O ponto que quero ressaltar é que Rafael Correa parece ter uma visão de que o Equador deve dar um salto de qualidade e transformar sua economia de produtora de commodities em produtora de conhecimento. Easier said than done como se diz em inglês, mas de qualquer forma o presidente mostra ser algo mais do que um mero imitador do Chavez ou um sucessor do venezuelano nas invectivas contra o Tio Sam. Desejo-lhe toda a sorte e espero que realmente consiga colocar seu país em outro patamar de desenvolvimento.

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Viúva negra

      Em meu recesso carnavalesco assisti no You Tube a um programa que eu adoro, Secrets D’Histoire. Felizmente eles estão colocando a versão integral na internet, coisa que não faziam antes. Pois bem, o episódio era sobre Henri IV, rei da França de 1589 a 1610. Seu assassinato por Ravaillac pega o reino desprevenido, já que o herdeiro tinha apenas nove anos, e a viúva, Marie de Médicis, assume o poder como regente. A “banqueira bronca”, como a chamava uma das amantes do rei, revela uma paixão furiosa pelo poder, mas não a mesma habilidade para governar. Dá rédeas soltas a um favorito, Concini, e no momento em que seu filho chega à idade para tornar-se de fato rei, ela se nega obstinadamente a largar o osso e se revolta abertamente contra ele. Ao final o novo rei, Luís XII, consegue livrar-se de Concini, assassinado, e Marie é expulsada França, amargando um exílio miserável em Colônia na Alemanha até sua morte

      Quando terminei de ver a saga da viúva que assume o poder e mete os pés pelas mãos não pude deixar de me lembrar de Cristina Fernández de Kirchner, a presidente da Argentina que está se esmerando nas trapalhadas. Seu mandato era para ser tampão, para guardar lugar para o marido, Néstor, que governou de 2003 a 2007, e eis que em 27 de outubro de 2010 o pinguim morre, frustrando os planos do casal,” restando” a Cristina candidatar-se à presidência para um segundo mandato, conquistado em outubro de 2011.

       Não é meu objetivo aqui fazer uma análise detalhada do desempenho do casal na presidência do nosso vizinho mais importante, mas a princípio destacar alguns pontos positivos e negativos. A reestruturação que Néstor fez da dívida argentina já no primeiro ano do seu governo, apesar de ter sido na prática um calote nos investidores, que até hoje tentam reaver o dinheiro em instâncias internacionais, era a coisa mais sensata a fazer. Digo até que é um exemplo que deveria ser seguido por países europeus como Espanha, Grécia, Portugal, porque fingir que é possível pagar o impagável só para que o sistema financeiro não tenha prejuízos traz consequências sociais desastrosas. Infelizmente, o calote soberano da Argentina permanecerá um caso isolado, porque os porquinhos europeus estão sob o jugo inclemente do ex maoísta José Manuel Durão Barroso, e da filha de pastor luterano Angela Merkel.

     Por outro lado, a lei que Cristina, provavelmente com as bençãos do marido, conseguiu aprovar no Congresso em novembro de 2008, transferindo 30 bilhões de dólares de ativos de fundos de pensão privados para o sistema público de previdência, é uma grande lástima, porque enche a classe média de desconfiança e temor e sem uma classe média pujante que trabalhe esperando algo melhor no futuro nunca haverá prosperidade real em país nenhum. Nós na América Latina precisamos aprender de uma vez por todas que muito mais importante do que conquistar a confiança dos investidores estrangeiros é conquistar a confiança do nosso povo, que mora aqui, que abre negócios, que dá empregos, dar-lhe segurança que não será tungado, que seu dinheironão será confiscado. Infelizmente ainda não estamos suficientemente amadurecidos para vermos nossos governantes terem verdadeiro respeito pelo povo e não vê-lo simplesmente como fonte de votos.

       O confisco do dinheiro dos fundos de pensão ocorreu no primeiro mandato de Cristina, enquanto ela ainda tinha Néstor ao seu lado, mas parece estar havendo uma mudança qualitativa no desempenho da presidente que, em seu segundo mandato se viu viúva com o poder nas mãos.Ela parece não saber o que fazer com ele, e as lambanças tem sido rotineiras, mais do que quando estava acompanhada do marido. Não dou muita importância sobre o pito passado pela presidente do FMI, Christine Lagarde, em 24 de setembro de 2012 a respeito da pouca confiabilidade dos números apresentados pelo governo argentino sobre inflação e crescimento econômico. Se não deixa de ser verdade que as estatísticas kirchnerianas são pouco confiáveis, não menos verdade é que sob certo ponto de vista tal acusação da advogada defensora de banqueiros é covarde porque os Estados Unidos manipulam suas estatísticas sobre inflação e desemprego impunemente. Para quem quiser mais detalhes, veja o site do estatístico americano John Williams em shadowstats.com: os trabalhadores que desistem de procurar emprego não são levados em conta, como se tivessem desaparecido, e para substimar a inflação, pressupõe-se que havendo um aumento de preço de um produto o consumidor irá substituí-lo por outro, de qualidade inferior, e ele terá a mesma satisfação. Em suma, a Argentina é condenada por manipular estatísticas simplesmente por não ter muito poder no cenário internacional.

