O Jardim do Éden

            A Ana Maria Ribeiro em sua coluna na semana passada comentava a respeito de certas pessoas que estragam o prazer de outras, que não conseguem achar beleza em nada. Pois eu acho que deveria ser tarefa cotidiana nossa achar beleza em tudo, procurar se rodear de coisas belas. Isso ajudaria mais as pessoas do que os remédios de tarja preta que os médicos nos receitam para tratarem nossas depressões, neuroses, hiperatividades, síndromes do pânico e coisas e tais.

            Fui atrás deste Santo Graal no fim de semana passado na companhia de uma amiga. O destino foi o Rio de Janeiro. Talvez neste momento seja um local pouco propício ao deleite espiritual, em vista da tragédia que se abateu sobre a região serrana, o que às pessoas de bem só pode encher de angústia ante a incompetência e desfaçatez daqueles que elegemos para nos governar. De qualquer forma dirigimo-nos à capital, mais especificamente à Estrada da Barra de Guaratiba, onde está localizado o sítio do nosso grande paisagista Roberto Burle Marx, que ele legou ao governo para que o transformasse em local de visitação pública. E assim foi feito, basta ligar e agendar seu lugar em um dos grupos que são guiados por uma bióloga em um passeio que dura em torno de uma hora e meia.

            Fomos ao Rio de ônibus, e no aeroporto Santos Dumont alugamos um carro. Apesar de termos conseguido o percurso exato no Google não foi lá muito fácil chegarmos ao nosso destino. Na Rua Humaitá tínhamos que pegar uma saída para o Jardim Botânico e erramos quatro vezes até conseguirmos virar na esquerda correta. Nos entrementes uma mulher entrou na nossa frente e minha amiga bateu em seu carro, que estranhamente seguiu em frente e nem sequer parou. Talvez a motorista estivesse com a carteira vencida, talvez tenha achado que seu carro não havia sido muito avariado. Um pouco assustadas seguimos em frente até chegar à Barra da Tijuca, onde nos confundimos sobre se de fato estávamos ou não na Avenida das Américas. Os leitores do Montblatt, a maioria cariocas, estarão com certeza rindo das nossas agruras, ora que obviedade encontrar a Avenida das Américas, mas há muitas pistas e achamos a sinalização deficiente. Bem, depois de 2 horas chegamos ao número 2019 da estrada, felizes por termos encontrado o local a tempo e principalmente porque o sol abriu justamente quando começamos nossa visita guiada.

            Era realmente o Jardim do Éden. Aquele sítio havia sido uma plantação de bananeiras e Burle Marx ao comprá-lo substituiu as árvores frutíferas por plantas ornamentais vindas de todos os lugares do mundo, 3.500 espécies foram plantadas ali: eucalipto da Nova Guiné cujo caule tem as cores do arco íris, palmeiras das Filipinas com enormes folhas que mais pareciam leques, samambaias gigantes da Austrália que se arrastavam pelo chão. Burle Marx foi compondo aqui e ali jardins que mais parecem pinturas, misturando diferentes cores e texturas, olhar tudo aquilo dá uma infinita paz de espírito, dá vontade de nos jogarmos nos braços daquela infinidade de plantas e sentir seus cheiros, seu toque macio, aveludado ou arrepiante, a depender dos formatos. Há vários lagos, com diferentes vitórias régias, e vistos de cima quando percorremos o caminho de pedras preciosamente colocadas nos convidam a um mergulho em meio ao silêncio do sol brilhando. É uma pena que os visitantes não possam permanecer nos lugares a seu bel-prazer, é preciso seguir o guia sempre. É sempre assim, os justos pagam pelos pecadores, é preciso ter regras estritas para evitar a ação dos vândalos.

            Mas não foi só a natureza pintada por Burle Marx que encontramos lá, também pudemos visitar sua casa, a capela adjacente e passar em frente ao prédio que ele estava construindo para servir de local de cursos. Burle Marx tinha interesses de homem da Renascença,  colecionava arte popular, arte religiosa, objetos em cristal, carrancas do São Francisco. Usava materiais de demolição para construir fontes, arcos, falava sete línguas, reunia os amigos para comer e beber, ele que era excelente cozinheiro. Não admira que tenha durado tanto tempo, 85 anos, afinal estava sempre com a mente ocupada, unindo corpo e espírito.

