O estouro da boiada

       Prezados leitores, hoje meu assunto é algo um tanto quanto distante de nós brasileiros mas que, a depender do desenrolar da situação, com certeza nos afetará. Falarei aqui de uma pequena ilha de 9251 quilômetros quadrados situada no Mediterrâneo Oriental, ex colônia britânica, disputada pela Turquia e pela Grécia, um milhão de habitantes, aproximadamente, PIB de 23 bilhões de dólares em 2012, 80% do qual é composto por serviços (diga-se turismo, finanças e imóveis), centro de lavagem de dinheiro russo, dizem as más línguas (de acordo com a agência de classificação de risco Moody’s há 31 bilhões de euros de ativos russos no país), dois de seus maiores bancos entre os maiores detentores de títulos gregos.

        Bem, depois de tantas informações, vocês já devem ter advinhado que estou a falar de Chipre, que tem vivido fortes emoções ultimamente. Resumirei aqui os principais fatos. Em face de um déficit público de 7,4% em 2011 e de uma recessão econômica que em 2012 fez o PIB recuar 2,3%, o governo cipriota em julho de 2012 foi de pires na mão à tríade, ou melhor, a ‘troika’, que é como é conhecido o grupo que manda na Europa, colocando todos os governos nacionais em seu bolso: a Comissão Europeia, o Fundo Monetário Internacional e o Banco Central Europeu. Depois de meses de negociações, no dia 16 de março de 2013 a zona do euro e o FMI chegam a um acordo sobre o plano de ‘ajuda’ aChipre: 10 bilhões de euros seriam concedidos em troca de o governo impor uma taxa, eufemismo para confisco, de 6,75% sobre os depósitos bancários abaixo de 100.000 euros, e de9,9% sobre os depósitos bancários acima de 100.000 euros. Uma tunga, como diria o Elio Gaspari, que renderia 5,8 bilhões de euros, de acordo com a ideia defendida pela Alemanha de que os cipriotas deveriam compartilhar a dor, pois afinal não seria justo que o suado dinheiro dos diligentes países do norte da Europa fosse usado para resgatar oligarcas russos, para não falar máfias russas que usavam os bancos cipriotas para “alvejar” seus ganhos.

         Aparentemente tudo muito justo, sacríficios compartilhados, o pacote usual quenós latino-americanos conhecemos muito bem de impor austeridade à população.No caso de Chipreas medidas incluiriam privatização de serviços públicos, empenho de futuras reserva da exploração de gás natural, corte nos salários dos funcionários públicos e nos benefícios sociais. Digo incluiria porque o roteiro preparado pela troika teve que sofrer modificações em vista dos protestos dos cipriotas que foram à rua contra o confisco dos depósitos e pior, tentaram em massa retirar seu dinheiro nos caixa automáticos.

         Nada como o povo instilar um pouquinho de medo nos poderosos para que estes repensem suas prioridades. Depois de idas e vindas no parlamento cipriota, finalmente Chipre entra em acordo com seus ‘salvadores’: o confisco, de até 30%, incidirá sobre os depósitos acima de 100.000 euros. O maior banco do país, o Banco de Chipre permanecerá aberto, mas o Banco Popular, o segundo maior, tem sua falência decretada. Em 28 de março, depois de 12 dias de feriado bancário no país, os bancos abrem, mas atualmente vigoram estritos controles de capital: o limite de saque diário é de 300 euros por dia para cada banco em que o indivíduo tem conta, as despesas de cartão de crédito não poderão ultrapassar 5000 euros mensais e as transações comerciais também devem respeitar o limite de 5000 reais. Na primeira semana de abril o Banco Central Europeu indicou que os detentores de depósitos no Banco de Chipre de mais de 100.000 euros verão até 37,5% do valor transformado em ações e 22,5% dos depósitos imobilizados por aguns anos.

            Alguns dirão que o arranjo finalmente obtido é justo porque só vai punir os ricos. Bem, isso é uma meia verdade. As restrições de capital vão afetar a economia como um todo, pequenos, médios e grandes negócios, e nem todos os que possuem 100.000 euros no banco são mafiosos russos lavadores de dinheiro. Haverá poupadores de uma vida inteira, que esperavam usufruir deste dinheiro na velhice que serão prejudicados, haverá pessoas que investiriam em algum negócio, haverá quem tinha acabado de vender um imóvel, talvez o único imóvel que possuía. Como sempre ocorre, os justos pagarão pelos pecadores.

