Empoderamento para quê?

“Vindication” então relacionava algumas falhas das mulheres daquela época: a afetação de fraqueza e de timidez, que alimenta e satisfaz a premissa masculina da sua superioridade; o vício nas cartas, na fofoca, na astrologia, na sentimentalidade e no lixo literário; a obsessão com a indumentártia e a autoadmiração.

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon” escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), falando sobre as ideias contidas no livro “A Vindication of the Rights of Woman” da escritora e filósofa inglesa Mary Wollstonecraft (1759-1797)

 

E eu não podia deixar de pensar em seu modo de vida: uma esposa de quarenta anos para a cozinha, uma de quinze para outras coisas… sem dúvida ele tinha uma ou duas esposas de idade intermediária, mas eu me sentia mal em lhe perguntar.

Trecho retirado do livro “Soumission” do escritor francês Michel Houellebecq (1956- ), em que o narrador descreve sua visita à residência de um professor universitário belga convertido ao islamismo

    Prezados leitores, em algum ano do século XXI, Mohammed Ben Abbes, o candidato da Federação Muçulmana, é eleito presidente da França no segundo turno com apoio do Partido Socialista. No período imediatamente posterior a sua eleição, a Universidade Paris III (Sorbonne Nouvelle), onde o narrador de Soumission trabalha como professor, é fechada. Depois de algum tempo, a universidade é reaberta sob nova direção, dos sauditas, e passa a chamar-se Paris-Sorbonne. O narrador é desligado e começa a receber uma aposentadoria, que é suficiente para ele viver com um certo conforto.

    A situação prossegue assim até que ele é convidado por um professor que atualmente está trabalhando na universidade, Robert Reginger, a visitá-lo em sua casa. O objetivo de Reginger é convencer o narrador a voltar a ensinar na universidade, desde que ele se converta ao Islã. Os argumentos de Reginger em prol da existência de um deus pelo fato de o mundo apresentar evidências de um desenho inteligente não produzem um grande efeito no narrador, que em suas férias forçadas tentara em vão ter contato com o cristianismo visitando a abadia de Ligugé, fundada em 361.

     O que o impressiona mesmo no islamismo não é a teologia, mas a poligamia. Conforme o trecho que abre este artigo, o narrador nota que o professor universitário belga tem várias esposas, uma mais velha que cozinha muito bem, como o narrador pôde constatar, uma bem nova para manter acesa a paixão sexual. O narrador fica curioso em saber se Reginger tem outras esposas nem tão novas quanto a de 15 nem tão velhas como a de 40 para satisfazer outras de suas necessidades. Ter acesso a diferentes tipos de mulheres por meio da poligamia é certamente atraente a um homem como o narrador, que vive sozinho e não mais consegue mulheres a não ser pagando.

    Esta aí um sucesso dos homens: fazer as mulheres atenderem suas necessidades e institucionalizar isso através da religião, dando-lhe uma pátina moral pelo casamento, seja monogâmico ou poligâmico. No século XVIII na Inglaterra, uma mulher percebeu o modo como os homens conseguem isso moldando a mente das mulheres. Para Mary Wollstonecraft, os homens levam as mulheres, ao privá-las da educação que eles recebiam, a ver-se como brinquedos sexuais antes do casamento e como bibelôs, servas obedientes e máquinas de parir depois do casamento.

    Sem educação, as mulheres agem nos limites dos estereótipos cultivados pelos homens para sua satisfação. Conforme o trecho que abre este artigo, elas se mostram fracas e tímidas para reforçar o ego masculino e preenchem a mente com todo tipo de bobagem que as torna incapazes de pensar e de atuar de maneira independente no mundo. Sua única preocupação é a de embelezar-se e admirar-se no espelho, tornando-se assim atraentes o suficiente para fisgar um homem que as sustente e a de agradá-lo o mais longamente possível para que ele continue a sustentá-la.

    Mary Wollstonecraft considerava que essas fraquezas das mulheres, tanto do ponto de vista intelectual quanto de conduta, podiam ser resolvidas pela educação. Se às mulheres fosse dada a mesma chance de desenvolver o corpo e o espírito, elas se tornariam fortes fisicamente e competentes intelectualmente para ganharem sua própria vida e assim fugir dos estereótipos de fraqueza física, docilidade e incapacidade mental a que elas eram circunscritas. Enfim, a escritora e filósofa inglesa, que acabou morrendo de parto antes de completar 40 anos, era uma filha do Iluminismo, crente no poder do conhecimento e da razão para resolver os problemas da humanidade. Contra a opressão feminina pelos homens, contra a falta de liberdade das mulheres de gerir seu próprio destino, nada melhor do que colocá-las nas escolas ao lado dos homens.

