História e cinema

Os etíopes pintam seus deuses com narizes chatos e pele escura; os trácios pintam os seus com olhos azuis e cabelos ruivos. Se ao menos os bois e cavalos tivessem mãos, e quisessem desenhar ou realizar outros trabalhos de arte que os homens fazem, então so cavalos desenhariam as figuras de seus deuses como cavalos, e os bois, como bois, reproduzindo os corpos divinos segundo seus próprios modelos.

Xenófanes, poeta e pensador religioso grego (560 a.C.-478 d.C.)

                O trecho acima foi retirado de um livro chamado “Um Estudo da História”, de Arnold Toynbee (1889-1975), um historiador britânico que se propôs a compreender o Homem e suas civilizações de uma perspectiva mais ampla, não estritamente ocidental. No primeiro capítulo do livro, denominado “Relatividade do Pensamento Histórico”, Toynbee mostra o quanto o pensamento histórico do seu tempo reflete o pensamento científico do século XIX, que por sua vez é expressão do modo de produção industrial:estudavam-se criaturas vivas, os homens, como se fossem inanimadas, como se elas pudessem ser isoladas do seu meio físico e cultural de modo a serem objetivamente apreendidas e dominadas. Tal perspectiva levava à elaboração da história dos países isolados, como se fossem entidades auto-suficientes, quando na verdade eles fazem parte de grandes movimentos de civilizações que se chocam e dialogam ao longo do tempo.

                Essa história catalogadora, criticada por Arnold Toynbee, feita da coleta laboriosa de fatos é muito chata e pouco criativa. Livros como “Um Estudo da História” são fascinantes justamente porque o autor se vale do seu conhecimento enciclopédico, muito além da “mera paisagem européia” para dar aos leitores um painel amplo das grandes tendências, sem focalizar em números e datas específicos. Por outro lado, corre-se um grande risco com tal abordagem: estudiosos menos dotados podem tomar o caminho mais fácil e esquecer totalmente os fatos, para apresentarem apenas sua filosofia da história, ou seja, sua versão dos acontecimentos, sem o cuidado de embasá-la.

                  Chegamos então no pólo oposto: da ditadura dos fatos para a ditadura da agenda política e cultural do indivíduo que se propõe a olhar o passado. Não falarei aqui sobre historiadores e livros por eles escritos, pois não sou historiadora profissional para poder julgar de maneira não leviana. Falarei de filmes, por uma razão simples: atualmente eles são o meio principal que as pessoas têm de saber sobre o passado.  E eu sempre me assusto com esse menosprezo pelos fatos e pela imposição de um conjunto de valores do presente sobre situações que não comportam tal enquadramento, justamente porque as pessoas que viveram àquela época, que fizeram a história do seu tempo,pensavam de outra maneira. Vamos aos exemplos, para minha ideia ficar mais clara.

                   Na semana passada assisti a um filme francês, “Les Adieux à la Reine”, que conta a históriade Sidonie Laborde, umaórfã de pai e mãe cujo ofício é ler para a rainha da França, Maria Antonieta. Estamos em julho de 1789 e a Revolução Francesa acaba de eclodir. Não me interessa aqui falar-lhes de todo o enredo, vou apenas deter-me sobre a cena em que a rainha manda a leitora sentar-se em frente à ela e lhe conta sobre seu amor pela Duquesa de Polignac, Gabrielle. Há muitos elementos risíveis nesssa cena. Em primeiro lugar, não há registro histórico de que Maria Antonieta fosse lésbica. Há registros de que tinha um amante, do qual já falei aqui neste espaço em “Os Aristogatas”, e da forte amizade que a unia a Gabrielle de Polignac, mas colocá-la sonhando com o perfume de Gabrielle é uma licença artística do cineasta e do autor do livro no qual se baseou o filme, Chantal Tomas, que se inscreve na tentativa moderna de atribuir homossexualismo feminino ou masculino a famosos personagens históricospara naturalizá-lo e até justificá-lo, como se tal condição levasse a grandes conquistas intelectuais ou materiais.

              Em segundo lugar, há um elemento anacrônico mais sutil: colocar a rainha da França tomando uma serva como confidente num diálogo de igual para igual, em que as duas estão sentadas,é apresentar algo improvável. Não que as rainhas não tivessem confidentes, afinal a história está cheia de exemplos de pessoas de origem humilde que tiveram uma bem-sucedida carreira em alguma corte real, seja como conselheiros ou amantes. Meu problema com a cena era o tom coloquial da conversa, como se aquilo fosse algo feito entre duas amigas, como se faz hoje em dia entre pessoas que se consideram do mesmo nível.

                      E não era: em uma sociedade hierarquizada em que os reis eram representantes de Deus na Terra, em que havia regras muito claras sobre as relações entre as pessoas, sobre quem deveria obedecer e quem deveria mandar, os reis deveriam manter sempre o ar de mistério em torno de sua pessoa, de intocabilidade. A rainha Maria Antonieta mostrada neste filme tem como modelo muito mais a princesa Diana que fazia confissões na BBC sobre o triângulo amoroso entre ela, Charles e Camilla, do que a Maria Antonieta histórica, que era criada desde a mais tenra infância imbuída do senso do dever de representar o papel que Deus havia dado a ela.

