Navegando a bordo da nau européia

            É engraçado e interessante ver o desenrolar da crise na União Europeia, causada pela inadimplência dos países do Clube Med, Espanha, Irlanda, Portugal e Grécia.

            Engraçado porque um deles é nossa alma mater, aquela que nos pariu, que nos explorou até ser substituída por um país mais esperto, a Inglaterra. Portugal está nu com a mão no bolso, mendigando pelos corredores da eurocracia: devido ao tamanho de sua dívida em relação ao PIB está à beira de decretar falência, caso os investidores internacionais desconfiem que o país não honrará seus compromissos e peçam um spread mais alto em relação aos títulos do governo alemão, considerados como referência.  Poderá surgir então a pergunta do que foi feito de todo o dinheiro que Portugal tomou emprestado e a pergunta deve ser formulada de maneira precisa para que cheguemos ao ponto que interessa: a entrada na União Europeia serviu para que o país mais ocidental da Europa criasse as bases de um desenvolvimento sustentável?

            É verdade que a partir de 1986, quando se oficializou a entrada dos países ibéricos no clube europeu, houve muita euforia, então justificada: muito dinheiro foi transferido a Portugal e Espanha a título de fundos comunitários para que pudessem fazer investimentos tais em infra-estrutura de transportes, telecomunicações, etc. que os tornassem dignos a figurar como europeus. Portugal entrou na rota do turismo de velhinhos alemães aposentados em busca do sol do mediterrâneo. Restaurantes, casas de veraneio foram construídos com dinheiro emprestado em euros. Além da indústria do turismo, investimentos mais substanciosos forma feitos na indústria automobilística. A Volkswagen abriu lá uma fábrica, atrás, como toda empresa global, de mão de obra mais barata e dócil, e com razoável nível de qualificação. Diante de tais ventos em popa, a nau portuguesa, cuja última grande façanha havia sido a descoberta da terra do pau brasil, finalmente desatracaria de seu marasmo secular! A nova face de Portugal pôde ser comprovada por nós ex-colonos, pelos investimentos que fizeram aqui em telecomunicações, e pelo desprezo que começaram a ter por nós como imigrantes na terrinha: aceitar gentalha do terceiro mundo, ainda que de um terceiro mundo emergente, não condizia com o novo status de verdadeiro europeu. A ascensão de José Manoel Barroso nos quadros da tecnocracia europeia sinalizava que Portugal finalmente deixara a rabeira e passara ao centro.

                    O caldo começou a entornar com a entrada na década de 90 e início do século XXI de outros pobrecitos na União Europeia vindos do Leste Europeu (Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Eslovênia, repúblicas bálticas) e que não só sorveram os fundos comunitários antes destinados aos velhos pobrecitos, mas acabaram sendo mais atrativos às indústrias montadoras. Portugal, ainda inebriado com a condição de europeu, continuou a tomar emprestado para construir mais casas para os nobres hóspedes europeus do norte e o resultado foi que com a crise financeira de 2008 o peso da dívida tornou-se insustentável e a verdadeira situação do país se revelou.

            E que situação é essa? O fato é que a capacidade de desenvolvimento sustentável de Portugal no seio da União Europeia é muito escassa, tendo como colega de clube um gigante como a Alemanha cuja economia é muito mais produtiva e robusta e por isso o euro como moeda revela-se uma droga maldita, que fez com que o país pudesse tomar dinheiro a rodo para investir de uma maneira que ao final não se revelou capaz de gerar os empregos, a riqueza que todos esperavam. O resultado são maravilhosas estradas vazias que almejavam proporcionar a logística necessária às indústrias, mas que não fazem nada mais do que levar os brancaranos, como diria o Gilberto Freyre, às praias do Alentejo e do Algarve.

            A única saída, não só para Portugal, como para os outros países com a corda no pescoço dentro da União Europeia, é dar o calote e sair do euro para que possam desvalorizar suas moedas e tentarem se tornar mais competitivos à custa de inflação. O regime do euro só é bom para as economias centrais da Europa, que conseguem ter pauta de produtos exportáveis mesmo com o câmbio forte. A permanência dos países periféricos será à custa dos trabalhadores, que terão que aceitar medidas draconianas em termos de arrocho salarial, elevação da idade de aposentadoria, flexibilização dos contratos de trabalho – leia-se mais facilidades para demitir – para que as dívidas sejam pagas à banca internacional, o euro seja mantido como moeda única da Europa e no futuro seja possível organizar mais farras financeiras.

