Religião para quê?

Ele comparou esses pagãos polidos, herdeiros de um milênio de cultura, com os vetustos teólogos que o haviam rodeado em Nicomédia, ou aqueles estadistas piedosos que haviam considerado necessário matar seu pai, seus irmãos e muitos mais; e ele concluiu que não havia bestas mais ferozes que os cristãos.

Trecho retirado do livro “The Age of Faith”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre a vida de Flavius Claudius Julianus ou Juliano, o Apóstata (331-363), imperador romano

[…] ele identificava as ideias arquetípicas criativas de Platão com a mente de Deus, considerava-as como o Logos ou a Sabedoria intermediária por meio da qual todas as coisas tinham sido feitas e olhava o mundo da matéria e do corpo como um impeditivo satânico à virtude e à liberação da alma aprisionada. Por meio da piedade, da bondade e da filosofia, a alma poderia libertar-se, elevar-se à contemplação das realidades e das leis espirituais e assim ser absorvida no Logos, talvez no Deus final Ele mesmo.

Trecho retirado do livro “The Age of Faith”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as ideias filosófico-religiosas de Flavius Claudius Julianus ou Juliano, o Apóstata (331-363), imperador romano

Quando uma religião torna-se uma instituição para forçar a crença ou a devoção; quando ela assume para si o direito exclusivo de interpretar as Escrituras e definir a moralidade; quando ela forma uma classe sacerdotal que alega ter a abordagem exclusiva de Deus e da graça divina; quando ela faz da sua celebração um ritual mágico dotado de poderes miraculosos; quando ela se torna uma arma do governo e um agente de tirania intelectual; quando ela procura dominar o estado e usar os governantes civis como ferramentas da ambição eclesiástica – então o livre pensamento  se rebelará contra tal igreja  e procurará fora dela aquela “pura religião da razão” que é a busca da vida moral.

Trecho retirado do livro “Rousseau and Revolution”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as ideias de Immanuel Kant (1724-1804) sobre religião

    Prezados leitores, vocês já ouviram falar de Juliano, o Apóstata? É o mesmo personagem histórico que dá nome ao romance Julian, do escritor americano Gore Vidal (1925-2012) que se interessou por este imperador do século IV cujo reinado durou breves 20 meses. A razão do interesse de Vidal por Juliano é que o americano era um classicista, um homem que enfatizava a herança greco-romana da civilização ocidental em detrimento da herança cristã, assim como fez o filósofo Bertrand Russell (1872-1970). E ninguém como imperador Juliano representou esse conflito entre o paganismo e o cristianismo de maneira tão dramática não só por sua vida como por suas ideias.

    Juliano era sobrinho de Constantino, o Grande (272-337), o primeiro imperador romano convertido ao cristianismo. Ao morrer, Constantino fundador da Nova Roma, que depois viria a ser chamada de Constantinopla e hoje é Istambul, deixou o poder para seus três filhos, Constantino, Constâncio e Constante. Quando estes ascenderam ao comando do império, decidiram que seria melhor matar possíveis concorrentes e com isso o pai, o irmão mais velho e os primos de Juliano foram eliminados. Enviado a Nicomédia, Juliano foi educado pelo bispo Eusébio (-341) e voltando à cidade depois de um exílio forçado na Capadócia interessou-se pela filosofia de Libânio (314-394). Em 355 Juliano foi novamente exilado por ordem de Constâncio desta vez para Atenas, onde caiu de amores pelo pensamento, pela religião e pela filosofia dos pagãos.

    Conforme o trecho que abre este artigo, em Atenas Juliano comparou os pagãos educados e sofisticados de Atenas, que discutiam livremente na ágora e cultivavam a beleza e a busca da verdade por meio da razão, com aqueles homens que professavam a religião cristã mas tinham assassinado sua família na luta pelo poder. Em fazendo esse cotejo, Juliano decidiu-se pelo paganismo e quando ascendeu ao trono, em 361, procurou estabelecer uma nova religião em oposição ao cristianismo que retomasse os princípios tradicionais que haviam inspirado a teologia pagã.

    A religião proposta por Juliano fundava-se em argumentos racionais. Tomando a ideia platônica das formas ideais que dão origem às coisas do mundo, aquele que seria chamado pelos cristãos de apóstata considerava que o Logos que dá forma ao mundo material é o ideal a que cada um deveria aspirar. E essa ascensão ao mundo superior espiritual só seria possível se o homem praticasse a virtude para que ele se desvencilhasse dos desejos da carne. O espírito e a matéria estão sempre em conflito e cabe ao ser humano, dotado de livre arbítrio escolher o bem para aproximar-se do Logos e da mente de Deus.

    Juliano morreu aos 32 anos em Ctesifonte, no atual Iraque, trespassado por uma lança provavelmente atirada por um cristão quando travava guerra contra os persas. Seus esforços de paganização morreram com ele e o culto à herança cultural grega só seria retomado 1.000 anos depois, com o fim da Idade Média, quando o cristianismo que havia reinado inconteste começa a perder credibilidade entre as elites intelectuais da Europa. No século XVIII, essa crítica ao cristianismo atinge seu ápice com o movimento Iluminista, que teve entre seus maiores expoentes o filósofo Immanuel Kant (1724-1804).