              Mas o pior dos recentes acontecimento em Chipre, e aqui tentarei explicar porque é algo com o qual todos nós habitantes deste mundo globalizado devemos nos preocupar, é que estabelece um precedente e avança ainda maisno caminho da blindagem cada vez maior que tem se dado aos bancos. A crise das hipotecas imobiliárias que estourou nos Estados Unidos em 2008 mostrou abertamente como os bancos nos países desenvolvidos tinham se transformado em verdadeiros cassinos, antros de apostas arriscadas: no caso americano aposta na higidez de hipotecas concedidas a pessoas que não tinham a mínima condição de pagamento, masque a engenharia financeira dos hedges e dos swaps tornava palatáveis e pior, atrativas a investidores; no caso europeu, apostas em títulos de governos perdulários de países que queriam usufruir dos altos padrões de vida dos alemães, holandeses e demais nórdicos sem trabalharem como eles.

           A solução dada quando estes bancos, “too big too fail” tiveram problemas, foi ajuda governamental: nos Estados Unidos, Bush e Obama concederam1 trilhão e 450 bilhões de dólares de ajuda às instituições financeiras;na Europa a Espanha obteve 130 bilhões de dólares dos recursos comunitários para recapitalização dos seus bancos, o mesmo ocorrendo em menor escala com outros países. O resultado é que o princípio básico do capitalismo, de que quem não tem competência não se estabelece, foi totalmente subvertido. O comportamento irresponsável é premiado com polpudas ajudas estatais, sob a justificativa de que deixar os bancos quebrarem é levar toda a economia à bancarrota.

              O que acaba de ocorrer em Chipre é um passo além, na medida em que confiscar dinheiro dos depositantes e fazê-los sócios na marra de instituições que na melhor das hipóteses levarão anos para se recuperar,é torná-las ainda mais irresponsáveis: não só elas podem ser geridas como cassinos que só beneficiam os crupiers, no caso, os executivos que se premiam com grandes bônus, mas agora nem mais precisam se preocuparem cumprir a obrigação básica de zelar pela integridade dos depósitos, porquepoderão meter a mão neles quando quer que tenham dificuldades.

           Diante de um tal cenário sombrio qual é a melhor coisa a fazer para se proteger da delinquência financeira tutelada pelo Estado? Tirar o dinheiro do banco e comprar ouro? E se todos os correntistas dosgrandes bancos dos países desenvolvidos perceberem que seus direitos de propriedade foram jogados aos leões e resolverem resgatar seu dinheiro, o que será da economia mundial? Haverá um colapso total dos meios de pagamento? Em suma, devemos nos preparar para o estouro da boiada e tentar pular a cerca? Oxalá que os desdobramento da crise em Chipre não se revelem tão catastróficos. É esperar e torcer, de preferência do outro lado da cerca, vendo de longe os bois em desabalada correria.

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Amor bandido

“OBrasil não sabe quantos de seus ex-presidiários voltam ao crime, ou seja, é um país que ignora a taxa de reincidência. Alguns estudos informam que o índice chega a pelo menos 70%, mas, segundo especialistas, não se trata de um dado empírico e oficial. (…)O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) já deu início a um projeto para chegar, por meio de amostragem, à taxa de reincidência, e pretende divulgá-la ainda no primeiro semestre deste ano. De acordo com a diretora-executiva do Departamento de Pesquisas Judiciárias (DPJ) do conselho, Janaína Penalva, a amostra vai abranger sete estados: Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Paraná, Espírito Santo, Alagoas e Pernambuco.”

Publicado no jornal O Globo de 17 de março de 2013

O último episódio da série conta a história de Vivi, presa por tráfico de drogas e armas, hoje em regime semiaberto. Elafoi casada e teve um filho com Bruno Rogério, também traficante, que acabou morto em confronto com a polícia. Vivinunca pode se despedir do marido no velório. Ela usa a aliança até hoje.

Documentário Paixão Bandida que conta a história de mulheres envolvidas com traficantes.

