Fé para todos

Eu rezo por SUA graça e proteção das nossas tropas e de todos os homens
e mulheres que servem nas forças armadas.
Trecho de uma oração coletiva conduzida por pastores evangélicos no dia 6
de março de 2026 ao redor do Presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump dias depois od inpicio da guerra contra o Irã em 28 de fevereiro

Apesar de o filósofo não poder aceitar em seu sentido literal os dogmas do
“Alcorão, da Bíblia e de outros livros revelados”, ele percebe a necessidade
deles ao elaborar uma devoção e moralidade saudáveis entre a população,
que é tão assediada por inconveniências econômicas que ela não encontra
tempo para desenvolver nada melhor do que um raciocínio incidental,
superficial e perigoso sobre as primeiras coisas e as últimas coisas. Assim, o
filósofo maduro não pronunciará nem estimulará nenhuma palavra contra a
fé estabelecida.


Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano
Will Durant (1885-1981) sobre o filósofo islâmico Averróis (1126-1198)

O estabelecimento do sentido verdadeiro e profundo das crenças e
convicções religiosas é o objetivo da filosofia em sua busca da verdade.
Este sentido profundo não deve ser divulgado às massas, que devem
aceitar o significado simples e externo da Escritura contido em histórias,
símiles e metáforas.
Trecho retirado verbete da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica sobre o
filósofo islâmico Averróis (1126-1198)

          Prezados leitores, imaginem a cena: ao redor de 15 pastores
evangélicos rezando em torno de Donald Trump no Salão Oval da Casa
Branca, colocando as mãos sobre os ombros e o braço direito do presidente
americano, que mostra um rosto sério, contrito. Além de implorarem para
que Deus dê-lhe sabedoria para governar, os pastores também imploraram
que Deus protegesse as tropas americanas. Detalhe importante: a guerra
contra o Irã começara com o bombardeio no sábado dia 28 de fevereiro de
uma creche, causando a morte de 175 crianças e funcionários. Será que
esses pastores devem mesmo rogar a Deus que proteja o exército
americano que foi capaz de matar crianças em uma creche? Será que a
guerra contra o Irã é santa e justa e justifica o massacre de civis?
          Não pretendo aqui neste meu humilde espaço bater o martelo e
decidir se a guerra se justifica ou não do ponto de vista religioso,
considerando o sofrimento que causará à população de um país que não
atacou os Estados Unidos antes. Meu objetivo é lançar mão dos
ensinamentos de um filósofo que procurou combinar a fé e a razão e assim
separar o joio do trigo, isto é a religião verdadeira, que deveria ser apoiada
e cultivada por todos, independentemente do nível de educação e de

inteligência da pessoa, e a falsa religião, que só serve para semear a
discórdia e fomentar heresias e descrença. Falo de Averróis cujo verdadeiro
nome era Abu al Walid Muhammad ibn Ahmad ibn Muhammad ibn Rushd.
Nascido em Córdoba e falecido em Marrakesh, Averróis foi médico, juiz e
estudioso de Aristóteles e de Platão. De Aristóteles, o filósofo islâmico
tomou emprestado o conceito dos três tipos de argumentos, para atribui-los
aos diferentes atores da sociedade. O primeiro é o demonstrativo,
empregado pelos filósofos, que com base em alguns axiomas e premissas
estabelecidas demonstram uma afirmação como consequência lógica
daqueles pontos de partida. O segundo tipo de argumento é o dialético,
utilizado pelos teólogos, que não cumpre os requisitos de uma
demonstração estrita e acaba sendo uma opinião não corroborada por
provas. O terceiro tipo de argumento é o persuasivo, isto é aquele
empregado na retórica e na poesia para convencer, para emocionar, para
encantar as massas. Portanto a dialética fica a meio caminho entre o rigor
da demonstração lógica e a liberdade de usar qualquer artifício para
arrebatar o coração do ouvinte ou leitor.
         Averróis não vê conflito entre a fé e a razão no sentido de que ele
acredita que a Sharia, baseada no Alcorão, é verdadeira, porque foi
revelada por Deus ao profeta Maomé. A fé na origem divina da Sharia, fonte
de todo conhecimento, não impede que Averróis atribua um papel à razão,
conforme o trecho que abre este artigo. O filósofo, praticante da
argumentação demonstrativa, é o único a poder revelar o sentido profundo
da revelação da Escritura, interpretando-a simbolicamente de maneira a
harmonizá-la com as descobertas da ciência e da filosofia.
         Tal interpretação não deve ser divulgada às massas, que não têm
capacidade de raciocinar neste nível de abstração. A fé da população deve
ser cultivada por meio de histórias de milagres, de homens excepcionais
como o Profeta, de histórias que antropomorfizam Deus. É só dessa
maneira persuasiva que ELE se torna acessível ao intelecto simples daqueles
que passam a vida a se preocupar com a sobrevivência cotidiana e que mais
sentem do que pensam.
         Dessa maneira, Averróis estabelece uma fé para todos, mas uma fé
praticada de maneira diferente pelos diferentes crentes. Ao indivíduo
comum cabe seguir as regras morais inspiradas pela Escritura sem
questionar sua origem ou seu conteúdo porque este é o melhor caminho a
seguir para uma vida saudável, sem grandes desastres causados pelo
comportamento desregrado. Ao filósofo cabe estudar a Escritura como fonte
da verdade para revelar seu sentido íntimo. A pior fé é aquela dos teólogos,
que raciocinam dialeticamente e portanto, de maneira não fundamentada,
colocando dúvidas na cabeça daqueles que não foram educados para pensar
direito e por isso são mais vulneráveis a sofismas.