            Burle Marx criou uma escola tropical de paisagismo, utilizando plantas nativas que permanecem verdes o ano todo, abandonando a idéia de jardins moldados nas plantas de países temperados que só ficam belas em certa época do ano. E pasmem, ele só foi descobrir a flora tropical quando estava em Berlim, abrindo a partir de então uma trilha que colocou sua arte no mapa internacional. Na ida ao seu sítio, passando em frente àquela famigerada Estátua da Liberdade em frente a um shopping center na Barra da Tijuca, não pude deixar de lamentar como nós brasileiros insistimos em sermos copiadores ao invés de inventores. Que as visitas ao sítio do Burle Marx nos inspirem a prestarmos mais atenção às nossas especificidades e cultivá-las sem cairmos no triunfalismo ingênuo de um Policarpo Quaresma. Neste vale de lágrimas em que estamos em termos de indigência moral, intelectual e espiritual, é reconfortante vermos que houve na história brasileiros que pensaram o Brasil, propuseram uma visão do nosso país. Viva a Pecadópolis de Burle Marx – assim ele chamava seu sítio – que longe de ser lugar de perdição e miséria na verdade nos introduz a uma beleza que nos anima a seguir adiante.

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Maledicencias

            Nestas minhas férias escolares aproveitei para fazer leituras prazerosas, que me permitissem desanuviar o espírito. Um dos livros que li foi uma história detetivesca chamada “The Daughter of Time” de uma escritora inglesa chamada Josephine Tey. The Daughter of Time no caso é a verdade, a verdade que invariavelmente só vem à tona depois de muitos anos de calúnias e difamações. Um policial da Scotland Yard quebra a perna e é obrigado a ficar semanas enfurnado em um hospital contando carneirinhos. Uma amiga tenta distraí-lo trazendo figuras de personagens históricos sobre os quase há algum mistério. Lucrécia Bórgia foi vítima ou cúmplice do seu irmão, César Bórgia? O que de fato aconteceu com Luís XVII, filho de Luís XVI? De repente Grant, o detetive, se depara com a figura intrigante de Ricardo III rei da Inglaterra por um curto período de tempo (1483-1485). Ricardo III ficou eternizado nas peças de Shakespeare como o corcunda que usurpou o trono dos dois sobrinhos a quem encarcerou e mandou matar na Torre de Londres. Suas famosas palavras na peça – “Meu reino por um cavalo” – foram pronunciadas em meio à Batalha de Bosworth em que foi vencido e morto.

            Pois bem, Grant ao ver o retrato de Ricardo, não consegue imaginá-lo como o crápula sanguinário pintado nos livros de história e começa uma investigação da sua cama, pedindo a amigos que tragam livros que contém a história do período. Com a ajuda de um jovem pesquisador que vasculha as informações no British Museum, Grant vai descobrindo furos na história contada ao longo dos séculos e chega à conclusão de que quando Ricardo foi morto e Henrique Tudor subiu ao trono com o nome de Henrique VII, os príncipes da Torre, como eram chamados os filhos de Eduardo IV, irmão de Ricardo, estavam vivos e quem provavelmente mandou matar as crianças foi Henrique, a quem não interessava ter por perto pretendentes mais legítimos à coroa. Henrique VII eliminou não só os irmãos de sua esposa, Elizabeth, como todos os outros pretendentes da dinastia anterior, dos Plantageneta, mas o fez de maneira sutil, sorrateira, sem que ninguém percebesse, seja fazendo seus inimigos desaparecer, como os meninos, seja mandando as pessoas inconvenientes para longe: a mãe dos meninos foi encerrada em um convento, Tyrrel, o homem  que de fato matou os meninos, recebeu uma sinecura na França para nunca mais voltar.  Ricardo, rei morto, rei posto, levou a má fama na história contada pelos Tudors e seus asseclas. Hoje em dia há até uma sociedade na Inglaterra cuja missão é a de restaurar a reputação do rei vilipendiado que na verdade foi um bom administrador, um excelente soldado e cuja fraqueza foi não ter se preparado suficientemente para lidar com as víboras traiçoeiras que lhe rodeavam.

