Bodas reais

            Confesso que fiquei curiosa em assistir ao casamento real da plebéia Kate Middleton e do Príncipe William. Até que ela não é assim tão plebéia, porque descobriu-se remexendo sua árvore genealógica que é descendente de uma irmã da famosa Ana Bolena, decapitada por seu marido Henrique VIII. A ascendente de Kate chamava-se Maria e foi amante do rei, com quem teve um filho. Ainda lembro quando aos oito anos eu assisti ao casamento da finada Diana, a mãe de William, e fiquei maravilhada com o vestido suntuoso, bufante, cheio de frufus, laços, o ar virginal da noiva. Qual mulher não sonha em casar, achar seu príncipe encantado?

            No meu modesto caso, como sou uma garota de classe média que precisa ganhar a vida e sobreviver, o meu príncipe teria que ter qualidades darwinianas para ter sucesso no mundo cada vez mais competitivo, com recursos cada vez mais escassos do século XXI. O que obviamente não é o caso do garboso William, que se formou sem mérito em Geografia e provavelmente se não tivesse nascido com “uma colher de prata em sua boca” como eles lá dizem, não teria lá muita “empregabilidade”, apesar de ser um expert em protocolo e etiqueta. De fato, o moço só fala o inglês, não tem interesse em aprender outra língua e parece pouco sintonizado com o mundo multicultural de fora do seu casulo real formado de caçadas, temporadas na Escócia, baladas em lugares exclusivos. Até a decisão dele de não usar aliança depois de casado, por considerar isso cafona, mostra que William é muito mais apegado aos seus sinais distintivos de classe social do que sua mãe foi. O filme “A Rainha” estrelando Helen Mirren no papel de Rainha Elizabeth, revela a falta de sintonia da família real com a modernidade representada por Diana, que muito mais do que Princesa de Gales era extremamente carismática e por isso adorada como celebridade, já que se colocava naturalmente de igual para igual com qualquer pessoa. Vê-se neste casamento que a revolução democrática da finada princesa foi definitivamente colocada por terra: seu filho é todo sorrisos, mas ele nunca seria capaz de cair nos braços do povo como ela fez na África, visitando crianças aidéticas ou vitimadas por minas terrestres.

             Mesmo com essa ressalva a respeito de considerar William apenas um jovem privilegiado e convencional, eu acompanhei até o momento de zarpar para o trabalho a cerimônia pela BBC. Uma coisa que me espantou foi a frugalidade do vestido de Catherine, que acentuava ainda mais a magreza da moçoila. Qual o porquê de tamanha simplicidade? A explicação mais provável é a de que a família real britânica não quer melindrar seus súditos em um período de vacas magras, como o maior corte de gastos públicos na Grã-Bretanha desde a segunda guerra mundial. De fato, os britânicos, que na época de Tony Blair e Gordon Brown (não convidados para o casamento) embarcaram na onda da globalização a bordo de seu setor financeiro, se vêem agora em plena ressaca, não tendo ainda conseguido deixar para trás o desemprego e a estagnação econômica. O Primeiro Ministro David Cameron, ávido por fazer com que o Estado possa se livrar de certas incumbências, propôs um projeto chamado “A Grande Sociedade” pelo qual quer encorajar os cidadãos a assumir maiores responsabilidades públicas, a terem uma participação maior na vida da “pólis”. Resta saber se terão tempo de fazer isso, afinal os gregos que o faziam na ágora ateniense faziam parte da elite da cidade e podiam se dar ao luxo de discutir, argumentar porque não precisavam labutar como pobres mortais.

