Copa e PPPs

            Bem, então ficou decidido (propositalmente não usei o sujeito porque não sei quem decidiu, ou melhor, quem autorizou a ser decidido por um grupelho) assim. O projeto de longo prazo do Estado brasileiro será garantir a realização da Copa do Mundo de acordo com as minuciosas regras da FIFA. Em São Paulo nossos nobres edis aprovaram 420 milhões de reais em isenções fiscais para que os empreendedores privados se animem a construir o Itaquerão, que será a sede da abertura da Copa, nos garantem. O Estádio da Fonte Nova em Salvador será construído com 80% de verbas públicas e no geral 60% das verbas para construção dos estádios virão dos cofres públicos. O BNDES já aprovou financiamentos de R$ 1 bilhão para os governos do Ceará, Bahia e Pernambuco (http://esportes.terra.com.br/futebol/brasil2014/noticias/0,,OI5234592-EI10545,00-Dinheiro+publico+sustenta+parcerias+em+estadios+para+Copa+de.html).

            Ora, e as tais das parcerias público privadas? Grande idéia esta para reconstruir e construir nossa infraestrutura. Ao contrário das concessões normais de serviço público, em que a remuneração do concessionário se limitava às tarifas cobradas do usuário, nas PPPs o parceiro privado tem direito a contraprestação pecuniária do Poder Público, a garantias de que não levará o calote e a financiamento facilitado pela realização da parceria com a mãe de todos os brasileiros, a Viúva como diria o Elio Gaspari. Para isso basta criar uma sociedade de finalidade específica para captar recursos. E pimba na gorduchinha, o empreendedor privado consegue o dinheiro e seu risco fica bem mais palatável, porque poderá pagar juros camaradas aos órgãos públicos de financiamento e cobrar tarifas de primeiro mundo de nós pobres mortais, que na festa das PPPs entramos com a bolsinha, para arcar com as despesas, e com nossa infinita paciência para agüentar as traquinagens dos nossos governantes.

            Não nego que não haja a necessidade de parcerias entre a iniciativa privada e o setor público para a realização de investimentos de longo prazo. É preciso tanto a ajuda financeira do governo quanto a expertise técnica e gerencial da iniciativa privada. Mas será que estamos usando este instituto para bom fim? Afinal, a finalidade do Poder Público é servir o interesse de todos os brasileiros. A preocupação incessante de todo governo neste século XXI deve ser a de investir em infraestrutura física e humana para que o setor privado tenha condições de fazer negócios de maneira mais barata e eficiente, e assim criar empregos e riqueza. É isso que qualquer governo minimamente competente faz, estabelecendo estratégias para que o país possa aproveitar os ventos da globalização e não ser por ela engolfado.

            Na Alemanha, atolada por dívidas originárias da reunificação e com mão de obra excedente devido ao desemprego na parte leste, estabeleceu-se um pacto social em que os trabalhadores aceitaram a estagnação de sua renda em troca da garantia de emprego e do treinamento constante. Isso permitiu ao país manter sua indústria manufatureira competitiva, imune, pelo menos por enquanto, aos ataques predadores dos chineses em sua corrida ao fundo do poço. (Para quem se interessar, há um estudo de dois economistas americanos do Council on Foreign Relations sobre o assunto intitulado “The Evolving Structure of the American Economy and the Employment Challenge” Outros países adotaram igualmente como foco o binômio competitividade e emprego. A Suécia aparou as benesses mais gritantes de seu Estado do Bem Estar para incentivar o trabalho e conseguir se manter capaz de criar riquezas no mundo cada vez mais duro (http://www.exacteditions.com/exact/browse/5/2/9089/3/23?dps=).