            Daí ser interessante para nós brasileiros ver o desenrolar da crise em Portugal, que inclui pedidos encarecidos ao FMI, medidas de austeridade, um filme que já vimos passar por essas plagas por tantas décadas, porque seu destino diz muito sobre o nosso também, já que lhe herdamos muitas das características. Nós portugueses e brasileiros sempre tendemos a nos colocar na mão dos outros, Portugal apostou todas as suas fichas na União Europeia, orgulhoso de ter sido aceito, mas na verdade foi aceito como estafeta no máximo, bom para trabalhos braçais, mas não admitido na cabine do capitão. Seu papel foi o de servir de porto seguro aos aposentados ricos europeus e aos agiotas. Sobre o Brasil, nem precisamos nos estender, colocamo-nos nas mãos dos portugas quando eles ainda tinham alguma pretensão a desempenhar papel de relevo, depois nos jogamos no colo dos ingleses no século XIX, deixamo-nos abraçar pelo Tio Sam no século XX e atualmente temos nos encantado com as sirenes chinesas. E os estragos de uma moeda forte em um país sem capacidade produtiva estão começando a ser vistos aqui no Brasil, em termos de desindustrialização e inflação.

            Por outro lado pode ser um consolo vermos a tragédia portuguesa. Afinal, se temos como progenitora uma nação que sempre mete os pés pelas mãos, o que podemos esperar de nós mesmos? Se nem entrando na União Europeia, um dos clubes mais seletos do mundo, Portugal endireitou, como esperarmos fazer melhor figura? Ora pois!

Categories: Internacional | Tags: , , , , | Leave a comment

Japão

            Estamos assistindo pela TV aos desdobramentos do terremoto que atingiu o Japão no dia 10 de março, o perigo de radiação nuclear vazar da usina de Fukushima. A princípio foi mais um desastre natural com o qual os japoneses estão acostumados e para o qual estão preparados. Afinal, eles sempre se valeram da tecnologia para resolver seus problemas.

          Suas construções balançam, mas não caem, seus trens-bala são pontualíssimos e permitem que milhares de pessoas cheguem ao trabalho no horário. Seus sistemas de gestão, just-in-time e lean production para citar os dois que são marca registrada da Toyota, inicialmente elaborados para limitar o uso de insumos ao mínimo necessário, num país carente de matérias primas, acabaram sendo exportados para o mundo inteiro, tornando-se referência básica em matéria de eficiência e produtividade. Foram também pioneiros no uso da robótica na indústria e até mesmo no ambiente doméstico, para ajudar as pessoas nas tarefas domésticas.

          E para coroar essa perfeição, os japoneses são de uma cordialidade e

educação que deixam todos embasbacados. Com terremoto e tsunami, não houve nenhum episódio de saque, nenhum distúrbio, nada do salve-se quem puder que ocorreu em Nova Orleans quando do furacão Katrina: os habitantes da terra do sol nascente têm suportado todas as recentes adversidades estoicamente. Enfim, aliam modernidade e tradição na medida certa! Ah, se todos os países tivessem o refinamento e a capacidade de absorver novidades que o Japão tem!

          Consumo desenfreado e apego à hierarquia, à disciplina. Esta talvez tenha

sido a receita do capitalismo nipônico que em certos aspectos não deve ter passado despercebida aos olhos dos chineses, que nos últimos 30 anos vêm se dedicando a observar tudo, tomar emprestado algumas coisas e assim conseguir tornar seus habitantes membros plenos do mundo do consumo, mas ao mesmo tempo permanecer com a mesma hierarquia, com o mesmo respeito à autoridade. Sob essa ótica, o Japão mostrou o caminho das pedras aos chineses: crescimento baseado em exportações, papel ativo do Estado no desenvolvimento econômico. Mas por outro lado, o Japão, por ter adquirido o status de primeiro país não ocidental a entrar no clube do mundo desenvolvido, também pode estar pagando o preço do vanguardismo.