Para Averróis, pior do que não refletir é refletir de maneira
equivocada, sem seguir as regras da lógica, pois isso leva ao
surgimento de versões conflitantes sobre o conteúdo da religião,
tirando a credibilidade da palavra revelada por Deus aos seus

escolhidos. Se os teólogos tiverem liberdade para tecerem
argumentos dialéticos ao sabor das suas conveniências e dos seus
interesses, isso acabará minando a sociedade, tirando-lhe o
sustentáculo da moral fundada na verdade da religião.

Prezados leitores, os ensinamentos do cordovês Averróis mostram
que para que possa haver fé para todos é preciso consideração às
especificidades de cada indivíduo. Para uns a literalidade da Escritura
alimenta a fé, para outros a simbologia do texto sagrado faz nascer o
sentimento da transcendência. De qualquer forma, fica o alerta para quem
quiser abordar a religião por meio da argumentação que justifica certos
comportamentos em nome de Deus: que o faça da maneira mais rigorosa
possível, demonstrando e não apenas lançando ideias como meros
expedientes para dar um verniz de respeitabilidade a atos que causam mal.
Do contrário, teremos teólogos como os pastores trumpistas que não estão
defendendo Deus e os preceitos morais que emanam DELE, mas apenas o
Império Americano. E isso não é a religião concebida por um filósofo como
Averróis, é simplesmente ideologia, isto é, teoria voltada à atuação no
mundo com vistas a um certo objetivo.

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Brigitte Bardot uma mulher livre

Pode-se argumentar, claro, que tal comportamento obviamente errado sempre ocorreu: porque quando se trata de desvios sexuais não há nada de novo neste mundo e a história mostra muitos exemplos de quase todas as perversões ou condutas desonrosas. Mas essa é a primeira vez na história que houve uma negação em massa de que as relações sexuais são um tópico adequado para reflexões morais ou que deve ser governado por restrições morais. […] A revolução sexual foi acima de tudo uma mudança na sensibilidade moral rumo a uma brutalização completa dos sentimentos, do pensamento e do comportamento.

Trecho retirado do ensaio “All Sex, All the Time” incluído na coletânea “Our Culture, What’s Left of It” do escritor Theodore Dalrymple, peseudônimo do médico psiquiatra britânico Anthony Malcolm Daniels (1949- )

“Era como um tumor que se alimentou de mim, que eu carreguei na minha carne entumescida, só esperando o momento abençoado em que eu finalmente me livraria dele », revela em seu livro. Ela inclui também a observação de que “teria preferido dar à luz a um cachorro”.