    Kant funda sua crítica à religião no fato de o cristianismo ter se institucionalizado por meio de uma igreja que adquiriu poder político, econômico e cultural e usava e abusava dele para perseguir seus fins, que eram sempre o da autopreservação. Nesse sentido a religião cristã havia se transformado em uma ideologia, isto é, em um sistema de ideias preocupado tanto com a verdade como com a conduta das pessoas. Era preciso moldar o modo como as pessoas se comportavam em todas as dimensões da vida – familiar, profissional, social, intelectual, econômica, política – impondo as verdades da igreja. Quem quer que não se enquadrasse nesse esquema, seja questionando os dogmas teológicos, seja comportando-se mal, deveria ser combatido como inimigo, herege, herético pois sua rebelião era um desafio à posição da igreja como instituição consolidada de controle total sobre a sociedade.

    Tais críticas à Igreja, que fizeram com que em 1793 as autoridades prussianas proibissem Kant de escrever ou falar sobre assuntos religiosos, não significa que Kant fosse ateu. Tal como Juliano, ele propunha uma religião fundada em bases racionais. Acreditar em Deus não exigia que se acreditasse na divindade de Cristo, ou no perdão dos pecados do homem pela crucificação do Filho de Deus, mas simplesmente acreditar que o ser humano era dotado de um senso moral inato, um senso do dever que o leva a escolher o caminho da virtude porque essa é a coisa certa a fazer.

    Nesse sentido uma religião da razão não envolve o cumprimento de rituais de veneração, a solicitação de favores especiais por meio da oração. Pedir coisas a Deus esperando que ele as conceda é uma superstição ilusória e moralmente errada pois fere a lei universal proposta por Kant de que devemos atuar de maneira que se todos atuarem como nós tudo sairá bem. De forma que se cada crente for pedir para si algo em detrimento dos outros, haverá uma violação desse princípio fundamental de uma moralidade fundada na obrigação de cumprir o dever como um fim em si, ditado pela natureza moral do homem.

    Prezados leitores, Juliano no século IV e Kant no século XVIII desafiaram o cristianismo dando novas respostas à pergunta sobre a função da religião: ela não deve ser um instrumento de conquista e perpetuação do poder, nem ser uma ferramenta ideológica exclusiva de um povo ou país a ser imposta a outros. A religião deve ser um caminho de virtude que ao ser trilhado, leva o homem a concretizar sua vocação para a racionalidade, para o uso da razão de maneira a superar as paixões, os desejos, e o mal que advém do culto da matéria em detrimento do espírito. Pode ser que Juliano e Kant tenham exigido demais do homem ao tirar todo o aspecto emocional da fé religiosa, transformando-a em uma busca de um ideal irrealizável, mas uma coisa é certa: apontando a tendência do cristianismo a tentar controlar todas as esferas da vida humana, eles propuseram, cada um à sua maneira, um modo de praticar a piedade sem que seja preciso abdicar da liberdade de pensamento. Fica a lição para o século XXI.

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Esse est percipi

O fornecedor do Pentágono, Elon Musk, atualmente o homem mais rico do mundo, postou um videoclipe mostrando como as pessoas podem usar a ferramenta de geração de vídeos por meio de IA, a Grok Imagine, para criar a imagem do rosto de uma mulher dizendo “Vou sempre amar você.” O clipe gerado por IA parece falso e horripilante, e tudo em relação ao post de Musk é decididamente deprimente. Mas não é tão falso, horripilante e deprimente quanto a distopia capitalista que deu origem a ele. Isso é tudo o que a classe dominante tem a oferecer a você. Amor fake. Conexões fakes. Truques inúteis para nos entreter à custa da biosfera agonizante.

Trecho retirado do artigo “This is All Our Rulers are Offering Us”, publicado em 10 de novembro de 2025 pela jornalista australiana Caitlin Johnstone

Ele não negava a realidade de um mundo externo, uma fonte externa das nossas percepções; ele apenas negava a materialidade daquele mundo. Os objetos externos podem continuar a existir quando não os percebemos, mas isso só ocorre porque são objetos de percepção na mente de Deus. E na verdade (ele continuava), nossas sensações são causadas não pela matéria externa, mas pelo poder divino atuando sobre os nossos sentidos. Somente o espírito pode atuar sobre o espírito; Deus é a única fonte das nossas sensações e ideias.

