Brigitte Bardot uma mulher livre

Pode-se argumentar, claro, que tal comportamento obviamente errado sempre ocorreu: porque quando se trata de desvios sexuais não há nada de novo neste mundo e a história mostra muitos exemplos de quase todas as perversões ou condutas desonrosas. Mas essa é a primeira vez na história que houve uma negação em massa de que as relações sexuais são um tópico adequado para reflexões morais ou que deve ser governado por restrições morais. […] A revolução sexual foi acima de tudo uma mudança na sensibilidade moral rumo a uma brutalização completa dos sentimentos, do pensamento e do comportamento.

Trecho retirado do ensaio “All Sex, All the Time” incluído na coletânea “Our Culture, What’s Left of It” do escritor Theodore Dalrymple, peseudônimo do médico psiquiatra britânico Anthony Malcolm Daniels (1949- )

“Era como um tumor que se alimentou de mim, que eu carreguei na minha carne entumescida, só esperando o momento abençoado em que eu finalmente me livraria dele », revela em seu livro. Ela inclui também a observação de que “teria preferido dar à luz a um cachorro”.

Treco retirado das memórias da atriz Brigitte Bardot (1934-2025), publicadas em 1996, a respeito do nascimento de seu filho Nicolas-Jacques Charrier, em 1960

Prezados leitores, eu sempre tive uma admiração pela atriz francesa Brigitte Bardot por causa do modo como ela encarou o envelhecimento. Nunca fez plástica, nunca fez preenchimento facial, nunca se mumificou para fingir que continuava nova. Elle était bien dans sa peau como se diz em francês, talvez porque não se sentisse insegura. Afinal, durante seu tempo de juventude, ela tinha sido idolatrada pelos homens por sua boca carnuda, sua cintura fina, seus seios generosos, seus olhos amendoados, seus cabelos longos e lisos, seu ar inocente, petulante e sensual. Provavelmente teve ao seu dispor todos os homens que quis e que não quis, de forma que pode passar com tranquilidade à idade em que a mulher deixa de ser atraente sexualmente para o sexo oposto. Não é fácil fazer tal transição, se fosse os cirurgiões plásticos, os médicos dermatologistas e as esteticistas não teriam serviço. Mas Brigitte Bardot tirou o envelhecimento de letra, pois achou uma motivação de vida que foi a luta pelo bem-estar animal. 

Por outro lado, minha admiração pela Lolita francesa, como Simone de Beauvoir (1908-1986) se referiu a ela aludindo à ninfeta que é a personagem do livro de Vladimir Nabokov (1899-1977), tem limites. Brigitte Bardot foi a epítome da liberação sexual dos anos 1960, época em que as sociedades ocidentais decidiram viver sob a premissa de que cada um deve ser livre para perseguir sua felicidade e que tal felicidade passa necessariamente pela satisfação dos nossos apetites e desejos. Ela foi a epítome dessa liberdade porque além de ter colecionado vários parceiros no seu período áureo de beleza e frescor, ela rebelou-se contra um dos tabus sagrados que ainda era um resquício da moralidade cristã que tinha prevalecido na Europa por mais de 1.000 anos, qual seja o da maternidade. 

Conforme o trecho que abre este artigo, experimentou a gravidez e o parto do seu filho como algo imposto a ela, algo que ela rejeitou desde o início, mas que foi obrigada a aturar por não ter conseguido fazer um aborto, como tinha feito antes. Seu desgosto foi tão grande que logo depois do parto ela decidiu se divorciar do marido e pai da criança Jacques Charrier (1936-2025) e dar-lhe a guarda do rebento. Em 1997, pai e filho entraram com um processo contra Brigitte depois da publicação das “Mémoires” por violação à vida privada do feto. A mulher que confessou não ter querido ser mãe foi condenada pela justiça francesa a pagar 22.900 euros a Jacques e 15245 euros a Nicolas a título de indenização.

Enfim, Brigitte queria desfrutar da liberdade sexual, poder dar vazão às suas paixões sem arcar com o ônus delas, que fosse a gravidez, o parto ou os cuidados de uma criança. E ao confessar seus reais sentimentos pelo petit Nicolas em suas memórias ela não se importou com o efeito que isso iria causar em um filho que já havia sido rejeitado logo ao vir ao mundo. Para ela, ser autêntica e ser livre para dizer o que pensava era mais importante do que preservar a higidez psicológica de um filho que embora tendo sido criado longe dela, não deixava de tê-la como mãe.