            Independentemente da verdade ou não dessa versão dos acontecimentos dada pela autora do livro (cuja visão mais benigna de Ricardo tem sido corroborada por historiadores modernos), ela aborda um ponto interessante. Quantas vezes tomamos certos fatos como verdadeiros e a partir deles tiramos conclusões que só se sustentam porque partimos do pressuposto de que tais fatos realmente existem? Ou pior, quantas vezes nega-se a nós pobres mortais acesso a certos fatos cruciais que, se conhecidos, nos levariam por caminhos surpreendentes e até perigosos para aqueles que têm interesse que tudo permaneça na escuridão?Uma pequena informação como a de que os meninos estavam vivos à época da morte de Ricardo nos leva a ter uma outra opinião sobre o caráter do rei e do seu sucessor, fazendo com que a lógica da narrativa vire de cabeça para baixo.

            Toda essa minha história pode parecer abstrata, mas em nosso mundo global em que teoricamente temos acesso a todo tipo de informação, muitas vezes pequenos fatos nos escapam, não são suficientemente realçados ou são simplesmente varridos para debaixo do tapete. Se à época dos ataques do Japão a Pearl Harbor os americanos tivessem sido informados de que a Marinha americana não foi pega de surpresa e que na verdade sabia da iminente ação militar japonesa será que a entrada dos Estados Unidos na guerra teria sido possível? Será que a atitude do governo americano de alegar que o país fora traiçoeiramente atacado não era mais um elemento deliberadamente adicionado para transmitir a idéia de que o Japão era o agressor, o imperialista, enquanto que os Estados Unidos estavam simplesmente se defendendo? E quanto à Guerra no Iraque em 2003? Qual foi seu fundamento se não um pequeno fato amplamente divulgado por Bush, Blair e seus “amigos” de que Saddam Hussein escondia armas de destruição em massa? Sem tal indicação da índole belicosa do ditador iraquiano os Estados Unidos nunca poderiam ter apresentado ao mundo o conceito de guerra preventiva, da guerra para evitar futura agressão. Agora está em plena gestação uma outra guerra, que talvez nos traga o juízo final dadas as implicações que poderá ter. O Irã é a bola da vez, porque ousa ter um programa de produção de energia atômica, contrariando os desejos de Israel e Estados Unidos, os únicos países que têm direito de invadir, destruir e barbarizar em nome da luta contra o terrorismo. Pois bem, na semana passada um pequeno grande acontecimento se passou sem que tenha havido muita cobertura da imprensa. Em 11 de janeiro, Mostafa Ahmadi Roshan, diretor da usina de enriquecimento de urânio de Natanz, foi assassinado. Terá sido um ato para provocar uma reação do governo de Mahmoud Ahmadinejad e assim justificar a agressão ao país que faz parte do eixo do mal?

            A Rússia, por intermédio do seu Vice-Primeiro Ministro para Assuntos Militares, Demitry Rogozin, declarou que um ataque ao Irã é uma “ameaça direta à nossa segurança”. Mas o que importa a opinião da Rússia não é mesmo? Afinal, ela pertence ao mesmo eixo de países não democráticos, ovelhas negras. Os “fatos” mostram isso: nas últimas eleições legislativas houve fraude e Putin se mantém no poder despoticamente ignorando os protestos de “milhares de pessoas”. Mas e se pequenos detalhes dessa narrativa fossem mudados de modo a tirar-lhe a coerência? Será que as eleições na Rússia são mais fraudadas do que nos Estados Unidos? Por acaso os ianques são exemplo de lisura na contagem de votos? Nas primárias republicanas de Iowa, Ron Paul um dos candidatos, considerado esquisito porque prega o fim da política imperialista americana e do apoio incondicional a Israel, denunciou que o procedimento de contagem não foi bem feito para que ele não ganhasse (http://www.infowars.com/ron-pauls-iowa-finish-biggest-fraud-since-kennedy-stole-the-west-virginia-primary/). E se fossem verdadeiras as alegações de que Alexei Navalny e Sergei Uldatsov, dois dos mais proeminentes organizadores dos protestos, têm ligações com a CIA, como pessoas de respeito têm alegado (www.paulcraigroberts.org)? Será que não veríamos as acusações contra Putin como uma tentativa de desacreditar aqueles que mais criticam a política externa americana, que tanto desequilíbrio traz à cena mundial?