Trecho retirado do livro “The Age of Louis XIV”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), sobre o filósofo irlandês George Berkeley (1685-1753)

    Prezados leitores, quem não se entretém com videoclipes do TikTok ou do YouTube? Sou fã de videoclipes chamados PUPPET REGIME, que mostram bonecos representando líderes mundiais como Vladimir Putin, Donald Trump, Nicolas Maduro, Xi Jinping, Narendra Modi e até Lula e Bolsonaro conversando entre si. O boneco de Donald Trump cantando “I brought peace to the Middle East” é impagável. O topete loiro está lá, a profusão de adjetivos que ele usa, o tom de voz que ele adota para proferi-los e principalmente o cacoete que o Trump real tem de sugar saliva na boca antes de começar uma nova sentença depois de uma pausa. Recomendo PUPPET REGIME a qualquer um que queira dar umas risadas com uma sátira às vezes inteligente e às vezes estereotipada do que fazem todos esses políticos citados. A inteligência artificial tem esse poder cada vez maior de imitar vozes e trejeitos das pessoas. Não há nada melhor para um esquete cômico do que tal verossimilhança.

    Por outro lado, há o lado negro dessa capacidade de imitação da realidade da IA, apontado por Caitlin Johnstone em seu artigo. Fazer um videoclipe em que uma bonita mulher diz ao espectador aquilo que ele quer ouvir pode ser à primeira vista um feito e tanto, mas o perigo está em substituir o real pelo fake: contentar-se com a interação com uma mulher fake, falando de maneira falsa que ama o espectador.  A pessoa que assiste a esse videoclipe está gastando o tempo dela consumindo aquele conteúdo quando poderia estar se dedicando a estabelecer conexões de verdade com o sexo oposto no mundo físico e não no mundo virtual dos aparelhos eletrônicos. Para Caitlin Johnstone, a distopia que os bilionários que estão desenvolvendo a IA estão criando consiste em colocar o ser humano em um ambiente cada vez mais fake, de contatos virtuais, de mensagens virtuais, de relacionamentos virtuais e a consequência disso é que vamos pouco a pouco nos desumanizando. O futuro é distópico porque as pessoas falarão de seus problemas emocionais com um terapeuta virtual, farão sexo com bonecos e terão namorados ou namoradas que serão criações de IA feitas sob medida para o usuário. Imerso na virtualidade total, o ser humano se transformará em um consumidor passivo de conteúdos fake destituído de autonomia, da capacidade de pensar e de atuar no mundo. Esta é a visão pessimista de Caitlin Johnstone se deixarmos que a revolução tecnológica proporcionada pela IA crie raízes na sociedade.

    O que é chocante para pessoas nascidas ainda no século XX é a disrupção do paradigma materialista tão entranhado na sociedade ocidental há séculos, desde o começo dos ataques ao cristianismo e sua espiritualidade engessada por parte dos filósofos iluministas. Esse paradigma postula basicamente que o mundo consiste em objetos materiais, duros, corpóreos, que podem ser vistos, tocados, cheirados, degustados, ouvidos. Objetos que têm uma certa consistência, um certo volume, uma certa maleabilidade, uma certa forma, uma certa cor, um certo odor. Há uma maneira objetiva de verificar a existência desses objetos, descrevendo-os e medindo-os de modo a estabelecer suas qualidades e quantidades. Tudo muito óbvio antes do advento do mundo virtual da internet e dos simulacros da IA, não? Não necessariamente, pois houve quem questionasse esses pressupostos materialistas que embasavam nossa visão de mundo até pouco tempo. Um desses indivíduos, foi o filósofo George Berkeley, cuja filosofia pode ser resumida na frase “Existir é perceber” ou “Esse est percipi”, como ele escreveu em latim.

    Berkeley nega o materialismo colocando a seguinte indagação: como podemos ter certeza que os objetos externos que causam uma impressão nos nossos órgãos do sentido realmente existem? Como ter certeza de que eles não passam de imagens vívidas surgidas durante o dia como os sonhos o são durante a noite? Para Berkeley, aquilo que consideramos como as marcas do que fazem os objetos terem uma realidade independente e a que chamamos de matéria, não passam de qualidades e quantidades determinadas por nossa mente. A extensão, a solidez, o formato, o número, o movimento, o repouso dos objetos são percepções da nossa mente e os objetos só adquirem existência para nós na medida em que são percebidos, daí o “Esse est percipi”.

    Nesse sentido, aquilo que chamamos de átomos, prótons, ânions, elétrons, nêutrons ou partículas fundamentais são convenções baseadas em nossas premissas materialistas. A existência de tal matéria é verificada por meio das qualidades e quantidades que determinamos e medimos por meio dos equipamentos que o ser humano teve a capacidade de inventar: a massa, a carga elétrica, a posição, a velocidade, o momento, o atrito e outras categorias. Para Berkeley, não há existência sem percepção, pois uma pressupõe a outra, o objeto só existe porque é percebido por uma mente que o descreve. Daí que uma mente inativa, que não está exercitando a percepção, não pode existir a não ser que ela mesma seja objeto de percepção de outra mente ativa. É nesse ponto que Berkeley introduz a noção de Deus, conforme o trecho que abre este artigo: a divindade é a mente que percebe tudo, que dá existência a tudo, inclusive a nós, seres humanos, é a consciência universal que é a fonte de todas as percepções e ideias. A ideia de Deus é o instrumento pelo qual Berkeley garante a existência eterna das mentes e daquilo a que chamamos de objetos físicos, os quais sob a ótica berkeliana são somente construções mentais.