            A despeito de todos esses problemas pairando no horizonte, lá estavam os súditos de bandeirinha na mão, um milhão de fãs esperando o casal sair à sacada, dar o primeiro beijo. Por mais que os bem pensantes deplorem essa idolatria, que achem tudo isso uma futilidade, o fato é que os ritos da monarquia – coroações, casamentos, funerais – parecem calar fundo no inconsciente coletivo das pessoas que precisam que certas verdades imemoriais sejam sempre repetidas, que um homem e uma mulher se casam para entre outras coisas terem filhos, que a autoridade deve ser respeitada por si mesma, pelo que ela representa e não pelo que ela de fato é. Em um mundo em que os relacionamentos pessoais estão cada vez mais difíceis pelo egoísmo e narcisismo predominantes, em que a internet impossibilita a imposição de qualquer tipo de relação hierárquica, esses rituais lembram às pessoas as relíquias de um mundo que está se desintegrando. William e Kate podem ser em si mesmos medíocres e não ter mérito próprio além da beleza, mas o papel que desempenham de fazer o show continuar, de dar certezas, de reencenar clichês, talvez seja um alívio existencial para os britânicos e para todos os que em nossa aldeia global do século XXI sofrem a angústia de ter que viver em uma Terra que talvez não sobreviva ao holocausto ambiental..

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As mentiras que os poderosos contam

            Vivemos em uma sociedade dita global em que a mentira deslavada é cada vez mais parte de nosso cotidiano. Temos a influência da propaganda, que precisa sempre enfatizar as qualidades do produto e varrer para debaixo do tapete o que não se encaixa na imagem perfeita. Há que se levar em conta também a grande vontade das pessoas de serem enganadas: por mais que nunca tenha havido como agora tantos diplomados, graduados, “emebeados”, pós graduados etc., a capacidade de crítica das pessoas é cada vez mais anestesiada, entretidas que são pelas fofocas sobre celebridades, por programas como Big Brother, ou fantasias cinematográficas como Avatar, pelos videogames que transportam o indivíduo a uma realidade paralela de poder, de força, de felicidade que não tem nada a ver com o cotidiano daquele que está sendo entretido, feito de longas jornadas de trabalho, busca incessante por se manter “empregável”, “casável”, “namorável”, enfim “escolhível” de alguma forma. Por que refletir sobre a realidade se ela é cansativa e me enche de ansiedade e angústia? Vamos escapar par ao Castelo de Caras ou para o paredão do Big Brother!

            Daí ser tão difícil detectar mentiras, por estarmos demasiadamente envolvidos pelo discurso mavioso daqueles que lucram em nos fazer acreditar que vivemos em um mundo em que a tecnologia nos levará ao nirvana, em que tudo caminha necessariamente para melhor. E quanto mais nos fica difícil detectar mentiras mais somos escravizados pelos poderosos de plantão, que têm todo o interesse do mundo em que nós acreditemos que nada podemos fazer para mudar o mundo tal como ele está. Afinal, a política é podre, feita por políticos corruptos, eu não sou político, porque sou honesto, logo não posso fazer nada. Ou então, a economia é um assunto técnico, deve ser deixada para os especialistas resolverem, assim como a ciência e por aí afora. Mas como nos ensinaram os gregos, o homem é por definição um zoo politikos”  e se ele nega sua natureza deixa de ser homem. Bingo! Para estimular um pouco a indignação moral dos leitores do Montblatt e assim levá-los à ação, citarei aqui alguns exemplos de mentiras deslavadas recentes.

            No dia 15 de fevereiro Dona Hillary Clinton, Secretária de Estado dos EUA fez um discurso na Universidade George Washington declarando que os EUA apoiará financeiramente grupos que lutam pela liberdade na internet. Mentira deslavada! Na mesma oportunidade ela acusou o Wikileaks de roubo e o Departamento de Justiça entrou com processo contra o Twitter para revelar as ligações entre Julian Assange e Bradley Manning, o homem que passou documentos sobre as Guerras no Iraque e Afeganistão de maneira a tentar enquadrar o australiano como conspirador. A verdade escondida pelo palavrório sobre liberdade é a seguinte: os EUA apóiam a divulgação de informações, desde que seja usada para desestabilizar regimes que não rezam pela cartilha ditada pelo Tio Sam, como o Irã. Quanto ao resto, processo e mordaça neles!