                 Tal papel, ao mesmo tempo que lhe dava imensos privilégios, impunha-lhe sacrifícios e o principal deles eraser uma pessoa cuja vida era absolutamente pública, pode-se dizer até mesmo um instrumento para reforçar a ordem natural das coisas.Mostrar a rainha da França como mulher entregue ao cultivo de sentimentos privados de amor, lamentando sua vida tolhida pelas obrigações é uma visão que nós, filhos da revolução burguesa, que colocou o indivíduo no centro do mundo e que fez da felicidade um objetivo de vida legítimo, transplantamos para o século XVIII.Como se as pessoas daquela época tivessem as crises existenciais típicas de um indivíduo do século XXI,para quem é inconcebível que Deus possa ter-lhe colocado na Terra para sofrer e que isso possa ser justo. Afinal vivemos sob a égide da filosofia Paulo Coelhiana do “quando você quer, o mundo conspira a seu favor”.

               Eu poderia dar-lhes outros exemplos: mulheres feministas avant la lettre que em plena Idade Média tratavam seus esposos com a condescendência de mulheres esclarecidasque sabem que “boys will be boys” (isso eu vi em um filme de Robin Hood estrelando Kevin Costner), ou um filme como Bastardos Inglórios, que mostra os nazistas como vilões de história em quadrinhos. Tais distorções dos fatos são consideradas normais, fruto do relativismo cultural a que me referi em meu artigo “Ilusões perdidas e reconquistadas, mas eu vejo um risco muito grande em tratarmos a história assim, sem nenhuma preocupação com a fidelidade. O resultado disso é que acabamos considerando natural nosso próprio comportamento capitalista, defensor dos direitos humanos e das minorias e esquecemos que ele é apenas uma etapa no movimento das civilizações, para copiar Toynbee.

               Para finalizar, gostaria de citar um exemplo de como a agenda política é mais importante atualmente do que o entendimento da história em seus próprios termos. Assistindo no youtube ao último episódio da saga Les Rois Maudits, baseada no livro de Maurice Druon, eu ri à beça quando em uma cena o rei da França, Filipe VI, descobre que a mulher tinha surrupiado à noite seu selo real e dado uma ordem de prisão a uma inimiga. A rainha confessa e ele imediatamente a chama de “putain” e dá-lhe umas chapuletadas. Nada mais previsível: ela o havia desobedecido, ele era o homem, o pater familias, era preciso mostrar ao ser inferior quem era a autoridade. A mulher depois de receber os tabefes não chora nem se lamenta, resignada ante a ordem natural das coisas e vai embora.

             Esse filme foi feito no ano em que eu nasci, em 1972, e na minha opinião é muito mais esclarecedor para as geraçõespresentes do que se mostrasse uma mulher desafiando o marido ou tratando-o como imbecil, porque o mundo não funcionava assim. Infelizmente, essa fidelidade aos fatos hoje em dia é vista com maus olhos e para as pessoas cujo conhecimento passa ao largo de livros, o mundo torna-se um eterno presente, como se nosso modo de vida e nossos valores fossem os únicos possíveis ou prováveis. É uma pena. Meus prezados leitores, da próxima vez que forem ver Quantin Tarantino, reflitam sobre o quanto de suas histórias são aquilo que ele queria que tivesse acontecido e não o que de fato aconteceu.

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Gilberto Freyre e as PEC

Ociosa, mas alagada de preocupações sexuais, a vida do senhor de engenho tornou-se uma vida de rede. Rede parada, com o senhor descansando, dormindo, cochilando. Rede andando, com o senhor em viagem ou a passeio debaixo de tapetes ou cortinas. Rede rangendo, com o senhor copulando dentre dela. Da rede não precisava afastar-se o escravocrata para dar suas ordens aos negros; (…) De rede viajavam quase todos – sem ânimo para montar a cavalo: deixando-se tirar de dentro de casa como geleia por uma colher. Depois do almoço, ou do jantar, era na rede que eles faziam longamente o quilo – palitando os dentes, fumando charuto, cuspindo no chão, arrotando alto, peidando, deixando-se abanar, agradar e catar piolho pelas mulequinhas, coçando os pés ou a genitália; uns coçando-se por vícios; outros por doença venérea ou da pele.

Casa Grande&Senzala, página 482

Pode-se atribuir à influência israelita muito do mercantilismo no caráter e nas tendências do português: mas também é justo que lhe atribuamos o excesso oposto: o bacharelismo. O legalismo. O misticismo jurídico.