    Como não deixarmos de traçar um paralelo entre essa consciência universal que dá vida a tudo por meio de sua constante atividade mental e a IA que hoje está sendo desenvolvida pelos bilionários capitalistas denunciados por Caitlin Johnstone? Afinal, ambos os pontos de vista substituem o paradigma da matéria pelo paradigma daquilo que só existe virtualmente e, em assim fazendo causam a subversão da noção de realidade: para Berkeley no século XVIII nada existe fora e independente de uma mente, assim como no mundo da IA no século XXI nada existe além do ambiente virtual, pois tudo pode ser criado dentro dele: pessoas, conexões, relações, mensagens.

    Prezados leitores, a disrupção do paradigma do materialismo e do realismo tão naturalizado na sociedade com o advento da Revolução Industrial no século XIX pode ser maléfica aos olhos de uma pessoa da geração de Caitlin Johnstone, educada com base naqueles princípios fundamentais. No entanto, o idealismo de Berkeley, isto é a noção de que o que quer que existe só é conhecido pelo homem por meio das ideias e como ideias, pode nos ajudar a entender e aceitar melhor o inevitável advento do mundo virtual criado pela IA.

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Exegeses

A tarefa do comentarista é penetrar na alegoria, perceber no corpo material das Escrituras sua alma e seu espírito, descobrir sua referência existencial para o cristão. A exegese correta (interpretação crítica) é uma dádiva da graça àqueles que eram dignos do ponto de vista espiritual.

Trecho retirado do verbete da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica sobre o teólogo e estudioso da Bíblia Origines Adamantius (185-254) ou Orígenes

A Igreja pode ser desculpada por ter condenado Orígenes: seu princípio de interpretação alegórica não somente tornava possível provar qualquer coisa, mas de uma tacada só destruía as narrativas das Escrituras e a vida terrena de Cristo; e recuperava o julgamento individual justamente quando propunha defender a fé. Enfrentando a hostilidade de um governo poderoso, a Igreja sentia necessidade de unidade; ela não poderia permitir-se, de maneira segura, ser dividida em uma centena de partes frágeis a cada lufada do intelecto, por heresias desleais, por profetas enlevados ou por filhos brilhantes.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, do filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) sobre Orígenes

 

Eles desejam recompensar os assassinos pelos atos horrendos perpetrados em nossas crianças, mulheres, pais e amigos. Eles estão comprometidos em erradicar o mal deste mundo, para a nossa existência e, eu acrescento, para o bem da humanidade. Todo o povo e a liderança do povo os abraçam e acreditam neles. ‘Lembrem-se do que Amaleque fez com vocês’ (Deuteronômio 25:17). Nós lembramos e lutamos.

Trecho retirado do discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu, proferido em 28 de outubro de 2023

    Prezados leitores, de acordo com o Velho Testamento, os amalequitas eram uma tribo nômade que perseguiu os judeus quando do êxodo do Egito e os atacou em Refidim, perto do Monte Sinal. Os amalaquitas foram derrotados por Josué e de maneira definitiva no tempo do profeta Ezequiel, no século VI a.C. Essa é a história contada no Velho Testamento, mas o que exatamente é fato histórico e o que é mito não se sabe e nunca se saberá. O importante é que ela é usada no século XXI para justificar a ofensiva israelense em Gaza após os ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023. É preciso seguir a Bíblia ontem, hoje e no futuro. Não se esquecer do que Amaleque fez, como está no Deuteronômio, citado acima, significa no século XXI não se esquecer dos inimigos de Israel, assim como os amalequitas, supostamente liderados por Amaleque, eram os inimigos do povo judeu quando este saiu do Egito, o que também não se sabe se realmente ocorreu.

    Qualquer que seja o grau de historicidade dos amalequitas e do seu chefe Amaleque, a mensagem é clara: a Bíblia comanda os fiéis a jamais esquecerem e no contexto atual do Estado de Israel, essa exortação à memória é uma exortação à vingança contra os inimigos do povo judeu, no caso o Hamas. Temos aqui um duplo movimento intelectual: em primeiro lugar, toma-se uma narrativa bíblica como se os acontecimentos tivessem realmente ocorrido no tempo histórico e em segundo lugar interpreta-se o comando do Deuteronômio como uma ordem para atacar aqueles que no presente desempenham o papel dos amalequitas de outrora. Para entendermos como tal movimento é possível, é útil fazermos referência a Orígenes, o mais influente e importante teólogo e estudioso da Bíblia do início da Igreja Cristã na Grécia.

