Política externa

            A presidente eleita Dilma Rousseff leu seu discurso ao lado dos seus companheiros da longa jornada, entre os quais o nosso familiar Sarney, que consegue estar em todas, à direita, à esquerda, no centro e tenho fé que ao final estará no inferno, seu lugar merecido. À parte os chavões que caracterizaram toda a campanha, como a defesa do pré-sal, esse factóide em que estamos nos fiando para queimar etapas e chegarmos ao primeiro mundo sem muito esforço, foi gritante a falta de qualquer menção às nossas relações externas. Dilma não parece muito preocupada com isso, pois talvez concentrará seus esforços na erradicação final da miséria, na ampliação do Bolsa Família, no outro grande factóide que é o PAC, que talvez agora se transforme em realidade. Mas o fato é que o pouco que ela pretende fazer, pois quase não falou durante a campanha em nenhuma grande reforma fiscal, previdenciária ou política, dependerá muito de nossas relações externas, neste mundo globalizado.

            Estamos passando por um período de grande acomodação das placas tectônicas da geopolítica. O advento de Barack Obama ao poder, que prometeu mudanças e está seguindo a velha cartilha do imperialismo e dos privilégios à elite financeira, parece marcar o início da decadência dos Estados Unidos. A bolha imobiliária estourou e os americanos perceberam que estão de calças curtas, com uma taxa de desemprego estrutural, fruto da desindustrialização por que passaram e um déficit gigantesco, intratável, fruto entre outras coisas das guerras pelo mundo afora e agravado recentemente pela ajuda vergonhosa aos bancos, que só permitiu a estes maquiar seus balanços e distribuir bônus generosos a seus executivos.

            Mesmo ferido pela globalização que ajudou a detonar e menos auto-confiante do que outrora, o Tio Sam ainda tem alto poder de destruição. Estamos vendo isso se desenrolar aos nossos olhos com a política do Banco Central americano de despejar dólares no mercado para que os banqueiros emprestem às empresas e consumidores e assim reativem a economia. Nenhuma das duas coisas está acontecendo, mas os banqueiros estão se dando muito bem pegando esse dinheiro a taxas de juro próximas de zero, e inundando os países emergentes, entre os quais nós, de dólares. Aqui são atraídos pelas taxas de agiotagem que temos que manter, em vista do nosso imenso déficit público que esquerdistas e direitistas nunca souberam ou quiseram tratar. Para enxugar essa enxurrada e não sobrevalorizar por demais o real, o nosso Banco Central compra os títulos do Tesouro americano que hoje não rendem nada.

            Essa sangria não dará boa coisa para nós ainda que possa ser extremamente rentável aos financistas. De um lado empilhando títulos de um tesouro que a cada dia se revela mais incapaz de honrar seus compromissos. De fato, a vitória do Tea Party nos EUA mostra o alarmismo de uma parte da população americana com o tamanho do rombo. De outro, provocando a alta de nossa moeda, e, ao lado de nossa infraestrutura inexistente, de nossa mão de obra desqualificada, contribuindo para a perda de competitividade da indústria nacional e a inundação do Brasil de manufaturados importados.

            Os Estados Unidos, na melhor tradição do big stick não assumem sua responsabilidade por esse desequilíbrio que está causando nos mercados de câmbio e elege como bode expiatório a China, que nada mais faz do que proteger seus interesses, seja desenvolvendo sua capacidade manufatureira, seja não permitindo que sua moeda oscile muito. Fica claro que teremos que tomar uma decisão a respeito do que queremos para nós e é aqui que a presidente Dilma terá que dar atenção às nossas relações externas. Faremos coro com os Estados Unidos para pressionar a China a ceder e deixar o ren min bi se valorizar ou tentaremos nos desvencilhar da nossa ligação com o dólar que está cada dia mais enfraquecido?