       Em minha opinião, a loucurada viúva negra Cristina está mais napublicação de uma carta aberta dirigida a Cameron em três de janeiro deste ano pedindo a devolução das Ilhas Malvinas. Qual é o objetivo dela? Criar uma desculpa para uma declaração de guerra ante a negativa do primeiro-ministro britânico? O país não tem problemas mais sérios com quelidar neste momento?De fato, o país tem, um deles sendo a inflação ascendente. A última medida da presidente, introduzida pelo Secretário de Comércio Interno, Guilllermo Moreno, o Concini de Cristina, é um congelamento de preços “acordado” com as principais cadeiras varejistas do país. Em uma economia capitalista, em que as decisões de compra e investimento são determinadas pelo preço dos produtos e pela margem de lucro esperada, isso só leva à falta de produtos e à disparada de preços.

       As trapalhadas da presidente da Argentina não são uma infelicidade só para osargentinos, mas para nós vizinhos e membros do Mercosul. Ter nosso principal parceiro comercial cometendo desatinos enfraquece nossa aliança, já tão combalida pela suspensão do Paraguai, pela entrada na surdina da Venezuela, e principalmente pelo fato de um país com um grau razoável de governança como o Chile ignorar-nos solertemente em prol de um Acordo de Livre Comércio que está sendo negociado entre os países do Pacífico, sob a liderança dos EUA. Enfim, a Argentina desvairada é um Mercosul fraco, isolado e pobre. Torçamos para que Cristina se cure de suas estultices porque a alternativaserá esperar que alguém lhe arranje um exílio oportuno, e isso tem sempre consequências funestas na América Latina.

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So sei que nada sei

“As mulheres, que provocam com suas roupas justas, que se afastam da vida virtuosa e da família, provocam os instintos e devem realizar um exame de consciência, se perguntando: é possível que o busquemos?”.

“O fato é que as mulheres estão cada vez mais provocadoras, elas se tornam arrogantes,acreditam ser auto-suficientes e acabam exacerbando a situação.Quantas relações adúlteras são estabelecidas, no trabalho, no cinema, nas academias de ginástica?É assim que se chega à violência e aos abusos sexuais.”

“Mas se você não sente nada quando vê uma mulher passar nua na sua frente, isso significa que é gay.”

“As crianças são abandonadas à própria sorte, as casas são sujas, as refeições são comida congelada ou fast food, as roupas são nojentas.”

Trechos extraídos de um panfleto intitulado “As mulheres e o
feminicídio-auto crítica saudável, quanto elas provocam?” publicado
no facebook e na porta da sua paróquia pelo Padre Piero Corsi da
Ligúria, na Itália.

“Há neste país uma indústria que funciona nas sombras, cruel, corrupta e corruptora, que vende e semeia violência contra seu próprio povo.”

“Em uma corrida para o fundo do poço, os conglomerados de mídia competem entre si para chocar, violar e ofender todos os padrões da sociedade civilizada trazendo para dentro de nossos lares uma combinação cada vez mais tóxica de comportamento inconsequente e crueldade criminosa — a cada minuto, a cada dia de cada mês de cada ano.”

“Uma criança americana terá presenciado 16.000 assassinatos e 200.000 atos de violência quando tiver atingido a idade de 18 anos.”

                                                 Partes da conferência de
imprensa dada por Wayne LaPierre, presidente da National Rifle
Association, a principal associação que defende o direito ao porte de
armas nos EUA, dada em 21 de dezembro de 2012depois do massacre
em Newton, Connecticut, em que 20 crianças foram mortas em uma escola.

      Prezados leitores, sempre quando acontece alguma tragédia presenciamos a torrente de explicações dos ditos especialistas, que podem incluir educadores, psicólogos, médicos, economistas e palpiteiros de todo gênero a respeito de qual seria o motivo. No primeiro caso, o padre italianotentava entender o porquê de 108 mulheres em 2012 terem sido assassinadas na Itália pelo ex-marido, marido, companheiro ou ex-companheiro. Para o padre, se as mulheres voltassem a ser recatadas, voltassem a cumprir seus tradicionais papéis domésticos de pilota de cozinha, rainha do lar, esposa cordata, os homensnão se sentiriam tentados a ceder a seus baixos instintos.