Treco retirado das memórias da atriz Brigitte Bardot (1934-2025), publicadas em 1996, a respeito do nascimento de seu filho Nicolas-Jacques Charrier, em 1960

Prezados leitores, eu sempre tive uma admiração pela atriz francesa Brigitte Bardot por causa do modo como ela encarou o envelhecimento. Nunca fez plástica, nunca fez preenchimento facial, nunca se mumificou para fingir que continuava nova. Elle était bien dans sa peau como se diz em francês, talvez porque não se sentisse insegura. Afinal, durante seu tempo de juventude, ela tinha sido idolatrada pelos homens por sua boca carnuda, sua cintura fina, seus seios generosos, seus olhos amendoados, seus cabelos longos e lisos, seu ar inocente, petulante e sensual. Provavelmente teve ao seu dispor todos os homens que quis e que não quis, de forma que pode passar com tranquilidade à idade em que a mulher deixa de ser atraente sexualmente para o sexo oposto. Não é fácil fazer tal transição, se fosse os cirurgiões plásticos, os médicos dermatologistas e as esteticistas não teriam serviço. Mas Brigitte Bardot tirou o envelhecimento de letra, pois achou uma motivação de vida que foi a luta pelo bem-estar animal. 

Por outro lado, minha admiração pela Lolita francesa, como Simone de Beauvoir (1908-1986) se referiu a ela aludindo à ninfeta que é a personagem do livro de Vladimir Nabokov (1899-1977), tem limites. Brigitte Bardot foi a epítome da liberação sexual dos anos 1960, época em que as sociedades ocidentais decidiram viver sob a premissa de que cada um deve ser livre para perseguir sua felicidade e que tal felicidade passa necessariamente pela satisfação dos nossos apetites e desejos. Ela foi a epítome dessa liberdade porque além de ter colecionado vários parceiros no seu período áureo de beleza e frescor, ela rebelou-se contra um dos tabus sagrados que ainda era um resquício da moralidade cristã que tinha prevalecido na Europa por mais de 1.000 anos, qual seja o da maternidade. 

Conforme o trecho que abre este artigo, experimentou a gravidez e o parto do seu filho como algo imposto a ela, algo que ela rejeitou desde o início, mas que foi obrigada a aturar por não ter conseguido fazer um aborto, como tinha feito antes. Seu desgosto foi tão grande que logo depois do parto ela decidiu se divorciar do marido e pai da criança Jacques Charrier (1936-2025) e dar-lhe a guarda do rebento. Em 1997, pai e filho entraram com um processo contra Brigitte depois da publicação das “Mémoires” por violação à vida privada do feto. A mulher que confessou não ter querido ser mãe foi condenada pela justiça francesa a pagar 22.900 euros a Jacques e 15245 euros a Nicolas a título de indenização.

Enfim, Brigitte queria desfrutar da liberdade sexual, poder dar vazão às suas paixões sem arcar com o ônus delas, que fosse a gravidez, o parto ou os cuidados de uma criança. E ao confessar seus reais sentimentos pelo petit Nicolas em suas memórias ela não se importou com o efeito que isso iria causar em um filho que já havia sido rejeitado logo ao vir ao mundo. Para ela, ser autêntica e ser livre para dizer o que pensava era mais importante do que preservar a higidez psicológica de um filho que embora tendo sido criado longe dela, não deixava de tê-la como mãe.

São esses efeitos colaterais da revolução dos costumes nas sociedades ocidentais que Theodore Dalrymple descreve em seu livro, fruto de sua experiência clínica como psiquiatra em prisões. Nicolas teve sorte, porque apesar de sua mãe ter-lhe abandonado, ele não foi dado em um orfanato, já que nasceu em um meio privilegiado da burguesia parisiense. O comportamento libertário de Brigitte, que não queria sacrificar sua carreira, sua individualidade, sua satisfação sexual em prol de uma criança, não fez os estragos que ocorrem quando esse comportamento livre de amarras é praticado pelos extratos mais baixos da sociedade. Neles, a sede de liberdade tem consequências como o vício, a violência, o crime. Filhos negligenciados e sem estrutura familiar recorrem às drogas ou às amizades com membros de gangues para preencher o vácuo da figural materna ou paterna, e tais amizades muitas vezes os levam a cometer crimes, incluindo assassinatos e estupros, perpetuando a fragilidade das famílias.

Theodore Dalrymple, além de dar exemplos práticos da desestruturação da unidade básica da sociedade, teoriza sobre o conjunto de valores que está por trás disso. A moralidade fundada na religião, que estabelecia proibições rígidas em nome da preservação da ordem social estabelecida por Deus para o bem da humanidade, não tem mais vez no mundo ocidental pós-cristão. A visão predominante é que o caminho da felicidade é ser livre para concretizar sua potencialidade enquanto indivíduo que tem certas paixões e inclinações. Reprimir esse conteúdo interior por meio de tabus religiosos e proibições costumeiras só dá ensejo à ansiedade, à angústia e à frustração. Daí ser terminantemente proibido fazer julgamentos morais sobre o comportamento de uma pessoa, principalmente o comportamento sexual, o qual segundo Freud nos ensinou, é a fonte da verdadeira felicidade.