            Nesse sentido, seria bom que nossa política externa fosse pautada menos pela tentativa de mostrarmos alinhamento com uma pauta de esquerda. O flerte do Lula com o presidente do Irã é um típico exemplo de desperdício de munição. Nenhum esforço diplomático que o Lula fizesse seria suficiente para dirimir as tensões, porque já há um consenso estabelecido por todos aqueles que apóiam o complexo militar americano e o lobby israelense, de que o Irã é do “eixo do mal” e de que deve estar na mira do Império, como o Paquistão, o Afeganistão e o Iraque. Por que então nos desgastarmos com um país que não faz parte dos nossos interesses estratégicos? Para mostrarmos nossa independência em relação aos EUA? Seria melhor mostrarmos essa independência tomando uma atitude firme em relação ao quantitative easing perpetrado pelo Banco Central Americano. José Dirceu, Marco Aurélio Garcia, ou quem quer que vá dirigir as relações exteriores do Brasil, chega de bravatas, chega de um terceiro mundismo e de um anti-americanismo do século XX, os desafios mudaram, realismo já em nossa política externa!

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Plus ça change

            Não sabemos ainda o que acontecerá no Egito, pode ser que Hosni Mubarak seja defenestrado para ser substituído por outro general da mesma qualidade, ou falta de qualidade, a depender do ponto de vista, de maneira a satisfazer a sanha do povo nas ruas. Pode ser que os egípcios consigam exercer uma pressão suficiente para que o líder da oposição, Mohamed El Baradei, candidato preferido da classe média, seja alçado ao poder. Uma terceira possibilidade é ocorrer a ascensão do fundamentalismo islâmico, na forma da Fraternidade Muçulmana, responsável pelo assassinato de Anwar Sadat.

            Essa organização conta com cerca de 2 milhões de adeptos dentre os  80 milhões de egípcios. Pode parecer pouco, inclusive porque tem sido até agora reprimida por Mubarak. No entanto, a posição do ditador acaba dando credibilidade aos inimigos do regime secular atualmente em vigor no Egito. Amigo de Israel e dos Estados Unidos, mais um dentre tantos árabes que se venderam, não só dificultando o avanço da causa palestina, por ajudar no bloqueio a Gaza, como tornando o país dependente da ajuda militar e financeira dos EUA, Mubarak representa aos olhos dos radicais muçulmanos o mal advindo da aliança com o Ocidente (o Egito tem um tratado de paz com Israel que já dura 30 anos).  Ao tempo de Gamal Abdel Nasser, o Egito tentou trilhar um caminho próprio de desenvolvimento. A partir da ascensão de Mubarak ao poder em 1981, as elites egípcias se decidiram pelo caminho mais fácil, locupletando-se, e o país hoje está mergulhado na miséria e é importador de comida, principalmente do seu financiador, os EUA.

            A injustiça da situação enfrentada pelos egípcios é demonstrada pelo grau de violência que temos visto nos protestos. O povo está indo às ruas contra a corrupção endêmica, contra os privilégios dados aos ricos, contra a falta de emprego, contra a opressão dos muçulmanos perpetrada pelos americanos no Afeganistão, Iraque, Paquistão e Palestina. O acinte a que se chegou, com o beneplácito dos EUA, que tem no Egito de Mubarak um aliado para concretizar sua política no Oriente Médio, só faz desmoralizar os valores ocidentais expressos e aparentemente defendidos pelo Exército americano e seus diplomatas, e por oposição, a dar credibilidade à visão islâmica do mundo, feita de sharia, de justiça sumária e cruel, de obediência literal aos mandamentos do Corão, de colocação das mulheres no seu devido lugar de agentes de reprodução.

            Nesse sentido talvez estejamos chegando a um ponto de inflexão, em que o véu da hipocrisia ocidental está sendo desvendado e rasgado como nunca dantes, a ponto de se tornar pano roto. No período da Guerra Fria, os Estados Unidos arvoraram-se os defensores dos valores da liberdade e da democracia, contra o controle da vida do indivíduo pelo Estado Comunista. Em nome desses valores, os Estados Unidos apoiaram todo e qualquer regime que se colocasse contra o comunismo, desde ditadores sanguinários como Augusto Pinochet, cleptomaníacos como Mobutu Sese Seko, canibais como Charles Taylor. Mas ao final eles justificaram em 1989 dizendo que a Guerra Fria tinha valido a pena já que o inimigo não só foi derrotado de maneira acachapante com inclusive acabou adotando os valores ocidentais. Quem não se lembra na década de 1990, da corrida desenfreada dos russos rumo ao capitalismo, vendendo estatais a toque de caixa e preço de banana? Aparentemente estava inaugurada a Pax Americana, que garantiria estabilidade ao mundo, por proporcionar uma ordem justa, global, calcada no livre comércio, na democracia parlamentarista.  O que temos 20 anos depois?