    Considerando que, segundo a revista Forbes, a indústria da beleza movimentou 570 bilhões de dólares em 2023 no mundo todo e que se espera que ela cresça 8,4% ao ano até 2028, não parece que as mulheres tenham abandonado de todo a preocupação em mostrar-se atraentes fisicamente para serem objeto do desejo sexual masculino. Mesmo num país como os Estados Unidos, em que, segundo a mesma revista, 58% dos estudantes universitários são mulheres, as vendas de cosméticos e outros produtos de beleza atingiram 94 bilhões de dólares em 2023. Em suma, a educação tão ardentemente proposta por Mary Wollstonecraft, que mudaria a natureza feminina, talvez tenha simplesmente dado mais poder às mulheres para perseguir seus ideais de beleza. E a astrologia e a fofoca, por acaso desapareceram? Ou foram reciclados nas mídias sociais?

    Prezados leitores, talvez o verdadeiro empoderamento não esteja na possibilidade de destruir os estereótipos e construir uma nova mulher, como vislumbrava Mary Wollstonecraft, uma mulher de classe média que tinha condições materiais suficientes para devanear sobre outros mundos possíveis. Talvez o empoderamento seja simplesmente poder escolher entre as várias opções disponíveis. Quem quiser e puder ser símbolo sexual, ok, quem quiser arranjar um bom marido com poder de compra, vá em frente e quem quiser andar com as próprias pernas sempre, correndo o risco de ficar sozinha, sem problemas. Menos problema ainda terá uma mulher que reúna todas essas características. Nesse sentido, o empoderamento feminino serve para que toda e qualquer mulher, independentemente de seu peso, beleza, inteligência, classe social ou caráter moral tenha a oportunidade de perseguir sua própria felicidade no século XXI. A não ser claro, que o livro de Michel Houellebecq se revele uma profecia sinistra…

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Palavras para quê?

A edição 2024 da mais completa e aprofundada pesquisa sobre os hábitos de leitura do brasileiro foi lançada nesta terça (19) com a informação de que nos últimos quatro anos houve uma redução de 6,7 milhões de leitores no país. Pela primeira vez na série histórica da pesquisa, a proporção de não-leitores é maior do que a de leitores na população brasileira: 53% das pessoas não leram nem parte de um livro – impresso ou digital – de qualquer gênero, incluindo didáticos, bíblia e religiosos, nos três meses anteriores à pesquisa.

Trecho retirado do artigo “Mais da metade dos brasileiros não lê livros”, aponta pesquisa, publicado no site da Câmara Brasileira do Livro sobre a 6ª Edição da Pesquisa Retratos da Leitura

Senhor Inspetor, a cabeça de um escritor talvez seja diferente das cabeças que o senhor está acostumado a vasculhar. Para um escritor, a palavra escrita é a realidade. […] Nós, escritores, trabalhamos bem com estereótipos verbais, a realidade só existe se houver uma palavra que a defina.

Trecho retirado do romance Bufo & Spalllanzani, do escritor Rubem Fonseca (1925-2020)

Mais preciso do que Roscelin, ele observava que predicamos uma palavra não como uma ocorrência, mas como tendo significado. Os universais surgem das semelhanças entre as coisas, mas uma semelhança não é em si uma coisa, como o realismo suponha de maneira equivocada.

Trecho retirado do livro “The Wisdom of the West”, do filósofo britânico Bertrand Russell (1872-1970), discorrendo sobre as ideias de Pierre Abélard (1079-1142), teólogo e filósofo escolástico francês

A literatura atesta assim a realidade social e econômica por refração e por metáfora, registrando as repercussões dos acontecimentos históricos e dos grandes problemas sociais em um nível individual e mítico: é a maneira pela qual o testemunho literário vive e não se cristaliza como ideologia, isto é, como um esquema morto.

Trecho retirado do livro “La Utopía Arcaica”, do escritor peruano Mario Vargas Llosa (1936-)

    Prezados leitores, vocês conhecem a história de Abelardo e Heloísa? Professor em Paris, Abelardo dava aulas para a sobrinha do cônego Fulbert, vigário geral da Catedral de Notre Dame. Heloísa de Argenteuil (1090-1164) tinha 17 anos e seu professor era 20 anos mais velho. Pintou um clima entre os dois, que levou à consumação sexual e à gravidez de Heloísa. Conta a história que o tio da moça,  enfurecido, mandou castrar Abelardo e ordenou os dois a se recolherem em instituições religiosas. Heloísa teve um filho, Astrolábio (116-1171), tornando-se posteriormente abadessa do convento de Argenteuil. Abelardo tornou-se monge e continuou a dar aulas. Aparentemente nunca mais se viram, mas continuaram a trocar cartas, que hoje podem ser lidas. O quanto e em que partes foram adulteradas ninguém pode dizer com certeza. De qualquer forma, elas eternizam uma trágica história de amor.