Casa Grande & Senzala, página 292

                Eu fui ler Gilberto Freyre quando eu já tinha 30 anos, durante minhas viagens de trem e de metrô até o trabalho. É uma leitura fácil porque apesar de sua formação acadêmica como sociólogo e antropólogo ele nunca fez uso de termos técnicos da área , ou seja, jargão, para escrever. Daí um dos defeitos que podem ser apontados no trabalho de um dos nossos maiores intelectuais: a falta de rigor intelectual. Muito do que Freyre fala é mero “achismo”, não por leviandade ou ignorância, mas simplesmente porque como bom contador de histórias ele se deixava levar por suas próprias palavras e uma metáfora que não seria mais do que simples figura de linguagem adquire ares de pronunciamentos definitivos sobre o caráter de um povo.

               Assim, se por um lado o estilo literário dele serve à perfeição para descrever a rotina de um senhor de engenho de Pernambuco no século XVII enos permite vislumbrar os efeitos de tal rotina sobre seu caráter e sua psiquê, por outro lado nos leva a becos sem saída. O que é misticismo jurídico para Gilberto Freyre? É acreditar na literalidade da lei, como os religiosos ortodoxos acreditam na literalidade da Bíblia? Aqui revelam-se as falhas do ilustre pernambucano: ele quer mostrar aos leitoresque há uma influência dos judeus sefarditas em Portugal e no Brasil, e usa como atalho uma bela expressão cujo sentido não é explicado pois não passa de uma intuição.

          Feitas tais ressalvas, não tenho dúvidas de que Casa Grande&Senzala deveria ser leitura obrigatóriia em nossas escolas. A qualidade literária poderia ensinar muito aos nossos alunos sobre como escrever bem (quem leu meu artigo da semana passada sabe que prezo a educação feita daimitação dos mestres). Mais que isso, o vivo painel que ele dá de como viviam os brasileiros na época colonial pode lançar muitas luzes sobre nosso comportamento presente, e essa talvez seja a lição mais importante de cidadania que Gilberto Freyre pode proporcionar. Afinal, usar molequesnegros como saco de pancadas, não realizar nenhum trabalho útil além do mero exercício do poder, com se vê no extrato acima, têm certas consequências,como vemos todos os dias nas manchetes dos jornais em que o indivíduo pego com a boca na botija quer que o povo se f… ou o pobre se exploda, como diria Justo Veríssimo (lembram-se?).

              Tendo acusado Gilberto Freyre de muitas vezes se deixar encantar demais por suas próprias palavras e tirar conclusões apressadas, vou conscientemente incorrer no mesmo erro,eximindo-me de culpa sob a alegação de que não pretendo aqui neste meu espaço ter nenhum rigor científico. Ao reler as passagens de Casa Grande & Senzala sobre o bacharelismo e sobre a vida mansa e irresponsável dos membros da elite respaldados pelo trabalho dos negros na lavoura do açúcar, deixei-me levar pelas analogias e refleti sobre a PEC 37, a proposta de emenda constitucional que quer displinar os poderes investigatórios do Ministério Público, e a PEC 33, outra proposta de emenda constitucional, cujo objetivo é submeter certas decisões do STF ao crivo do Legislativo.

              É uma briga dos bacharéis, promotores de um lado, policiais de outro, no caso da primeira, STF de um lado, Congresso do outro, no caso da segunda (considerando que a maior parte dos congressistas é formada de advogados). Muitos bem pensantes consideram que a aprovação das decisões do STF pelo Legislativo é uma afronta ao Estado de Direito por interferir nos Poderes do Judiciário, e muitos promotores acham que suasinvestigações não podem ser tolhidas para que haja um efetivo combate à corrupção.Há na minha opinião uma falsa discussão, produto da arrogância dos letrados que querem dar-se “carteiradas” mútuas.

                 É uma falsa discussão produto da arrogância pois leva a entender que há poderes melhores do que outros. O STF, o guardião da Constituição, tem realmente tido um papel muito destacado. Isso se deve sem dúvida ao fato de que vige no Brasil o princípio do non liquet, isto é, o juiz deve decidir o caso que lhe é apresentado, mesmo que não haja lei que o enquadre e nosso Legislativo tem falhado em atualizar as leis e elaborar outras que dêem conta de novas situações. Obrigado a suprir as lacunas, o STF interpreta, mas com certeza às vezes extrapola, arvorando-se como guardião de certos princípios que longe de serem constitucionais são na verdade dos próprios ministros. O caso da união de pessoas do mesmo sexo é um exemplo: apesar de nossa Constituição usar as palavras homem e mulher reiteradamente, os ministros em maio de 2011 reconheceram como legal a união civil entre pessoas do mesmo sexo.

              Dadas as implicações financeiras e sociais do reconhecimento do casamento de homossexuais, não caberia ao Poder Legislativo decidir sobre isso, isto é aprovar lei que mude o texto da nossa Constituição? Ou o Congresso Nacional é de muito baixo nível, dominado por evangélicos ignorantes, lixos humanos?Muitas pessoas parecem ver no STF, um órgão de doutores letrados, uma instância mais bem preparada para decidir sobre as questões nacionais. Mas eu pergunto: onde fica a tal da democracia e a ideia de queo povo, ou pelo menos seus representantes eleitos, deve decidir sobre aquilo que afeta seus interesses e seu bolso?E o STF dá sinais de que assim se vê, tanto que o Gilmar Mendes na última semana bateu boca com Renan Calheiros, vociferando contra o absurdo jurídico de submeter a instãncia máxima do Judiciário brasileiro ao crivo do Legislativo.