São esses efeitos colaterais da revolução dos costumes nas sociedades ocidentais que Theodore Dalrymple descreve em seu livro, fruto de sua experiência clínica como psiquiatra em prisões. Nicolas teve sorte, porque apesar de sua mãe ter-lhe abandonado, ele não foi dado em um orfanato, já que nasceu em um meio privilegiado da burguesia parisiense. O comportamento libertário de Brigitte, que não queria sacrificar sua carreira, sua individualidade, sua satisfação sexual em prol de uma criança, não fez os estragos que ocorrem quando esse comportamento livre de amarras é praticado pelos extratos mais baixos da sociedade. Neles, a sede de liberdade tem consequências como o vício, a violência, o crime. Filhos negligenciados e sem estrutura familiar recorrem às drogas ou às amizades com membros de gangues para preencher o vácuo da figural materna ou paterna, e tais amizades muitas vezes os levam a cometer crimes, incluindo assassinatos e estupros, perpetuando a fragilidade das famílias.

Theodore Dalrymple, além de dar exemplos práticos da desestruturação da unidade básica da sociedade, teoriza sobre o conjunto de valores que está por trás disso. A moralidade fundada na religião, que estabelecia proibições rígidas em nome da preservação da ordem social estabelecida por Deus para o bem da humanidade, não tem mais vez no mundo ocidental pós-cristão. A visão predominante é que o caminho da felicidade é ser livre para concretizar sua potencialidade enquanto indivíduo que tem certas paixões e inclinações. Reprimir esse conteúdo interior por meio de tabus religiosos e proibições costumeiras só dá ensejo à ansiedade, à angústia e à frustração. Daí ser terminantemente proibido fazer julgamentos morais sobre o comportamento de uma pessoa, principalmente o comportamento sexual, o qual segundo Freud nos ensinou, é a fonte da verdadeira felicidade.

Os obituários sobre Brigitte Bardot, morta em dezembro exemplificam essa atitude. Ela é descrita como uma figura polêmica, de vanguarda, que quebrou tabus arraigados sobre o papel da mulher. Mas julgá-la de um ponto de vista moral, em função do trauma que ela causou em seu filho rejeitado e em função do motivo fútil que a levou a deixá-lo para trás – por não estar a fim de ser mãe, apesar de ter plenas condições econômicas para criá-lo – nem pensar, pois julgamentos morais são considerados preconceituosos, arbitrários e tirânicos.

Prezados leitores, não me entendam mal. Consigo compreender perfeitamente que uma mulher não tenha aptidão para ser mãe e que prefira deixar a criança com alguém que fará um melhor trabalho do que ela. Mas a musa francesa poderia ter tido compaixão suficiente por seu filho para não revelar em um livro que vendeu mais de um milhão de exemplares que ela o considerava um câncer na sua vida. A autenticidade deve ter limites, porque como ensina Dalrymple, a suspensão da moralidade em nome dela leva à brutalização. Somos todos pecadores, e quem não tiver pecados que atire a primeira pedra, como pregou Jesus Cristo, mas isso não quer dizer que não devamos tentar perseguir um ideal de bom comportamento, em prol daqueles que nos cercam e em última análise em prol da melhor versão de nós mesmos. Espero que o filho de Brigitte tenha perdoado a mãe e que tenha estado presente em seu leito de morte. Espero também que ao final da vida BB tenha se dado conta do erro de ter exposto seu filho em um livro que escreveu para satisfazer sua ânsia de reconhecimento. 

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Humildes lições

Sem exército, não há rei; sem receitas, não há exército; sem impostos, não há receita; sem a agricultura, não há impostos; sem governo justo, não há agricultura.

Frase atribuída ao rei da Pérsia Cosroes I (501-579), que governou o império sassânida de 531 a 579

Nos últimos três anos, o que a gente viu foi um crescimento médio (dos gastos) de 5%, e a gente projeta mais 5% em termos reais para 2026. Hoje, não temos um arcabouço que limite a atuação do governo.

Trecho da entrevista dada ao jornal O Estado de São Paulo pela economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória e publicada em 21 de dezembro

    Prezados leitores, o ano está terminando e 2026 promete grandes emoções para nós brasileiros. Teremos a Copa do Mundo no meio do ano e as eleições para Presidente da República, para governador nos Estados, para deputados federais e estaduais e para renovar 2/3 do Senado. Permitam-me expor aqui neste meu humilde espaço o que espero no Brasil em termos de governança, com base na sucinta frase atribuída ao rei da Pérsia no século VI, conforme citada acima. Para tanto, explicarei inicialmente o que o próprio Cosroes I quis dizer na prática com essa frase em termos do que ele fez.