            Em 2008 o presidente da França, Nikolas Sarkozy lançou a União Mediterrânea, com o objetivo de estreitar os laços dos países europeus com o Oriente Médio e o Norte da África de maneira a contribuir para a paz, a civilização, a democracia e a prosperidade para todos. Mentira deslavada! No dia 9 de fevereiro o Le Canard Enchainé deu um furo de reportagem, revelando que o primeiro-ministro François Fillon havia passado o fim de ano com a família no Egito, com tudo pago pelo governo egípcio (leia-se o finado Mubarak), incluindo hotel, passeio de barco pelo Nilo e vôo para conhecer o país. Tal notícia veio à tona logo depois que os franceses ficaram sabendo que a Ministra das Relações Exteriores, Michèle Alliot-Marie, que passava férias na Tunísia quando a Revolução de Jasmim eclodiu, teve direito em lá estando a um jato particular pago por um “homme d’affaires” bem relacionado. Talvez tenha sido em troca do jatinho que Dona Michèle tenha oferecido as forças de segurança francesas para dar uma ajudinha ao regime tunisiano que estava balança mas não cai. O fato é que até o papa da esquerda francesa, François Miterrrand, costumava ser hóspede do Hosni Mubarak. Moral da história: a França não quer que o Oriente Médio e a África se desenvolvam de verdade, levando o povo a usufruir de um novo padrão de vida. Ela simplesmente quer nutrir governantes venais com os quais seus políticos, também igualmente venais, possam fazer bons negócios com armas, petróleo, e aviões Rafalle, bien sur. A União Mediterrânea na prática não passa da Máfia Mediterrânea, mafiosos ajudando mafiosos para todos lucrarem às custas do povo.

            O primeiro ministro da Itália, Sílvio Berlusconi, é um ferrenho crítico da imigração à Europa e um dos partidos que o apóiam no parlamento é a Liga do Norte, liderada por Umberto Bossi que quer a separação do Norte da Itália por considerar que o Sul da Itália, pobre e corrupto, é um parasita da parte rica e desenvolvida. Mas a postura firme de Berlusconi contra a imigração é pura fachada, pois ele adora a companhia de moçoilas terceiro-mundistas que estejam dispostas a fazer o bunga-bunga (versão italiana do trenzinho do funk carioca) em sua casa perto de Milão. Sua última conquista de que se tem notícia foi Karima el-Mahroug, uma marroquina  de 18 anos a quem o ex-vendedor de aspirador de pó livrou da prisão a que a pobrezinha tinha sido relegada acusada de roubo. Ou seja: os imigrantes são sujos, safados e ignorantes, mas se souberem rebolar e prestarem favores sexuais, serão bem vindos pelos europeus carentes.

            Por fim, um exemplo local. O ministro Guido Mantega disse que um salário mínimo maior do que aquele desejado pelo governo causará inflação. Mentira deslavada! A inflação está aí, a olhos vistos, fruto em primeiro lugar da alta internacional no preço dos alimentos que vem se desenrolando desde 2007. E o que o governo tem feito para garantir nossa segurança alimentar? A China vem comprando terras no Brasil para garantir seus suprimentos de comida e nós estamos cada vez mais ansiosos em plantar soja para exportação. Será que o bolsa-família por si só resolverá o problema da fome no Brasil se não houver o que comprar? Outro fator causador da inflação que volta a ameaçar é o descalabro das contas públicas, que faz do governo um sorvedouro dos poucos recursos disponíveis, inibe investimentos na indústria e nos faz incapazes de produzir o suficiente para atender a demanda aquecida. Pare de tentar encontrar bodes expiatórios Seu Ministro! O senhor não quer aumentar o salário mínimo porque seus patrões os banqueiros e especuladores não podem deixar de receber os sacrossantos pagamentos do baú da felicidade que é o Erário brasileiro, é uma questão de prioridades que nada tem a ver com ser estadista e não populista como querem nos fazer crer.