                Não me entendam mal, não estou eu aqui a defender a PEC 37 e muito menos a PEC 33.O ativismo do Judiciário, o apagão do Legislativo, a impunidade, a corrupção são problemas estruturais no Brasil, eu diria até culturais,seguindo a lição de Gilberto Freyre. Emendas à Constituição não vão resolvê-los. Meu ponto é que o melhor caminho a seguir é que as instituições brasileiras, a Polícia, o Ministério Público, o STF, o Congresso, todos parem de catar piolhos, parem de se considerarem uns melhores do que os outros e colaborem para cumprirem seus respectivos deveres, já colocados em nossa celebradíssima “Carta Magna”. Senhores bachareis, menos invencionices jurídicas, menos emendas constitucionais, menos súmulas vinculantes, menos decisões históricas, menos espalhafato, menos troca de farpas, e mais humildade e mais trabalho sério, constante, ou se preferirem, menos casa grande e senzalae mais Minha Casa Minha Vida. O Brasil só terá a ganhar com isso.

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Ilusões perdidas e reconquistadas

“Não existem fatos apenas interpretações”

Friederich Nietzsche (1844-1900)

               Meus primeiros estudos universitários foram feitos mais ou menos sob a inspiração da frase acima. Digo inspiração não por eu ter lido algo do filósofo alemão na Faculdade de Letras pela qual me formei em 1998, ou por eu tê-la escolhido como definidora da minha digamos “filosofia de vida”. Cito Nietzsche, que tanto criticou o Cristianismo, o nacionalismo e toda a cultura e sistema de valores então em voga, porque a principal missão a que os professores se dedicavam era fazer com que nós, alunos, fôssemos críticos.

             Eu havia tido a esperança, e este foi um dos motivos de eu ter escolhido fazer Letras, de que eu teria contato com as grandes obras-primas da literatura ocidental e com isso eu poderia aumentar minha bagagem cultural. Tendo aprendido com os mestres, eu seria capaz de criticar, de ter opiniões próprias. Já naquela época, eu acreditava, e ainda acredito que, como diz Peter Jones, um jornalista britânico autor de uma coluna semanal entitulada “Ancient and Modern”da Revista The Spectator, “a verdadeira criatividade depende da libertação da tirania de saber as coisas”.

             Sob essa perspectiva, a educação deve ser um exercício do cérebro, feito em grande parte de memorização, de modo a prover o indivíduo com “intuição rápida” e “agudeza de raciocínio”. Em suma, na faculdade as leituras exaustivas que faríamos de todos aqueles que haviam pensado sobre as coisas antes de nós nos obrigaria a um esforço de entendimento e com isso aprenderíamos a pensar, primeiramente sabendo repetir com nossas próprias palavras aquilo que os grandes e criativos haviam dito, e em seguida formulando gradualmente nossas próprias ideias. Claro que àquela época eu não formulava este projeto de maneira tão clara como estou fazendo agora, do alto da minha experiência e com a ajuda do Peter Jones, mas eu tinha uma intuição sobre o que queria para mim em termos de formação intelectual: ser um cidadão pensante como resultado de árduos esforços de mergulho nos clássicos.

              Como o uso do condicional acima pode fazer meus leitores vislumbrarem, minhas esperanças sobre o conteúdo da faculdade e sua proposta foram em larga medida destruídas. Afinal, os professores que davam aulas na USP na década de 1990 na área de Ciências Humanas são todos filhos da década de 60, e portanto beberam as águas “rejuvenescedoras” do marxismo cultural, do desconstrucionismo, da Escola de Frankfurt, em suma de todos aqueles movimentos que questionaram as fundações da civilização ocidental. É claro que tal movimento começou muito antes na filosofia de Nietzsche, de Freud e do próprio Marx, mas foi na década de 60 que tais críticas deixaram de ser marginais e tornaram-se parte da corrente bem pensante, de forma que quem não se opusesse às noções estabelecidas de raça, gênero,família, cultura era considerado como indivíduo comprometido com as estruturas dominantes de poder.

           Trocando em miúdos, a crítica ao status quo, representado pelo tal do cânone ocidental, isto é, as obras consideradas como representativas da melhor tradição da filosofia e da literatura que se produziu na Grécia, Roma, Europa e suas ramificações na América,significava que a prioridade no curso era dar-nos ferramentas para desconstruirmos tudo aquilo. Nesse sentido, não importava tanto saber o que havia sido pensado e escrito antes de nós, como saber olhar tudo o que é sagrado, belo e perfeito com desconfiança usando conceitos como ideologia, discurso hegemônico e relações sociais para fazê-lo.