            Citei o exemplo desses dois países para colocar a pergunta aos leitores do Montblatt. Qual o interesse estratégico do Poder Público de subsidiar a construção de estádios por meio das PPPs? No que estará ajudando a aumentar nossa competitividade no mundo global e a criar fontes PERMANENTES de emprego? Qual o interesse estratégico do nosso país de fazer as mínimas vontades da FIFA, uma entidade formada de picaretas cujo único interesse é se locupletar tendo como meio o vício das massas pelo futebol? Será que o turismo não seria mais bem servido em nossas plagas se houvesse investimento em capital humano que nos livrasse da miséria e da violência, que justificadamente tanto assustam os turistas?

            A Grécia quis, ao sediar os Jogos Olímpicos, selar sua aceitação no clube europeu e se livrar do seu passado balcânico. Bem, o resultado está aí, um país com dívida impagável, a ponto de dar um calote. O Brasil parece querer trilhar o mesmo caminho, mostrar uma fachada de país moderno à custa de dores de cabeça futuras. Paremos com nossa mentalidade de ciclos: vivemos o ciclo do pau Brasil, da cana de açúcar, do ouro, do algodão, da borracha, do café, agora estamos embarcando no ciclo da Copa, a próxima parada é o ciclo do pré-sal. As PPPs não devem ser parcerias de picaretas e paspalhos para servir interesses imediatistas de uns poucos. Acorda Brasil, antes que sobre nós recaia a maldição grega!

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Copa de 2014 a Brasília do século XXI

            A Copa do Mundo que se desenrola na África do Sul nos dá muitos motivos para reflexão. À parte a pífia participação de nossa seleção, é de causar espanto a quantidade de bobagens que os locutores falam. Não citarei como exemplo o óbvio Galvão Bueno, que é a epítome do jornalismo chapa branca da Globo que lambe as botas dos poderosos de plantão até não mais poder e depois quando os poderosos caem descem o sarrafo no cachorro morto.

            Assistindo eu à tragédia de Port Elizabeth na sexta-feira pela Band, o Luciano do Valle comentava acerca do erro dos sul-africanos de deixarem que os europeus prejudicassem a imagem deles pela divulgação exaustiva de notícias sobre a violência que grassa no país.  Como resultado, foram cancelados antes do início da Copa 200.000 pacotes turísticos. O narrador então falava sobre a necessidade de o Brasil trabalhar nossa imagem para que o mesmo não ocorresse com nosso país, afinal a Copa “será nosso cartão postal”.

            Pois é, me preocupa esse conceito de cartão postal.  A África do Sul promoveu a “rainbow nation”, construi estádios maravilhosos importando os materiais exigidos pela FIFA da Alemanha. E o que ela conseguiu em se fazendo cartão postal? Além de uns empregos temporários para a peãozada que trabalhou nos canteiros nada de muito substancioso: menos da metade do público esperado realmente veio assistir à Copa, pois para além do cartão postal os europeus sabem existir uma sociedade extremamente desigual e violenta. O legado da Copa do Mundo aos africanos será uma dívida monstruosa para arcar com a construção dos reluzentes estádios que para nada servirão depois do evento. Em troca tiveram o parco reconhecimento dos brancos europeus que ficaram com o filé dos lucros – direitos de transmissão, venda de know-how, materiais, serviços de gestão, etc. – e ainda reclamaram da violência, da pobreza.

            Será que também acontecerá o mesmo conosco? Construiremos estádios com dinheiro público através da encenação das tais das parcerias público-privadas? Proporcionaremos a infraestrutura para uns poucos, como a FIFA, a CBF, empreiteiros e quejandos, se locupletarem? E ao final o que o povo brasileiro terá em troca? Por acaso teremos nos transformado, depois de gastar milhões que não temos, num país de cartão postal ou será a repetição da velha história do Ministro Potemkin da imperatriz russa Catarina a Grande, que ao levar a soberana aos rincões do império mandou que as faixadas das casas fossem pintadas para esconder a decrepitude de tudo?