            Expus aqui algumas historinhas que nos contam por aí para nos amolecer e amordaçar. É preciso estarmos atentos e fortes. Como disse Thomas Jefferson, o terceiro presidente americano: If once [the people] become inattentive to the public affairs, you and I, and Congress and Assemblies, Judges and Governors, shall all become wolves. It seems to be the law of our general nature, in spite of individual exceptions. Não nos deixemos transformar em cordeirinhos!

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Vai fundo no fundo

            Vai fundo, vai fundo, irmão, vai fundo no fundo monetário internacional, que já

estourou o prazo

e os corredores vão mandar pro pau

As palavras acima são parte da letra da música “Vai Fundo” do finado Grupo Joelho de Porco. Elas ficaram na minha cabeça desde a época em que a palavra FMI era parte cotidiana da vida de todos os brasileiros, da época em que víamos o Cid Moreira anunciar no Jornal Nacional que o “Ministro do Planejamento, Delfim Netto, juntamente com o Ministro da Fazenda, Ernane Galveas, embarcaram ontem para Nova Iorque – ou será que era para Washington? para negociarem um novo empréstimo-jumbo – ou será empréstimo-ponte?” E lá aparecia a imagem dos dois tecnocratas brasileiros com suas devidas pastinhas de papéis de trabalho, indo de pires na mão pedir mais dinheiro para pagar os juros que já haviam vencido.

            Não era nunca para pagar o principal, a propósito será que algum dia nós, enquanto nação, conseguimos pagar o principal de alguma dívida? Será que chegamos a pagar à Inglaterra o dinheiro que tomamos emprestado para indenizar Portugal pelos prejuízos da nossa declaração de independência (aliás, feita por um legítimo português)? Talvez seja natural mesmo não pagar.  O objetivo dos banqueiros é fazer com que nós sempre fiquemos amarrados a algum tipo de corda e a tarefa deles é ir liberando aos poucos. Quanto mais corda eles nos dão, mais fácil é o auto-enforcamento: basta pendurar, dar o nó e pronto, lá se tem uma asfixia mecânica.

            A cianose e o livor cadavérico da asfixia foram bem conhecidas do povo brasileiro que nos anos 80 e metade dos anos 90 se viu mergulhado em um período negro de estagflação, isto é, crescimento econômico pífio ou nulo e inflação estratosférica. Isso significou desemprego, arrocho salarial, explosão na criminalidade, esgarçamento do tecido social (já roto de 500 anos). Mas sob a batuta brilhante dos nossos economistas, os imensos sacrifícios impostos à população, as vidas perdidas, os futuros comprometidos, tudo isso acabou valendo a pena. Descemos ao inferno e o sistema financeiro internacional, reconhecendo nossos esforços, nos vendo exangues e apoquentados em meio aos círculos de fogo, nos ofereceu uma via de escape, um elevador que subiria rapidamente das profundas de Hades até o mundo normal: o Consenso de Washington. Sob a condição de que vendêssemos as empresas que haviam sido a muito custo construídas com os petrodólares, e assim acumulássemos reservas internacionais mediante a compra de títulos do Tesouro Americano, poderíamos conseguir o beneplácito da banca para renegociarmos nossos papagaios, pagá-los em condições melhores e assim aliviar um pouco a tensão da corda.

             E assim foi feito. E de fato ficamos bem aliviados. As reservas permitiram lançar uma moeda nova, o real, de valor mais estável. A inflação controlada deu a chance aos pobres de terem acesso a bens básicos de consumo, e ao crédito. O boom das commodities nos permitiu fazer caixa para comprar mais títulos do Tesouro Americano, acumular mais reservas, ganhar mais a confiança dos investidores internacionais, tomar mais dinheiro emprestado. E o resultado é este: nossa dívida pública é hoje de R$1,734 trilhão. A razão dívida líquida do setor público total – PIB estava em 36,5% em julho de 1998 chegou a 57% em setembro de 2002 e em setembro de 2009 estava em 43,5%. Ou seja, continuamos incapazes de controlar nosso endividamento de maneira consistente, ora melhorando, ora piorando, mas o importante é que gozamos da confiança dos banqueiros que estão sempre lá para nos dar mais corda. Eles sabem que se a coisa degringolar e tivermos um novo problema de liquidez, estaremos dispostos a seguir a receita da cartilha imposta a todas as marionetes do sistema global. Pires na mão às porta do FMI e depois venda dos ativos nacionais.