            Prezados leitores, por um acaso ontem, zapeando pelo controle remoto enquanto eu comia minha sobremesa, eu meu deparei com a Vivi e sua história. Aliás, já se tornou um tema recorrente em jornais, revistas e televisão as paixões bandidas, amores bandidos e todos os títulos, que invariavelmente não escapam aos clichêssobre as relações amorosas entre mulheres e foras da lei. O roteiro é sempre o mesmo: a mulher começa a namorar um homem que já está na vida do crime ou entra depois, ele é preso, ela fielmente o visita na prisão, disputa o “privilégio” com outras mulheres,às vezes acaba assumindo os negócios do companheiro ou marido enquanto ele está encarcerado, o indivíduo morre e a deixa viúva, geralmente com um ou mais filhos.

             Há mulheres que até se mudam para a cidade em que o seu homem está preso, para poder ficar perto dele, e claro, para afastar outras concorrentes. Presidente Bernardes em São Paulo, por exemplo está cheia delas.Isso não é sensacionalismo da imprensa, não. A faxineira que vem ao meu apartamento uma vez por semana tem um filho preso que já engravidou duas mulheres diferentes na prisão, durante a visita íntima, direito dosd encarcerados. Esse tipo de homem parece ter uma aura especial porque infringindo a lei, ele parece mostrar a coragem, o arrojo, enfim, a “macheza”, que é tão essencial para garantir a atração das mulheres pelo sexo oposto. Não é de se espantar por isso, que o goleiro Bruno, recentemente condenado pelo assassinato da namorada, Eliza Samudio e por jogá-la aos cachorros, esteja atualmente noivo de uma moçoila bem bonita, por sinal.

             A disputa é tanta, que Vivi, a protagonista do documentário, jura que vai ainda bater em todas as mulheres com quem o falecido transou, porque afinal, ela sempre foi fiel a ele, as outras não. Ela foi guerreira, tendo ficado ao lado dele, em todos os momentos, mesmo quando ele já não tinha mais dinheiro. Isso é motivo de orgulho para ela, e até de elogio da sogra, que reconhece a constância da nora nas dificuldades. Enfim, uma mulher raçuda, cujo amor não esmoreceu nunca. Atualmente Vivi trabalha como costureira e considera o filho a coisa mais importante da vida dela, já que seu grande amor se foi. Grande mulher! Será? Eu tenho minhas dúvidas, e vou expô-las aos leitores.

              Amor é uma palavra usada, abusada, vilipendiada a torto e a direito, de modo que não pretendo aqui socraticamente iniciar um diálogo sobre o verdadeiro sentido do conceito.Mas vou seguir em parte a maiêutica e estabelecer aquilo que acho que o amor não é. Em primeiro lugar, o amor não pode ser cultivar aquilo que gostaríamos que a pessoa fosse, esquecendo aquilo que ela de fato é. Vivi teimou anos em ficar com um homem envolvido com tráfico de drogas, um homem cujo único gesto de comprometimento que teve com ela, nas próprias palavras da mulher, foi o de levar-lhe flores na maternidade. Aquela migalha a encheu de alegria, porque afinal a mulher média (estatisticamente falando, sem nenhum julgamento de valor) quer um sinal de que seu escolhido tem intenções sérias em relação a ela, seja a apresentando à família, seja dando-lhe uma aliança, seja casando. Reconhecer que Vivi havia dado à luz a seu filho aos olhos dela mostrava que Bruninho (como era conhecido Bruno Rogério no mundo do tráfico) reconhecia que ali estava a família dele.

              Alguns poderão argumentar que sou uma menina mimada, que não posso julgar pessoas que têm condições infinitamente piores que as minhas. De fato, se você nasce em uma favela é muito mais provável que vá conhecer homens envolvidos com algum tipo de atividade criminosa, do que homens de bem, e dizer que Vivi errou porque insistiu com o Bruninho é muita crueldade em vista das condições de uma mulher quenão teve oportunidade de conhecer moços com um futuro mais promissor. Considerando tal ressalva, enuncio minha segunda definição negativa de amor: uma vez tendo construído castelos no ar, o amor não podeser a teimosia de cultivar fantasias que a realidade nos mostrou serem mentiras. Vivi sempre nutriu a esperança de que ele fosse sair da vida do crime, mesmo depois de ele ter passado pela prisão. Infelizmente sabemos que no Brasilo cárcere é apenas um local em que o indivíduo faz mestrado, doutorado e livre docência em criminalidade, pois a maioria dos presos não trabalha e pode se dedicar a aprimorar seus conhecimentos, sua rede de contatos, seus negócios no mundo do crime.A trajetória de Bruno Rogério reflete a taxa altíssima de reincidência a que se refere o jornal O Globo: depois de sair da prisão ele logo voltou ao tráfico e acabou morrendo.