    A razão por que menciono o casal francês da Idade Média é que Abelardo tomou parte em uma das principais polêmicas filosóficas da época, a disputa entre nominalistas e realistas. Seguindo o idealismo de Platão, os realistas defendiam que os universais, isto é, os termos gerais que representavam uma recorrência ou um princípio de agrupamento ou classificação, eram coisas. Já os nominalistas, invocando Aristóteles, postulavam que os universais eram simplesmente nomes. Conforme o trecho que abre este artigo, Abelardo filiava-se à corrente dos nominallstas: os universais expressam as semelhanças entre as coisas, mas não são coisas, os referentes desses termos gerais não existem no mundo exterior, apenas como conceitos mentais que ajudam o homem a entender o mundo. O que existe na realidade são coisas das quais extraímos características comuns, abstraindo a miríade de características individuais delas.

    À luz dessa explicação, fica mais fácil entender as palavras de Ivan Canabrava ditas ao inspetor Guedes, que investiga a morte de Delfina Delamare no livro Bufo & Spallanzani, citado na abertura deste artigo e escrito por Rubem Fonseca, ele próprio um policial na década de 1950 no Rio de Janeiro. Para um escritor, a palavra escrita é a realidade no sentido de que esta só se torna inteligível, isto é, presente na mente do indivíduo, se ela for classificada, categorizada, enquadrada, definida por uma palavra, do contrário, ela é um mero borrão, uma sombra indistinta, não perceptível pelo homem. Independentemente se a palavra é a coisa em si ou um conceito mental, ela presentifica a realidade para aquele que a utiliza, torna a realidade mais nítida, clara, livre dos infinitos detalhes que confundem e não explicam nada, como diria o outro Abelardo, o Barbosa, dito Chacrinha (1917-1988), cujo bordão era “eu vim para confundir, não para explicar”.

    Se o escritor usa a palavra para presentificar a realidade na sua mente, a palavra acaba substituindo a realidade. A palavra não é só usada para entender a realidade, mas para criar um mundo paralelo, daí que ela ascende à condição de mito, conforme explica Mario Vargas Llosa no trecho que abre este artigo. A literatura, palavra escrita, é antes de tudo uma narrativa mítica, uma história fictícia que em sendo inventada na mente do escritor descola-se da realidade social e econômica que lhe serviu de inspiração. Para o escritor peruano, se o literato permanecer muito preocupado em ser fiel à realidade social e econômica, atentando para todas as suas particularidades, ele vai se tornar um ideólogo, isto é um veiculador de ideias sobre como ele vê a realidade. A verdadeira literatura não explica a realidade, mesmo porque ela não consegue abarcá-la em sua totalidade, ela tece uma narrativa totalmente independente do mundo das coisas. Tal narrativa cria sua própria teia de significados pela relação das palavras entre si, o que acaba iluminando aquela realidade da qual ela se desprendeu, mostrando-a sob um novo prisma.

    Entendimento e desprendimento da realidade, logos e mito, a literatura, veiculada pelos livros, nos faz mais alertas sobre o mundo que nos cerca e ao mesmo tempo nos permite sonhar com outros mundos possíveis. Uma pena que nós, brasileiros, não atentemos para a utilidade dupla da literatura. Conforme o artigo citado na abertura deste artigo, nos últimos quatro anos houve uma diminuição no número de leitores entre os brasileiros alfabetizados, fato constatado pela pesquisa realizada em 208 municípios. O resultado parece mostrar que nós consideramos a palavra escrita enfadonha e ininteligível, independentemente do meio em que seja veiculada, digital ou físico.

    Prezados leitores, de Abelardo na França do século XI, ao Ivan Canabrava do século XX no Rio de Janeiro, passando por Vargas Llosa no Peru, todos celebraram a palavra em suas múltiplas dimensões, cognitiva, mítica, sensorial e por aí vai. Coisa ou construto mental, realidade ou ficção, ela é a nossa janela para o mundo, nosso meio de interface com ele. Oxalá que o ser humano possa explorar essa ferramenta até o final do nosso percurso na Terra, mesmo que não seja no Brasil, mas alhures. Nossa saúde mental e espiritual agradece.

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O que queremos?

Como a maior parte dos homens de negócios, ele não tinha respeito nenhum sobre pessoas que escreviam sobre economia ou sobre o governo; ele os considerava frasistas que tinham pouco do senso corretivo da realidade, ou da natureza e dos limites do homem. Ele tinha certeza de saber mais do que eles o que queria a população francesa e o que ela deveria ter: eficiência e integridade no governo, moderação dos impostos, livre iniciativa nos negócios, regularidade do provisionamento, segurança de emprego remunerado na indústria, propriedade campesina e um lugar de destaque para a França no concerto das nações; se isso fosse dado a eles as pessoas não insistiriam em determinar as medidas ou preencher cargos pela contagem de narizes depois de uma disputa verbal.