            Isso tudo me vem à cabeça vendo o desenrolar do que ocorre na Europa. A Grécia está sacudida por protestos freqüentes na Praça Sintagma, os membros do governo não se entendem. Uns achando que a rendição ao FMI é necessária, outros que o melhor é sair do Euro e declarar o calote. A Grécia deve 22,7 bilhões aos banqueiros alemães, 15 bilhões aos banqueiros franceses e 190 bilhões ao Banco Central Europeu. O plano é o mesmo que nos foi sugerido na década de 90: venda dos ativos do país, no caso terras e portos públicos, empresas de saneamento e tratamento de água, empresa de telefonia e locais turísticos no valor total de 50 bilhões. O objetivo claro não é o de investir em infraestrutura nova, é apenas o de se apropriar do que já está instalado e auferir lucros.

            Diga-se de passagem, o que o FMI quer impor à Grécia ocorreu aqui no Brasil. Em São Paulo privatizações foram feitas da distribuidora de energia, a Eletropaulo, da distribuidora de gás, Comgás, das rodovias estaduais, tudo já construído. Nada foi feito de novo, nenhuma usina hidrelétrica, usina termoelétrica, nenhuma rodovia nova. Apenas concedeu-se aos compradores o direito de explorar algo que já estava lá, construído com dinheiro público. As privatizações serviram para fazer caixa momentaneamente, mas não tinham nenhum objetivo de longo prazo de permitir investimentos produtivos tão necessários em infra-estrutura. E o que está sendo feito de novo em termos de metrô e rodovias é com empréstimo do BNDES às empresas privadas que pagarão juros camaradas e cobrarão tarifas escorchantes.

            Talvez não haja motivos para acreditarmos que dessa vez haverá uma mudança no script. Portugal acaba de eleger um primeiro-ministro de direita que promete privatizar serviços públicos e fazer o milagre de pagar os banqueiros e ao mesmo tempo fazer o país crescer. A Irlanda se comprometeu a pagar tudo direitinho. A pequena Islândia em referendo realizado em janeiro deste ano disse não ao acordo realizado com banqueiros ingleses e holandeses e estes se verão obrigados a reconhecer perdas, mas a batalha não está ganha, porque há o recurso aos tribunais, as ameaças de não aceitar a Islândia na União Européia. É de esperar que os europeus tenham mais capacidade de resistência do que nós brasileiros,que cumprimos nosso papel na tragicomédia “Vai Fundo no Fundo” e continuamos aqui patinando em crescimento mediano, com a corda no pescoço em dívidas, risco de desastre ao menor desassossego no cenário internacional. Porquinhos europeus, não se envergonhem de sua condição de suínos e grunham bastante! Talvez isso assuste as hienas da globalização e elas vão cheirar outra carniça.

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Vincere

            Em cartaz está um filme de um cineasta italiano, Marco Bellochio, chamado Vincere, que retrata um episódio pouco conhecido da vida de Benito Mussollini, seu caso amoroso com Ida Dasler com quem teve um filho. Ao começar sua ascensão ao poder ele se livra dos dois colocando Ida num manicômio e o filho num internato sob vigilância para não prejudicar sua carreira.

            Não vou me deter aqui sobre aspectos cinematográficos, porque não tenho conhecimento suficiente para tal. Ressaltarei apenas a intenção do diretor de traçar paralelos com a Itália atual: Mussollini cuidava de sua persona como Berlusconi faz atualmente, cuidava tão bem que permaneceu por mais de 20 anos no poder de 1922-1943. Ambos passavam a imagem de homens resolutos, bem-sucedidos, eficientes e fazem extenso uso dos recursos midiáticos para tal: Mussolini mandava registrar em filme tudo o que acontecia de importante no regime: manifestações em massa de apoio, discursos do Duce, etc. Berlusconi controla os principais canais de TV da Itália.