           Não é de se espantar que esse amor deturpado de Vivi, fruto de ignorância e carência, e principalmente de limitações econômicas e sociais, tenha deixado um gosto amargo para ela. Ao se lembrar do seu marido ela sente saudades, vê as fotos dele, mas também sente mágoa e raiva pelo tempo de vida dela perdido na prisão, pelas traições dele, em suma pelo fato de que Bruninho nunca foi e esteve sempre muito longe de ser o pai de família e marido que cuidaria dela e dos filhos. Ela parece viver de um passado, um passado que nunca foi, mas poderia ter sido se o seu amado não tivessese transformado traficante de drogas.

               Vivi, sei que provavelmente nunca lerá este meu artigo, mas faço votos para que se não você, mas suas netas, sejam mulheres educadas, que tenham sua própria profissão, e que quando encontrarem com um homem que não é o príncipe encantado, saibam reconhecer o sapo e deixá-lo para trás, caminhando altivamente em direção ao futuro, que é sempre mais sorridente para aqueles que olham para a frente e não para trás, e não menos importante, para aqueles que têm condições de se recompor depois de um golpe. Oxalá o Brasil um dia deixe de ter mulheres guerreiras e loucamente apaixonadas e tenha cada vez mais mulheres sensatas, racionais.

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Aristóteles e o open office

“De acordo com Aristóteles, faltavam a muitas pessoas – na verdade à maioria – dos seres humanos aquelas mais altas qualidades da alma necessárias para a liberdade. A escravidão não era boa somente para o senhor, que tinha à sua disposição instrumentos viventes, mas para o escravo, que recebia orientação que era incapaz de conseguir por si só.”

Retirado da Enciclopédia Britânica, volume 16, edição de 1975

        Desde o final do ano passado eu trabalho num local de open office. Para quem não conheceo termo em inglês, open office é um escritório aberto, isto é, em que não há divisórias nem paredes, de forma que todos fiquem juntos em um mesmo ambiente. Os idealizadores do open office tinham objetivos bastante grandiosos: fomentar o trabalho em grupo e o companheirismo, estimular conversas casuais que levassem ao surgimento de ideias inovadoras, criar um ambiente em que os colegas ajudassem uns aos outros. Tudo muito bonito, perfeito para o nosso mundo sem hierarquias, em que as pessoas são responsáveis por seu próprio trabalho e por sua própria carreira e não devem mais contar com uma empresa paternalista com um monte de gerentes dando ordens a autômatos.

      Viva a participação, viva a a criatividade, abaixo a linha de montagem, o apertar de parafusos, viva o Google, abaixo a Ford (ou melhor dizendo, o método fordista inventado pelo fundador da empresa)! Quem não sonha em trabalhar em um local com redes para tirar uma soneca, um local em que o indivíduo não é um mero empregado com registro em carteira, não é um funcionário que bate o ponto, é mais do que isso é um recurso humano, o maior ativo da empresa? Portanto, para que ele dê o melhor de si e gere resultados deve-se tratá-lo como um ser livre e adulto, capaz de dar sugestões, de participar de igual para igual.

       Meus caros leitores, não sei como uma empresa como o Google funciona na prática. O que vejo é o que a imprensa mostra, e o jornalista que foi ao local para tirar fotos e passar uma tarde não chegou a trabalhar por algum tempo para verificar como a coisa de fato se desenrola. Seria portanto leviano da minha parte dar uma opinião sobre algo que não conheço. O que conheço é o local em que trabalho e digo com todas as letras à la Vicente Matheus, finado presidente do Corithinas, que na prática a teoria é outra.