      Não há como negar que muito do que o padre descreve não está longe da realidade. A entrada da mulher no mercado de trabalho provocou uma revolução na família, e um dos efeitos colaterais foi este, o de que não há mais uma pessoa realmente responsável pelo bom funcionamento do lar. Atualmente, nas famílias de classe média, homens e mulheres se desdobram para trabalhar e dar conta dos filhos. E o efeito colateral é que muitas vezes os pimpolhos passam mais tempo sozinhos no computador, navegando nas redes sociais, do que conversando com seus pais. Ou então comem na frente da televisãoaquilo que mamãe arranjou às pressas ou deixou na geladeira para o filho.

      As crianças comem pior, a casa fica mais suja, mas será que os homens ficam mais violentos pelo novo comportamento liberado das mulheres? Será que os estupros, assassinatos, ataques físicos não são uma constante contrao sexo frágil em todas as sociedades? As mulheres foram despojos de guerra, vendidas como escravas, casadas pelos pais independentemente da vontade delas por toda a história. Este período de relativa paz de que nós gozamos em alguns países e em certas classes sociais do dito Mundo Ocidental é algo expecional e deve ser motivo de regogizo.

    É verdade que houve um lado negro da emancipação feminina: comida congelada, obesidade, vulgaridade, minisaias a qualquer tempo e lugar (fui à missa de Natal no colégio em que estudei e me espantei com a quantidade de mulheres mostrando as coxas à Nossa Senhora). No entanto, a concupiscência masculina estará sempre presente em nosso mundo, independentemente do que a mulher possa fazer para provocar um homem, e a mim me parece leviano querer estabelecer conclusões sobre um suposto aumento das agressões masculinas devido ao que as mulheres se transformaram no mundo pós-feminista.

     Afinal, o padre por um acaso comparou os índices de violência de antanho com os índices atuais? Isolou os outros fatores que poderiam determinar o comportamento masculino, como o desemprego, problemas de saúde, níveis hormonais, local da agressão (isolado, movimentado, escuro, iluminado)?Se não o fez, não passa de um palpiteiro preconceituoso. Eu particularmente prefiro um mundo em que as mulheres não sejam mais exímias cozinheiras, quituteiras, arrumadeiras e lavadeiras, mas que possam ter a liberdade de escolher seu destino.

     No segundo caso, a respeito de Adam Lanza, de 20 anos, que supostamente matou 26 pessoas incluindo a mãe, o campo é ainda mais minado para que as opiniões possam ser levadas em conta, já que as posições são em sua maioria ideológicas. As pessoas de esquerda vão deplorar a defesa ferrenha que os conservadores fazem da Segunda Emenda à Constituição dos Estados Unidos, que dá aos cidadãos o direito de ter armase vão usar mais um massacre perpetrado em escolas como motivo para obrigar os americanos a dar suas armas ao governo. As pessoas de direita baterão na tecla de que não é a arma que mata, são os homens, e que o problema está na sociedade permissiva em que as crianças passam o tempo todo assistindo a filmes violentos, ouvindo músicas que glorificam a violência, jogando video games em que o objetivo é matar o maior número de pessoas possível.

      Quem tem razão? O fato é que já em 29 de dezembro de 1890, muito antes das famílias “desmoronarem” pela entrada da mulher no mercado de trabalho e pelo aumento dos divórcios, muito antes do Nintendo e do Wii, houve um massacre de cerca de 500 índiosem Wounded Knee, nos Estados Unidos. Nesse sentido, considerar as matanças que têm ocorrido nos EUA como algo novo, fruto da libertinagem moderna,ou do aumento do número de armas de posse dos indivíduos, é no mínimo ignorância.

     Meus caros leitores, isso tudo para dizer que o mal está presente no mundo de variadas formas e a tendência humana de querer explicações para tudo tem seu limite no fato de que muito do que ocorre em nossa volta está além da nossa capacidade de compreensão, seja por haver múltiplas causas, seja por ser obra do acaso, ou seja, da falta de causa. Minha utilização da palavra “mal” é uma manifestação do meu próprio sentimento de impotência. Não há nenhuma conotação religiosa nela, apenas uma tentativa de dar um nome a tudo aquilo que o bicho homem faz nesta Terra e que nunca deixará de fazer, por mais que queiramos aperfeiçoar nossa natureza.

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