          O fato é que a partir dos anos 90 o Japão perdeu o gás. Se em 1988 tinha

oito empresas entre as dez maiores do mundo, hoje não tem mais nenhuma e só tem seis empresas entre as 100 maiores. Foi recentemente ultrapassado pela China como segunda economia mundial e atualmente é apenas o

quinto exportador mundial, atrás da China, da União Europeia, da Alemanha e dos Estados Unidos. Sua dívida interna é de 200% do PIB. Enfim, são números que não mais impressionam, como outrora impressionavam aqueles que viam no Japão o futuro do capitalismo: um misto de dirigismo estatal e livre iniciativa. O que terá ocorrido com a sintonia fina antes tão bem orquestrada?

Muitas explicações têm sido dadas. A burocracia estatal, longe de ser um

estímulo ao crescimento, acabou sendo uma pedra no sapato da economia,

pois levou à realização de investimentos ineficientes, e as relações incestuosas do governo com certos setores da economia, especialmente o bancário, levou a uma inflação nos preços dos ativos no final da década de 80. Outros dizem que o problema é que a China copiou tão bem o modelo japonês que acabou por suplantar seu vizinho e rival no setor de eletroeletrônicos, roubando-lhe a galinha dos ovos de ouro e deixando-os sem nada para colocar no lugar.

          Tudo isso pode ser verdade, e seria inútil aqui argumentar a favor de uma

ou outra vertente, afinal não sou especialista em macroeconomia internacional. Sob qualquer prisma que se olhe, o fato é que encontrar soluções para a perda de dinamismo da economia japonesa é um exercício inútil se levarmos em conta um outro dado, o mais importante de todos, que obscurece todos os outros. O Japão está morrendo.

          Não há exagero nenhum nesta afirmação. Estima-se que o Japão, hoje com 127 milhões de habitantes, vá ter 25 milhões de cabeças a menos em 2050.

Isso devido ao fato de a taxa de natalidade ser de 1,2, o que não é suficiente para repor os indivíduos que morrem. A idade média de um japonês é de 45

anos e 23% da população tem mais de 65 anos. Em suma, um país que está envelhecendo rapidamente. Por mais que possa haver ideias brilhantes para permitir a retomada do crescimento econômico, por mais que os japoneses sejam experts em lidar com catástrofes, a dura realidade é que nada de muito relevante poderá ser feito sem haver pessoas para trabalhar.

          Dirão alguns que é um problema fácil de resolver importando dekasseguis para compensar o déficit populacional, mas os japoneses são em primeiro lugar muito avessos a estrangeiros e estes dekasseguis não têm as competências necessárias para dar o impulso necessário à retomada do topo. Então talvez a solução seja estimular as japonesas e japoneses a procriar e dar à luz lindos japonesinhos, os futuros engenheiros especialistas em robótica e etc. Afinal cuidar de sua própria gente eles sabem, ao contrário de um país que eu conheço.

          There lies the rub como diria Shakespeare, esta é a tarefa impossível, o preço do sucesso do Japão como sociedade de consumo. Ninguém está muito disposto a procriar. Para que investir em relacionamentos, casamento e filhos se eu tenho minha parafernália eletrônica à minha volta que me dá conforto e segurança? Há uma proliferação de homens na faixa de 23 a 42 anos a que se deu o epíteto de soushoku danshi, os homens herbívoros, que não se interessam muito por sexo e cujos hobbies incluem tirar fotos de templos budistas, passear e ficar na companhia dos seus amigos homens. 42% dos homens nessa faixa etária se consideram um soushoku danshi sem nenhuma vergonha de sê-lo.

          Quanto às mulheres, elas se mostram insatisfeitas com esse novo tipo

masculino, que prefere rachar a conta e não é muito ativo na conquista amorosa. Filhos únicos de pais que trabalhavam fora, os herbívoros cresceram sozinhos, em meio a seus videogames, e têm pouca capacidade de comunicação. Assim, fica difícil haver acasalamento entre pessoas autocentradas, individualistas, para quem ser amigo de alguém é estar na sua lista de e-mails ou como link no Facebook ou outra rede social, sem necessariamente haver nenhum contato físico.