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as ideias que Napoleão Bonaparte (1769-1821), imperador da França de 1804 a 1814, tinha sobre a necessidade da censura.

Ele havia lido e aceito os princípios de governo de Maquiavel, sem sentir um amor comparável ao do filósofo florentino por seu país. A França não era realmente sua pátria, era apenas seu trampolim. A religião não era para ele a humilde aceitação de um ser supremo, mas um instrumento para a conquista do poder. Homens e mulheres não eram seres dotados de alma, mas instrumentos. Ele não era sanguinário, mas sempre indiferente à carnificina da vitória. Ele tinha a brutalidade de um condottiere, nunca os modos de um cavalheiro. E esse indivíduo vulgar e coroado arrogava-se juiz e censor do pensamento e de todas as manifestações orais, da imprensa, que era o último refúgio da liberdade, e dos salões, que eram cidadelas do livre pensamento da França.

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as opiniões da escritora francesa Madame de Stael (1766-1817) sobre a personalidade de Napoleão Bonaparte (1769-1821).

    Prezados leitores, permitam-me relatar um episódio ocorrido comigo há vinte dias. Estava caminhando na rua, à noite, escutando música no meu aparelho celular quando de repente um ciclista veio, tomou-o e foi embora. Seguiram-se os passos esperados de uma vítima: correr para casa para bloquear o aparelho, ligar para o SAC do banco para bloquear senhas. Sabendo da localização do celular, desci à rua, parei uma viatura de polícia e disse a eles onde ele estava. Disseram que iriam passar por lá. Não sei se passaram.

    O engraçado é a reação quase unânime das pessoas quando ouvem sua história: é a de, com mais ou menos delicadeza, alertar sobre a imprudência de usar o celular na rua. Ou seja, a premissa básica em nossa sociedade é que o erro é seu se você ignora o fato de que um celular nas orelhas de um indivíduo na calçada será alvo de furto porque é assim que são as coisas nas grandes cidades brasileiras. O celular é um dispositivo concebido para facilitar a vida das pessoas, inclusive como instrumento de trabalho, mas na prática devido à violência ele deve ser usado dentro de casa ou do escritório, como o bom e velho telefone fixo. Por quê? Ora, porque há gangues de ciclistas e motociclistas atuando impunemente, há redes de receptadores de mercadorias roubadas ou furtadas e há um poder governamental que considera isso banal, a ponto de não dar prioridade ao combate a essa teia de criminalidade.

    Desculpem meu solipsismo. Certo, não sofri violência física, não levei um tiro na cabeça, não fui sequestrada nem estuprada. A subtração de celulares, perto dos outros problemas de segurança que existem em nosso país, é um assunto desimportante. E no entanto, a certeza de que se eu usar novamente o aparelho na rua correrei o mesmo risco me encheu de desânimo e raiva. Fiquei lembrando de que na campanha para a prefeitura, alguns candidatos falaram da questão dos celulares e propuseram medidas.

    O fato é que não há a mínima possibilidade de eu, como cidadã, exigir que alguma providência seja tomada. Posso votar nas próximas eleições no candidato da oposição que aborde o problema. Mas se ele ganhar e não fizer nada? Espero quatro anos para votar em outro candidato e vou alternando as escolhas até eleger um candidato que cumpra promessas? E se nenhum dos eleitos cumpre promessa nenhuma, o que fazer? Conformar-se com a mediocridade e incompetência e seguir em frente, lembrando sempre de jamais tirar o celular da bolsa estando na rua? Quero segurança e não tenho, mas tenho o direito de votar a cada dois anos no Brasil para cargos no Executivo e no Legislativo. De que me serve poder votar? É pecado priorizar a segurança em detrimento da liberdade?

    Napoleão Bonaparte tinha uma resposta definitiva a essa questão, conforme o trecho que abre este artigo. A maioria das pessoas quer ter emprego, quer que o governo seja eficiente e cumpra suas obrigações, quer poder ser proprietário, quer pagar a menor quantidade de impostos possível. Se as pessoas têm acesso a isso, elas não farão questão de ter o direito de escolher representantes e de ter sua voz ouvida em algum parlamento. Quem faz questão de discutir ideias são intelectuais que constroem castelos no ar em termos de sistemas econômicos, sociais e políticos sem levarem em conta a natureza humana, mesmo porque eles normalmente não têm experiência sobre as durezas da vida.