Os obituários sobre Brigitte Bardot, morta em dezembro exemplificam essa atitude. Ela é descrita como uma figura polêmica, de vanguarda, que quebrou tabus arraigados sobre o papel da mulher. Mas julgá-la de um ponto de vista moral, em função do trauma que ela causou em seu filho rejeitado e em função do motivo fútil que a levou a deixá-lo para trás – por não estar a fim de ser mãe, apesar de ter plenas condições econômicas para criá-lo – nem pensar, pois julgamentos morais são considerados preconceituosos, arbitrários e tirânicos.

Prezados leitores, não me entendam mal. Consigo compreender perfeitamente que uma mulher não tenha aptidão para ser mãe e que prefira deixar a criança com alguém que fará um melhor trabalho do que ela. Mas a musa francesa poderia ter tido compaixão suficiente por seu filho para não revelar em um livro que vendeu mais de um milhão de exemplares que ela o considerava um câncer na sua vida. A autenticidade deve ter limites, porque como ensina Dalrymple, a suspensão da moralidade em nome dela leva à brutalização. Somos todos pecadores, e quem não tiver pecados que atire a primeira pedra, como pregou Jesus Cristo, mas isso não quer dizer que não devamos tentar perseguir um ideal de bom comportamento, em prol daqueles que nos cercam e em última análise em prol da melhor versão de nós mesmos. Espero que o filho de Brigitte tenha perdoado a mãe e que tenha estado presente em seu leito de morte. Espero também que ao final da vida BB tenha se dado conta do erro de ter exposto seu filho em um livro que escreveu para satisfazer sua ânsia de reconhecimento. 

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Humildes lições

Sem exército, não há rei; sem receitas, não há exército; sem impostos, não há receita; sem a agricultura, não há impostos; sem governo justo, não há agricultura.

Frase atribuída ao rei da Pérsia Cosroes I (501-579), que governou o império sassânida de 531 a 579

Nos últimos três anos, o que a gente viu foi um crescimento médio (dos gastos) de 5%, e a gente projeta mais 5% em termos reais para 2026. Hoje, não temos um arcabouço que limite a atuação do governo.

Trecho da entrevista dada ao jornal O Estado de São Paulo pela economista-chefe do Banco Inter, Rafaela Vitória e publicada em 21 de dezembro

    Prezados leitores, o ano está terminando e 2026 promete grandes emoções para nós brasileiros. Teremos a Copa do Mundo no meio do ano e as eleições para Presidente da República, para governador nos Estados, para deputados federais e estaduais e para renovar 2/3 do Senado. Permitam-me expor aqui neste meu humilde espaço o que espero no Brasil em termos de governança, com base na sucinta frase atribuída ao rei da Pérsia no século VI, conforme citada acima. Para tanto, explicarei inicialmente o que o próprio Cosroes I quis dizer na prática com essa frase em termos do que ele fez.

    Segundo a Enciclopédia Britânica, o principal feito de Cosroe foi ter feito a tributação em seu reino mais justa e mais eficiente. Antes de Cosroe os monarcas persas taxavam o rendimento da terra, o que fazia com que a receita de impostos variasse muito, a depender se a colheita havia sido ou não boa. Cosroe estabeleceu um valor fixo, o que trouxe estabilidade às receitas do governo, mas ao mesmo tempo tornou a cobrança de impostos mais justa. A reforma tributária de Cosroe foi tão bem sucedida que o sistema por ele criado permaneceu em vigor até depois da conquista final da Pérsia pelos seguidores de Maomé em 652. Com uma fonte estável de receitas Cosroe construiu pontes, estradas e palácios. Além disso reorganizou o exército, profissionalizando-o, o que lhe permitiu conquistar territórios, chegando ao atual rio Amu Darya e incluindo o Iêmen, e estabelecer defesas nas quatro fronteiras do Irã.