            Por outro lado, há um aspecto que é diametralmente oposto em relação aos dois, relacionado ao tema que o filme aborda, a vida privada do líder. Reconhecer seu filho com Ida Dasler seria manchar sua reputação de exemplar pater famílias, de homem casado com filhos, o que seria impensável em uma época em que o fascismo pregava o papel da dona de casa no lar como cuidadora dos filhos e do homem como provedor. Ora, vê-se que Berlusconi tem a intenção diametralmente oposta, que é a de escancarar seu papel de homem “pegador”, “courreur de jupes”.

            Seus bacanais em sua “villa” são amplamente noticiados, as jovens mulheres com quem ele sai vira e mexe dão entrevistas explosivas revelando detalhes das habilidades sexuais do “Cavaglieri”. Berlusconi, além disso, mostra um total desprezo pelo casamento, ao contrário de Mussolini, que insistia em preservar a fachada hipócrita de marido fiel.Em sua rumorosa separação de Verônica Lario, a ex-modelo escreveu uma carta aberta dizendo que não podia continuar casada com um homem que se deitava com menores porque isso diminui a dignidade das mulheres e ela tinha que dar o exemplo às filhas. Berlusconi, longe de aparecer contrito, mostrou durante todo o episódio o sorriso matreiro de vendedor de aspirador de pó que ele era no começo de sua carreira.

            Fica claro que quando um político não se preocupa em preservar uma certa imagem de pai, marido, é porque não há mais necessidade disso para conquistar eleitores. Pelo contrário, a fama de garanhão conquistada por esse escancaramento de sua vida privada reflete seu sucesso como empresário, o que só aumenta sua popularidade aos olhos de eleitores cujo horizonte moral é se dar bem, conquistar dinheiro, porque com dinheiro vêm o poder e as mulheres. Chegamos a um estágio de nossa civilização em que a hipocrisia não é mais cultivada como tributo à civilização e esta se vê reduzida aos elementos objetivamente verificáveis, como quantidade de dinheiro em conta corrente, de carros, de mulheres ou homens “pegados”. Esperamos dos nossos “líderes” não serem nossos orientadores morais, mas simplesmente exemplos de sucesso para imitarmos, tirados de lições baratas de auto-ajuda sobre como se dar bem.

            O tempore, o mores!

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O Jardim do Éden

            A Ana Maria Ribeiro em sua coluna na semana passada comentava a respeito de certas pessoas que estragam o prazer de outras, que não conseguem achar beleza em nada. Pois eu acho que deveria ser tarefa cotidiana nossa achar beleza em tudo, procurar se rodear de coisas belas. Isso ajudaria mais as pessoas do que os remédios de tarja preta que os médicos nos receitam para tratarem nossas depressões, neuroses, hiperatividades, síndromes do pânico e coisas e tais.

            Fui atrás deste Santo Graal no fim de semana passado na companhia de uma amiga. O destino foi o Rio de Janeiro. Talvez neste momento seja um local pouco propício ao deleite espiritual, em vista da tragédia que se abateu sobre a região serrana, o que às pessoas de bem só pode encher de angústia ante a incompetência e desfaçatez daqueles que elegemos para nos governar. De qualquer forma dirigimo-nos à capital, mais especificamente à Estrada da Barra de Guaratiba, onde está localizado o sítio do nosso grande paisagista Roberto Burle Marx, que ele legou ao governo para que o transformasse em local de visitação pública. E assim foi feito, basta ligar e agendar seu lugar em um dos grupos que são guiados por uma bióloga em um passeio que dura em torno de uma hora e meia.