          Fica claro que esses novos tipos humanos inventados no Japão, a tal ponto satisfeitos com o que têm que não precisam se relacionar, representam a vanguarda do fantasma que assola o Ocidente, ou seja, o colapso demográfico. Neste capitalismo do século 21, girando em torno do consumo, a família não tem mais nenhum sentido. Se antes ela era o centro da atividade econômica, o que levava os filhos a serem ativos, i.e. mão de obra para dar continuidade ao empreendimento familiar, seja uma lavoura ou uma oficina, hoje ela não é mais nada do que um sorvedouro de recursos a fundo perdido.

          Criar filhos é muito caro: é preciso estimulá-los desde a infância com música, leitura, brincadeiras educativas, é preciso mandar-lhes à pré-escola,

escola e faculdade e torcer para que ele tenha alguma inteligência para poder ter empregabilidade em um mundo em que os trabalhos que demandam força física estão cada vez mais raros. E qual a recompensa de todo esse investimento? Concretamente nenhuma, pois ninguém espera que o filho irá cuidar dos pais idosos, afinal é cada um na sua. O lema é: não tenham filhos cuidadosos, a opção com melhor custo/benefício é guardar o dinheiro para investir em si mesmo e quando ficar velhinho poder comprar um robô para se dar banho, ajudá-lo a se movimentar e poder continuar operante em um mundo em que os liames pessoais são moeda rara.

          O Japão, com toda sua modernidade trágica, é uma lição ao Ocidente sobre a dupla face da sociedade de consumo. Se ela foi o meio mais eficiente que o capitalismo encontrou para derrotar o comunismo e se perpetuar como o

único sistema disponível, ela também pode significar o seu fim.

Categories: Internacional | Tags: , , , , | Leave a comment

Intriga Internacional II

            Falei na semana passada dos factóides que estão aparecendo no Velho Continente para criar um cenário de desastre que leve à tomada de decisões em favor dos banqueiros, isto é que leve aqueles que decidem onde gastar e o quanto gastar a se convencerem que é preciso garantir a qualquer custo que as dívidas contraídas pelos países da periferia da Europa na época do boom econômico sejam rigorosamente pagas. O objetivo último é manter a ficção do euro. Digo ficção porque a essa altura já ficou óbvio a todo mundo que longe de trazer prosperidade e desenvolvimento a toda a Europa, o euro acabou criando duas classes de países. De um lado, aqueles que se beneficiaram da moeda forte, como a Alemanha, a Holanda, que já tinham uma indústria competitiva e que com a unificação econômica puderam vender seus produtos em todo o continente a países com indústria menos competitiva. De outro lado aqueles que se viciaram na moeda forte: incapazes de competir com os “irmãos do norte” em termos de tecnologia e expertise em geral, os países da zona do mediterrâneo aproveitaram a bonança do euro para fazerem investimentos imobiliários na maior parte das vezes inúteis, vivendo um período de falsa prosperidade à custa de empréstimos dos mais ricos que assim reciclavam seus próprios ganhos obtidos com os superávits comerciais e na balança de pagamentos.

            Conjugaram-se aqui vários fatores. O interesse dos países mais ricos da Europa, que usaram o euro não para fomentar o real desenvolvimento das regiões mais atrasadas do continente, mas para se beneficiarem de um espaço econômico de livre concorrência em que eles já eram os mais fortes antes mesmo de a zona franca ter sido estabelecida. A ganância de bancos, a quem foi permitido emprestar dinheiro irresponsavelmente a governos e agentes privados perdulários que não só não tinham condições de pagar, mas que usaram mal os recursos (Na Espanha, há loteamentos imobiliários e aeroportos às moscas, na Grécia o dinheiro foi reciclado pelos donos do poder e hoje descansa tranquilamente nos Alpes Suíços, dizem as más línguas). E finalmente a estupidez de países mais fracos economicamente, que acreditaram no canto da sereia daqueles que lhes venderem o euro como passaporte da alegria de pertencer ao primeiro mundo e tomaram dinheiro a rodo na crença de que mesmo que não tivessem como pagar ficariam miraculosamente imunes às intempéries pelo simples fato de estarem blindados pela União Européia.