    À luz dessa breve descrição, o sentido da frase que resume os princípios de governança de Cosroe fica claro. A tributação não extorsiva e previsível permite que a atividade econômica floresça e ao mesmo tempo proporciona receitas para o governo investir em infraestrutura e no exército, o que aumenta a segurança e facilita as transações comerciais, criando um círculo virtuoso em que a prosperidade do setor público alimenta a prosperidade do setor privado e vice-versa. O governo justo torna possível a agricultura, a agricultura torna possível a tributação, a tributação torna possível a geração de receitas para o governo, as receitas permitem financiar a segurança, a segurança permite criar exércitos que garantem o poder do rei, dando estabilidade às instituições governamentais. Cosroe tornou-se o modelo de governante da era pré-islâmica que deveria ser imitado pelos príncipes muçulmanos

    Esclarecido o círculo virtuoso que deve ser estabelecido, cabe agora nos perguntarmos se o nosso Brasil conta com as fundações desse edifício de governança. Conforme o trecho que abre este artigo, o executivo federal tem aumentado os gastos públicos à razão de 5% ao ano. A carga tributária atingiu um recorde de 34% do PIB para cobrir tais gastos, mas mesmo assim há um déficit primário (receitas – despesas sem contar os juros da dívida) de 70 bilhões de reais em 2025, o que leva a uma dívida bruta de 79,5% do PIB. Por outro lado, segundo a CNN Brasil, em 2025 as despesas livres para execução do governo federal estão em 1,8% do PIB. Elas vão encolher para 1,5% em 2026, depois para 0,8% em 2027 e para 0,4% em 2028. Em suma, temos na prática um círculo vicioso: tributação excessiva para cobrir gastos obrigatórios, investimentos insuficientes na geração de bens públicos que fomentem a atividade econômica, o que leva a um crescimento da economia abaixo do necessário para melhorar a vida das pessoas e das empresas. De fato, de acordo com o site Trading Economics, a taxa de crescimento anual do PIB no Brasil teve uma média de 2,48% de 1991 até 2025, o que nos impede de escapar da armadilha dos países de renda média à qual estamos presos há 40 anos. Isso por sua vez tem impacto direto sobre a possibilidade de taxação, já que a base tributária não pode aumentar se não houver uma atividade econômica robusta.

    Gastos maiores, dívida maior, baixo nível de investimentos, taxas de crescimento econômico abaixo do necessário para darmos um salto de qualidade, esses são alguns dos males do Brasil no final de 2025. Não espero que o próximo presidente saiba sobre quem foi Cosroe I, mas não seria desarrazoado pedir que ele procurasse se ater à receita básica de um equilíbrio entre a retirada de recursos do setor privado na forma de tributação e a oferta de recursos na forma de investimentos em bens públicos. Os princípios da boa governança são simples: o diabo está nos detalhes de como colocá-los em prática em determinado momento e local, e em determinadas circunstâncias políticas.

    Prezados leitores, esperemos que em 2026 nós brasileiros consigamos eleger governantes que saibam seguir as humildes lições de um esquecido rei que governou uma terra longínqua em tempos imemoriais. Justiça, equilíbrio orçamentário, Estado com capacidade de investir e não apenas de prover assistência social – seja a pessoas por meio de renda mínima, seja a empresas, por meio de subsídios –, crescimento econômico. Esses são meus votos para o Brasil de 2026.

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Quem vai prevalecer?

Temos que nos tornarmos melhores. Temos que ser mais prestativos. Ter mais inteligência emocional. Ser menos suscetíveis às manipulações da propaganda. Uma sociedade motivada pela verdade e pela compaixão e não pela mentira e pela busca do lucro.

Essa é a única maneira de vencermos essa etapa desastrada de transição adolescente, com esses grandes e hábeis cérebros ainda presos a um vestígio de condicionamento baseado no medo, fruto da evolução. Essa é a única maneira de concretizarmos nosso verdadeiro potencial e construirmos um mundo saudável juntos.