            No frigir dos ovos sempre contamos uma história com um propósito e este propósito é mais bem servido se os fatos se encaixam de forma  a levarem logicamente à conclusão a que queremos que nosso interlocutor chegue. Ricardo III foi o vilão no século XV, Saddam Hussein, Mahmoud Ahmadinejad, Vladimir Putin o são no século XXI. Será que por trás de todas as maledicências e fofocas contadas a respeito dos ditadores atuais não existe um Henry Tudor traiçoeiro, ardiloso que sutilmente manipula todo mundo para ficar com a coroa?

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Bons votos

            Nas próximas duas semanas estarei fora do Brasil, viajando na Europa, afinal nossa fulgurante ascensão ao primeiro mundo, pelo menos em matéria de preços, faz com que viagens internas fiquem proibitivas em termos de custo-benefício, considerando a espera infinda nos aeroportos, o medo de viajar pelas estradas assassinas pelo Brasil afora, cheias de buracos, remendos e deslizamentos, entre outros inconvenientes. Aluguei um apartamento em Atenas com conexão Wi-fi à internet por 33 dólares por noite, incluindo faxineira, elegantemente chamada de concierge. Espero embeber-me da civilização grega a preços de banana, e claro, sem ter que enfrentar protestos na rua contra o arrocho imposto pela UE nem panelaços ou coisas do tipo. Na volta falarei das minhas impressões, se o país estará com os ânimos exaltados da Alemanha dos anos 20, obrigada a pagar as reparações de guerra a qualquer custo, ou se estará no torpor desanimador em que nós latino americanos ficamos ao longo dos anos 80 em que estivemos lancetados pelo garrote do FMI. Não sei o que é pior, um deu no fascismo, o outro deu em 20 anos de estagflação.

            Seja lá como for, estarei bastante animada e vendo o lado bom de tudo, afinal turismo é uma das válvulas de escape que a nossa sociedade encontrou para a sensaboria e regramento das nossas vidas. O turista gasta o que tem e o que não tem, compra o que precisa e o que não precisa, vê muita coisa ao mesmo tempo que o deixa tonto, para no fim ficar com a sensação de ter realizado algo, de ter cumprido milhas, visitando tantos lugares, tirando tantas fotos, comendo e bebendo tantas coisas exóticas. Se algo vai ficar de tudo isso, além de dívidas, tralhas inúteis socadas em algum canto do armário, é uma incógnita, mas ao menos há motivo de atualização da sua página no facebook, o que é lá uma grande coisa, um acontecimento. Portanto, como já estou desde hoje vestindo a carapuça de turista, quero ver tudo de maneira otimista e risonha, e por isso farei votos para que quando eu voltar ao Brasil algumas coisas tenham tido bom andamento.

            Em primeiro lugar, desejo de todo coração que as autoridades do Rio façam um bom trabalho de rescaldo depois da queda do Edifício Liberdade o que significa viabilizar a real apuração de responsabilidades. Espero que sigam o conselho de Moacyr Duarte, pesquisador da Coppe-UFRJ e especialista em situações de risco, que recomendou que haja uma sincronia entre o trabalho dos bombeiros e dos peritos na remoção do entulho do desabamento para que se saiba com razoável certeza o que causou a fatalidade: “É importante colher elementos da pilha, ter amostras do concreto dos pilares de base para fazer uma análise, ver o que é ferragem de coluna, de laje, para entender as deformações que sofreram. Há todo um registro de dados que não está sendo feito”. Sempre jogamos pedras na justiça, mas esquecemos que um processo judicial necessita der instrução, isto é, o juiz precisa ficar ciente do que de fato ocorreu, como e porquê. Se o trabalho dos peritos e da polícia não apresenta evidências suficientes, como querer que o juiz chegue a uma conclusão sobre quem agiu com imperícia, negligência, imprudência ou dolo? Como atribuir responsabilidades, condenar a indenizações no escuro? O que começa mal, acaba mal, os resultados pífios da justiça brasileira têm início lá atrás, sob certos aspectos a injustiça é apenas a ponta mais visível do iceberg da incompetência ou do Febeapá, como diria o saudoso Stanislaw Ponte Preta.