            Apresentarmo-nos com uma boa imagem aos olhos do mundo, como querem os defensores da Copa, será agir como Potemkin. Mas se Catarina se deixava docemente enganar não conseguiremos enganar o mundo com a encenação. Eles sabem que o Brasil é tão dividido e violento quanto a África do Sul. O resultado para nós, ao invés de incremento no turismo, poderá ser uma ressaca tal qual aquela que vivenciamos depois da construção do elefante branco chamado Brasília. Quisemos nos modernizar a todo vapor, cinqüenta anos em cinco e o que nós conseguimos foi aumentar nossa dívida pública e reforçar este caminho infeliz de desenvolvimento dependente que trilhamos até hoje, à cata de dinheiro alheio.

            Oxalá que pelo menos o Ministério Publico tenha capacidade de vigiar as mutretagens que vão pulular no caminho para  2014 para que a Copa não nos deixe um legado tão nefasto quanto foi Brasília.

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Um novo tempo

            Enfim, chega o fim do ano. É tempo de fazermos votos, de termos esperança de que tudo vai melhorar, de que 2011 está prenhe de realizações, saúde, etc. Nós brasileiros somos sempre muito otimistas. De acordo com uma pesquisa da Pew Research Centre, 50% acham que o país está no rumo certo e de acordo com o Data Folha 83% dos brasileiros acreditam que Dilma será tão boa ou melhor que Lula. Será que há bases factuais para termos tanta esperança? Mesmo que consideremos que a Dilma Rousseff provará ser muito mais do que uma presidente-tampão que permitirá a Lula voltar ao poder em 2014, será que podemos crer que haverá grandes realizações em seu governo?

            Se analisarmos a composição ministerial, veremos que não houve grandes surpresas, apenas uma reciclagem do que está disponível na praça para atender à base política. Palocci, de volta como o primeiro-ministro, como se o Mensalão não tivesse acontecido; Pedro Novais, afilhado de Sarney, para cuidar do nosso maior produto de exportação, o turismo sexual, em que tirou PhD por suas reiteradas visitas a motéis em São Luis às custas do povo; Fernando Haddad continuando como ministro da Educação por sua grande atuação na aplicação do ENEM e por seu desabrido otimismo em ver que subimos alguns degraus na escala do PISA, o suficiente para sairmos do último lugar: é verdade que ainda estamos no pelotão dos asininos globais, mas o importante é que lenta, gradual e seguramente estamos melhorando nossa educação. Em algumas décadas talvez cheguemos ao nível em que estão os países desenvolvidos hoje, por que não? E o que importa sermos burros e ignorantes se o mundo poderá ter acabado em 50 anos, vítima do aquecimento global?

            Não vale a pena se estender sobre a qualidade do saco de gatos que é o ministério, importa reter que esses conchavos são essenciais ao exercício do poder em Brasília, independentemente de o presidente ser bem ou mal intencionado. E são essenciais porque entre outras razões temos um sistema em que o povo não tem cultura política suficiente para votar de maneira responsável e acabamos transformando o Congresso em um antro de grupelhos que defendem interesses específicos, sem nenhuma noção do todo. Há os evangélicos, os ruralistas, os funcionários públicos e outros cujo objetivo é criar dificuldades para vender facilidades. Nossos nobres deputados e senadores só ousam ir contra o Executivo se puderem usar isso como moeda de troca. O toma lá dá cá, tão candidamente enunciado pelo finado Roberto Cardoso Alves na Constituinte de 1988, tem sido responsável pelas grandes votações pós-ditadura: a Constituição de 1988, as emenda propostas por Fernando Henrique para colocar um pouco de ordem nas finanças públicas, a famigerada eleição que ele propôs por puro cabotinismo.

