Ele comparou esses pagãos polidos, herdeiros de um milênio de cultura, com os vetustos teólogos que o haviam rodeado em Nicomédia, ou aqueles estadistas piedosos que haviam considerado necessário matar seu pai, seus irmãos e muitos mais; e ele concluiu que não havia bestas mais ferozes que os cristãos.
Trecho retirado do livro “The Age of Faith”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre a vida de Flavius Claudius Julianus ou Juliano, o Apóstata (331-363), imperador romano
[…] ele identificava as ideias arquetípicas criativas de Platão com a mente de Deus, considerava-as como o Logos ou a Sabedoria intermediária por meio da qual todas as coisas tinham sido feitas e olhava o mundo da matéria e do corpo como um impeditivo satânico à virtude e à liberação da alma aprisionada. Por meio da piedade, da bondade e da filosofia, a alma poderia libertar-se, elevar-se à contemplação das realidades e das leis espirituais e assim ser absorvida no Logos, talvez no Deus final Ele mesmo.
Trecho retirado do livro “The Age of Faith”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as ideias filosófico-religiosas de Flavius Claudius Julianus ou Juliano, o Apóstata (331-363), imperador romano
Quando uma religião torna-se uma instituição para forçar a crença ou a devoção; quando ela assume para si o direito exclusivo de interpretar as Escrituras e definir a moralidade; quando ela forma uma classe sacerdotal que alega ter a abordagem exclusiva de Deus e da graça divina; quando ela faz da sua celebração um ritual mágico dotado de poderes miraculosos; quando ela se torna uma arma do governo e um agente de tirania intelectual; quando ela procura dominar o estado e usar os governantes civis como ferramentas da ambição eclesiástica – então o livre pensamento se rebelará contra tal igreja e procurará fora dela aquela “pura religião da razão” que é a busca da vida moral.
Trecho retirado do livro “Rousseau and Revolution”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as ideias de Immanuel Kant (1724-1804) sobre religião
Prezados leitores, vocês já ouviram falar de Juliano, o Apóstata? É o mesmo personagem histórico que dá nome ao romance Julian, do escritor americano Gore Vidal (1925-2012) que se interessou por este imperador do século IV cujo reinado durou breves 20 meses. A razão do interesse de Vidal por Juliano é que o americano era um classicista, um homem que enfatizava a herança greco-romana da civilização ocidental em detrimento da herança cristã, assim como fez o filósofo Bertrand Russell (1872-1970). E ninguém como imperador Juliano representou esse conflito entre o paganismo e o cristianismo de maneira tão dramática não só por sua vida como por suas ideias.
Juliano era sobrinho de Constantino, o Grande (272-337), o primeiro imperador romano convertido ao cristianismo. Ao morrer, Constantino fundador da Nova Roma, que depois viria a ser chamada de Constantinopla e hoje é Istambul, deixou o poder para seus três filhos, Constantino, Constâncio e Constante. Quando estes ascenderam ao comando do império, decidiram que seria melhor matar possíveis concorrentes e com isso o pai, o irmão mais velho e os primos de Juliano foram eliminados. Enviado a Nicomédia, Juliano foi educado pelo bispo Eusébio (-341) e voltando à cidade depois de um exílio forçado na Capadócia interessou-se pela filosofia de Libânio (314-394). Em 355 Juliano foi novamente exilado por ordem de Constâncio desta vez para Atenas, onde caiu de amores pelo pensamento, pela religião e pela filosofia dos pagãos.
Conforme o trecho que abre este artigo, em Atenas Juliano comparou os pagãos educados e sofisticados de Atenas, que discutiam livremente na ágora e cultivavam a beleza e a busca da verdade por meio da razão, com aqueles homens que professavam a religião cristã mas tinham assassinado sua família na luta pelo poder. Em fazendo esse cotejo, Juliano decidiu-se pelo paganismo e quando ascendeu ao trono, em 361, procurou estabelecer uma nova religião em oposição ao cristianismo que retomasse os princípios tradicionais que haviam inspirado a teologia pagã.