    Segundo a Enciclopédia Britânica, o principal feito de Cosroe foi ter feito a tributação em seu reino mais justa e mais eficiente. Antes de Cosroe os monarcas persas taxavam o rendimento da terra, o que fazia com que a receita de impostos variasse muito, a depender se a colheita havia sido ou não boa. Cosroe estabeleceu um valor fixo, o que trouxe estabilidade às receitas do governo, mas ao mesmo tempo tornou a cobrança de impostos mais justa. A reforma tributária de Cosroe foi tão bem sucedida que o sistema por ele criado permaneceu em vigor até depois da conquista final da Pérsia pelos seguidores de Maomé em 652. Com uma fonte estável de receitas Cosroe construiu pontes, estradas e palácios. Além disso reorganizou o exército, profissionalizando-o, o que lhe permitiu conquistar territórios, chegando ao atual rio Amu Darya e incluindo o Iêmen, e estabelecer defesas nas quatro fronteiras do Irã.

    À luz dessa breve descrição, o sentido da frase que resume os princípios de governança de Cosroe fica claro. A tributação não extorsiva e previsível permite que a atividade econômica floresça e ao mesmo tempo proporciona receitas para o governo investir em infraestrutura e no exército, o que aumenta a segurança e facilita as transações comerciais, criando um círculo virtuoso em que a prosperidade do setor público alimenta a prosperidade do setor privado e vice-versa. O governo justo torna possível a agricultura, a agricultura torna possível a tributação, a tributação torna possível a geração de receitas para o governo, as receitas permitem financiar a segurança, a segurança permite criar exércitos que garantem o poder do rei, dando estabilidade às instituições governamentais. Cosroe tornou-se o modelo de governante da era pré-islâmica que deveria ser imitado pelos príncipes muçulmanos

    Esclarecido o círculo virtuoso que deve ser estabelecido, cabe agora nos perguntarmos se o nosso Brasil conta com as fundações desse edifício de governança. Conforme o trecho que abre este artigo, o executivo federal tem aumentado os gastos públicos à razão de 5% ao ano. A carga tributária atingiu um recorde de 34% do PIB para cobrir tais gastos, mas mesmo assim há um déficit primário (receitas – despesas sem contar os juros da dívida) de 70 bilhões de reais em 2025, o que leva a uma dívida bruta de 79,5% do PIB. Por outro lado, segundo a CNN Brasil, em 2025 as despesas livres para execução do governo federal estão em 1,8% do PIB. Elas vão encolher para 1,5% em 2026, depois para 0,8% em 2027 e para 0,4% em 2028. Em suma, temos na prática um círculo vicioso: tributação excessiva para cobrir gastos obrigatórios, investimentos insuficientes na geração de bens públicos que fomentem a atividade econômica, o que leva a um crescimento da economia abaixo do necessário para melhorar a vida das pessoas e das empresas. De fato, de acordo com o site Trading Economics, a taxa de crescimento anual do PIB no Brasil teve uma média de 2,48% de 1991 até 2025, o que nos impede de escapar da armadilha dos países de renda média à qual estamos presos há 40 anos. Isso por sua vez tem impacto direto sobre a possibilidade de taxação, já que a base tributária não pode aumentar se não houver uma atividade econômica robusta.

    Gastos maiores, dívida maior, baixo nível de investimentos, taxas de crescimento econômico abaixo do necessário para darmos um salto de qualidade, esses são alguns dos males do Brasil no final de 2025. Não espero que o próximo presidente saiba sobre quem foi Cosroe I, mas não seria desarrazoado pedir que ele procurasse se ater à receita básica de um equilíbrio entre a retirada de recursos do setor privado na forma de tributação e a oferta de recursos na forma de investimentos em bens públicos. Os princípios da boa governança são simples: o diabo está nos detalhes de como colocá-los em prática em determinado momento e local, e em determinadas circunstâncias políticas.

    Prezados leitores, esperemos que em 2026 nós brasileiros consigamos eleger governantes que saibam seguir as humildes lições de um esquecido rei que governou uma terra longínqua em tempos imemoriais. Justiça, equilíbrio orçamentário, Estado com capacidade de investir e não apenas de prover assistência social – seja a pessoas por meio de renda mínima, seja a empresas, por meio de subsídios –, crescimento econômico. Esses são meus votos para o Brasil de 2026.