             É claro que li Jane Austen, Charles Dickens, Thomas Hardy, D. H. Lawrence, James Joyce, William Faulkner, Henry James para citar alguns dos autores de literatura inglesa e americana mais famosos com os quais tive contato. No entanto, não nos detíamos muito tempo sobre o estilo de cada um, tentando entender o modo de escrever para, quem sabe, imitá-los. Pois o importante não era cultivar o que é bom, escrever bem, com apuro, seguindo as lições dos mestres. Ler as obras primas era apenas uma etapa do processo de aprendizagem da crítica, que passava pela leitura, na prática mais prioritária, dos críticos literários que haviam escrito sobre os mestres.

             Digo na prática porque tínhamos que redigir trabalhos com nossa “opinião” e se não lêssemos os desconstrutores do cânone não tínhamos conteúdo: afinal como interpretar os romances de Jane Austen sobre as dificuldades das mulheres para encontrarem parceiros na Inglaterra do início do século XIX se eu não conhecia a história do país e osistema de classes que então vigorava? Como entender James Joyce se eu não havia lido as grandes obras com as quais ele dialogava, incluindo a Bíblia, A Ilíada, A Odisséia?O atalho mais à mão para um estudante ignorante, mas com a obrigação de contestar os valores dominantes, era ler os autores marxistas que nos eram oferecidos, tipos como Terry Eagleton, Roberto Schwartz que apontavam os preconceitos de classe e descreviam a estrutura de pensamento dos machos e fêmeas brancas ocidentais.

              Tanto desconstruir era mais essencial do que aprender com os gênios e imitá-los, que a maioria dos alunos nem lia as obras dos expoentes máximos da opressão das classes trabalhadoras: assistiam a um filme para saber o enredo da história e se dedicavam à tarefa mais útil de embeber a sapiência daqueles que haviam apontado o quanto a tradição cultural é um artefato construído por uma certa estrutura econômica. Conceitos como o bem escrever, o bem pensar, o bem falar, o bem argumentar não tem uma validade intrínseca, afinal são relativos a um determinado tempo e espaço, e portanto podem ser jogados no lixo. E foi isso que a geração da década de 60 que hoje domina as universidades fez: os cursos de Humanas são, com raras exceções, uma aplicação na prática educacional do relativismo cultural que passou a dominar as mentes pensantes do Ocidente desde que os estudantes franceses decretaram que é proibido proibir.

          O resultado são “humanistas” que não sabem escrever, não sabem pensar e não sabem argumentar, porque o esforço que deveriam fazer em aprender o be a bá da estilística, da lógica, da retórica é concentrado em aprender métodos de crítica marxista, em suasmais variadas vertentes. Com tal formação falha, não admira que os formandos saiam da faculdade repetindo com toda a pompa clichês que pegaram aqui e acolá, tudo empacotado em legítima prosa acadêmica que esconde a falta de substância com palavras obscuras e esnobes, típicas de pessoas que sofrem o mal tão pós-moderno da precocidade: são doutores PhDs sem terem passado pela história, geografia, arte, ciência, astronomia, tecnologia, música, direito, filosofia e assim por diante de que falava o arquiteto romano Vitruvius como a base da educação de um indivíduo que queria se transformar em um ser humano. Por terem sido ensinados apenas a criticar carecem da humildade necessária para o verdadeiro diálogo, que consiste primeiramente em entender as premissas do outro. Não admira que os tais dos debates acadêmicos hoje ou sejam uma rasgação de seda mútua quando os participantes pertencem à mesma seita ou então uma troca de farpas inútil quando os debatedores são “inimigos declarados”, como marxistas x liberais.

            Um dos meus passatempos é ouvirentrevistas do Gore Vidal no YouTube, um homem que durante décadas denunciou as consequências terríveis do Império Americano que estamos vendo se desenrolarem em nossa época.Um homem que infelizmente já não existe mais, classicista que exatamente devido à sua formação sólida era capaz de trocar ideias com qualquer um, rebatendo prontamente argumentos sem levantar a voz, de maneira elegante.Apesar de ter passado pela educação superficial que lhes descrevi acima, sonho um dia ter uma fração da cultura e sabedoria do Gore Vidal, porque hoje acredito firmemente que é só através do verdadeiro humanismo, sem sua doença pós-moderna o criticismo, que poderemos formar cidadãos que consigam resistir aos males do mundo moderno, a saber, a concentração de renda, a falta de representatividade das instituições políticas, o controle cada vez maior que o Estado exerce sobre nossas vidas.

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Cadê a sustentabilidade?