            E nessa toada de inspiração franciscana (“é dando que se recebe”) conseguimos superar o pesadelo da hiperinflação e a insegurança que ela trazia. Vendemos as jóias da coroa, conseguimos um dinheirinho, juntamos umas reservas em dólares e assim demos uma paulada na cabeça do dragão da inflação (lembram dessa metáfora, usada e abusada nos tempos da inflação de dois dígitos mensais?). Foi uma boa gambiarra, digna do nosso jeitinho, mas também da nossa cordialidade, da nossa índole pacífica. Sim, porque não resolvemos problema estrutural nenhum: continuamos sem capacidade de investir, com uma infra estrutura literalmente caindo aos pedaços, continuamos sem capacidade de criar produtos inovadores porque nossa criatividade, carente de educação, é incapaz de ir além do nível do gato da TV a cabo, continuamos com uma desigualdade de renda brutal porque além de o Estado abdicar de prover saúde e educação de verdade, não conseguimos ter um desenvolvimento econômico sustentável, mas apenas vôos de galinha, como diria o Carlos Lessa.

            A única coisa que fomos capazes de fazer foi engolirmos o sapo boi do Consenso de Washington, digerindo muito mal a tal da liberalização, que para nós se limitou a nos tornarmos receptivos aos capitais internacionais para sustentar a “nóia” da dívida pública sem que tenhamos tido a coragem de admitir que somos viciados em dinheiro podre e de ir atrás da cura, na forma de estabelecer meios para termos nossa própria poupança.

            Tais meios incluiriam estabelecer um regime previdenciário mais justo que não criasse uma casta de privilegiados funcionários públicos e os dalit da iniciativa privada, uma reforma tributária que minorasse o problema da sonegação e lixasse os dentes afiados do Leão da receita, uma reforma política que estimulasse os eleitores a votar melhor para formar o Parlamento. Isso como premissas para outras reformas que recuperassem a capacidade do estado de investir de fato no que interessa, e na simplesmente ficar fazendo maquiagens nas contas públicas para ajudar grandes empresas.

            Infelizmente nenhuma pessoa que não negue a realidade poderá crer que em 2011 teremos o poder Legislativo e o Executivo unidos nesse esforço de criar as bases de nosso desenvolvimento. Continuaremos seguindo o caminho mais fácil e mais ruinoso: enfocando o crédito em detrimento da produção, tomando medidas paliativas para ir empurrando o problema da dívida pública com a barriga, torcendo fervorosamente para que a China continue a crescer e não ocorra um grande desastre com o euro, torcendo para que os especuladores globais continuem confiando em nossa capacidade de fazê-los felizes, remunerando-os com as mais altas taxas de juro do mundo.

            Grandes esperanças. Somos um país que adora sonhar com o Eldorado, com o pré-sal, com as soluções repentinas e rápidas, mas incapaz de lidar com a realidade, de seguir um caminho árduo e prosaico feito de pequenas e continuadas melhoras, conseguidas à custa de trabalho e de perseverança. Perdoem-me se não consigo fazer votos para o Brasil, mas permitam-se desejar que ao menos 2011 seja individualmente para cada leitor do Montblatt um ano melhor do que 2010.

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Grandes esperanças

Definitivamente esperança não é a mesma coisa que otimismo. Não é a convicção de que alguma coisa vai ser boa, mas a certeza de que alguma coisa faz sentido, independentemente do resultado
Vaclav Havel (1936-2011)

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            Há motivos para esperança neste fim de ano para o mundo. A morte do ditador norte-coreano King Jong Il pode ser uma oportunidade de um pouco de luz entrar naquele país, uma diminuição nas tensões, isso se as grandes potências que têm interesses estratégicos na região, Japão, Estados Unidos, China e Rússia, deixarem. De qualquer forma, um megalomaníaco a menos na face da terra é sempre uma boa notícia.

            Mas neste Montblatt natalino quero falar da esperança definida pelo saudoso Vaclav Havel, a esperança que não é otimismo, que não é simplesmente desejo de que as coisas se revelem boas, independentemente da situação fática, mas a esperança no sentido de ter um conjunto de valores que dão um sentido à existência e ao dar sentido ajuda-nos a melhor lidar com as vicissitudes e as rasteiras que a realidade nos dá.