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Quem vai prevalecer?

Temos que nos tornarmos melhores. Temos que ser mais prestativos. Ter mais inteligência emocional. Ser menos suscetíveis às manipulações da propaganda. Uma sociedade motivada pela verdade e pela compaixão e não pela mentira e pela busca do lucro.

Essa é a única maneira de vencermos essa etapa desastrada de transição adolescente, com esses grandes e hábeis cérebros ainda presos a um vestígio de condicionamento baseado no medo, fruto da evolução. Essa é a única maneira de concretizarmos nosso verdadeiro potencial e construirmos um mundo saudável juntos.

Trecho retirado do artigo “Australians Being Massacred Shouldn’t Bother Us More Than Palestinians Being Massacred” da jornalista australiana Caitlin Johnstone

Ela gostava tanto de filosofia que costumava parar nas ruas e explicar, a quem quer que perguntasse, trechos difíceis de Platão ou Aristóteles.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, de Will Durant (1885-1981) sobre a filósofa e matemática Hipátia de Alexandria (370-415)

    Prezados leitores, imaginem a cena de uma professora de filosofia no Museu de Alexandria no Egito, que está em uma carruagem passando pelas ruas da cidade. É uma mulher bela, afável, de boas maneiras, que já escreveu comentários sobre a obra do astrônomo, matemático e geógrafo Ptolomeu (90-168) e do matemático e astrônomo Apolônio de Perga (262 a.C. — 194 a.C.). Seu brilhantismo intelectual e carisma atraem alunos de diferentes lugares para ouvir suas palestras neoplatônicas. De repente, ela é retirada da carruagem por uma turba de fanáticos cristãos que a levam a uma igreja, tiram-lhe a roupa e atiram-lhe azulejos até matá-la. Seu corpo é despedaçado e queimado. Estamos falando de Hipátia de Alexandria, cuja morte marca o fim da supremacia de Alexandria como centro da atividade matemática no mundo antigo e faz os professores pagãos restantes na cidade a fugirem para Atenas, onde quem não professasse a ortodoxia cristã ainda poderia lecionar a filosofia grega clássica.

    Mais de 1.600 anos depois deste ato de barbárie contra uma mulher que era considerada esquisita por pensar de maneira diferente dos outros ao seu redor, em 4 de novembro de 2025 a China anunciou ter conseguido completar o ciclo de transformação do tório em combustível nuclear, abrindo grandes possibilidades de produção de energia, já que o tório é muito mais abundante que o urânio e gera muito menos resíduos. Além disso, sua combustão requer muito menos água para resfriar os equipamentos, o que torna o procedimento mais seguro. Ainda nessa veia de sustentabilidade, a China pretende construir uma estação de pesquisa na Lua em parceria com a Rússia e outros países para explorar os recursos do nosso satélite natural e torná-lo fonte de energia nuclear.

    Esses acontecimentos ilustram a natureza ambivalente do ser humano, descrita por Caitlin Johnstone no artigo citado acima. 3 bilhões de anos de evolução levaram ao surgimento de uma criatura com um cérebro que não só é capaz de aprender com sua experiência passada, mas de reagir a situações inéditas em relação às quais é preciso adotar uma abordagem totalmente diferente das anteriores. Uma criatura que poluiu a terra, a água e o mar, compartilhando com todos o custo ambiental da atividade econômica de alguns, mas que é capaz de encontrar soluções para os problemas que ela própria cria. Se os chineses já acharam uma maneira de gerar energia nuclear de maneira mais limpa e mais eficiente, com menos utilização de recursos naturais, não tenham dúvida de que gente com formação científica e inspiração conseguirá criar algum produto para biodegradar os famigerados plásticos que infestam o planeta. Nesse sentido, a crise ambiental e a crise climática servirão como um catalisador para o homem fazer jus à sua capacidade cognitiva e responder ao desafio criando meios de combater todas as externalidades negativas criadas pela exploração da natureza.