             Vivemos no país a festa democrática, temos eleições a cada dois anos e se não bastasse essa profusão de escolhas em que parecemos decidir a respeito de cores diferentes de roupas, a mídia insiste em antecipar a discussão dos candidatáveis. Isso fica patente principalmente em relação ao cargo de Presidente da República, em que os jornais, revistas, sites na internet mais tratam do tema como meio de entretenimento do que como oportunidade de discussão dos rumos do Brasil. Afinal, tudo fica reduzido a um jogo ou corrida de cavalos: pesquisas são publicadas frequentemente para ver quem está no páreo e quem não está, quem é cavalo manco e quem é promissor. Os candidatos são identificados não por suas ideias, sobre o que fazer para resolver nossos problemas, mas por seus marcadores de performance, os índices nas pesquisas.

                  Não estou aqui a atacar a idoneidade das pesquisas e levantar o argumento comum de que eu não conheço ninguém que tenha sido entrevistado para uma enquete de intenção de votos. Eu mesma na eleição para prefeito do ano passado fui entrevistada pelo Data Folha e com base nessa minha modesta experiência pessoal creio que não há nenhum problema metodológico com o trabalho realizado por órgãos de reconhecida competência. Meu problema não são as pesquisas em si, mas o modo como elas são usadas: ao mesmo tempo que fisgam a população pelo aspecto da disputa empobrecem a pauta das eleições. Mesmo havendo a realização de debates eles são no mais das vezes um marco, um evento para dar ensejo a uma nova pesquisa que avaliará quem perdeu ou ganhou como se existisse algo desse tipo quando são discutidos temas como educação, saúde, economia, segurança, corrupção, infraestrutura, para citar os mais candentes.

                   Estamos agora com as portas abertas do Jockey Clube Brasil e as apostas estão abertas. Há o galego pernambucano de olhos azuis, Eduardo Campos, um potencial azarão (desculpem o clichê batido, mas em prol da minha argumentação devo levar minha metáfora “cabalística” como diria o saudoso Vicente Matheus até as últimas consequências), há a altaneira égua Marina Silva que foi uma surpresa na corrida passada chegando em terceiro lugar. Quem sabe se ela conseguir as tais 500.000 assinaturas para registrar sua Rede Sustentabilidade no TSE ela não consiga surpreender uma vez mais e disputar cabeça a cabeça com a égua mãe, veterana corredora, Dilma Rousseff? Não devemos esquecer do garanhão que quer tornar-se corredor, Aécio Neves, representando uma ilustre raça de cavalos que nos últimos páreos teve um desempenho frustrante.

                 Dentre esses lindos espécimes equinos, não vou deter-me sobre Eduardo Campos que não me interessa. O Congresso Nacional, como eu tentei mostrar na semana passada, é dominado por representantes do Norte e do Nordeste, o Executivo, em que a eleição de fato é proporcional à população, é normalmente terreno de alguém que fez carreira no Sul Maravilha. Há exceções como Fernando Collor de Mello, mas elas não são significativas a ponto de macular o ponto principal de que candidatos com base política no Nordeste não têm muita chance em uma eleição nacional,em que o princípio de que cada cabeça equivale a um voto é realmente para valer. Quanto ao Aécio Neves, ele é mais um dentre os tantos príncipes do partido que tenta sair ileso da fogueira das vaidades dos bem nascidos e convencidos tucanos.

               Falarei da Dona Marina, a candidata dos bem pensantes, dos globalizados, dos conectados, enfim dos que herdarão a terra. Afinal o próprio nome do seu partido, ainda em gestação, mostra como ela está em sintonia com a modernidade. Rede, ligação de pessoas fisicamente distantesmas que compartilham valores, sustentabilidade, conceito-chave que encapsula tudo o que um governo deve perseguir: crescimento econômico combinado com desenvolvimento econômico, aumento do PIB combinado com justiça social, aumento da capacidade produtiva do país preservando o ambiente como ativo estratégico, globalização combinada com respeito às culturas locais. Quem pode ser contra uma agenda dessas? Especialmente se esse alguém é educado, vive em centros urbanos e lamenta a indigência material, social e moral a que muitos brasileiros ainda estão condenados por uma visão arcaica da economia e da política?

                   O problema está aí. Será esta sustentabilidade uma verdadeira agenda, no sentido de ser um programa factível de governo? Não estou aqui a ponto de fazer a crítica estúpida de que falta detalhamento às propostas de Marina. Afinal, para que ela tem o ilustre economista e filósofo Eduardo Gianetti da Fonseca como seu guru intelectual? Minha suspeita com relação à ex-seringueira é a respeito de um posspivel modo de governar.

                      Essa pulga surgiu na minha orelha depois que li um seu artigo no domingo dia 14 de abril sobre os haitianos que chegam ao Estado natal dela, Acre, em busca de uma vida melhor aqui no Brasil. Marina, em nome dos direitos humanos dos refugiados, conclama o governo brasileiro a fazer mais por eles, a agilizar a emissão de papeis, a arregimentar uma aliança de países para ajudá-los (ela sensatamente admite que não podemso fazer isso sozinhos). Um discurso bonito, sem dúvida, e eu seria cruel em atacar propósitos tão dignos, mas permitam-me sê-lo.