            Ora, percebe-se claramente que a ofensiva imperialista dos EUA nunca teve como objetivo inaugurar uma ordem que fosse includente, fundada nos direitos humanos, na igualdade de oportunidades para todos, como proclamam os defensores do capitalismo. Seu único objetivo era que fosse lucrativa, não para os americanos como um todo, mas para os grupos que se beneficiam da globalização: a elite financeira que faz a mágica de criar dinheiro a partir de dinheiro, sem nenhuma correspondência com a realidade econômica, socializando os prejuízos quando o truque não dá certo e privatizando os lucros quando a platéia fica embasbacada; as multinacionais que tornaram suas operações globais, transferindo-as para países com custo de mão de obra mais baixo na Ásia e criando nos EUA uma classe média sem nenhuma perspectiva, de quem lhes foi tirado o chão das fábricas de automóveis, aço, e outras indústrias tradicionais; e o complexo militar que se beneficia da caça às bruxas agora em vigor, conseguindo alocar seus mercenários nas guerras sem fim ao terror.

            O resultado desses objetivos puramente mercantilistas de uma elite global, que se irradiou dos EUA para o mundo, não contribuiu em nada para consolidar a democracia, a pluralidade, o liberalismo, a pujança. Na América Latina nos impuseram o Consenso de Washington goela abaixo, e a única coisa que conseguimos foi nos reinventarmos como exportadores de commodities, como temos feito secularmente, e darmos asas a populistas como Hugo Chávez e Evo Morales acumularem poder às custas de uma retórica anti-americana e anti-liberal. Na Europa, os tecnocratas globais criaram a União Européia para livrar o continente de uma vez por todas do espectro do comunismo e das guerras, juntando no mesmo barco economias díspares, levando os países mais frágeis da Europa Oriental e Meridional à bancarrota. Os Estados Unidos atualmente estão, por meio de sua política monetária destinada a livrá-los da recessão, valorizando artificialmente as moedas dos países em desenvolvimento, com conseqüências danosas para a estabilidade financeira deles. O Oriente Médio continua viciado ao petróleo, vício este alimentado pelos grandes consumidores, na maioria países ocidentais, tendo à frente os EUA. Podemos citar talvez a Índia e a China como países que se beneficiaram da globalização, mas em termos especiais. A China impõe controles sobre o acesso a empregos por meio do sistema de hukou, o passaporte interno, e a Índia criou uma casta de engenheiros, operadores de telemarketing, médicos e advogados conectados ao mundo global, mas deixou de lado a maioria daqueles que não tem o inglês perfeito para se encaixar. De qualquer forma, a trajetória desses países, culturas milenares que estavam aí muito antes do Ocidente ascender, mostra que para se dar bem na globalização é preciso cultivar uma atitude de desconfiança em relação à conversa maviosa dos ocidentais, a não querer seguir a cartilha que eles impõem para tirar boas notas. A China é um mau aluno de acordo com o cânone em voga: não respeita direitos humanos, não é democrática e é protecionista, só querendo obter vantagens do sistema global e evitando-lhe as armadilhas. Resultado: se não é amada, ao menos é respeitada como global player.

            Desse modo, as conseqüências pífias, senão desastrosas da Pax Americana, que semearam caos e injustiça no mundo, têm nos acontecimentos no Egito sua mais recente manifestação. Longe de sinalizar uma tentativa de realização da democracia, da pluralidade, da tolerância, o rastro de pólvora que se espalha no Oriente Médio a partir da Tunísia pode ser a pá de cal em qualquer esperança de uma ordem jurídica internacional fundada nos valores ocidentais. Nem due process of law, nem separação de poderes, nada do que o racionalismo conquistou no Ocidente nos últimos 6 séculos. O que está à espreita é a mais lídima teocracia, tal como já existe no Irã. E ironicamente o Ocidente, com sua cobiça desenfreada, seu cinismo e sua indolência movida a consumo, tem uma boa dose de culpa por essa virada espetacular.