            Por falar em gerenciamento de riscos e planos de contingências, espero também que havendo a sintonia fina entre todas as autoridades responsáveis pelo post-mortem da tragédia possam tirar lições que sejam absorvidas bem perto do epicentro dos desabamentos, na Avenida República do Chile, 65, sede da Petrobrás. Tivemos notícias alvissareiras na semana passada a respeito da mudança no comando da menina dos olhos dos brasileiros. Em 13 de fevereiro sai José Sérgio Gabrielli Azevedo e entra Maria das Graças Foster, que segundo a mídia tem “perfil mais técnico”. Não entendi muito bem o que isso quer dizer, afinal o Sr. Sérgio tem PhD em Economia pela Universidade de Boston e foi pró-reitor de pesquisa e graduação na Universidade Federal da Bahia. Maria das Graças, atual diretora da Área de Negócios de Gás e Energia, tem mestrado em engenharia de fluidos e pós-graduação em engenharia nuclear na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Um bom currículo, com certeza, mas na hierarquia acadêmica inferior ao do baiano. Talvez a mídia queira dizer que a nova presidente, escolhida a dedo por Dilma, será mais objetiva em suas escolhas e ficará infensa a pressões políticas, como Gabrielli estava, à mercê das traquinagens sinistras do mago das sombras José Dirceu. Será? Seu marido, Colin Foster, tem uma empresa que presta serviços de tecnologia à Petrobrás e coincidentemente a nova toda poderosa tem tatuadas no antebraço esquerdo  três estrelas, já doou R$34,5 mil ao Partido dos Trabalhadores e engajou-se ativamente na campanha de Dilma à presidência, chegando a fazer boca de urna na Zona Sul do Rio.

            Independentemente de quanto a escolha de Dona Dilma foi técnica ou simplesmente uma tentativa de tirar poder do grupo de Dirceu colocando na chefia da nossa mais importante estatal uma pessoa de confiança da presidente, faço votos à esta grande mulher que tenha sucesso na sua empreitada. Sucesso a meu ver significa que diante do desafio do pré-sal dona Maria das Graças faça a ponderação dos riscos e benefícios de explorar petróleo a profundezas tão grandes e saiba responder com serenidade à pergunta: os acidentes que poderão ocorrer, um possível comprometimento da nossa biodiversidade e riqueza marinha, serão compensados pelos lucros que o petróleo nos dará? Estaremos investindo no lucro a curto e médio prazo às expensas do nosso patrimônio de longo prazo ou realmente arrebentaremos a boca do balão como quer fazer crer a propaganda ufanista? Estaremos contribuindo para o desenvolvimento sustentável do Brasil ou simplesmente resolvendo o problema de suprimento de matérias-primas da China, até agora o principal investidor do pré-sal? De repente responder a essa pergunta não caberia a Dona Maria das Graças, mas ao povo brasileiro como um todo, que apesar de não ver a cor do dinheiro da Petrobrás em termos de dividendos, é teoricamente o seu proprietário.

            Bem, depois desses meus votos aos bombeiros e peritos cariocas e à botafoguense alçada a um dos cargos máximos da nação, despeço-me dos meus leitores do Montblatt cheia de alegria no coração e ávida por tornar-me uma turista deslumbrada nas “Oropas”.