                      Se começarmos a acolher haitianos aqui dando-lhes de comer e beber e carteira de trabalho, isso vai incentivar outros a virem. E que vantagem o Brasil leva em recepcionar esas pessoas? Por acaso são os engenheiros, os técnicos de que precisamos tanto no Brasil? Posso estar sendo leviana, mas quem chega aqui a nado, andando pela Floresta Amazônica, não é um imigrante qualificado, mas um desesperado que trabalhará em qualquer coisa. Não me consta que tenhamos falta de pessoas desqualificadas para começarmos a importar os descamisados de alhures. O mais sensato para mim seria mandá-los de volta ao Haiti, pagando-lhes a passagem.

                Temo que Marina Silva Presidente seria uma people pleaser(para quem quiser saber mais sobre o que é isso http://psychcentral.com/lib/2011/21-tips-to-stop-being-a-people-pleaser/all/1/). Ela tentaria fazer o bem a muitas pessoas de maneira séria e determinada como é de seu feitio, mas sem foco, sem prioridades. Porque priorizar é dizer não, é fazer inimigos, como Margaret Thatcher fez, tanto que sua morte foi comemorada por todos aqueles que foram deixados para trás por suas reformas econômicas: mineiros, funcionários públicos, operários de empresas deficitárias. Por outro lado, a Dama de Ferro sabia exatamente o que ela queria fazer, e dedicou todas as suas energias ao que escolheu, obtendo resultados: Londres não seria o grande centro financeiro globalizado que é se não fosse por causa da milk snatcher.

                     Governar bem é dizer não o tempo todo, tendo em vista o objetivo que se deseja alcançar. Dizer sim sempre e querer agradar todo mundo em nome de ideais grandiloquentes não é sustentável. Eu votaria na Marina para um cargo no Legislativo em que seu bom mocismo servisse de contraponto a excessos de crueldade, mas considerá-la seriamente para presidente é uma loucura.

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Mania de Perseguição

             A soberania popular será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual para todos (…)

Artigo 14 da Constituição Federal do Brasil

           A Câmara dos Deputados compõe-se de representantes do povo, eleitos, pelo sistema proporcional, em cada Estado, em cada Território e no Distrito Federal.

          O número total de Deputados, bem como a representação por Estado e pelo Distrito Federal, será estabelecido por lei complementar, proporcionalmente à população, procedendo-se aos ajustes necessários, no ano anterior às eleições, para que nenhuma daquelas unidades da Federação tenha menos de oito oumais de setenta Deputados.

             Artigo 45 da Constituição Federal do Brasil, parágrafo primeiro

          Prezados leitores, quero confessar a vocês que tenho mania de perseguição. Acho que há forças, ocultas ou não, que têm por objetivo massacrar os Estados do Sul e Sudeste. Quando digo massacrar quero dizer espremê-los até que saia a última gota de seiva vital, para que ao final não sobre nada de nós e nos rendamos. Só que no momento em que acabarem conosco, também o país terá acabado, tenho certeza. Para os que acreditam na ideia do Brasil harmonicamente unido em torno de ideais democráticos comuns, este meu artigo é um despautério, mas permitam-me expor certos fatos.

          Para começar, há a inconsistência da nossa Constituição Cidadã. Estabeleceu que o voto de todos os brasileiros têm o mesmo valor, mas na prática, ao limitar o número máximo de deputados a 70 e colocar um mínimo de 8, a cidadania dos cidadãos do Sul e do Sudeste vale “vinte, trinta, quarenta vezes” menos do que o voto e a cidadania dos nossos “irmãos” do Norte e Nordeste. O trecho entre aspas eu retirei da ação direta de inconstitucionalidade de número 815-3 que foi julgada em 28 de março de 1996 pelo Supremo Tribunal Federal. Ela teve como requerente o governador do Estado do Rio Grande do Sul, que humildemente solicitava que o artigo 45 acima transcrito fosse declarado inconstitucional de acordo com os princípios da igualdade e da representação proporcional, próprios de uma democracia.

            Obviamente o STF não acatou os argumentos colocados pelo excelentíssimo Alceu Collares. Uso a palavra obviamente para ser consistente com minha teoria da conspiração. Os egrégios ministros alegaram que a colocação de um teto mínimo e de um teto máximo de deputados havia sido escolha do “Poder Constituinte Original”, em português comum, os deputados que em 1988redigiram a Carta Magna, e não caberia ao Judiciário inteferir nas prerrogativas do Legislativo. Até entendo a cautela dos ministros, para não dizer o medo, de mexer neste grande vespeiro que é a representação desproporcional enfiada goela abaixo pela ditadura para que nós do Sul e Sudeste, que éramos mais críticos do tal do regime de exceção que vigorou no Brasil de 1964 a 1985, tivéssemos menos influência nos assuntos nacionais. O triste é que a medida infame dos nobres generais para nos calar foi aceita pelos constituintes, talvez pelo não menos infame propósito de legislarem em causa própria, afinal os congressistas do Norte e Nordeste poderiam se perpetuar no pudêêrrr.