            Ultimamente temos recebido muitas rasteiras. Estamos às voltas com a celeuma toda em torno da atuação do Conselho Nacional de Justiça, se é constitucional ou não. Para nós que pagamos a farra do auxílio-moradia e todas as benesses se não é constitucional é definitivamente moral, mas para os interessados ela infringe a independência do Judiciário, porque o artigo 103-B inciso III da Constituição Cidadã diz que o CNJ pode “receber e conhecer das reclamações contra membros ou órgãos do Poder Judiciário (…) sem prejuízo da competência disciplinar e correicional dos tribunais”. Não nos iludamos: os probos magistrados não estão zelando pela Constituição, a Constituição é um mero amontoado de palavras que adquirem sentido pela iniciativa daqueles encarregados de cumpri-la. “Sem prejuízo” pode denotar alternativa ou adição, ou o CNJ ou os tribunais, um ou outro, ou então pode denotar que a atuação do CNJ deve ser sempre em harmonia com a das corregedorias. O que os Lewandovski, Pelusos e Calmons estão fazendo é demarcar território, disputar poder, delimitar suas áreas de influência. Nessa dança das cadeiras, o roto fala do esfarrapado em nossa República Tupiniquim: os que julgam os juízes privilegiados eles mesmos não têm a ficha limpa, todos se locupletam de alguma forma, recebendo seus proventos na proba aplicação da lei que eles mesmos fazem aprovar para si.

            Nesse sentido, se o CNJ tem ou não prerrogativas para coibir a atuação abusiva dos membros do judiciário é uma questão que deveria ser mais bem resolvida no Congresso Nacional, onde poderiam ser estabelecidos mecanismos mais eficazes de controle da magistratura, inclusive por meio da atuação mais enfática do Tribunal de Contas da União, órgão auxiliar do Poder Legislativo, cuja prerrogativa de fiscalização está também colocada no mesmo artigo 103-V, inciso II. A realidade é que o sistema atual, se fosse aplicado, poderia render bons resultados ao povo. E aqui entra a esperança de Havel contra o otimismo que ele condenava. O verdadeiro sentido de uma Constituição não é o de servir de verniz democrático e republicano a um grupo de oligarcas que controlam o Estado em seu benefício, mas sim o de ser um instrumento legal a serviço da moralidade e da justiça. Somente imbuídos dessa esperança, e não acalentados pelo otimismo infundado de que as raposas de toga cuidarão bem do galinheiro, é que nós brasileiros poderemos exigir dos poderosos que façam com que a lei seja feita e aplicada de maneira ética.

            Outra rasteira recebeu o povo espanhol. Nessa semana o primeiro-ministro eleito Mariano Rajoy escolheu como Ministro da Economia, Luis de Guindos, que até 2008 foi presidente do Lehman Brothers na Espanha. A realidade salta aos olhos é preciso, dizer algo mais? Abstenho-me. A esperança dos espanhóis deve ser a de perceber que estão sendo garroteados por uma república de banqueiros que quer que todos se endividem até não mais poderem e quando a coisa fugir do controle o Estado Mãe ser chamado ao socorro por meio de impostos, arrocho salarial e social em cima de todos, inclusive os que não deviam nada. E ao perceberem se indignarem e tentarem mudar esse estado de coisas indo à luta.

            Para não me acusarem de ser pessimista, às vezes há motivos para otimismo e esperança. Recentemente um juiz federal americano Jed Rakoff negou-se a homologar um acordo de leniência entre a Comissão de Valores Mobiliários Americana, a SEC, e o Citigroup, pelo qual em troca de uma módica multa de 285 milhões de dólares o órgão estava disposto a esquecer as alegações de que o banco vendeu títulos hipotecários tóxicos de maneira dolosa e fraudulenta. Um bom negócio para os dois lados aparentemente, pois evitaria-se um processo longo, custoso e incerto à SEC e nenhum dos executivos do Citibank seria declarado culpado aos olhos da lei. E o pato, no caso a multa, seria pago pelos acionistas, que nada tinham a ver com o riscado. Pois bem, Rakoff afirmou que “o poder do judiciário “não é um remédio a ser invocado pelo capricho de um órgão regulador, mesmo com o consentimento do regulado… Se o seu emprego não estiver embasado nos fatos – sólidos, concretos fatos, estabelecidos seja por confissão ou durante dilação probatória – ele não serve nenhum propósito legal nem moral” (livre tradução da escrevinhadora). Assim, nada de conluios, haverá julgamento do caso para que a verdade seja estabelecida. Ufa! Um juiz que sabe por que é juiz e para que devem ser aplicadas as leis!