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O Ovo da Serpente

            A Noruega é um país que tem muito do que se orgulhar. É o segundo maior exportador de gás do mundo e o nono de petróleo. Prevendo o fim da bonança proporcionada por seus recursos naturais, criou um fundo soberano como provisão para dias de vacas magras que em 2010 já acumulava a astronômica cifra de 500 bilhões de dólares, nada mal para uma população que não chega a cinco milhões de habitantes. Tem uma taxa de desemprego baixa, de 3,6%, alta renda per capita, de 54.600 dólares (a sétima maior do mundo).

            Além de suas proezas econômicas, exerce um papel de bom mocismo no cenário internacional. É o Comitê Nobel Norueguês, nomeado pelos membros do Parlamento Norueguês, quem escolhe a cada ano o laureado com o Prêmio Nobel da Paz, entregue em sua capital, Oslo. A escolha dos premiados revela a preocupação dos noruegueses de contemplarem as diferentes culturas e sociedades.

            Se figuras do centro do capitalismo estão na lista de ganhadores, como Henry Kissinger, Barack Obama, Woodrow Wilson, Theodore Roosevelt, Lech Walesa, Mikhail Gorbachev, sempre houve espaço para pessoas fora do eixo Estados Unidos-Europa: entre outros, Desmond Tutu, sul-africano agraciado em 1984 por sua luta contra o apartheid, Rigoberta Menchú, guatemalteca reconhecida em 1992 por seus esforços em prol da justiça social e da conciliação étnico cultural com base no respeito aos direitos das populações indígenas, e Liu Xiaobo, chinês agraciado no ano passado por defender os direitos humanos de maneira não violenta. E não devemos esquecer os esforços de mediação realizados pela Noruega que resultaram na assinatura em 1993 dos Acordos de Oslo entre israelenses e palestinos que criou a Autoridade Nacional Palestina, embrião do futuro Estado Palestino, que até agora ainda não se concretizou.

            Mais correção política de um país, impossível: tolerância, paz, promoção da igualdade entre os sexos e da diversidade cultural, toda a cartilha do que é moralmente válido nestes tempos globalizados é seguida pela Noruega em sua atuação internacional. E no entanto, um país tão radioso, embora longe de ser radiante, porque mesmo no verão o sol custa a aparecer naquelas plagas, revelou ao mundo esconder à sombra de algum fjord o ovo de uma serpente. Uma serpente que quebrou seu casulo, mostrou sua presa e destilou seu veneno, matando 67 pessoas (número sujeito a correções) em Oslo no sábado dia 22 de julho.

            Essa serpente atende pelo nome de Anders Behring Breivik, 32 anos, filho de pais de classe média separados quando ele tinha um ano, amante do videogame World of Warcraft. Em um site na internet ele explica o porquê de seus dois ataques, a explosão de uma bomba no centro administrativo da capital e o fuzilamento de jovens noruegueses do Partido Trabalhista, reunidos em um acampamento de verão. Auto intitulando-se cavaleiro de uma ressuscitada Ordem dos Templários, os cavaleiros medievais que foram a ponta de lança dos cruzados no Oriente Médio para a retomada da Terra Santa, o objetivo de Anders com suas ações extraordinárias era o de despertar a consciência dos europeus brancos e cristãos sobre a necessidade de combater os muçulmanos que em 2050, diante das atuais tendências demográficas, tornar-se-ão maioria na Europa.

            Não só despertar a consciência como conclamá-los a participar da luta, mostrando-lhes o caminho. Anders descreve detalhadamente seus preparativos e vocifera contra o alvo de sua ira. De um lado, o governo da Noruega, que aceita imigrantes muçulmanos de maneira indiscriminada (nota minha: não-europeus representam atualmente 2% da população), e os membros da esquerda, que são a quinta coluna do islamismo porque rezam pela cartilha do multiculturalismo, do relativismo cultural, da igualdade entre os sexos, da emasculação dos homens, o que para Anders levará inevitavelmente ao Armageddon, isto é, à completa aniquilação da civilização europeia, fundada no cristianismo.