            Fomos ao Rio de ônibus, e no aeroporto Santos Dumont alugamos um carro. Apesar de termos conseguido o percurso exato no Google não foi lá muito fácil chegarmos ao nosso destino. Na Rua Humaitá tínhamos que pegar uma saída para o Jardim Botânico e erramos quatro vezes até conseguirmos virar na esquerda correta. Nos entrementes uma mulher entrou na nossa frente e minha amiga bateu em seu carro, que estranhamente seguiu em frente e nem sequer parou. Talvez a motorista estivesse com a carteira vencida, talvez tenha achado que seu carro não havia sido muito avariado. Um pouco assustadas seguimos em frente até chegar à Barra da Tijuca, onde nos confundimos sobre se de fato estávamos ou não na Avenida das Américas. Os leitores do Montblatt, a maioria cariocas, estarão com certeza rindo das nossas agruras, ora que obviedade encontrar a Avenida das Américas, mas há muitas pistas e achamos a sinalização deficiente. Bem, depois de 2 horas chegamos ao número 2019 da estrada, felizes por termos encontrado o local a tempo e principalmente porque o sol abriu justamente quando começamos nossa visita guiada.

            Era realmente o Jardim do Éden. Aquele sítio havia sido uma plantação de bananeiras e Burle Marx ao comprá-lo substituiu as árvores frutíferas por plantas ornamentais vindas de todos os lugares do mundo, 3.500 espécies foram plantadas ali: eucalipto da Nova Guiné cujo caule tem as cores do arco íris, palmeiras das Filipinas com enormes folhas que mais pareciam leques, samambaias gigantes da Austrália que se arrastavam pelo chão. Burle Marx foi compondo aqui e ali jardins que mais parecem pinturas, misturando diferentes cores e texturas, olhar tudo aquilo dá uma infinita paz de espírito, dá vontade de nos jogarmos nos braços daquela infinidade de plantas e sentir seus cheiros, seu toque macio, aveludado ou arrepiante, a depender dos formatos. Há vários lagos, com diferentes vitórias régias, e vistos de cima quando percorremos o caminho de pedras preciosamente colocadas nos convidam a um mergulho em meio ao silêncio do sol brilhando. É uma pena que os visitantes não possam permanecer nos lugares a seu bel-prazer, é preciso seguir o guia sempre. É sempre assim, os justos pagam pelos pecadores, é preciso ter regras estritas para evitar a ação dos vândalos.

            Mas não foi só a natureza pintada por Burle Marx que encontramos lá, também pudemos visitar sua casa, a capela adjacente e passar em frente ao prédio que ele estava construindo para servir de local de cursos. Burle Marx tinha interesses de homem da Renascença,  colecionava arte popular, arte religiosa, objetos em cristal, carrancas do São Francisco. Usava materiais de demolição para construir fontes, arcos, falava sete línguas, reunia os amigos para comer e beber, ele que era excelente cozinheiro. Não admira que tenha durado tanto tempo, 85 anos, afinal estava sempre com a mente ocupada, unindo corpo e espírito.

            Burle Marx criou uma escola tropical de paisagismo, utilizando plantas nativas que permanecem verdes o ano todo, abandonando a idéia de jardins moldados nas plantas de países temperados que só ficam belas em certa época do ano. E pasmem, ele só foi descobrir a flora tropical quando estava em Berlim, abrindo a partir de então uma trilha que colocou sua arte no mapa internacional. Na ida ao seu sítio, passando em frente àquela famigerada Estátua da Liberdade em frente a um shopping center na Barra da Tijuca, não pude deixar de lamentar como nós brasileiros insistimos em sermos copiadores ao invés de inventores. Que as visitas ao sítio do Burle Marx nos inspirem a prestarmos mais atenção às nossas especificidades e cultivá-las sem cairmos no triunfalismo ingênuo de um Policarpo Quaresma. Neste vale de lágrimas em que estamos em termos de indigência moral, intelectual e espiritual, é reconfortante vermos que houve na história brasileiros que pensaram o Brasil, propuseram uma visão do nosso país. Viva a Pecadópolis de Burle Marx – assim ele chamava seu sítio – que longe de ser lugar de perdição e miséria na verdade nos introduz a uma beleza que nos anima a seguir adiante.

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