Trecho retirado do artigo “Australians Being Massacred Shouldn’t Bother Us More Than Palestinians Being Massacred” da jornalista australiana Caitlin Johnstone

Ela gostava tanto de filosofia que costumava parar nas ruas e explicar, a quem quer que perguntasse, trechos difíceis de Platão ou Aristóteles.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, de Will Durant (1885-1981) sobre a filósofa e matemática Hipátia de Alexandria (370-415)

    Prezados leitores, imaginem a cena de uma professora de filosofia no Museu de Alexandria no Egito, que está em uma carruagem passando pelas ruas da cidade. É uma mulher bela, afável, de boas maneiras, que já escreveu comentários sobre a obra do astrônomo, matemático e geógrafo Ptolomeu (90-168) e do matemático e astrônomo Apolônio de Perga (262 a.C. — 194 a.C.). Seu brilhantismo intelectual e carisma atraem alunos de diferentes lugares para ouvir suas palestras neoplatônicas. De repente, ela é retirada da carruagem por uma turba de fanáticos cristãos que a levam a uma igreja, tiram-lhe a roupa e atiram-lhe azulejos até matá-la. Seu corpo é despedaçado e queimado. Estamos falando de Hipátia de Alexandria, cuja morte marca o fim da supremacia de Alexandria como centro da atividade matemática no mundo antigo e faz os professores pagãos restantes na cidade a fugirem para Atenas, onde quem não professasse a ortodoxia cristã ainda poderia lecionar a filosofia grega clássica.

    Mais de 1.600 anos depois deste ato de barbárie contra uma mulher que era considerada esquisita por pensar de maneira diferente dos outros ao seu redor, em 4 de novembro de 2025 a China anunciou ter conseguido completar o ciclo de transformação do tório em combustível nuclear, abrindo grandes possibilidades de produção de energia, já que o tório é muito mais abundante que o urânio e gera muito menos resíduos. Além disso, sua combustão requer muito menos água para resfriar os equipamentos, o que torna o procedimento mais seguro. Ainda nessa veia de sustentabilidade, a China pretende construir uma estação de pesquisa na Lua em parceria com a Rússia e outros países para explorar os recursos do nosso satélite natural e torná-lo fonte de energia nuclear.

    Esses acontecimentos ilustram a natureza ambivalente do ser humano, descrita por Caitlin Johnstone no artigo citado acima. 3 bilhões de anos de evolução levaram ao surgimento de uma criatura com um cérebro que não só é capaz de aprender com sua experiência passada, mas de reagir a situações inéditas em relação às quais é preciso adotar uma abordagem totalmente diferente das anteriores. Uma criatura que poluiu a terra, a água e o mar, compartilhando com todos o custo ambiental da atividade econômica de alguns, mas que é capaz de encontrar soluções para os problemas que ela própria cria. Se os chineses já acharam uma maneira de gerar energia nuclear de maneira mais limpa e mais eficiente, com menos utilização de recursos naturais, não tenham dúvida de que gente com formação científica e inspiração conseguirá criar algum produto para biodegradar os famigerados plásticos que infestam o planeta. Nesse sentido, a crise ambiental e a crise climática servirão como um catalisador para o homem fazer jus à sua capacidade cognitiva e responder ao desafio criando meios de combater todas as externalidades negativas criadas pela exploração da natureza.

    Por outro lado, ainda permanecemos com aquele cérebro crocodiliano que nos faz reagir por medo e por instinto, que nos faz desconfiarmos do novo, daquilo que é diferente de nós, porque ele pode nos atacar. Nossa melhor defesa contra o inimigo acaba sendo o ataque e daí porque atacamos preventivamente, mesmo que o outro ainda não tenha cometido nenhum ato de violência contra nós. Hipátia foi barbaramente morta em sua Alexandria natal porque ela pertencia à tribo dos pagãos, dos cultores da filosofia grega e dos modos helênicos que estavam sendo substituídos pelo modo de ser cristão. A nova tribo tinha sua própria teologia, sua própria moral e tendo conquistado o território não podia permitir que qualquer resquício do modo de ser greco-romano pudesse sobreviver e desafiar o seu poder. Para consolidar a conquista, era preciso acabar de vez com os dissidentes e Hipátia era uma dissidente renomada que atuava nos tribunais, nas ruas e nas instituições de ensino de Alexandria, dando sua opinião e ajudando os governantes a tomar decisões. Retirá-la de cena era uma maneira de demarcar a jurisdição dos novos donos do poder, para evitar que vozes discordantes pudessem ter alguma influência.