    Daí por que Napoleão se achava no direito de impor censura e concentrar o poder em suas mãos. Se ele sabia como administrar porque tinha conhecimento e experiência por que dar liberdade de expressão para que intelectuais usassem a imprensa como instrumento de crítica ao governo? Por que permitir críticas que desestabilizassem a ordem dominante e trouxessem o risco do caos que havia reinado durante a Revolução Francesa (1789-1799)? Melhor seria censurar para evitar problemas e dar plenas condições ao Imperador realizar sua obra prima, oferecendo paz, segurança e prosperidade aos franceses.

    Não era assim que pensava Madame de Stael, nascida Germaine Necker, filha de Jacques Necker (1732-1804), antigo Ministro das Finanças de Luís XVI. Entre a segurança e a liberdade, a escritora, herdeira da fortuna do seu pai banqueiro, apostava na liberdade de pensamento, mesmo porque Napoleão não era um líder perfeito, ao contrário, ele tinha vários defeitos. Conforme o trecho que abre este artigo, para Madame de Stael ele não seguia nenhum princípio moral, fazendo uso de todos os meios para realizar seus sonhos de poder e glória, inclusive à custa de milhares de vidas. O acordo com a Igreja Católica nada mais fora do que um estratagema para controlar o comportamento das pessoas e tornar o governo mais fácil, pois Napoleão era certamente um agnóstico. Diante de um homem vaidoso que tinha uma autoconfiança muito grande e não sabia quando parar, era preciso ter a liberdade de criticá-lo para que seu comportamento pudesse ser controlado e os franceses não fossem sacrificados no altar das suas conquistas militares.

    Alguns dirão que quando se tem a barriga cheia, e a certeza de que ela permanecerá assim por muito tempo, a liberdade de pensamento e de expressão tem muito mais importância do que para um camponês ou um trabalhador cuja vida era muito mais incerta e perigosa. Napoleão era o homem da segurança material e espiritual, mas ao mesmo tempo era um tirano opressor que não aceitava ser contrariado porque se achava mais inteligente e sábio do que todos. Enquanto seu governo proporcionasse meios de subsistência à maioria silenciosa, ela não se preocuparia com firulas libertárias e o valor da segurança era muito maior que o da liberdade. Só se a segurança fosse ameaçada por derrotas militares é que essa maioria iria prestar atenção à liberdade como direito de livrar-se de um governante que se transformara em um estorvo.

    Prezados leitores, está aí um osso duro de doer em termos de escolha moral. Gozo da liberdade de escrever e publicar meus humildes artigos na internet e ao mesmo tempo não gozo do direito de poder utilizar um celular na rua. O ideal seria que o problema das gangues de ciclistas fosse resolvido por um dos candidatos eleitos democraticamente. Mas e se não for? Será que se o Estado brasileiro continuar a ser incapaz de realizar suas funções mais básicas, proporcionando segurança em seu sentido mais amplo, nossas liberdades democráticas continuarão em pé? Será que, cheios de medo, angústia e ansiedade não acabaremos optando por alguém que nos pareça providente? Aguardemos e esperemos que nossa sociedade permita-nos fazer a síntese entre segurança e liberdade.

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Educação para quê?

É preciso educar a avaliação para que sirva ao seu verdadeiro papel: indicar se a educação está oferecendo a cada pessoa, desde a infância, o mapa para sua vida pessoal e para suas atividades sociais na direção de aumentar o grau de riqueza, liberdade, justiça, civilidade no país onde vive. Não há outro caminho para encaminhar um Brasil mais justo.

Trecho retirado do artigo “A Educação da Educação”, do ex-senador Cristóvam Buarque, publicado na revista VEJA de 29 de novembro

Quem cuida da educação brasileira não pode ignorar uma notícia do dia 30 de outubro. Nela, é apresentada uma pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), identificando as 29 ocupações (dentre 231) com mais gente abandonando do que entrando. Pois não é que ali estão sete categorias ligadas ao ensino? Isso apesar de ganhos salariais de mais de 50%.

Trecho do artigo “Tabela do ‘Estadão’ é grito da profissão docente, de Cláudio de Moura Castro, publicado no jornal o Estado de São Paulo de 1º de dezembro

 

 “De todos os motores sociais, a escola provavelmente é o mais eficaz, porque exerce três tipos de influência sobre os jovens que ela abraça e dirige: uma por meio do mestre, outra por meio dos colegas e a última por meio de regras e regulamentos”. […] Napoleão pensava sobre a educação pública em termos políticos: sua função era a de produzir cidadãos inteligentes mas obedientes. “Ao estabelecer um corpo de professores,” ele disse, com uma franqueza incomum em governos, “meu principal objetivo é o de assegurar os meios para direcionar as opiniões morais e políticas… Enquanto o indivíduo crescer sem saber se é republicano ou monarquista, católico ou agnóstico, o estado nunca formará uma nação; permanecerá sobre pilares vagos e incertos; ficará constantemente exposto à desordem e à mudança.”