    Por outro lado, ainda permanecemos com aquele cérebro crocodiliano que nos faz reagir por medo e por instinto, que nos faz desconfiarmos do novo, daquilo que é diferente de nós, porque ele pode nos atacar. Nossa melhor defesa contra o inimigo acaba sendo o ataque e daí porque atacamos preventivamente, mesmo que o outro ainda não tenha cometido nenhum ato de violência contra nós. Hipátia foi barbaramente morta em sua Alexandria natal porque ela pertencia à tribo dos pagãos, dos cultores da filosofia grega e dos modos helênicos que estavam sendo substituídos pelo modo de ser cristão. A nova tribo tinha sua própria teologia, sua própria moral e tendo conquistado o território não podia permitir que qualquer resquício do modo de ser greco-romano pudesse sobreviver e desafiar o seu poder. Para consolidar a conquista, era preciso acabar de vez com os dissidentes e Hipátia era uma dissidente renomada que atuava nos tribunais, nas ruas e nas instituições de ensino de Alexandria, dando sua opinião e ajudando os governantes a tomar decisões. Retirá-la de cena era uma maneira de demarcar a jurisdição dos novos donos do poder, para evitar que vozes discordantes pudessem ter alguma influência.

    Temos então duas potencialidades em nós: a curiosidade, a sanha pelo conhecimento e pela verdade que nos leva a adaptarmo-nos às condições exteriores e a inovarmos para tornar essas condições as mais propícias possíveis à nossa sobrevivência; mas também temos o medo do outro, do desconhecido, do diferente que nos leva a nos refugiarmos nas nossas ideias preconcebidas e nos nossos preconceitos e em última análise na violência para aniquilarmos o elemento estranho. Concretizando essas duas potencialidades, a aventura humana na Terra é feita de descobertas científicas, de manifestações artísticas e literárias, de elaboração de sistemas filosóficos e jurídicos rumo à ordem e à harmonia; e é feita de guerras, de conquista do poder, de manipulação do medo, levando à propaganda e à tirania, à corrupção e à injustiça.

    No final das contas, quem vai prevalecer? Caitlin Johnstone acha que para não termos o mesmo fim dos dinossauros temos que usar nosso cérebro para aumentarmos nossa consciência sobre nós mesmos e sobre os outros em prol da compaixão e da tolerância recíprocas e da paz. Será que conseguiremos dar esse salto ou nosso pendor pela violência acabará nos levando à hecatombe nuclear?

    Prezados leitores, podemos estar agora no final dos tempos ou no começo de um novo tempo em que o ser dotado de razão prevalecerá depois de tantas idas e vindas. Aguardemos, pois se a guerra nuclear e a catástrofe ambiental se concretizarem seremos a geração que terá visto o final da saga do homo sapiens.

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Resistamos!

A IA não é apenas outra ferramenta —
Ela redefinirá como nosso mundo trabalha.

Por que memorizar fatos, elaborar códigos, pesquisar qualquer coisa —
quando um modelo pode fazer isso em segundos?

O melhor comunicador, o melhor analista, o melhor solucionador de problemas —
é agora aquele que faz a melhor pergunta.

O futuro não recompensará o esforço. Recompensará a alavancagem.

Então comece a colar.
Porque quando todo mundo cola, ninguém o faz.

Manifesto da empresa Cluely, que presta serviços de inteligência artificial

Sorte nossa que ainda haja muitos aspectos da nossa humanidade que eles não podem infiltrar ou controlar, e faríamos bem se nos familiarizássemos com essa área. Inspiração. Criatividade. Consciência. Renascimento espiritual. Essas são áreas em que os plutocratas da tecnologia e os engenheiros sociais do império não podem pisar.

Trecho retirado do artigo “It’s Getting Harder and Harder to Preserve our Mental Sovereignty” da jronalista australiana Caitlin Johnstone

Os alunos usam a IA para fazer trabalhos, os professores a usam para corrigi-los, os diplomas se tornam sem sentido e as empresas de tecnologia fazem fortunas. Bem-vindo à morte da educação superior.

Trecho retirado do artigo “AI is destroying the University and Learning Itself”, de Ronald Purser

    Prezados leitores, vocês sabiam que o cérebro libera dopamina quando é recompensado pelo esforço de conseguir algo como, por exemplo, pela prática de exercício físico ou pela finalização de um trabalho difícil? E você sabia que as drogas e quaisquer fatores viciantes em geral como apostas, pornografia, mídias sociais capturam esse mecanismo de recompensa, liberando dopamina sem que haja a realização do esforço necessário para obtê-la? O resultado desse atalho é que se o ser humano não percorrer o caminho para chegar à recompensa ele dependerá de doses cada vez mais altas desses fatores para liberar a dopamina. O santo graal da recompensa fácil, sem esforço, torna-se um pesadelo na forma do círculo do vício, pelo qual quanto mais você tem, mais você precisa.