            Amigos do Montblatt, que neste ano do dragão que se aproxima possamos encher-nos de esperança para que um dia sejamos realisticamente otimistas.

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2012 O ano da virada

            No Brasil quase sempre começamos o ano com o pé esquerdo, porque somos bombardeados por chuvas que teimam em cair apesar dos protestos das pessoas que querem ter casas em morros para apreciar a vista e o cheiro da mata, das pessoas que têm tais casas não por opção estética nem ambiental, mas por pura necessidade material, e dos políticos que querem se eleger, mamar o dinheiro público e se safar de toda responsabilidade. Digo quase sempre pela freqüência com que somos brindados com notícias sobre desabamentos, mortes, deslizamentos. Não é possível fazer muitos comentários a esse respeito que tragam alguma coisa nova ao debate, sabemos o que é preciso fazer, é preciso ter organização e previdência e talvez por questão de cultura nós, brasileiros, somos ruins nisso. Organização requer tentativa e erro ao longo de vários anos para que haja aperfeiçoamento, é preciso ter uma visão de longo prazo sobre aonde se quer chegar, e geralmente somos muito afoitos nisso. Vide os preparativos para a Copa. Faremos tudo nas carreiras, dando jeitinho, improvisando gambiarras.

            O mesmo ocorre com outros projetos supostamente que vieram para ficar, como o Enem. Ele deveria ter começado com projetos-piloto regionais, para depois ser transposto para o nível federal, num país tão grande e díspar como o nosso. Mas não, já quisemos partir para os finalmentes sem ter passado pelos entrementes, como diria o saudoso Odorico Paraguaçu e o resultado é esta lambança que se desenrola aos nossos olhos, envolvendo estudantes dando um jeitinho para aumentar a nota pela via judicial, a própria justiça que concede liminar e depois cassa a liminar. O exame perdeu toda a credibilidade porque foi posto ao mundo antes da hora, mas isso não parece nos interessar muito, porque damos um valor apenas simbólico à educação, educação para nós é apenas um símbolo de status, é estudar em escolas em que não haja pretos e pobres, é tirar notas de maneira esperta, sem fazer muito esforço, na base da cola e da “inteligência”, da passadela de olhos no caderno um pouco antes da prova. Enquanto pensarmos assim e não nos indignarmos com o descaso com que é tratado um exame tão sério como o Enem, continuaremos tendo resultados pífios em exame internacionais de educação e premiando os gestores incompetentes do setor com unções para disputas de cargos executivos.

            Mas neste meu artigo colocarei à parte nossos desastres de começo de ano, já cantados e esperados, e falarei sobre os desastres que poderão vir neste ano de 2012. Em minha modesta opinião, o ano de 2012 poderá ser um divisor de águas no cenário mundial, marcar uma consolidação de paradigmas, e isso dependerá de algumas coisas acontecerem. Em primeiro lugar, há o desenrolar da crise do euro. As más línguas dizem que não passará de março o “calote soberano” que a Grécia dará em seus credores, o que provavelmente desencadeará o efeito dominó de fazer cair Portugal, Espanha, Itália e Irlanda. Talvez sejam favas contadas que haverá uma reestruturação das dívidas acumuladas por aqueles que confiaram na ilusão de países pobres consumirem e tomarem empréstimos em moeda forte sem terem a capacidade de produzir em moeda forte. A questão que se coloca é como se pagará a conta, porque o modo como a conta será paga determinará o futuro do capitalismo.