A religião proposta por Juliano fundava-se em argumentos racionais. Tomando a ideia platônica das formas ideais que dão origem às coisas do mundo, aquele que seria chamado pelos cristãos de apóstata considerava que o Logos que dá forma ao mundo material é o ideal a que cada um deveria aspirar. E essa ascensão ao mundo superior espiritual só seria possível se o homem praticasse a virtude para que ele se desvencilhasse dos desejos da carne. O espírito e a matéria estão sempre em conflito e cabe ao ser humano, dotado de livre arbítrio escolher o bem para aproximar-se do Logos e da mente de Deus.
Juliano morreu aos 32 anos em Ctesifonte, no atual Iraque, trespassado por uma lança provavelmente atirada por um cristão quando travava guerra contra os persas. Seus esforços de paganização morreram com ele e o culto à herança cultural grega só seria retomado 1.000 anos depois, com o fim da Idade Média, quando o cristianismo que havia reinado inconteste começa a perder credibilidade entre as elites intelectuais da Europa. No século XVIII, essa crítica ao cristianismo atinge seu ápice com o movimento Iluminista, que teve entre seus maiores expoentes o filósofo Immanuel Kant (1724-1804).
Kant funda sua crítica à religião no fato de o cristianismo ter se institucionalizado por meio de uma igreja que adquiriu poder político, econômico e cultural e usava e abusava dele para perseguir seus fins, que eram sempre o da autopreservação. Nesse sentido a religião cristã havia se transformado em uma ideologia, isto é, em um sistema de ideias preocupado tanto com a verdade como com a conduta das pessoas. Era preciso moldar o modo como as pessoas se comportavam em todas as dimensões da vida – familiar, profissional, social, intelectual, econômica, política – impondo as verdades da igreja. Quem quer que não se enquadrasse nesse esquema, seja questionando os dogmas teológicos, seja comportando-se mal, deveria ser combatido como inimigo, herege, herético pois sua rebelião era um desafio à posição da igreja como instituição consolidada de controle total sobre a sociedade.
Tais críticas à Igreja, que fizeram com que em 1793 as autoridades prussianas proibissem Kant de escrever ou falar sobre assuntos religiosos, não significa que Kant fosse ateu. Tal como Juliano, ele propunha uma religião fundada em bases racionais. Acreditar em Deus não exigia que se acreditasse na divindade de Cristo, ou no perdão dos pecados do homem pela crucificação do Filho de Deus, mas simplesmente acreditar que o ser humano era dotado de um senso moral inato, um senso do dever que o leva a escolher o caminho da virtude porque essa é a coisa certa a fazer.
Nesse sentido uma religião da razão não envolve o cumprimento de rituais de veneração, a solicitação de favores especiais por meio da oração. Pedir coisas a Deus esperando que ele as conceda é uma superstição ilusória e moralmente errada pois fere a lei universal proposta por Kant de que devemos atuar de maneira que se todos atuarem como nós tudo sairá bem. De forma que se cada crente for pedir para si algo em detrimento dos outros, haverá uma violação desse princípio fundamental de uma moralidade fundada na obrigação de cumprir o dever como um fim em si, ditado pela natureza moral do homem.
Prezados leitores, Juliano no século IV e Kant no século XVIII desafiaram o cristianismo dando novas respostas à pergunta sobre a função da religião: ela não deve ser um instrumento de conquista e perpetuação do poder, nem ser uma ferramenta ideológica exclusiva de um povo ou país a ser imposta a outros. A religião deve ser um caminho de virtude que ao ser trilhado, leva o homem a concretizar sua vocação para a racionalidade, para o uso da razão de maneira a superar as paixões, os desejos, e o mal que advém do culto da matéria em detrimento do espírito. Pode ser que Juliano e Kant tenham exigido demais do homem ao tirar todo o aspecto emocional da fé religiosa, transformando-a em uma busca de um ideal irrealizável, mas uma coisa é certa: apontando a tendência do cristianismo a tentar controlar todas as esferas da vida humana, eles propuseram, cada um à sua maneira, um modo de praticar a piedade sem que seja preciso abdicar da liberdade de pensamento. Fica a lição para o século XXI.