              E assim foi feito, ante a inação do Sul e Sudeste que nunca tentou se insurgir contra este estado de coisas. Como resultado disso temos um Congresso em que se destacam os Renan Calheiros, os José Ribamar Sir Ney, os Antônio Carlos Magalhães, os Jáder Barbalho e toda esta trupe que nos dá tantas alegrias. Talvez seja ingênuo da minha parte acreditar que se tivéssemos mais deputadosdo Paraná, de Santa Catarina, do Rio Grande do Sul, de São Paulo, do Rio de Janeiro, do Espírito Santo e de Minas Gerais tivéssemos uma república mais proba, menos afeita a escândalos. Com certeza, há roubalheiras em todos os cantos do Brasil, mas quero crer que para cada Paulo Maluf que elegemos sistematicamente aqui em baixo há pelo menos dois ou três deputados de razoável qualidade que não estão a prometer carros-pipa em época de seca no Nordeste ou inscrição no Bolsa Família em troca de voto. Meu ponto é que como a pobreza e a miséria aqui no Sul e Sudeste são menores, a compra de votos tende a não ser tão difundida, o que leva a uma melhor qualidade dos nossos representantes políticos.

             Paralisia de uns, ação de outros: a natureza odeia o vácuo, e ante nossa resignação em termos muito menos deputados do que nossa população justificaria, os conspiradores lá de cima se mobilizam e aprovam matérias do seu interesse, em detrimento dos que estão aqui embaixo: em 6 de março de 2013 nosso Congresso Nacional derrubou o veto da Presidente Dilma Rousseff à lei que redistribui os royalties do petróleo, beneficiando os Estados não produtores, que obviamente compreendem Estados do Norte e Nordeste, que não têm que arcar com os custos sociais, ambientais e de infraestrutura da exploração do óleo negro. É verdade que o governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral entrou com ação no STF, mas o resultado é incerto, e o vespeiro é tão grande quanto o da representação desproporcional. Afinal, declarar que a nova lei de royalties é inconstitucional pode ser considerada como uma flagrante interferência do Judiciário nas atribuições do Legislativo.

              E não é que tivemos outra grata surpresa da turma dos que querem massacrar o Sul e Sudeste? A Assembleia Legislativa do Amazonas pediu ao Tribunal Superior Eleitoral e lhe foi concedido em 9 de abril um aumento no númerode deputados do Estado para refletir os números do Censo do IBGE de 2010. Como resultado dessa dança das cadeiras em nome da proporcionalidade da representação, Amazonas ganhará um deputado, Pará ganhará quatro deputados, Ceará 2 deputados, Minas Gerais 2 deputados, Santa Catarina um deputado. Paraná, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e Espírito Santo perdem um deputado cada. No cômputo geral, nós do Sul e Sudeste ficamos na mesma, pois perdemos três e ganhamos três, os Estados do Norte de Nordeste perderam seis e ganharam sete deputados, ou seja, saíram no lucro, como sempre. Justiça foi feita para que o Congresso reflita o contingente populacional dos Estados, mas o fato é que a injustiça maior, petrificada na Constituição, permanece intacta.

             Não tenho esperança nenhuma de que este desequilíbrio na Federação, que tantas mazelas causam ao país, seja resolvido. Em nome da busca da igualdade entre os Estados, dinheiro continuará sendo mandado à Sudene para não resolver o problema da seca, os Estados do Norte que exploram minérios terão direito aos seus royalties e não terão que compartilhá-los com nenhum outro Estado em nome da solidariedade. Quando será o próximo plebiscito para criar algum Estado na região amazônica? Livramo-nos de Carajás por pouco, temo pela próxima invenção.

             E temo mais ainda pelo pobre Brasil: em nome da sempre vã luta contra as desigualdades regionais os habitantes do Sul e Sudeste, responsáveis por aproximadamente 72% da riqueza nacional, são tratados como cidadãos de segunda classe, pois devem pagar as contas, dividir irmanamente aquilo que acumulam com a parte mais pobre e ainda se sentirem culpados por serem mais produtivos. Os Estados do Norte e Nordeste, por seu turno,. são as eternas vítimas, vítimas da exploração centenária, das estruturas arcaicas de poder. Ora, o voto de cabresto, o coronel, a indústria da seca, a queimada, são criações autóctones, não foram impostos por ninguém de fora. As vítimas se colocam no papel vulnerável, cabe a elas em primeiro lugar livrarem-se dos grilhões e se libertarem.

             Para finalizar, parafraseio a recém falecida Margaret Thatcher, acusada por um parlamentar do Partido Trabalhista da Inglaterra de ter aumentado as desigualdades com suas políticas liberais: fazer todos mais pobres em nome da justiça social é estúpido. Talvez fosse o caso de admitirmos que o Norte e Nordeste do Brasil nunca serão lá grande coisa e darmos mais condições ao Sul e Sudeste de prosperar pela diminuição da espoliação imposta aos Estados mais prósperos do país. Chega de perseguição!.

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