    Antes tínhamos apenas o álcool e as drogas em geral para nos colocar na trilha da dopamina fácil. Agora, em pleno século XXI, as opções são cada vez maiores. Se quer emagrecer, esqueça reuniões de vigilantes do peso, dietas rígidas, adoção de uma rotina de exercícios físicos, pois basta uma consulta a um médico e a obtenção de uma receita de semaglutida injetável. O problema é resolvido mediante pagamento em dinheiro na farmácia, mas a recompensa pelo árduo esforço de perder quilos se perde. Fica só o corpo enxuto. Afinal, como diz o trecho que abre este artigo, o futuro não premiará o esforço, premiará a alavancagem. E a alavancagem por excelência atualmente nada mais é que a plataforma proporcionada pela inteligência artificial. Explico-me, abordando outra área da aventura humana na Terra, que sempre exigiu esforço, mas que está sendo totalmente modificada, que é a da aprendizagem.

    Ronald Purser explora em detalhes o impacto que a IA está tendo sobre a educação. Chat GPT, Grok e outros modelos de inteligência generativa estão sendo usados pelos estudantes para escrever trabalhos e ensaios, para resumir livros, para responder a perguntas. Para isso basta que o usuário elabore um bom prompt, isto é, formule uma boa pergunta à ferramenta de IA ou dê as coordenadas e os detalhes sobre o formato e o conteúdo do produto final que deseja. Não é mais preciso ler muitos livros, anotar as partes importantes, resumi-las, cotejá-las, estabelecer o que é importante e o que não é, estabelecer uma linha de raciocínio que norteie a elaboração dos parágrafos até a conclusão a que se deseja chegar. Isso tudo é desnecessário se o aluno tem à disposição uma plataforma que alavanca seu desempenho proporcionando-lhe tudo ao mesmo tempo: o resumo do conteúdo dos livros, os dados retirados de outras fontes, o texto escrito de acordo com o prompt fornecido.

    O resultado de todas essas facilidades, na visão de Ronald, é que o valor do diploma que certifica a aprendizagem, fica esvaziado. O que quer dizer que fulano de tal é formado em Direito, por exemplo? Na época em que fiz a faculdade significava que eu tinha lido o material exigido pelos professores, feito pesquisas, escrito trabalhos. O famigerado TCC custou-me seis meses sentada todos os domingos escrevendo no computador, depois de ter despendido um mês das minhas sagradas férias lendo livros e artigos sobre a disputa do Brasil contra o Canadá na OMC a respeito dos subsídios dados à EMBRAER. Hoje, esse mesmo diploma pode ser obtido depois de cinco anos fornecendo prompts a alguma IA.

    O resultado final é o mesmo pedaço de papel com o nome do estudante, da universidade e do curso, mas o aluno que se transforma no rei dos prompts ao longo do período acadêmico não terá adquirido nenhuma habilidade cognitiva, nenhuma capacidade de raciocínio, de ponderar argumentos, de priorizá-los, de concatená-los em torno de uma ideia básica. Um estudo realizado em 2025 pelo Massachusetts Institute of Technology, citado por Renata Cafardo no jornal o Estado de Sâo Paulo de 7 de dezembro, mostrou que as pessoas que usam somente o bom e velho cérebro para escrever “exibiram maior conectividade neural em áreas relacionadas à criatividade, memória e processamento semântico”. Aqueles que usaram o CHatGPT mal se lembravam do que haviam produzido com a ajuda da ferramenta, ou seja, a retenção de conteúdo foi mínima, o que significa que não houve processamento e absorção de informações, pois o cérebro não passou pela via-crúcis do esforço para chegar à recompensa do aprendizado.

    O que fazer? Render-se à inteligência artificial como preconiza o manifesto da empresa Cluely? Resistir a ela é como resistir à calculadora, ao corretor ortográfico, ao Google. Melhor do que ser ludita é ser malandro e usar as facilidades do ChatGPT porque todo mundo vai usar e se você não o fizer ficará para trás. Para Catlin Johnstone o caminho é outro, é o da resistência, conforme o trecho que abre este artigo. É investir naquilo que nos faz humanos e não nos rendermos às facilidades da IA para que não sejamos escravizados pelos plutocratas da tecnologia. O fato é que eles não se importam conosco e se puderem ganhar dinheiro fazendo-nos viciados nas drogas cognitivas que oferecem, eles o farão sem peso na consciência. Quanto mais pessoas incapazes de realizarem o esforço cerebral para pensar e obter conclusões, maior será a dependência dos modelos de IA que farão isso por nós. E se não oferecermos algo que a máquina não oferece, como a criatividade, a consciência e a espiritualidade, seremos rapidamente substituídos e descartados.