            O resultado da fome com a vontade de comer é uma indigestão brava: as obrigações líquidas internacionais de Espanha, Portugal, Grécia e Irlanda estão próximas de 100% do PIB dos respectivos países, ou seja são nitidamente países devedores cujas economias não apresentam suficiente pujança para que possam pagar suas dívidas, pois não produzem artigos de alto valor agregado que possam ser exportados aos países do centro da Europa. E quem vai pagar o pato? Dona Angela Merkel, a primeira-ministra da Alemanha e que é a grande nação credora e maior beneficiária da fraqueza dos PIIGS (Portugal, Irlanda, Itália, Grécia e Espanha), é a favor de austeras medidas fiscais a serem impostas a esses países para que eles sejam severamente punidos e passem a trilhar o caminho da retidão e do trabalho duro ao invés de se fiarem no dinheiro alheio para viverem vidas de primeiro-mundistas sem realmente terem capacidade econômica para tanto. A defenestração sem cerimônia de Papandraeou na Grécia, de Berlusconi na Itália, a pressão exercida sobre a Irlanda para que o Estado nacionalizasse as dívidas dos bancos, o que foi devidamente feito, tudo isso mostra que os países que ditam as regras no conserto europeu não aceitarão nada menos do que a rendição total.

            Por outro lado, é preciso dar a César o que é de César, os alemães sempre se mostraram a favor de fazerem com que os bancos que emprestaram aos governos dos PIIGS arcassem com parte dos prejuízos e baixassem parte da dívida dos seus balanços. Não seria justo apenas o Banco Central Europeu, que usa dinheiro público, arcar com o ônus de emitir moeda e comprar títulos de governos incapazes de se financiar no mercado privado. Seria razoável exigir que os bancos pagassem por sua maliciosa temeridade de emprestar a quem não tinha meios de fazer bom uso do dinheiro.

            Pois bem, com seu incrível poder de pressão, as elites financeiras têm conseguido sorrateiramente fazer valer seu ponto de vista radical de que qualquer tentativa de calote soberano vai levar à derrocada do euro e causar o desastre para todos. O último coelho da cartola dos mágicos da banca foi o factóide de 23 de novembro, quando um leilão de títulos de 10 anos do governo alemão, cujo valor era de 6 bilhões de euros, conseguiu arrecadar somente 3,6 bilhões. Um espanto, considerando que a Alemanha é o maior país credor, tem uma economia com fundamentos sólidos, com crescimento de 3,5% em 2010 e uma dívida pública de apenas 83% do PIB. Como podem duvidar da capacidade de pagamento da Alemanha? Será que os investidores estão loucos ou estão se fazendo de loucos para pressionarem o país a aceitar seus termos, isto é pagamento total ou nada feito?

            Coincidência ou não depois desse leilão em que 35% dos títulos não tiveram compradores, o Ministro das Finanças teutônico, Wolfgang Schaeuble, disse que a Alemanha pode desistir da sua exigência de que os bancos privados que emprestaram aos governos da Grécia, Itália e Espanha devem aceitar parte do custo da ajuda financeira, baixando uma parte da dívida dos seus balanços. Aparentemente a blitzkrieg dos banqueiros está rendendo outros frutos: nesta semana foi realizado acordo entre os principais bancos centrais do mundo (EUA, Japão, Canadá, Suíça e Banco Central Europeu) que se comprometeram a garantir a liquidez do mercado financeiro até 2013 por meio do quantitative easing já feito nos EUA, que se resume a imprimir moeda.        O medo dos alemães do fantasma da inflação que viveram na República de Weimar está se tornando uma preocupação menor relativamente à necessidade imperiosa de garantir a boa saúde dos bancos. Tempos interessantes e dramáticos esses em que vivemos. O povo europeu vai pagar o preço em termos de preços mais altos, desemprego, piora de serviços sociais, mas a ficção do euro estará preservada para que alguns poucos se locupletem.