    Temos então duas potencialidades em nós: a curiosidade, a sanha pelo conhecimento e pela verdade que nos leva a adaptarmo-nos às condições exteriores e a inovarmos para tornar essas condições as mais propícias possíveis à nossa sobrevivência; mas também temos o medo do outro, do desconhecido, do diferente que nos leva a nos refugiarmos nas nossas ideias preconcebidas e nos nossos preconceitos e em última análise na violência para aniquilarmos o elemento estranho. Concretizando essas duas potencialidades, a aventura humana na Terra é feita de descobertas científicas, de manifestações artísticas e literárias, de elaboração de sistemas filosóficos e jurídicos rumo à ordem e à harmonia; e é feita de guerras, de conquista do poder, de manipulação do medo, levando à propaganda e à tirania, à corrupção e à injustiça.

    No final das contas, quem vai prevalecer? Caitlin Johnstone acha que para não termos o mesmo fim dos dinossauros temos que usar nosso cérebro para aumentarmos nossa consciência sobre nós mesmos e sobre os outros em prol da compaixão e da tolerância recíprocas e da paz. Será que conseguiremos dar esse salto ou nosso pendor pela violência acabará nos levando à hecatombe nuclear?

    Prezados leitores, podemos estar agora no final dos tempos ou no começo de um novo tempo em que o ser dotado de razão prevalecerá depois de tantas idas e vindas. Aguardemos, pois se a guerra nuclear e a catástrofe ambiental se concretizarem seremos a geração que terá visto o final da saga do homo sapiens.

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Resistamos!

A IA não é apenas outra ferramenta —
Ela redefinirá como nosso mundo trabalha.

Por que memorizar fatos, elaborar códigos, pesquisar qualquer coisa —
quando um modelo pode fazer isso em segundos?

O melhor comunicador, o melhor analista, o melhor solucionador de problemas —
é agora aquele que faz a melhor pergunta.

O futuro não recompensará o esforço. Recompensará a alavancagem.

Então comece a colar.
Porque quando todo mundo cola, ninguém o faz.

Manifesto da empresa Cluely, que presta serviços de inteligência artificial

Sorte nossa que ainda haja muitos aspectos da nossa humanidade que eles não podem infiltrar ou controlar, e faríamos bem se nos familiarizássemos com essa área. Inspiração. Criatividade. Consciência. Renascimento espiritual. Essas são áreas em que os plutocratas da tecnologia e os engenheiros sociais do império não podem pisar.

Trecho retirado do artigo “It’s Getting Harder and Harder to Preserve our Mental Sovereignty” da jronalista australiana Caitlin Johnstone

Os alunos usam a IA para fazer trabalhos, os professores a usam para corrigi-los, os diplomas se tornam sem sentido e as empresas de tecnologia fazem fortunas. Bem-vindo à morte da educação superior.

Trecho retirado do artigo “AI is destroying the University and Learning Itself”, de Ronald Purser

    Prezados leitores, vocês sabiam que o cérebro libera dopamina quando é recompensado pelo esforço de conseguir algo como, por exemplo, pela prática de exercício físico ou pela finalização de um trabalho difícil? E você sabia que as drogas e quaisquer fatores viciantes em geral como apostas, pornografia, mídias sociais capturam esse mecanismo de recompensa, liberando dopamina sem que haja a realização do esforço necessário para obtê-la? O resultado desse atalho é que se o ser humano não percorrer o caminho para chegar à recompensa ele dependerá de doses cada vez mais altas desses fatores para liberar a dopamina. O santo graal da recompensa fácil, sem esforço, torna-se um pesadelo na forma do círculo do vício, pelo qual quanto mais você tem, mais você precisa.

    Antes tínhamos apenas o álcool e as drogas em geral para nos colocar na trilha da dopamina fácil. Agora, em pleno século XXI, as opções são cada vez maiores. Se quer emagrecer, esqueça reuniões de vigilantes do peso, dietas rígidas, adoção de uma rotina de exercícios físicos, pois basta uma consulta a um médico e a obtenção de uma receita de semaglutida injetável. O problema é resolvido mediante pagamento em dinheiro na farmácia, mas a recompensa pelo árduo esforço de perder quilos se perde. Fica só o corpo enxuto. Afinal, como diz o trecho que abre este artigo, o futuro não premiará o esforço, premiará a alavancagem. E a alavancagem por excelência atualmente nada mais é que a plataforma proporcionada pela inteligência artificial. Explico-me, abordando outra área da aventura humana na Terra, que sempre exigiu esforço, mas que está sendo totalmente modificada, que é a da aprendizagem.