            Houve muita pressão recentemente dos Estados Unidos, por meio das agências de risco, sobre os países europeus que tiveram suas notas rebaixadas. O objetivo parece ser o de exercer pressão para que apartem o torniquete ainda mais, para que os governos nacionais façam os ajustes necessários para acabar com o comportamento perdulário. E o excesso a ser cortado não são os bônus pagos aos banqueiros, os salários astronômicos dos executivos que abrem empresas em paraísos fiscais para fugir de impostos, que transferem a produção para locais em que a mão de obra ganha para subsistência para aumentar o lucro. O excesso hoje em dia são as conquistas sociais dos trabalhadores, atingidas no século XX quando o capitalismo tinha um inimigo mortal fungando no seu cangote e uma massa de trabalhadores que flertava com a adesão ao inimigo. O resultado, bastante profícuo para um determinado grupo, é que as elites capitalistas precisavam dar os anéis para ficar com os dedos, precisavam ficar sempre alertas.

            Isso já é passado agora. Os poderosos globais não enfrentam nenhum grande desafio e por isso se congraçam irmanamente para se manterem confortáveis no topo. A ordem não é ceder para manter, a ordem é tomar de quem tem pouco para enriquecer ainda mais quem já tem muito. Em suma, tomando emprestado o termo na língua inglesa, uma race to the bottom. No Brasil descemos do Big Brother repleto de celebridades imbecis para celebridades criminosas, da cocaína para o crack, no mundo como um todo a ordem é saber quem vai apertar mais o cerco aos que não são donos dos meios de produção. Na virada do ano David Cameron, primeiro-ministro da Grã-Bretanha, se rebelou contra os ditames da União Européia porque não quer saber de regulamentações sobre transações financeiras, ramo em que o país é líder: afinal se for feita qualquer tentativa de limitar a criatividade dos gênios das finanças para que não haja novas crises e o contribuinte não pague o pato, os britânicos correm o risco de ver o cassino ser transferido para Cingapura, Hong Kong ou mesmo Pequim. Então é melhor sacrificar as economias dos pequenos poupadores, correntistas         e pensionistas para que os rocket scientists possam continuar ganhando muito dinheiro fazendo suas piruetas. Quem viu o filme Margin Call, com Kevin Spacey, que estava recentemente em cartaz no Brasil, viu o cinismo e a amoralidade que permeia todo esse teatro financeiro de que somos nós, a maioria silenciosa, todos vítimas.

            Em segundo lugar, neste ano de 2012 poderá haver outro fator de sedimentação de tendências, que é o desenrolar da crise com o Irã. Na semana passada a Europa, seguindo os ditames dos Estados Unidos, decretou embargo à compra de petróleo do Irã para obrigar o país a interromper seu programa nuclear, programa este sobre o qual não há nenhuma evidência até agora de que o país tenha já dominado o processo de produção de energia atômica para fins explosivos, segundo o último relatório da AIEA de novembro de 2011 (http://www.bbc.co.uk/news/world-middle-east-11709428). Neste sentido, um ataque ao Irã, que comprovadamente ainda não tem a bomba, e nem sabe quando poderá tê-la, representa uma nova aplicação do conceito de guerra preventiva desenvolvido pelo ex-presidente americano George Bush. Se tal conceito for realmente levado à prática novamente, após os fiascos clamorosos no Iraque e Afeganistão, isso significa que os EUA definitivamente optaram por ser um Estado Policialesco dominado pelo complexo industrial militar. Um país que usará sua força bélica para tentar a todo custo resguardar sua posição em face do seu flagrante declínio econômico, tanto para esconder do povo americano a verdade de que a “América” está assolada por males terceiro-mundistas como o desemprego estrutural e péssima distribuição de renda, como para arrancar à força concessões de outros países que percebem os pontos fracos dos americanos.

             Assim, se para nós brasileiros o ano de 2012 começa com nossos pequeno males cotidianos, para o mundo ele se prenuncia como o ano em que talvez a correlação de forças fique mais clara no mundo e saberemos quem serão os perdedores e os ganhadores nas próximas décadas.

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