Categories: Internacional | Tags: , , , , | Leave a comment

Historias para boi dormir

            “Os japoneses irão atacar, não prepare defesas, precisamos do apoio total da nação no esforço de Guerra por um ataque não provocado ao país.” De acordo com Hartford Van Dyke, autor do livro publicado em 1975 “O Esqueleto no Armário do Tio Sam” essas foram as palavras de Franklin Delano Roosevelt quando foi informado pelo Secretário da Guerra, Henry Stimson, de que os japoneses estavam prestes a realizar um ataque contra Pearl Harbor. Van Dyke ouviu essa revelação de seu pai, Lyle Hartford Van Dyke, que por sua vez a ouvira de seu tio Gerald Mason Van Dyke, um oficial da inteligência do Exército Americano no Havaí que mandou uma mensagem às duas horas da tarde do dia 4 de dezembro de 1941 a Washington informando as autoridades da iminência de um ataque. Hartford decidiu publicar seu livro indignado com o massacre de Mi Lai no Vietnã sem quebrar a promessa feita pelo seu pai de que só falaria sobre o episódio depois da morte do tio.

            Como todos sabemos, Pearl Harbor passou à história como um ataque surpresa em que 2403 militares americanos e 40 civis foram mortos no dia 7 de dezembro de 1941. A indignação causada entre os americanos permitiu a Roosevelt lançar os EUA na guerra pois mudou o ânimo de seus compatriotas, que de receosos de um envolvimento no conflito europeu passaram a clamar por vingança contra os famigerados japonenses. E assim foi feito, Roosevelt conseguiu o que queria e a vitória na Segunda Guerra Mundial consolidou o domínio americano não só no campo econômico quanto militar.

            Alguns poderão argumentar que as mentiras do governo americano começaram aí, quando os EUA se afirmaram como potência mundial. Mas se dermos uma olhada na história podemos ver que talvez o início da desfaçatez tenha se iniciado com a Guerra Civil de 1861, que em 12 de abril completou 150 anos. Depois de mais de 600.000 mortes, a  Constituição originária elaborada pelos fundadores da pátria foi na prática jogada no lixo. De um país formado pela união da vontade dos Estados passou-se a um outro em que o governo federal impôs sua vontade a ferro e fogo aos Estados do Sul que queriam  separar-se da União para manter seu estilo de vida agrícola e escravocrata. Mas os ianques do norte queriam fazer negócios e então contaram a história para boi dormir de que estavam lutando para libertar os escravos. Abraham Lincoln passou à história como herói. De fato, os escravos foram libertados, mas por outro lado a autonomia das unidades federadas sofreu um duro golpe e preparou o terreno para um poder central forte que pôde então se lançar a criar o Império Americano.

            E cá estamos nós em 2011 às voltas com as façanhas do Tio Sam, ganhadores da Guerra Fria, que apoiaram ditaduras sanguinárias e corruptas em todos os cantos do mundo na luta contra o comunismo. O comunismo foi derrotado e ao invés de os ianques colocarem as barbas de molho e desfrutarem os frutos da paz, não, havia outros inimigos. Os terroristas muçulmanos. Um dia haverá um outro Hartford Van Dyke que com peso na consciência nos contará a verdadeira história do 11 de setembro. Será que as autoridades americanas também já não sabiam das manobras dos terroristas e deixaram os acontecimentos se desenrolarem para que pudessem dele tirar proveito?

            Afinal, depois do 11 de setembro os Estados Unidos se arvoraram o direito de invadir o Iraque, o Afeganistão, o Paquistão atrás dos fanáticos muçulmanos. O Patriot Act, promulgado somente seis semanas depois dos ataques (como se já estivesse pronto e só esperasse a desculpa da destruição do World Trade Center para ser liberado), aumentou tremendamente o poder do Executivo, permitindo violações flagrantes ao Estado de Direito, ao devido processo legal, ao direito de defesa, à presunção de inocência. Qualquer cidadão, mesmo natural dos Estados Unidos, se suspeito de atividades “terroristas” pode ser preso em nome da segurança nacional. Bradley Manning, o soldado de 23 anos que é acusado de ter enviado ao Wikileaks documento sobre a podridão da Guerra no Iraque, está incomunicável, sem previsão de julgamento, e é obrigado a sair de sua cela todos os dias pelado para ser “revistado”. Os indivíduos que viajam de avião devem se submeter a um constrangedor escaneamento do corpo, com máquina fornecida por empresas israelenses, experts no assunto. Coincidência ou não, Israel é o principal beneficiário da atuação americana no Oriente Médio depois do 11 de setembro.