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Copa e PPPs

            Bem, então ficou decidido (propositalmente não usei o sujeito porque não sei quem decidiu, ou melhor, quem autorizou a ser decidido por um grupelho) assim. O projeto de longo prazo do Estado brasileiro será garantir a realização da Copa do Mundo de acordo com as minuciosas regras da FIFA. Em São Paulo nossos nobres edis aprovaram 420 milhões de reais em isenções fiscais para que os empreendedores privados se animem a construir o Itaquerão, que será a sede da abertura da Copa, nos garantem. O Estádio da Fonte Nova em Salvador será construído com 80% de verbas públicas e no geral 60% das verbas para construção dos estádios virão dos cofres públicos. O BNDES já aprovou financiamentos de R$ 1 bilhão para os governos do Ceará, Bahia e Pernambuco (http://esportes.terra.com.br/futebol/brasil2014/noticias/0,,OI5234592-EI10545,00-Dinheiro+publico+sustenta+parcerias+em+estadios+para+Copa+de.html).

            Ora, e as tais das parcerias público privadas? Grande idéia esta para reconstruir e construir nossa infraestrutura. Ao contrário das concessões normais de serviço público, em que a remuneração do concessionário se limitava às tarifas cobradas do usuário, nas PPPs o parceiro privado tem direito a contraprestação pecuniária do Poder Público, a garantias de que não levará o calote e a financiamento facilitado pela realização da parceria com a mãe de todos os brasileiros, a Viúva como diria o Elio Gaspari. Para isso basta criar uma sociedade de finalidade específica para captar recursos. E pimba na gorduchinha, o empreendedor privado consegue o dinheiro e seu risco fica bem mais palatável, porque poderá pagar juros camaradas aos órgãos públicos de financiamento e cobrar tarifas de primeiro mundo de nós pobres mortais, que na festa das PPPs entramos com a bolsinha, para arcar com as despesas, e com nossa infinita paciência para agüentar as traquinagens dos nossos governantes.

            Não nego que não haja a necessidade de parcerias entre a iniciativa privada e o setor público para a realização de investimentos de longo prazo. É preciso tanto a ajuda financeira do governo quanto a expertise técnica e gerencial da iniciativa privada. Mas será que estamos usando este instituto para bom fim? Afinal, a finalidade do Poder Público é servir o interesse de todos os brasileiros. A preocupação incessante de todo governo neste século XXI deve ser a de investir em infraestrutura física e humana para que o setor privado tenha condições de fazer negócios de maneira mais barata e eficiente, e assim criar empregos e riqueza. É isso que qualquer governo minimamente competente faz, estabelecendo estratégias para que o país possa aproveitar os ventos da globalização e não ser por ela engolfado.

            Na Alemanha, atolada por dívidas originárias da reunificação e com mão de obra excedente devido ao desemprego na parte leste, estabeleceu-se um pacto social em que os trabalhadores aceitaram a estagnação de sua renda em troca da garantia de emprego e do treinamento constante. Isso permitiu ao país manter sua indústria manufatureira competitiva, imune, pelo menos por enquanto, aos ataques predadores dos chineses em sua corrida ao fundo do poço. (Para quem se interessar, há um estudo de dois economistas americanos do Council on Foreign Relations sobre o assunto intitulado “The Evolving Structure of the American Economy and the Employment Challenge” Outros países adotaram igualmente como foco o binômio competitividade e emprego. A Suécia aparou as benesses mais gritantes de seu Estado do Bem Estar para incentivar o trabalho e conseguir se manter capaz de criar riquezas no mundo cada vez mais duro (http://www.exacteditions.com/exact/browse/5/2/9089/3/23?dps=).

            Citei o exemplo desses dois países para colocar a pergunta aos leitores do Montblatt. Qual o interesse estratégico do Poder Público de subsidiar a construção de estádios por meio das PPPs? No que estará ajudando a aumentar nossa competitividade no mundo global e a criar fontes PERMANENTES de emprego? Qual o interesse estratégico do nosso país de fazer as mínimas vontades da FIFA, uma entidade formada de picaretas cujo único interesse é se locupletar tendo como meio o vício das massas pelo futebol? Será que o turismo não seria mais bem servido em nossas plagas se houvesse investimento em capital humano que nos livrasse da miséria e da violência, que justificadamente tanto assustam os turistas?