         O lado negro do open office fica muito claro quando o chefe não está, porque é nesse momento que as pessoas são mais autênticas. Hoje foi um desses dias no meu cafofo corporativo, estávamos livres, leves e soltos, aliviados de em uma sexta-feira não termos os olhares do chefe a perscrutar tudo e todos do fundo da sala (afinal para a “liderança” está é a razão mais profunda para o open office, poder haver um controle mútuo das pessoas, que então vão saber se comportar de maneira adequada). Descrevo-lhes agora o que de fato se desenrola.

        As coversas informais fomentadoras de ideias inovadoras consistem basicamente no comentário sobre os acontecimentos mais espetaculares da semana: o estudante de psicologia que atropelou o ciclista e jogou o braço do infeliz no córrego, o programa da Regina Casé na televisão (perdoem se erro a informação, não tenho certeza se a Regina Casé realmente tem um programa, posso ter ouvido mal), gozações sobre o toque “Shake your body” do celular de um colega,comentários sobre um site na internet que vende aparelhos eletrônicos a preço de banana e claro sobre o facebook, acessado a não mais poder quando o feitor está longe.Não vejo como tal tipo de conversa possa contribuir para melhorar os processos de trabalho.

         É verdade que forma-se uma camaradagem, afinal todo mundo ri junto, conta piadas, mas isso tem um preço. Tamanho barulho e algazarra acaba atrapalhando as pessoas que precisam se concentrar para realizar seu trabalho e as deixam irritadas. Falo por mim, porque realmente tenho vontade de me enfurnar em uma cabine do banheiro quando o chefe não está e o nosso open office vira a gaiola das loucas. Hoje tive grande dificuldade para completar minhas tarefas e se eu pedisse para as pessoas se calarem tenho certeza que seria atendida durante dois minutos no máximo e depois falariam de mim pelas costas na copa ou em outro local. Infelizmente, minhas impressões pessoais são corroboradas por estudos realizados nos Estados Unidos, que mostraram que o barulho intenso diminui a motivação do “colaborador” e a possibilidade de ser solicitado constantemente para ajudar seus colegas diminui a produtividade dos mais capazes (http://ideas.time.com/2012/08/15/why-the-open-office-is-a-hotbed-of-stress/)

       Por tudo isso, e sendo fiel à minha alma reacionária, não posso deixar de concordar com Aristóteles:há pessoas que nasceram para ser escravas. O open office é uma ideia esplêndida para um determinado tipo de pessoa que existe muito pouco na prática. Aquele indivíduo que tem um trabalho apaixonante que o realiza como pessoa, o homem livre que não precisa de chefe para chicoteá-lo e para fazê-lo trabalhar porque ele tem introjetadas em si suas responsabilidades e é feliz sendo virtuoso. Aristóteles no século IV a.C. teve o bom senso de perceber que as pessoas não são iguais e nunca serão por mais iguais que sejam seus direitos. Os idealizadores doopen office vislumbraram o homem ideal, o home da economia do conhecimento, que com sua liberdade contribuiria para a economia capitalista. Bah! Parafraseando o Paulo Francis, que deve ter copiado de alguém: quando ouço falar de ambinete colaborativo de trabalho eu saco meu protetor auricular!

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Jogos Mortais

What is a word really?

It is a piece in chess.

Ludwig Wittgenstein (1889-1951)

     Wittgenstein foi um filósofo austríaco que estudou a possibilidade de obtenção de uma linguagem perfeita, isto é, uma linguagem que não causasse confusões e que pudesse ser usada como instrumento para chegar à verdade. Um exemplo simples de quão a língua pode ser enganadora é dado por uma pergunta simples como: “Qual foi o início do mundo?” Ora, decompondo a sentença percebe-se que ela é totalmente desprovida de sentido, pois pressupor um começo, de acordo com o significado usual de começo na língua, é pressupor que tenha havido algo antes e algo depois deste início. Mas como pode ter havido algo antes se antes do início do universo não havia universo?