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as ideias que Napoleão Bonaparte (1769-1821), imperador da França de 1804 a 1814, tinha sobre a educação como fundação da ordem moral

    Prezados leitores, sou de uma geração que teve aulas de Educação Moral e Cívica. Não lembro muito bem do conteúdo, porque a matéria não era levada muito a sério e não fazia com que o aluno repetisse de ano, como fazia o Português ou a Matemática. Lembro também que na última página dos cadernos que eu usava no ensino primário havia o Hino Nacional. Até hoje eu o sei de cor, como sei cantar o Hino da Bandeira e o Hino da Independência. Certamente esse conteúdo educacional era resquício da ditadura militar (1964-1985), duvido que hoje as crianças sejam obrigadas a decorar hinos, quaisquer que sejam. Enfim, todo esse civismo e moralismo foi jogado na lata de lixo da história, considerados tão ultrapassados como a sucessão de generais-presidentes.

    E no entanto, há um fundamento histórico para tal educação, independentemente da ideologia do governo. Já falei aqui neste meu humilde espaço, no texto “As Otárias”, sobre a Concordata que Napoleão Bonaparte assinou com a Igreja Católica em 1801 para que a religião voltasse a ter um papel na formação moral dos franceses depois dos loucos anos da Revolução, em que tudo foi permitido, inclusive e principalmente a violência e a desordem. Conforme o trecho que abre este artigo, o imperador também considerava que a educação deveria desempenhar o mesmo papel pragmático: o de inculcar regras e o hábito de respeitá-las não porque aquelas regras fossem verdadeiras, mas porque fazer com que cada cidadão se enquadrasse no molde proposto era bom por si mesmo, levando ao respeito à hierarquia e à ordem e assim à prosperidade de todos.

    Nesse sentido, Napoleão estava longe de ser um ideólogo, ele não tinha paciência com pessoas que pensavam muito e elucubravam sistemas que não levavam em conta a realidade da natureza humana e a experiência histórica. O único exercício filosófico válido era o estudo da História, porque permitia ao homem ter contato com as alegrias e vicissitudes dos que viveram antes dele e a lição a ser tirada era que se a sociedade desse liberdade em demasia aos indivíduos eles abusariam dela e dariam vazão aos seus instintos e paixões, chafurdando na violência, na ganância, na busca do prazer sem medidas. Então tratemos de educar as pessoas para aprenderem as regras da vida em sociedade e assim torná-la mais estável e menos sujeita a revoluções dos radicais da esquerda que queriam a justiça social a qualquer preço e a contrarrevoluções dos reacionários da direita, que queriam a volta da monarquia e do feudalismo.

    O meio que Napoleão encontrou para isso foi criar uma Universidade Imperial, encarregada da formação de professores para atuarem em toda a França. Haveria uma carreira em que cada pessoa só poderia ser promovida se tivesse ocupado anteriormente um posto inferior. 6.400 bolsas de estudo foram incialmente oferecidas para atrair pessoas: em troca da possibilidade de ascensão até os mais altos postos, o indivíduo comprometia-se a dedicar-se ao ensino e a só casar com 25 anos de idade para viabilizar tal comprometimento. E qual era o currículo básico nesta Universidade para os soldados do ensino? Nada de discussões políticas ou morais sobre se a república era melhor que a monarquia ou se a religião era uma opção filosoficamente válida. As matérias eram línguas, literatura e ciências. De acordo com Will Durant, o resultado das bolsas e da reorganização do currículo foi que os franceses ficaram na crista da onda do ponto de vista intelectual na Europa por 50 anos.

    Transformar a escola em um local para aprender como ser um bom cidadão, útil para a sociedade, sem discussões inúteis sobre filosofia que levassem apenas ao embate de ideologias, esse era o ideal de Napoleão. Talvez algumas dessas características possam ser aproveitadas no Brasil em pleno século XXI, sem o ranço da moral e do civismo da década de 1970. Afinal, a tarefa de regenerar a docência é urgente em nosso país, conforme mostra a pesquisa da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) citada na abertura deste artigo, que identificou 29 ocupações no ramo educacional entre as mais indesejadas no Brasil, a despeito do aumento salarial. Se os professores estão fugindo de dar aulas, independentemente do quanto ganham, deve haver algum problema no ambiente escolar que o torna repugnante.