    Para Orígenes, sob a letra das leis, das histórias, dos mitos e das parábolas havia uma verdade espiritual escondida que cabia ao exegeta revelar. Não se podia tomar as narrativas bíblicas como uma descrição de acontecimentos históricos, mas como símbolos a serem decifrados pelos poucos que, abençoados pela graça de Deus, conforme o trecho que abre este artigo, se dedicariam à exegese textual. Tal esforço intelectual revelaria que a Bíblia tinha duas camadas mais profundas de significado, além do sentido literal: um sentido moral e um sentido espiritual. Sob tal perspectiva, nenhum homem dotado de sensatez poderia considerar que a história da criação do mundo contida no Gênesis era uma descrição do que realmente havia se passado. Nem que Deus havia plantado a árvore da vida no Jardim do Éden ou que o Diabo havia levado Jesus ao topo de uma montanha e lhe oferecidos os reinos deste mundo. A literalidade dessas histórias escondia seu verdadeiro sentido: o Jesus Cristo de carne e osso descrito no Novo Testamento era o Logos ou Razão que organizava o mundo, o pensamento de Deus que se materializava na Terra e lhe dava ordem e racionalidade.

    Não é de se admirar que Orígenes, que morreu depois de ser preso e torturado por sua fé cristã em 250, tenha sido posteriormente declarado um herético pelo Papa Anastásio em 400. Conforme explica Durant no trecho que abre este artigo, se as narrativas das Escrituras não deveriam ser tomadas em seu sentido literal, a vida de Cristo na Terra era um mito: seu nascimento de uma virgem, seus milagres, sua ressurreição não eram fatos históricos, mas símbolos de uma verdade moral e espiritual. Nesse caso, como postular que a fé cristã era algo mais do que a miríade de seitas esotéricas que se propunham estabelecer o contato místico com a divindade? Se o exegeta poderia interpretar individualmente a Bíblia e tirar suas próprias conclusões, porque haveria a necessidade de uma Igreja que centralizasse em si os ritos e os sacramentos, que dissesse o que era acerto e o que era errado, o que pertencia a Deus e o que pertencia ao Diabo?

    Assim é que Orígenes, apesar de ter editado o Velho Testamento, colocando lado a lado seis versões diferentes na Héxapla, acabou sendo renegado pela Igreja Cristã. Sua visão da Bíblia como uma alegoria não permitia que a Igreja pudesse estabelecer seus dogmas em terreno firme, pois eles estariam sempre sujeitos à revelação de uma outra verdade por um outro estudioso das Escrituras. Em seus primeiros séculos de vida, em que a Igreja Cristã se enfrentava com o Império Romano e os deuses do amplo panteão clássico, ela não tinha necessidade de homens místicos cujo encontro com a divindade era uma experiência pessoal e intransferível. De místicos já bastavam João Batista e Jesus Cristo. Ela tinha isso sim a necessidade de estabelecer um conteúdo teológico, fundado na infalibilidade das Escrituras, que mostrasse como a religião cristã era superior a todas as outras, porque Jesus Cristo era filho de Deus, que se fez homem no mundo, viveu e ressuscitou.

    Prezados leitores, essas breves explicações sobre uma parte do pensamento de Orígenes e sobre a razão por que foi declarado herege pela Igreja Cristã permitem-nos ver que a Bíblia se presta a diferentes níveis de interpretação, a depender do objetivo de cada um. Em busca da transcendência espiritual, Orígenes via nos acontecimentos narrados uma mera porta de entrada para um sentido metafórico oculto pela literalidade do texto. A Igreja, querendo estabelecer e consolidar seu poder, apresentava a extraordinária vida de Jesus na Terra como o fundamento da superioridade intelectual da sua mensagem. E o primeiro-ministro de Israel, querendo justificar as ações militares do país nos territórios habitados pelos palestinos, cita a Bíblia para exortar os israelenses a fazer o que Deus manda e derrotar seus inimigos. Diferentes objetivos, diferentes exegeses. Uma coisa é certa, no entanto: mito ou testemunho histórico, poesia ou biografia de grandes profetas, literatura ou narrativa dos feitos de um povo e de uma pessoa em especial, a Bíblia será sempre invocada, manipulada, usada e abusada enquanto houver fiéis das três religiões monoteístas, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

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C’est Nicolas qui paie

“É o Nicolas quem paga.” Esta meme, que circula nas esferas libertárias há vários anos, mas que recentemente teve um aumento de popularidade, consiste em reclamar que Nicolas, um membro da classe média alta de 30 anos, pagará, por meio dos impostos e de suas contribuições previdenciárias, por todo o resto da população.

Explicação retirada do perfil do jornal eletrônico Mediapart no Instagram sobre a meme que circula nas redes sociais na França “C’est Nicolas qui paie”

Certamente, na ausência de leis que limitem a dívida, os regimes políticos em que o sistema eleitoral é majoritário são tão vulneráveis a problemas fiscais quanto quaisquer outros – talvez mais ainda. A polarização política foi sua ruína. Uma teoria da dívida pública estabelece que ela é um meio pelo qual os governos podem sabotar seus opositores; há uma “guerra de atrito” em que cada lado prefere postergar o aperto de cintos do que aceitar a austeridade.

Trecho retirado do artigo “How to avoid high public debt”, publicado na revista The Economist de 18 de outubro de 2025

Confiando que só o debate do tema pode render a ele alguns pontos de popularidade, Lula pediu ao Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, um estudo sobre o custo da medida. A previsão é que a análise seja entregue até o final do ano, mas o valor que circula nos gabinetes do governo é de algo em torno de 100 bilhões de reais. Só para ter ideia do quanto isso representa, o Gás do Povo e a Farmácia Popular, juntos, custam anualmente menos de 10 bilhões de reais. O Bolsa Família consome 160 bilhões de reais por ano.