            E assim as mentiras do Grande “Beacon of Liberty”, como Arnold Schwarznegger um dia definiu os EUA, foram se avolumando, tudo em nome da luta contra o terror, armas de destruição em massa no Iraque, que só existiam na mente alucinada de Bush e de seu poodle, o picareta do Tony Blair, um dos maiores embusteiros atualmente em ação, aliás recentemente esteve no Rio para dar conselhos a otários que pagam para ouvir lorotas de um advogado bom de lábia. Mas devo confessar que essa morte do Osama Bin Laden de 1 de maio realmente me deixou estupefata pela sem cerimônia como a conversa para boi dormir foi contada.

            No domingo foi-nos relatado que o líder da Al-Qaeda, o “cérebro dos ataques de 11 de setembro”, havia utilizado uma mulher como escudo e resistido até o fim. Dali dois dias a história já tinha mudado e o famigerado Bin Laden não tinha resistido e levou um tiro na cabeça. Bem, como diriam nossos ascendentes portugueses Inês é morta porque acharam por bem jogá-lo no mar. Teremos que acreditar na história contada por Obama e sua Secretária de Estado, Hillary Clinton. De qualquer forma, efeitos bons já apareceram para o Prêmio Nobel da Paz. Provou ser um cabra macho mandando matar a maior fonte de informações sobre o terrorismo e agora pode justificar sua saída de fininho do Afeganistão, onde o fracasso foi total, e a busca de um novo alvo, o Paquistão, que deve ser punido por ter escondido Bin Laden. E claro, sua popularidade aumentou a despeito da situação calamitosa de desemprego, especialmente entre a população negra masculina, que votou em massa no primeiro presidente afro descendente

            O show de Obama, como o Apprentice de Donald Trump, seu arquiinimigo atual, possível candidato a presidente no ano que vem, não pode parar. E Obama, de símbolo da mudança, passou rápido de aprendiz de feiticeiro a verdadeiro mago na arte de manipular. As histórias são tão prodigiosas que eu me esqueço delas. Por que mesmo houve a intervenção na Líbia, sem aprovação do Congresso Americano? É para proteger os civis ou para solapar a posição da China que tem investimentos vultosos na área controlada pelos rebeldes? Há quem ache Obama mais fino e inteligente que o Donald Trump, que separa o cabelo atrás da orelha. Mas a conversa fiada de Obama é muito mais deletéria ao país e ao mundo do que as cafonices do rei da jogatina. A absurda morte de Osama Bin Laden, se não for o fundo do poço em matéria de escárnio e de falta de respeito com o povo, mostra que as estripulias do Império Americano ainda vão nos levar por caminhos cada vez mais funestos.

Categories: Internacional | Tags: , , , , | Leave a comment

Bota ou não fé no velhinho

            Nesta semana conversando com uma colega de classe ela me disse: ah, as pessoas têm que perceber que esse negócio de esquerda e direita não existe mais.”  Ela se referia aos esquerdistas da faculdade que agora dirigem o Centro Acadêmico e que se preocupam em construir o clube da faculdade, em um terreno doado por Jânio Quadros, um ex-aluno, e não se preocupam com o Departamento Jurídico, que apesar de prestar um serviço social da maior importância, está à míngua.

            E de fato não há como negar que os termos da oposição histórica, cujas origens remontam à Revolução Francesa, mudaram desde o fim da Guerra Fria. Não há como algum partido de esquerda hoje defender a revolução do proletariado tendo como modelo a União Soviética. É preciso fazer as pazes com o capitalismo, agir dentro do sistema para humanizá-lo, isto é, distribuir a renda, tirar dos ricos para dar aos pobres e assim atingir a paz social. Apesar desse critério redistributivista ser o mais seguro, confesso que tenho lá minhas dúvidas sobre se realmente funciona para distinguir quem aceita o sistema como ele é e quem o critica.