      Dessa forma, a linguagem comum, longe de ser reduzível a conceitos claros, unívocos, é poluída por ranços de teorias filosóficas passadas, sentidos consolidados pela tradição, em suma, por toda sorte de conotaçõese denotações advindas do seu emprego contínuo por um grande número de pessoas através dos tempos. Iniciandoseu percurso intelectual na filosofia matemática, ao final de sua vida Wittgenstein acaba rendendo-se à linguagem tal como ela é, concebendo-a como um jogo: há determinadas regras a serem cumpridas sobre como falar, e o sentido de cada palavra só pode ser obtido no momento do seu uso no caso concreto. E este sentido não necessariamente expressa qualquer verdade, pois não há necessariamente uma conexãoda língua com algo existente. Em suma, a linguagem é um jogo, um jogo que produz múltiplos sentidos e que se encerra em si mesmo: não há jogo ruim ou bom, cada um tem suas regras específicas, e não nos cabe fazer tais julgamentos, mas simplesmente optar por um determinado jogo e jogar.

      Essa minha digressão filosófica foi-me inspirada pela notíciada criação pela presidente Dilma Rousseff da 39º pasta ministerial, a das pequenas e médias empresas. Quando eu era criança, na década de 80 (sou da safra 1972), eu conseguia saber mais ou menos de cor os nomes dos Ministérios porque eu conseguia associá-los a algo no mundo real. Ministério da Fazenda tinha a ver com dinheiro e eu lembro de Ernane Galveas com a indefectível pastinha ir pedir esmolas no FMI, desculpem, empréstimos-jumbo, no auge da nossa crise da dívida. Ministério da Agricultura tinha a ver com plantas, Ministério do Trabalho com pessoas batendo o ponto e se esfalfando, Ministério da Saúde com hospitais, Ministério da Educação e Cultura com livros. Aliás a marca MEC era muito forte na minha cabeça, porque tínhamos um dicionário da língua portuguesa publicado pelo MEC e eu até hoje o consulto para expressões em latim. Havia também o Ministério da Marinha, que eu sempre associava à cor branca dos uniformes, o Ministério do Exército, verde e o Ministério da Aeronáutica, azul, pelas mesmas razões. Em suma, aprender os nomes das pastas ligando os nomes a algo concreto era automático.

       Idos tempos que não voltam mais. Confesso que naqueles tempos de lusco-fusco, em que estávamos deixando os anos de chumbo para trás mas ainda não tínhamos plenas liberdades políticas, as coisas eram mais claras para mim, porque agora eu me perco no jogo democrático realizado em um país que tem 39 nomes diferentes para expressar as funções do governo, que consistem em oferecer à população bens públicos, isto é, produtos e serviços que satisfaçam as necessidades sociais e econômicas, como por exemplo, saúde, educação, transportes, segurança.

      Vamos começar com Secretaria de Comunicação Social. É um nome que me deixaperplexa: como haverá comunicação que não seja social? Afinal comunicar não significa expressar um conteúdo mental em palavras, palavras estas que são convencionais, isto é, estipuladas pelos membros da sociedade de comum acordo? Portanto o que seria uma comunicação do tipo não social não sei o que quer dizer, preciso consultar o juiz do jogo (no caso o Lula, que adicionou a regra ao regulamento em 2007 e provalvemente é o mais qualificado para esclarecer o sentido de se criar uma Secretaria de Comunicação Social).

    E a Secretaria de Assuntos Estratégicos? O que são estratégicos? Assuntos prioritários, imprescindíveis? Quer dizer então que as outras pastas ministeriais tratam de assuntos desimportantes ou até inúteis? Por que elas existem então? Novamente aqui peço a Lula, que em 2008 assinou o Decreto-Lei que deu à luz à criança, uma ajuda. Quem sabe ele inadvertidamente surfando na web pegue carona em minha pequena marolinha e leia este humilde artigo?

        Peço licença aos leitores para citar mais uma peça neste xadrez que está me deixando maluca. Eu nunca aprendi a jogar xadrez, só sei gamão:o que é Ministériodo Desenvolvimento Agrário? Está no Aurélio: agrário, relativo à agricultura. Portanto, Desenvolvimento Agrário é Desenvolvimento da Agricultura. Mas se é isto, qual a diferença entre esta pasta e a pasta da Agricultura? Por acaso o Ministério da Agricultura cuida do subdesenvolvimento agrário? Aqui o juiz é outro, é Fernando Henrique Cardoso, ele mora perto da minha casa, quem sabe um dia eu não tope com ele na rua e ele me expliqueo sentido?