    Prezados leitores, a tarefa é árdua porque há pessoas ganhando muito dinheiro com a IA, mas resistamos! Nada mais humano e mais prazeroso do que dar tudo para conseguir um objetivo e ter diante de si algo palpável que, embora possa não ser aquilo com o que você sonhou, é obra sua e autenticamente sua. As mudanças climáticas são um desafio que exigirá da humanidade capacidade de adaptação com base em nosso talento para inovar. A IA coloca-nos um desafio de outra natureza: ele não vem para reforçar a inventividade dos homens, sua capacidade de sobreviver às intempéries achando uma solução, mas para nos tornarmos inúteis, desmotivados, preguiçosos e viciados. Resistamos a esse cálice envenenado dos plutocratas do século XXI.

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Vidas paralelas

Um fazedor de milagres (theios aner, “homem divino”) e as histórias sobre ele constituíam uma aretologia (de areté, “virtude”; também ´manifestação do poder divino, milagre). As aretologias eram frequentemente utilizadas para representar as crenças de um movimento filosófico ou religioso. A Vida de Apolônio de Tiana, um filósofo neopitagórico e fazedor de milagres (transmitida pelo escritor grego Filóstrato), era amplamente lida.

Trecho retirado do verbete Literatura Bíblica da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

Apolônio é apresentado como o filho de Deus que fez muitos milagres, incluindo a ressurreição dos mortos, e que ao final da sua vida subiu aos céus e apareceu aos seus seguidores. Esse texto muito provavelmente imitava os Evangelhos. Isso prova que Apolônio é um personagem de ficção? Não. Ele era um filósofo pitagórico real que viveu 50 anos depois de Jesus. Tais paralelos simplesmente provam que os biógrafos antigos não escreviam biografias no sentido moderno. Eles reciclavam padrões estabelecidos e tomavam emprestado elementos do léxico de temas narrativos preexistentes. A natureza estereotipada de alguns temas dos Evangelhos não é prova que que Jesus não existiu.

Trecho retirado do artigo “Save Jesus! Against Mythicism and Atwill’s Theory” publicado pelo escritor francês Laurent Guyénot em 2 de dezembro

Pregando a reincarnação, ele conclamava seus seguidores a não fazer mal a nenhuma criatura viva e a não comer carne. Ele os exortava a evitar a inimizade, a calúnia, os ciúmes e o ódio; “se somos filósofos”, ele dizia a eles, “não podemos odiar nossos companheiros”.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, de Will Durant (1885-1981) sobre o filósofo Apolônio de Tiana morto ao redor de 96 d.C.

    Afinal, Jesus existiu ou não existiu? Se ele existiu na História como um pregador na Galiléia, o que podemos saber dele? E se ele não existiu quem o inventou e qual o motivo da criação do personagem? Estas são perguntas polêmicas que vem sendo feitas há séculos, desde que os protestantes começaram a ler a Bíblia de cabo a rabo e a estudá-la seriamente. E a resposta, em última análise, dependerá dos valores de cada um, porque a análise filológica das Escrituras e sua comparação com relatos de historiadores não cristãos nunca será suficiente para que os acadêmicos cheguem a uma conclusão definitiva.

    Muitas obras de história se perderam em meio às guerras, às invasões de povos vindos de outros continentes, a desastres naturais. Quem poderia contar uma versão diferente do que ocorria nas províncias do Império Romano no primeiro século da nossa era jamais estará acessível a nós, no século XXI, porque suas obras viraram pó. Resta a nós, depois de termos feito nossa escolha sobre crer ou não na existência de Jesus, decidirmos qual versão podemos aceitar do personagem. Para isso, comparar sua trajetória à de outro místico que viveu no mundo greco-romano pode ser útil. O homem em questão chama-se Apolônio de Tiana, e sua história foi escrita pelo escritor ateniense Filóstrato (170-250) a mando da imperatriz Júlia Domna (170-217), esposa do imperador Septímio Severo (145-211), para contrabalançar a já crescente influência do cristianismo. Portanto, Apolônio foi proposto, enquanto personagem histórico retratado na literatura, como um herói pagão, em contraposição ao herói cristão.