    Será a violência? Será a falta de respeito pelo professor? Será em última análise que a sociedade brasileira como um todo não vê a educação como uma ferramenta estratégica para a construção da cidadania, como Napoleão via há mais de 200 anos? Afinal, se ninguém dá importância à educação fora do ambiente escolar porque aqueles que atuam dentro dele dariam? Como agiriam diferente se os valores da sociedade na prática não estabelecem uma missão ao esforço de educar? Como teriam motivação para permanecer dentro da escola se ninguém vê sentido para aquela atividade?

    Uma prova de que o brasileiro no geral fala da boca para fora do valor da educação para o bom funcionamento da sociedade é o insucesso político de um homem claramente comprometido com tal princípio, Cristovam Buarque. É verdade que ele foi reitor da Universidade de Brasília, governador de Brasília, ministro da Educação e eleito duas vezes para o Senado Federal. No entanto, em 2006, quando foi candidato à Presidência da República, propondo a ênfase na educação como chave para construir um Brasil mais justo, teve apenas 2,4% dos votos dados. Conforme o trecho que abre este artigo, para Cristovam Buarque a educação de qualidade, desde a infância, é o mapa que norteará o indivíduo, permitindo-lhe fazer escolhas que farão a sociedade como um todo ser mais próspera, livre, justa e civilizada.

    Prezados leitores, seja como mapa pessoal, como propõe Cristovam Buarque, seja como instrumento para inculcar bom comportamento no indivíduo e criar uma sociedade ordeira, como queria Napoleão, a educação deveria ser sempre um dos meios mais estratégicos para conseguirmos atingir objetivos de longo prazo. Será que algum dia de fato teremos esse valor e o concretizaremos na prática? Ou será que continuaremos a falar da educação como exercício de retórica para nos sentirmos bem com nós mesmos e perante os outros? Esperemos que da próxima vez que um outro Cristovam Buarque apareça para disputar cargos no executivo sejamos mais receptivos a sua mensagem.

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Panelas no fogo ou intrigas corporativas?

Certamente, à época em que a mulher comprava e descascava ela mesma seus legumes, aprontava a carne e cozinhava o ragu durante várias horas, uma relação tenra e nutritiva poderia se desenvolver; as evoluções dos condicionamentos alimentares haviam levado ao esquecimento dessa sensação que, além disso, Huysmans asseverava com franqueza, era uma pífia compensação para a perda dos prazeres carnais. Ele mesmo, em sua própria vida, não tinha de jeito nenhum coabitado com uma dessas mulheres de “panela no fogo”, as únicas que podem, de acordo com Baudelaire, juntamente com as “garotas”, ser convenientes ao literato – observação ainda mais justa considerando que a filha pode perfeitamente, com o passar dos anos, se transformar em mulher “panela no fogo”, que é mesmo seu desejo secreto e sua tendência natural.

Trecho retirado do livro “Soumission” do escritor francês Michel Houellebecq (1956- )

 

Ela era só sentimento e nenhum intelecto, exceto pela sabedoria que a natureza dá à mulher para lidar com os homens. “Josefina”, ele dizia a ela, “você tem um grande coração e uma cabeça fraca.” Ele raramente deixava que ela falasse de política, e quando ela insistia, ele logo esquecia suas ideias. Mas ele lhe era grato pelo ardor sensual dos seus abraços, pela “doçura infalível do seu temperamento”, e pela modéstia e graça com as quais ela cumpria suas muitas funções como imperatriz.

Trecho retirado do livro “The Age of Napoleon”, escrito por Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre Marie-Josèphe Tascher de la Pagerie (1763-1814), primeira esposa de Napoleão Bonaparte (1769-1821) e imperatriz dos franceses de 1804 a 1809

O domínio das empresas ainda é masculino. As mulheres ainda estão na gerência, mas não na diretoria. Isso traz questões desde desigualdade salarial até assédio. Em alguns casos, elas não se sentem à vontade nesses ambientes e pedem demissão, mas também há a questão da sobrevivência…

Trecho retirado do artigo “Igualdade em marcha lenta – Um ano após a lei entrar em vigor, diferença salarial entre homens fica praticamente estagnada”, publicado no jornal O Globo em 24 de novembro

    Prezados leitores, há duas semanas falei sobre mulheres otárias, isto é, mulheres que se sacrificam, isto é que preferem sofrer a ver as pessoas sofrerem e que em assim fazendo, acabam tendo um impacto positivo sobre a sociedade, em detrimento de sua própria vida. Falei especificamente da nossa primeira imperatriz Leopoldina (1797-1826), que foi uma das artífices da Independência do Brasil e garantiu a continuação da dinastia, dando à luz o futuro D. Pedro II (1825-1891). Em contraponto a ela estava a amante de D. Pedro I (1798-1834), Domitila de Castro Canto e Melo (1797-1867), que se tornou uma mulher rica por causa de seu relacionamento com o imperador, relacionamento este que, por ser escancarado, comprometeu em muito a credibilidade da incipiente monarquia brasileira. Nesta semana, falarei de Josephine, a primeira mulher de Napoleão, que fica num meio termo entre esses dois polos: foi esperta para sobreviver, mas não de maneira prejudicial a outros.