    Ronald Purser explora em detalhes o impacto que a IA está tendo sobre a educação. Chat GPT, Grok e outros modelos de inteligência generativa estão sendo usados pelos estudantes para escrever trabalhos e ensaios, para resumir livros, para responder a perguntas. Para isso basta que o usuário elabore um bom prompt, isto é, formule uma boa pergunta à ferramenta de IA ou dê as coordenadas e os detalhes sobre o formato e o conteúdo do produto final que deseja. Não é mais preciso ler muitos livros, anotar as partes importantes, resumi-las, cotejá-las, estabelecer o que é importante e o que não é, estabelecer uma linha de raciocínio que norteie a elaboração dos parágrafos até a conclusão a que se deseja chegar. Isso tudo é desnecessário se o aluno tem à disposição uma plataforma que alavanca seu desempenho proporcionando-lhe tudo ao mesmo tempo: o resumo do conteúdo dos livros, os dados retirados de outras fontes, o texto escrito de acordo com o prompt fornecido.

    O resultado de todas essas facilidades, na visão de Ronald, é que o valor do diploma que certifica a aprendizagem, fica esvaziado. O que quer dizer que fulano de tal é formado em Direito, por exemplo? Na época em que fiz a faculdade significava que eu tinha lido o material exigido pelos professores, feito pesquisas, escrito trabalhos. O famigerado TCC custou-me seis meses sentada todos os domingos escrevendo no computador, depois de ter despendido um mês das minhas sagradas férias lendo livros e artigos sobre a disputa do Brasil contra o Canadá na OMC a respeito dos subsídios dados à EMBRAER. Hoje, esse mesmo diploma pode ser obtido depois de cinco anos fornecendo prompts a alguma IA.

    O resultado final é o mesmo pedaço de papel com o nome do estudante, da universidade e do curso, mas o aluno que se transforma no rei dos prompts ao longo do período acadêmico não terá adquirido nenhuma habilidade cognitiva, nenhuma capacidade de raciocínio, de ponderar argumentos, de priorizá-los, de concatená-los em torno de uma ideia básica. Um estudo realizado em 2025 pelo Massachusetts Institute of Technology, citado por Renata Cafardo no jornal o Estado de Sâo Paulo de 7 de dezembro, mostrou que as pessoas que usam somente o bom e velho cérebro para escrever “exibiram maior conectividade neural em áreas relacionadas à criatividade, memória e processamento semântico”. Aqueles que usaram o CHatGPT mal se lembravam do que haviam produzido com a ajuda da ferramenta, ou seja, a retenção de conteúdo foi mínima, o que significa que não houve processamento e absorção de informações, pois o cérebro não passou pela via-crúcis do esforço para chegar à recompensa do aprendizado.

    O que fazer? Render-se à inteligência artificial como preconiza o manifesto da empresa Cluely? Resistir a ela é como resistir à calculadora, ao corretor ortográfico, ao Google. Melhor do que ser ludita é ser malandro e usar as facilidades do ChatGPT porque todo mundo vai usar e se você não o fizer ficará para trás. Para Catlin Johnstone o caminho é outro, é o da resistência, conforme o trecho que abre este artigo. É investir naquilo que nos faz humanos e não nos rendermos às facilidades da IA para que não sejamos escravizados pelos plutocratas da tecnologia. O fato é que eles não se importam conosco e se puderem ganhar dinheiro fazendo-nos viciados nas drogas cognitivas que oferecem, eles o farão sem peso na consciência. Quanto mais pessoas incapazes de realizarem o esforço cerebral para pensar e obter conclusões, maior será a dependência dos modelos de IA que farão isso por nós. E se não oferecermos algo que a máquina não oferece, como a criatividade, a consciência e a espiritualidade, seremos rapidamente substituídos e descartados.

    Prezados leitores, a tarefa é árdua porque há pessoas ganhando muito dinheiro com a IA, mas resistamos! Nada mais humano e mais prazeroso do que dar tudo para conseguir um objetivo e ter diante de si algo palpável que, embora possa não ser aquilo com o que você sonhou, é obra sua e autenticamente sua. As mudanças climáticas são um desafio que exigirá da humanidade capacidade de adaptação com base em nosso talento para inovar. A IA coloca-nos um desafio de outra natureza: ele não vem para reforçar a inventividade dos homens, sua capacidade de sobreviver às intempéries achando uma solução, mas para nos tornarmos inúteis, desmotivados, preguiçosos e viciados. Resistamos a esse cálice envenenado dos plutocratas do século XXI.

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