Trecho retirado do artigo “A conta não fecha”, publicado na revista VEJA de 17 de outubro de 2025 sobre a possibilidade de o governo federal oferecer transporte gratuito no país

    Prezados leitores, as redes sociais inventaram na França a meme do personagem Nicolas, um homem jovem que aparece sempre de mãos à cabeça, preocupado com tudo o que se gasta no país, pois é ele, profissional de nível superior, quem paga por tudo, desde a aposentadoria dos velhinhos até as obras públicas, passando pelas gratuidades destinadas a determinados grupos. A meme é uma crítica bem-humorada sobre o descontrole das despesas públicas na França, que fazem com que a dívida pública do governo represente 108% do PIB em 2025 e que as receitas governamentais abocanhem 51,9% do PIB, de acordo com dados do FMI, da Bloomberg e da The Economist.

    Nicolas é uma invenção da era digital, mas ele retrata a indignação de pessoas que consideram que elas dão mais ao sistema do que recebem. Se a desopilação do fígado por meio de memes compartilhadas na internet não é suficiente, o sujeito com qualificações parte para a ação concreta e pode acabar tomando a decisão mais drástica, que é sair do país. De acordo com o jornal Libération, quinze mil jovens diplomados formados nas escolas de engenharia e administração na França deixam a terra do Asterix, segundo o indicador da federação Syntec, publicado em 30 de setembro. A fuga de cérebros, representada por essa emigração de pessoas para locais onde vão pagar menos impostos e ser mais bem tratados pelo governo, cria assim um círculo vicioso. Os que têm o talento e a formação para criar riquezas e gerar receitas para os cofres públicos se vão, deixando para trás cidadãos cuja contribuição líquida é negativa, ou seja, recebem mais do Estado do que dão. Isso diminui ainda mais a capacidade do governo de investir para criar a infraestrutura de transporte, comunicação, escolas e hospitais e para garantir a segurança pública, piorando a qualidade de vida da população e enervando ainda mais os Nicolas que ainda insistem em permanecer no país. Se estes forem tentar a vida nos Estados Unidos, o Instituto Cato estima que cada um deles, com idade entre 25 e 34 anos e diploma universitário, gere ao longo de sua vida, para o governo que os recebe de braços abertos, benefícios fiscais da ordem de dois milhões e 300 mil dólares.

    As facilidades tecnológicas do século XXI tornam a emigração um evento cada vez menos dramático. Mesmo que o resto da família permaneça no país de origem, a comunicação é instantânea e constante e sempre é possível passar alguns meses na antiga pátria para matar as saudades se o Nicolas consegue um emprego que lhe dá direto a trabalhar em regime de home office. De forma que o jovem profissional irá sair da França, mudar seu domicílio fiscal e assim deixar de pagar pelas contas do governo francês. Os líderes do país terão que pensar em novas maneiras de arrecadar impostos dos Nicolas em uma era de livre circulação de pessoas e de capital, como é a nossa. Ou terão que cortar despesas para enfrentar o problema.

    Será isso politicamente possível? Conforme o trecho que abre este artigo, é muito difícil, independentemente do regime político e do sistema de votação. Quando o voto é proporcional e o regime é parlamentarista, a necessidade de coalizões para formar um governo faz com que os políticos busquem agradar a todos por meio do toma-lá-dá-cá. Quando o sistema político é dominado por grupos de interesse, os lobbies fazem pressão para ter seus pleitos atendidos às expensas da população em geral, que paga pelas benesses. E mesmo quando o sistema de votação é majoritário e o regime é presidencialista os males da coalização são substituídos pelos males da polarização. O partido no poder quer aproveitar o tempo que tem com a rédeas do orçamento em suas mãos para tomar medidas que garantam que ele permaneça no topo e que a oposição seja derrotada no próximo pleito. Não há nenhum incentivo para medidas de austeridade, porque elas só agem de maneira benéfica no longo prazo e o que importa no aqui e agora é viabilizar a reeleição pela gastança.

    Essa lógica se aplica à perfeição ao Brasil. Para ter sucesso na próxima eleição, o incumbente deve enfocar a distribuição de benefícios para os potenciais eleitores, que o premiam por sua generosidade dando-lhe seu voto. Em seu terceiro mandato, Lula já criou o Pé de Meia, bolsa de estudo para alunos do ensino médio, ampliou o Vale Gás, estabeleceu por medida provisória a isenção de tarifas de energia elétrica para 60 milhões de consumidores e, de acordo com a notícia veiculada no começo deste artigo, está estudando custear tarifa zero para o transporte público. No entanto, as bondades não são só para a classe baixa, porque é preciso agradar o andar de cima. Afinal, este controla os meios de comunicação tradicionais e seus membros são os principais credores do governo e roladores da enorme dívida, permitindo que ela não seja paga, mas administrada.