            Essas categorizações me vieram à cabeça nesta semana para tentar entender o caso Dominique Strauss-Kahn, o infeliz presidente do FMI acusado por uma camareira do Hotel Sofitel de tê-la estuprado. Alguns se perguntarão o que direita e esquerda tem a ver com o sexo oral que supostamente o velhinho safado obrigou a camareira a fazer. Aparentemente nada, mas ao mesmo tempo tudo. Tudo porque nunca saberemos o que de fato ocorreu no sábado dia 14 de maio na suíte de DSK, como ele é conhecido na França. Nos EUA o processo penal admite transação de maneira muito mais intensa do que aqui, o que faz com  que a verdade real não seja o objetivo a ser alcançado, mas a solução do litígio. Portanto, para que cada um possa criar sua versão dos fatos, é preciso que desde já decida o que acha do personagem.

            Quem acha que DSK é um membro do establishment, vai considerar que este episódio nada mais é do que o coroamento de uma carreira pontuada de rumores de assédio sexual de um homem de 62 anos que está em seu terceiro casamento, com Ana Sinclair, uma rica judia da mesma idade que vem lhe apoiando financeiramente em sua corrida rumo ao topo. Para esse grupo, DSK é o mais fino exemplo do socialismo aguado que hoje predomina na Europa, pois preside uma instituição financeira, o FMI, que foi responsável pela operação de socorro financeiro aos países da União Européia atualmente endividados. Socorro financeiro este, como nós latino-americanos, bem sabemos, que não será dado por mera liberalidade, mas à custa de arrocho fiscal e salarial, desemprego, efeitos colaterais estes que já se fazem sentir nos PIGS europeus e têm desencadeado várias ondas de protesto. Em suma, DSK é um machista chauvinista, banqueiro judeu da esquerda rendida que está tendo aquilo que merece.

            O segundo grupo é formado por aqueles que vêem DSK como um crítico do establishment e que por isso foi pego em uma armadilha preparada por seus inimigos. Afinal, que diabo de camareira é essa que não dá as caras, que fala pelos promotores? E onde fica a presunção de inocência, considerando que o caso gira em torno apenas do testemunho da mulher de  32 anos que já ensejou a imediata prisão do acusado? Os chacais na França são dois. De um lado, Sarkozy, seu rival nas eleições presidenciais de 2012, a quem DSK acusou de não ir fundo nas coisas. Antes de a polícia de Nova York anunciar o episódio, um ativista político partidário do presidente francês, Jonathan Pinet, já havia tuitado a prisão do velhinho lúbrico a Arnaud Dassier, um assessor de Sarkô. E momento esplêndido para contrapor Sarkozy, casado com a linda e grávida Carla Bruni, ao patético safado que fica se imiscuindo com camareiras africanas. Para não falar de Marine Le Pen, a candidata da extrema direita, cujo pai é notório anti-semita e que prega o fim da União Européia, cujo salvamento DSK tenta por via da ajuda financeira aos endividados.

            De outro lado, há os Estados Unidos e a banca internacional. Os Estados Unidos, pelo fato de o FMI ter publicado um relatório apontando que em cinco anos a China se tornará a primeira economia mundial, sinalizando o início do ocaso dos EUA como potência econômica. A banca internacional, por DSK ter proposto uma regulação dos bancos e a idéia de que devem arcar também com os prejuízos da crise financeira pelos riscos que eles assumiram e não só o governo (leia-se o povo) dos países mais endividados.

            Culpado ou inocente? De direita ou de esquerda? O mais provável é que Strauss Kahn seja uma mistura dos dois: um membro da elite mundial que banca a globalização oferecendo crédito aos países que concordam com o pacote do FMI, enfiado goela abaixo dos países carentes de capital de maneira que eles possam continuar a ser bons pagadores do carnê do baú; mas um membro que, não esquecendo de todo o conceito de socialista, quer que o fardo não fique tão pesado para os mais fracos e que os riscos carreguem ao menos uma parte dele. De qualquer forma, a carreira política do velhinho não sobreviverá às algemas e ao fellatio. E assim, em 2012 os franceses terão que decidir quem é mais ou menos de direita, ou seja, quem está mais ou menos disposto a tirar dos pobres para dar aos ricos: o errático e bombástico Nicolas Sarkozy, o homem dos factóides ou a combativa Marine Le Pen, a campeã da “França para os galeses”.

Categories: Internacional | Tags: , , , | Leave a comment