      Eu poderia falar da sobreposição de funções destas Secretarias e Ministérios, a começar com a Secretaria de Direitos Humanos, o Ministério da Igualdade Racial e a Secretaria de Políticas para as Mulheres, que pelo sentido usual das palavras deveriam estar reunidas em uma só. Mas seria uma discussão inútil, pois meu olhar é o de um não participante do grande jogo que se joga em Brasília, daí eu não entender as regras e não achar sentido neste cipoal de nomes esdrúxulos (deixei de fora o Ministério das Relações Institucionais e o Gabinete de Segurança Institucional, pois não sei nem como começar a falar desta palavrinhatão cara aos nossos líderes, “Instituição”). Para que eu pudesse atribuir um significado a essas pastas e descobrir-lhes as funções na máquina governamental eu precisaria estar em Brasília, jogando o jogo democrático e seguindo as regras. E a regra número um parece ser que mais do que gerenciar o país, tentar resolver os problemas que nos afligem, o importante é garantir a vitória nas próximas eleições, criando pastas para troca de favores entre os membros da Máfia quero dizer, das instituições democráticas brasileiras.

       Não sei aonde esse tipo de democracia, feita de eleições frequentes que nos dão mais do mesmo, vai nos levar. Só sei que é um jogo cujas regras não me agradam. Sempre achei o xadrez complicado demais, lento demais. Prefiro a celeridade do jogo dos faraós egípcios. Leitores, tirem suas próprias conclusões, mas eu por mim jogo a toalha: meu voto para presidente será sempre nulo, desde o primeiro turno, porque em priscas eras eu ainda escolhia alguém no primeiro. E vocês, continuam ainda sentindo prazer em jogar ou acham que toda essa atividade lúdica vai nos levar ao buraco? Quem viver verá o apito final.

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Socialismo Bolivariano S.A.

“But if you think of a start-up as an
aircraft, passion is the fuel and the
engine. It creates velocity. But logic
and reason are the engineering and
the steering mechanism; you need
both, and you’re not going anywhere
exciting without both”
John Bradberry, autor do livro
Secrets to Startup Success

 

         Deparei-me com o trecho acima quando um amigo mandou-me um artigo sobre os erros que as pessoas queestão montando um negócio próprio cometem. Para John Bradberry, o principal motivo por que depois de dois anos aproximadamente 80% dos novos empreendimentos fecham as portas (números dele) é que os empreendedores ficam cegos de paixão.Eles se entusiasmam tanto com a ideia que tiveram, e realmente esse tipo de gente tem ideais sensacionais, que se negam a enfrentar a realidade e a se perguntar coisas básicas como: Há um mercado para o meu produto?Ou é melhor mudar de ramo porque há oportunidades mais promissoras em outro setor? É claro que é preciso ter paixão, paixão para enfrentar os momentos difíceis, para ser determinado, mas a paixão deve ser temperada pelos fatos de maneira que ela se transforme no que o autor chama de “earned optimism”, um otimismo conseguido por uma avaliação das suais condições e possibilidades reais, de maneira que caso as coisas falhem você consiga mudar de rumo e seguir em frente com seu projeto, mesmo que ele ao final seja totalmente diferente do que você tinha imaginado.Easier said than done,mas fica a mensagem de que paixão e razão não são coisas intrinsecamente boas ou ruins, para que floresçam e possam dar bons frutos precisam se alimentar mutuamente.

          Caros leitores, perdoem-me a lição de auto-ajuda, mas esta metáfora do avião ajudou-me a entender um pouco as reações que a morte de Hugo Rafael Chávez Frias,presidente da Venezuela, em 4 de março,provocou. Herança sombria é o título da capa da VEJA desta semana. Nem preciso ler a reportagem, porque já sei muitodo que vai ser dito contra ele. Os destemperos verbais, ilustrados durante a última campanha para presidente em 2012, em que chamou o candidato da oposição, Henrique Capriles Radonski, de porco. Sua atuação econômicapolêmicainspirada pelo tal do socialismo bolivariano que na prática consistiu em nacionalizações e expropriações e no uso da estatal do petróleo, a PDVSA, para fins políticos, especialmente depois da greve de 2003, que levou à demissãode 20.000 funcionários, e pior, à emigração de milhares de engenheiros de petróleo para o Canadá, Colômbia e os Estados Unidos (https://www.cia.gov/library/publications/the-world-factbook/geos/ve.html ).