    Por meio de outra medida provisória em setembro, o governo federal lançou a Política Nacional de Datacenters, que, entre outras medidas zera os impostos federais sobre investimentos em datacenters, incluindo a aquisição de equipamentos. Como exigir que Lula agisse de outra maneira se seu antecessor no poder, Jair Bolsonaro, fez o mesmo, estabelecendo entre outras medidas o aumento do Bolsa Família para 600 reais para tentar se reeleger? Que incentivo um governante terá para ser comedido em seus dispêndios se a austeridade não será premiada com o voto dos que sentirão os efeitos dos cortes imediatamente? Se os eventuais benefícios não estão bem claros e não estão assegurados para o futuro?

    Prezados leitores, a responsabilidade fiscal só ocorrerá quando o Nicolas que paga as contas manifestar-se de maneira contundente contra o status quo, seja votando em candidatos que preguem uma racionalização das despesas seja emigrando no caso de se desesperar com as opções políticas disponíveis. Talvez no Brasil, se criássemos um personagem similar ao Nicolas francês que representasse o cidadão da classe média brasileira que dá muito mais ao Estado do que recebe, poderíamos dar o passo inicial de ao menos reconhecer que o problema existe.

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Verdade ou mentira?

A história da vida, da obra e da morte de Jesus de Nazaré não revela nada do movimento mundial o qual ele fez surgir. Ele viveu e ensinou em uma área remota (Palestina) na periferia do Império Romano. Sua vida foi de curta duração e o conhecimento dela permaneceu escondido da maior parte do mundo contemporâneo. Nenhuma das fontes da sua vida e obra pode ser traçada até o próprio Jesus; ele não deixou uma única palavra escrita conhecida. Além disso, não há narrativas contemporâneas escritas sobre sua vida e morte. O que pode ser estabelecido sobre o Jesus histórico depende quase sem exceção das tradições cristãs, especialmente do material mais antigo utilizado na elaboração dos três primeiros Evangelhos do Novo Testamento (Marcos, Mateus e Lucas), que refletem o ponto de vista da igreja posterior e sua fé em Jesus.

Trecho retirado do verbete da Edição de 1974 da Enciclopédia Britânica sobre Jesus Cristo

Um homem foi morto, se não foi Jesus Cristo, foi da mesma forma que ele, ele foi colocado neste sudário. Não pode ser uma falsificação da Idade Média. Uma falsificação não poderia jamais ser realizada dessa maneira. É algo estritamente objetivo isso que digo a vocês. […] O corpo não permaneceu muito tempo envolto pelo sudário, do contrário ele teria se putrefeito e não há sinais de putrefação.

Trecho da palestra dada pelo médico legista belga Philippe Boxho em 26 de setembro de 2023 sobre o Santo Sudário de Turin, que teria envolvido o corpo de Jesus Cristo (6 a.C.-30 d.C.) após sua morte

    Prezados leitores, há duas semanas lhes revelei que estive em São Petersburgo na Rússia em julho. Na mesma viagem passei por Turim, na Itália, e não pude deixar de visitar a catedral que guarda desde o ano de 1578 um pedaço de linho com a imagem impressa da parte da frente e da parte de trás de um homem que apresenta as marcas de alguém que foi flagelado e crucificado. O Santo Sudário, como é chamado em português (Suaire de Turin em francês e Shroud of Turin em inglês) fica guardado no altar em uma capela protegida por um vidro à esquerda da nave da catedral e de tempos em tempos é mostrado ao público. Quando estive lá ele não estava à mostra. As pessoas podem simplesmente sentar-se em bancos e rezar ou tirar fotos.

    Há os que defendem a autenticidade da peça de linho e os que dizem tratar-se de uma falsificação da Idade Média. Não entrarei em detalhes sobre os argumentos de cada uma das partes beligerantes porque não tenho conhecimento técnico para tal, mas é possível, sem incorrer em erros, estabelecer os pontos fortes e fracos de ambos os lados da contenda. Para os que consideram que o Santo Sudário é falso, o fato de sua história só poder ser contada a partir da segunda metade do século XIV, portanto em plena Idade Média é um forte argumento. Afinal, trata-se de uma época em que possuir uma relíquia de Jesus Cristo, ou dos Apóstolos ou de algum santo, era uma grande vantagem, porque atraía peregrinos ao local e movimentava a economia, além de conferir prestígio à igreja que a guardava. Dessa forma, havia um incentivo à produção de falsas relíquias. Se a cadeia de custódia dessa peça de linho não pode ser estabelecida com segurança desde a morte de Jesus, mas apenas mais de 1300 anos depois, como acreditar que ela seja autêntica? Como prova da falsificação, os detratores citam os resultados da datação da presença de carbono-14 no Santo Sudário realizada em 1988 em três laboratórios diferentes: no Arizona, nos Estados Unidos, em Zurique na Suíça e em Oxford na Inglaterra, que colocam a origem do pano há mais ou menos 700 anos, portanto no século XIII, em plena Idade Média. Caso encerrado então?