            Sem dúvida estamos diante de um psicopata, um narcisista extremo que agiu sozinho e que pagará barato por suas monstruosidades, pois depois de 21 anos de prisão terá direito a novo julgamento. Mas será que ele não reflete um mal-estar existencial compartilhado por tantas pessoas neste século XXI? Um mal-estar diante da transformação do dinheiro no denominador comum que apaga diferenças culturais e morais, em prol de um padrão global de comportamento girando em torno do consumo? Um mal-estar diante do avanço inexorável do capitalismo financeiro mundial que se antes fazia suas vítimas só na periferia do sistema (África, América Latina e Ásia) agora provoca estragos nos outrora centros de riqueza (Europa e América do Norte)? Um mal-estar diante de um sistema econômico que provoca uma corrida suicida cujo objetivo é tornar a vida dos trabalhadores cada vez mais regrada e árdua para que os financistas e as empresas multinacionais possam viver à tripa forra? Afinal, se os muçulmanos hoje são os bodes expiatórios da vez, é porque os europeus se vêem ameaçados em seu modo de vida confortável, em seus empregos por uma competição que se tornou global e que os coloca frente a frente com chineses, indianos, vietnamitas que são capazes de trabalhar de maneira razoável para receber uma ninharia. E se eles se voltam contra os muçulmanos e não contra os asiáticos que são quem realmente devem temer, é porque os muçulmanos estão lá no coração da Europa com suas burkas, com suas rezas, com suas peles escuras, suas barbas, lado a lado com os cristãos brancos.

            Por outro lado, qualquer explicação econômica, cultural ou política é inútil em um caso tão absurdo como este. Talvez a simples razão que tenha levado Anders Behring Breivik à fúria assassina seja simplesmente que ele estava entediado com sua vida confortável, que o video game já não era suficiente para satisfazer as demandas de sua testosterona e resolveu dar vazão a Tânatos, a pulsão de morte que cada um tem dentro de si, de acordo com o velho Freud. Simples assim. Nesse caso ignorem o que eu disse e se satisfaçam com o simples bordão: “De perto ninguém é normal.”

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O Macunaíma que deu certo

            Com a idade é normal que nós nos tornemos mais seletivos, que nós estabeleçamos nossas prioridades de maneira muito clara. Lembro até hoje de uma cena do filme “Guerra ao Terror”, ganhador do Oscar no ano passado, creio eu, em que o personagem vivido por Jeremy Renner fala mais ou menos o seguinte para seu filho: “Sabe carinha, há um momento na vida em que sabemos o que é importante para nós e o que não importa.” E depois disso ele volta para o inferno do Iraque, abandonando a mulher e o filho, porque se sentia mais feliz lá desmontando bombas, tomando decisões dificílimas sobre a vida e a morte dele e de outras pessoas. Na guerra ele se realizava, em casa na vida familiar ele se angustiava por não conseguir escolher a marca correta de cornflakes. E assim o personagem escolhe o que era importante para ele e descarta o que era desimportante. Isso implica perdas e sofrimento para si e para outros, mas c’est la vie.

            Fazer escolhas requer maturidade e responsabilidade para arcar com as conseqüências. Essa qualidade parece estar se tornando cada vez mais rara no nosso mundo de consumo, em que tudo é permitido e permissível e portanto, basta irmos à gôndola do supermercado e se não gostarmos da embalagem do produto é simples: deixamos no carrinho ou no caixa do supermercado e pegamos outros sem maiores problemas. A questão é que há problemas neste pegar e descartar sem cerimônia. Basta olharmos para como os líderes do mundo globalizado agem para vermos como esse comportamento inconseqüente tem produzido péssimos resultados.