    Filóstrato elaborou uma representação aretológica. Conforme o trecho que abre este artigo, as aretologias eram histórias que ilustravam a perfeição moral. Contava-se a trajetória de um indivíduo não somente com base naquilo que de fato acontecera em sua vida, mas com base nas virtudes que ele encarnava. Assim é que A Vida de Apolônio de Tiana mistura elementos factuais e elementos que exemplificavam a tese de que ele era um homem virtuoso. Nascido em Atenas, aos 16 anos de idade, ele aderiu à irmandade dos seguidores de Pitágoras, os quais seguiam regras e rituais cujo objetivo era a purificação da alma para que ela concretizasse sua natureza divina.

    Apolônio não comia carne, não bebia vinho, não se casou, não se barbeava e chegou a ficar calado por cinco anos. Depois de distribuir seu patrimônio a parentes, vagou pela Pérsia, Índia, Egito, Ásia Ocidental, Grécia e Itália. Ele cultuava o sol e aceitava os deuses do politeísmo, considerando que além deles havia uma divindade suprema que não podia ser conhecida. Por ser abnegado e piedoso, seus discípulos o consideravam filho de Deus e foram-lhe atribuídos vários milagres: o de atravessar portas fechadas, o de entender qualquer língua, o de expulsar demônios e o de ressuscitar uma menina. Tendo sido acusado de sedição e bruxaria, foi a Roma defender-se das acusações perante o imperador Domiciano (51-96), foi preso e depois conseguiu escapar, morrendo, em idade avançada, em 98. Seus seguidores alegaram que depois de sua morte ele apareceu para eles e que depois ascendeu ao céu.

    É fácil ver os temas recorrentes tanto na vida de Apolônio de Tiana, quanto na vida de Jesus de Nazaré: a vida exemplar de negligência dos bens materiais e de ênfase na espiritualidade, os milagres, a perseguição, a filiação divina, a ressurreição. Essas recorrências seriam meras coincidências ou os pregadores religiosos, os ascetas, os filósofos do primeiro século da nossa era eram retratados da mesma maneira porque essas eram as virtudes cultivadas naquele mundo romano cujo império estava se esfacelando? É muito mais provável que todos os homens divinos da época fizessem mais ou menos a mesma coisa de acordo com a história contada de suas vidas porque havia estereótipos morais e filosóficos compartilhados em uma sociedade que estava passando por profundas transformações em virtude das invasões bárbaras.

    Como explica Laurent Guyénot em seu artigo, esses moldes preexistentes usados para elaborar biografias não faziam do sujeito retratado simplesmente um mito, um personagem sem carne e osso, criado apenas para ilustrar determinada corrente filosófica ou teológica. Por outro lado, o fato de as biografias serem aretologia deve chamar nossa atenção para o quanto o personagem histórico, à medida que vão sendo elaboradas as narrativas a respeito dele, adquire um significado que vai muito além do que de fato ele experimentou em sua vida.

    Sob essa perspectiva, a pergunta sobre se Jesus ou Apolônio realmente existiram ou foram uma ficção fica sem sentido. Se há um mito é porque houve um homem histórico cujas vivências e ensinamentos tiveram repercussão na sociedade de forma que essa história, contada e compartilhada por muitos, acaba incorporando os valores e as expectativas dos contadores e receptores dela. A realidade fática estará sempre subordinada ao objetivo de dar exemplos edificantes sobre a vida virtuosa ou ao menos estará combinada com tal objetivo. Mesmo que um cético considere que nem Jesus nem Apolônio viveram e morreram nesse mundo na época de crise do Império Romano, enquanto personagens eles existiram e sempre existirão enquanto o homem contar histórias e der uma moral a elas.

    Prezados leitores, em tempos como os nossos, em que o discurso religioso no Brasil é usado para conquista de eleitores, é sempre bom lembrar que quem cita trechos da Bíblia como argumento de autoridade o faz no quadro de suas próprias crenças e valores, os quais não necessariamente serão compartilhados por todos. Os Evangelhos, assim como A Vida de Apolônio de Tiana, misturam biografia com mensagens edificantes e éticas. A verdade dessas obras não está necessariamente naquilo que ela descreve como o ser, mas também naquilo que ela descreve como o dever ser, i.e. o conjunto de valores morais a que a sociedade almeja. Esperemos que aqueles que são mais receptivos a essa verdade religiosa saibam perceber essas nuances de maneira a não denegrir aqueles que são menos receptivos a ela. Do contrário teremos que conviver eternamente com a tal da polarização política.

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