    Nascida na Martinica, Joséphine casa-se com o visconde de Beauharnais em 1779, que é guilhotinado em 1794. Ela escapa do mesmo destino por pouco, quando o regime do Terror acaba. O que uma viúva com dois filhos pequenos poderia fazer para sustentá-los? A crioula torna-se amante de Barras (1755-1829), um dos membros do Diretório que governa a França depois do Terror e Barras, cansado dela, a passa para as mãos de Napoleão, um general então em ascensão, com o qual ela se casa em 1796.

    Conforme mostra o trecho que abre este artigo, Joséphine usou como estratégia de sobrevivência agradar Napoleão, isto é satisfazê-lo sexualmente sem pretender dar palpites sobre assuntos de governo. Além das carícias, a martinicana encaixava-se no estereótipo que Napoleão tinha de uma mulher, um ser emotivo que tinha o cérebro imaturo de uma criança. Ela chorava, desmaiava e com seu jeito gentil e indolente conseguia tudo o que queria do mais despótico e voluntarioso dos homens: ele lhe dava uma pensão anual de 600.000 francos, mais 120.000 para suas obras de caridade, e apesar de espernear pagava todas as dívidas que a esposa fazia comprando joias e roupas.

    O desempenho do papel de fêmea doce e carinhosa que não se mete nos assuntos do universo masculino, eis o segredo de Joséphine para que em agradando Napoleão este satisfizesse suas necessidades e desejos. No entanto a crioula de olhos verdes tinha um sério defeito: seis anos mais velha que seu esposo, ela não podia mais engravidar e isso foi razão suficiente para que Napoleão a repudiasse para casar-se com Maria Luísa (1791-1847), a irmão mais velha de nossa imperatriz Leopoldina que em 1809 estava no florescer dos 18 anos e portanto, apta a ter filhos. E assim Joséphine foi posta de lado, sem que, no entanto, Napoleão deixasse de prover uma pensão a ela e lhe desse a propriedade do castelo de Malmaison.

    Mais de duzentos anos depois e esta mulher que adota como lema fazer de tudo para agradar o homem está no imaginário do escritor Michel Houellebecq, que a intitula mulher da “panela no fogo”. Conforme o trecho que abre este artigo, é a mulher perfeita para um escritor: ela faz comida, proporciona prazeres sensoriais a um homem quando os prazeres carnais já não estão tão disponíveis devido à idade, cria um ambiente doméstico propício a que o literato possa dar expressão integral a seu intelecto. Será que esse ideal de feminilidade está tão introjetado na mente masculina que é difícil aceitar qualquer outro papel das mulheres que fuja à submissão?

    O artigo citado na abertura deste artigo mostra que apesar da lei vigente desde novembro de 2023, que prevê a igualdade salarial de gênero no Brasil, há uma diferença de 19% entre o salário de homens e mulheres, número este estagnado em relação àquele de 2023, de 20%. Há dois problemas: em primeiro lugar, mesmo quando mulheres e homens exercem a mesma função, eles ganham mais do que elas; em segundo lugar, segundo a empresária Ana Fontes, presidente da Rede Mulher Empreendedora, as mulheres raramente ocupam os cargos mais altos, chegando quase sempre no máximo a gerentes. Por que será que as mulheres não se sentem à vontade no ambiente de trabalho? Será porque elas têm esse hábito de agradar, ser doce, evitar conflitos e isso impede que elas saibam agir no mundo da competição corporativa? Ou será que é porque os homens impõem esse modo submisso de ser às mulheres como modo de eliminar a concorrência e levar a mulher a continuar a querer agradar os homens?

    Prezadas leitoras, qual será a melhor estratégia para nos conduzirmos no mundo? Ser como Joséphine e ser aquilo que o homem espera de nós para que ele nos sustente ou sermos independentes e desagradáveis para defender nossos interesses, na disputa de recursos com os homens? Submissão ou conflito aberto? A cada uma a liberdade de decidir de acordo com suas próprias inclinações, levando em conta suas chances de sobreviver em um regime ou outro, de acordo com suas características físicas, morais e intelectuais. Para as que queiram, panelas no fogo, para as outras as intrigas do mundo corporativo. Seja agradando como Joséphine, seja disputando, como as mulheres entrevistadas pelo jornal O Globo que buscam justiça no mercado de trabalho, as mulheres sempre estarão em relação dialética com o sexo masculino. Vive la diffèrence!

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