            Vejamos o caso do Prêmio Nobel da Paz, Barack Obama, tão admirado aqui no Brasil por ser um negro que chegou lá, ao contrário dos nossos negros que em sua maioria só chegam lá no rastro de uma bola de futebol ou na rabeira de uma bunda bem arrebitada. Pois bem,  o homem de fala moderada e mansa fez um discurso em 19 de maio no Departamento de Estado sobre a necessidade de estabelecer um Estado Palestino e um Estado Judeu respeitando as fronteiras demarcadas em 1967. Imediatamente foi ovacionado por sua coragem em confrontar Israel, em responder aos anseios do povo árabe, manifestado nas rebeliões populares deste ano no Oriente Médio e Magreb, de que os muçulmanos sejam tratados com mais justiça.

            Pois bem, não demorou muito e diante do desgosto demonstrado pelo lobby de Israel nos EUA em 23 de junho ele compareceu à Conferência Anual da AIPAC (Comitê dos Assuntos Públicos de Israel e Estados Unidos), para acalmar os ânimos e dizer que o que tinha dito não era aquilo que falaram que ele tinha dito. Para coroar este volte-face do Estado Americano, em 24 de junho o Primeiro Ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, foi aplaudido de pé no Congresso em Washington, e colocou os pingos nos is: a prioridade da política externa dos EUA no Oriente Médio deve ser a segurança de Israel, o que quer que isso signifique: bombardear o Irã, fazer limpeza étnica na Faixa de Gaza, condenar os palestinos a apelar à arma desesperada do terrorismo (É claro que Bibi não disse isso claramente, mas sabemos o que o bem-estar de Israel significa.

            Assim, tudo continua como antes no quartel de Abrantes. Os EUA continuam na prática dando seu apoio incondicional aos israelenses, independentemente das barbaridades cometidas em termos de violações de direitos humanos, o que insufla o ódio dos muçulmanos contra o império ianque. Mas o que importa isso? O importante é que Obama é um cara “cool”: Yes, we can dar uma no cravo, fazendo discurso em prol do tão quimérico Estado Palestino e dar outra na ferradura, apaziguando os zionistas sobre a possibilidade de Israel ter que devolver os territórios ocupados desde 1967. Belas palavras a platéias diferentes. Que mal há nisso? Que mal há em não tomar um curso firme e manter-se nele a despeito de tudo? Pode-se ao mesmo tempo dar uma ajuda humanitária aos famélicos palestinos, lhes acenar com suas terras, pedir a Israel que não construa mais assentamentos e ao mesmo não fazer nada para que Israel interrompa sua política de colonização.

            Não há mal nenhum justamente porque as pessoas parecem cada vez mais facilmente impressionáveis por belas palavras, submetidas que são ao ataque incessante da propaganda pela terra, pelo ar e pelo mar. Num mundo de factóides, de imagens fugidias, de cliques no i-pad, um comportamento coerente ao longo do tempo que mostre um princípio e aponte um fim, não faz muito sentido. Aliás, é entediante e não prende a atenção. Melhor são os lances de impacto: “discursos históricos”, “visitas inéditas”, apertos de mão simbólicos”.

            Obama, por ser o mais visível dos nossos líderes globais, me parece ser o grande mestre do faz de conta, a epítome do herói sem caráter, que longe de ser um pobre Macunaíma latino-americano é um grande vencedor. A economia americana está indo pelo ralo, o dólar cada vez mais enfraquecido, as guerras do Império cada vez mais intermináveis, os desafios à paz cada vez mais entrincheirados e ele sempre com o mesmo sorriso, a pose segura de grande animador de auditório, daquele que fala sempre coisas agradáveis, para quem noções como o certo e o errado, o moral e o imoral, não passam de conceitos retrógrados  de quem não vê que a polarização é obtusa. O legal é estar no meio, surfando na onda da popularidade, mantendo-se sempre na crista sem pender para nenhum lado. Uau! Deve ser uma sensação maravilhosa para o surfista, mas para quem está de fora e vê a próxima onda gigante se avolumando pode ser muito angustiante. O ideal talvez seria adquirirmos todos um pouco mais de responsabilidade e exigirmos dos nossos surfistas menos auto-complacência e mais remadas.

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