        O resultado da sua tentativa de superar o capitalismo não é lá muito positivo: a inflação em 2012 foi de 20,9%, fruto de uma capacidade produtiva insuficiente, que não foi melhorada pelas cooperativas bolivarianas introduzidas pelo “Comandante”. O país tem que importar produtos agrícolas e industriais e continua muito dependente do petróleo, que responde por 95% de suas exportações, 45% das receitas públicas e 12% do PIB. O grave é que devido ao uso das receitas do petróleo, cujo barril passou de 17 dólares em 1999, quando Chávez assumiu a Presidência, para 100 em 2011, para programas sociais, as instalações petrolíferas carecem dos investimentos necessários à sua manutenção e modernização. A economia informal ocupava 41,6% da população ativa em 2011 (dados tirados de www.lemonde.fr).Em suma, Chávez, convicto de que uma economia solidária é melhor do que uma economia capitalista, deixou de prestar atenção aos fatos de maneira que o socialismo bolivariano melhorasse para algo mais próximo do socialismo de mercado chinês que decididamente cria riquezas.

          Por outro lado, a paixão deste homem o levou a ficar embuído de uma indignação ante o fato de que a Venezuela, que tem as maiores reservas de petróleo do mundo, ser um país em que a maior parte da população não se beneficia da riqueza. Não há como negar queas taxas de pobreza, desemprego, analfabetismo e mortalidade infantil diminuíram consideravelmente sob o regime: em 1999 50% da população era considerada pobre, em 2011 esse número caiu para 17%. Programas de distribuição de benefícios a adolescentes grávidas, a menores pobres a pessoas deficientes foram introduzidos. Em 2011 Chávez lançou o “La Gran Mission Vivienda” para combater o déficit de 2,7 milhões de habitações.

           Muitos detratores do socialismo bolivariano dirão que tais conquistas sociais nada mais são do que uma consequência natural da alta dos preços do petróleo. Não há dúvida de que sem o ouro negro, a MisiónBarrio Adentro, de distribuição de medicamentos aos mais pobres, a Misión Robinson para a educação, a Universidade Bolivariana da Venezuela não teriam sido realizados. A pergunta é: considerando que a Venezuela explora petróleo desde o início do século XX, por que isso não havia sido feito antes? Chávez teve a coragem de fazê-lo, fruto da sua crença na justiça social.

           Coragem era uma marca deste tenente-coroneldesde que tentou o golpe militar em fevereiro 1992 para tomar o poder de Carlos Andrés Pérez. Para aqueles interessados em relações internacionais como eu, não deixa de lavar a alma ouvi-lo lançar impropérios contra George Bush. Chamá-lo de assassino e torturador não é coisa de aloprado, é simplesmente dar nome aos bois, pois o legado de George Bush foi e continua sendo nefasto. Se o ex-presidente americano não foi levado às barras do Tribunal Penal Internacional por crimes contra a humanidade é porque infelizmente a justiça é a dos vencedores, e enquanto os Estados Unidos forem o “Império” poderão agir impunemente. Palmas para Chávez que expressou a indignação que as pessoas de bem devem ter contra o alcoólatra responsável pelo famigerado Patriot Act.

         No frigir dos ovos o que dizer do empreendimento chavista? A paixão do seu fundadorlevou a Socialismo Bolivariano S.A. a fechar as portas? É impossível dizer no momento se as conquistas sociais serão mantidas, ou se tudo será desmantelado, ou se não passou de uma ilusão para ganhar o apoio das massas. Um dos efeitos da paixão é que ela causa divisões. Muitos dos que odiavam Chávez, como as classes média e média alta, foram embora (ao redor de um milhão de pessoas).  Talvez este tenha sido o grande erro do regime, rechaçar os setores com formação educacional suficiente para investir, criar empregos, fazer com que a principal riqueza do país possa ser explorada. Porque cuidar dos pobres permitiu ao presidente morto vencer eleições, mas não se pode dar costas à realidade e achar que os “lacaios do imperialismo” não vão fazer falta à Venezuela. Só nos resta torcer para que o avião venezuelano alce voo bem abastecido e comvelocidade de cruzeiro, mas que seja bem pilotado para enfrentar as turbulências e possa ter uma longa vida útil.

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