            A Grécia quis, ao sediar os Jogos Olímpicos, selar sua aceitação no clube europeu e se livrar do seu passado balcânico. Bem, o resultado está aí, um país com dívida impagável, a ponto de dar um calote. O Brasil parece querer trilhar o mesmo caminho, mostrar uma fachada de país moderno à custa de dores de cabeça futuras. Paremos com nossa mentalidade de ciclos: vivemos o ciclo do pau Brasil, da cana de açúcar, do ouro, do algodão, da borracha, do café, agora estamos embarcando no ciclo da Copa, a próxima parada é o ciclo do pré-sal. As PPPs não devem ser parcerias de picaretas e paspalhos para servir interesses imediatistas de uns poucos. Acorda Brasil, antes que sobre nós recaia a maldição grega!

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Copa de 2014 a Brasília do século XXI

            A Copa do Mundo que se desenrola na África do Sul nos dá muitos motivos para reflexão. À parte a pífia participação de nossa seleção, é de causar espanto a quantidade de bobagens que os locutores falam. Não citarei como exemplo o óbvio Galvão Bueno, que é a epítome do jornalismo chapa branca da Globo que lambe as botas dos poderosos de plantão até não mais poder e depois quando os poderosos caem descem o sarrafo no cachorro morto.

            Assistindo eu à tragédia de Port Elizabeth na sexta-feira pela Band, o Luciano do Valle comentava acerca do erro dos sul-africanos de deixarem que os europeus prejudicassem a imagem deles pela divulgação exaustiva de notícias sobre a violência que grassa no país.  Como resultado, foram cancelados antes do início da Copa 200.000 pacotes turísticos. O narrador então falava sobre a necessidade de o Brasil trabalhar nossa imagem para que o mesmo não ocorresse com nosso país, afinal a Copa “será nosso cartão postal”.

            Pois é, me preocupa esse conceito de cartão postal.  A África do Sul promoveu a “rainbow nation”, construi estádios maravilhosos importando os materiais exigidos pela FIFA da Alemanha. E o que ela conseguiu em se fazendo cartão postal? Além de uns empregos temporários para a peãozada que trabalhou nos canteiros nada de muito substancioso: menos da metade do público esperado realmente veio assistir à Copa, pois para além do cartão postal os europeus sabem existir uma sociedade extremamente desigual e violenta. O legado da Copa do Mundo aos africanos será uma dívida monstruosa para arcar com a construção dos reluzentes estádios que para nada servirão depois do evento. Em troca tiveram o parco reconhecimento dos brancos europeus que ficaram com o filé dos lucros – direitos de transmissão, venda de know-how, materiais, serviços de gestão, etc. – e ainda reclamaram da violência, da pobreza.

            Será que também acontecerá o mesmo conosco? Construiremos estádios com dinheiro público através da encenação das tais das parcerias público-privadas? Proporcionaremos a infraestrutura para uns poucos, como a FIFA, a CBF, empreiteiros e quejandos, se locupletarem? E ao final o que o povo brasileiro terá em troca? Por acaso teremos nos transformado, depois de gastar milhões que não temos, num país de cartão postal ou será a repetição da velha história do Ministro Potemkin da imperatriz russa Catarina a Grande, que ao levar a soberana aos rincões do império mandou que as faixadas das casas fossem pintadas para esconder a decrepitude de tudo?

            Apresentarmo-nos com uma boa imagem aos olhos do mundo, como querem os defensores da Copa, será agir como Potemkin. Mas se Catarina se deixava docemente enganar não conseguiremos enganar o mundo com a encenação. Eles sabem que o Brasil é tão dividido e violento quanto a África do Sul. O resultado para nós, ao invés de incremento no turismo, poderá ser uma ressaca tal qual aquela que vivenciamos depois da construção do elefante branco chamado Brasília. Quisemos nos modernizar a todo vapor, cinqüenta anos em cinco e o que nós conseguimos foi aumentar nossa dívida pública e reforçar este caminho infeliz de desenvolvimento dependente que trilhamos até hoje, à cata de dinheiro alheio.

            Oxalá que pelo menos o Ministério Publico tenha capacidade de vigiar as mutretagens que vão pulular no caminho para  2014 para que a Copa não nos deixe um legado tão nefasto quanto foi Brasília.

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