    O caso não está encerrado para os defensores da autenticidade do Santo Sudário. Eles questionam a confiabilidade dos testes de carbono-14 considerando que a peça de linho foi remendada pelas irmãs Clarissas que tomavam conta do Santo Sudário depois de um incêndio que a danificou enormemente. Além disso, conforme o médico legista Pierre Boxho, que se confessa um homem sem fé, mas que, como homem da ciência, está disposto a descobrir o que o Santo Sudário pode revelar, a análise da imagem impressa na peça fornece detalhes que condizem com a história conhecida da morte e transfiguração de Jesus Cristo: há marcas de feridas produzidas por flagelação; há presença de sangue (AB negativo), bilirrubina e plasma, o que condiz com a causa da morte de um homem crucificado, que é a asfixia pela impossibilidade de respirar devido à posição do corpo; há presença de pólen de plantas encontradas em áreas desérticas do Oriente Médio; os órgãos genitais e as orelhas não aparecem na imagem no linho devido à posição em que fica um homem crucificado; e finalmente o corpo ficou pouco tempo envolto pelo Sudário, pois não há sinais de putrefação, o que condiz com a história narrada nos Evangelhos de que Jesus Cristo ressuscitou ao terceiro dia.

    Infelizmente, a tecnologia atual não permite extrair DNA suficiente para traçar um perfil genético do homem que media entre 1,78 e 1,81 e que tinha ao redor de 35 anos. O DNA obtido limita-se a algumas centenas de pares de bases e além disso foi contaminado porque inúmeras pessoas manipularam o Santo Sudário ao longo dos séculos. Talvez algum dia esse problema técnico seja resolvido e os cientistas possam estabelecer a que grupo populacional pertence este homem. Pois Pierre Boxho não tem dúvidas de que não se trata de uma pintura, mas de um homem que um dia existiu em carne e osso e cujo corpo flagelado se torna visível somente por meio de imagem fotográfica negativa.

    Talvez o mistério do Santo Sudário nunca seja resolvido pela ciência de maneira categórica. Para repetir os testes de carbono-14 seria preciso retirar outras amostras do tecido de outras partes da peça e a Igreja Católica não tem interesse em fazer isso, pois tal procedimento poderia danificá-la e se o resultado fosse o mesmo de 1988 poderia ser um desrespeito à fé dos crentes. Para a Igreja, é melhor que a questão da autenticidade ou da falsificação fique em uma zona cinzenta, pois assim ela não se compromete com afirmações não respaldadas pela ciência e ao mesmo tempo mantém a chama acesa para os crentes que veem o Santo Sudário como prova da ressurreição de Jesus Cristo. Nesse sentido, a relíquia de Turim segue o mesmo destino do próprio Jesus.

    Por um lado, há razões para acreditar na existência histórica de Jesus, pois autores não cristãos fazem referência a ele ou aos seus seguidores: o historiador Tácito (56-117) nos Anais, escritos em 110, faz referência aos cristãos como o bode expiatório escolhido pelo imperador Nero (37-68) para serem responsabilizados pelo incêndio de Roma; Plínio, o Jovem (62-114), governador da Síria, aconselha o imperador Trajano (53-117) sobre como tratar os cristãos; Suetônio (69-141), outro historiador, relata como os cristãos instigavam os judeus à revolta em Roma. Flávio Josefo (37-?), historiador judeu, se refere à morte do irmão de Jesus por apedrejamento em 62, referindo-se a ele como Tiago, o irmão daquele “que chamavam de Cristo”.

    Por outro lado, conforme o trecho que abre este artigo, nenhum autor não cristão descreve a vida e a morte de Jesus Cristo. O que sabemos sobre esse homem palestino é o que nos contam os evangelhos, que só foram escritos de 60 a 100 anos depois de sua morte, em uma língua – o grego – que não era a falada nem por Jesus nem por seus apóstolos, usuários do aramaico. Tem-se assim um retrato nebuloso, como é o Santo Sudário: é muito provável que Jesus realmente tenha existido, mas o que ele fez e realmente falou foram filtrados pela tradição oral que se transmitiu por décadas antes de ser consolidada em um meio escrito, pela tradução desse conteúdo de vida e de pensamento do aramaico para o grego e pelos vieses e objetivos teológicos dos que escreveram os evangelhos para conquistar fieis judeus e não judeus.

    Prezados leitores, à pergunta sobre se o Santo Sudário é uma falsificação ou é autêntico pode ser respondida da mesma maneira que se pode responder à pergunta se Jesus Cristo é verdadeiro ou falso: para além do que as ciências exatas (química e física) e a biologia podem estabelecer sobre o que há naquele pedaço de linho, o que resta é a fé ou a falta de fé de cada um. Assim como a ciência histórica não tem e nunca terá acesso a fontes originais escritas que façam menção contemporânea ao carpinteiro de Nazaré, na Galileia, os testes que possam ser feitos do Santo Sudário sempre estarão sujeitos a contestações devido à antiguidade e à contaminação do material. Resta a cada um tirar suas próprias conclusões com aquilo que temos, que será sempre pouco para os descrentes e sempre suficiente para os crentes.

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