Vidas paralelas

Um fazedor de milagres (theios aner, “homem divino”) e as histórias sobre ele constituíam uma aretologia (de areté, “virtude”; também ´manifestação do poder divino, milagre). As aretologias eram frequentemente utilizadas para representar as crenças de um movimento filosófico ou religioso. A Vida de Apolônio de Tiana, um filósofo neopitagórico e fazedor de milagres (transmitida pelo escritor grego Filóstrato), era amplamente lida.

Trecho retirado do verbete Literatura Bíblica da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica

Apolônio é apresentado como o filho de Deus que fez muitos milagres, incluindo a ressurreição dos mortos, e que ao final da sua vida subiu aos céus e apareceu aos seus seguidores. Esse texto muito provavelmente imitava os Evangelhos. Isso prova que Apolônio é um personagem de ficção? Não. Ele era um filósofo pitagórico real que viveu 50 anos depois de Jesus. Tais paralelos simplesmente provam que os biógrafos antigos não escreviam biografias no sentido moderno. Eles reciclavam padrões estabelecidos e tomavam emprestado elementos do léxico de temas narrativos preexistentes. A natureza estereotipada de alguns temas dos Evangelhos não é prova que que Jesus não existiu.

Trecho retirado do artigo “Save Jesus! Against Mythicism and Atwill’s Theory” publicado pelo escritor francês Laurent Guyénot em 2 de dezembro

Pregando a reincarnação, ele conclamava seus seguidores a não fazer mal a nenhuma criatura viva e a não comer carne. Ele os exortava a evitar a inimizade, a calúnia, os ciúmes e o ódio; “se somos filósofos”, ele dizia a eles, “não podemos odiar nossos companheiros”.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, de Will Durant (1885-1981) sobre o filósofo Apolônio de Tiana morto ao redor de 96 d.C.

    Afinal, Jesus existiu ou não existiu? Se ele existiu na História como um pregador na Galiléia, o que podemos saber dele? E se ele não existiu quem o inventou e qual o motivo da criação do personagem? Estas são perguntas polêmicas que vem sendo feitas há séculos, desde que os protestantes começaram a ler a Bíblia de cabo a rabo e a estudá-la seriamente. E a resposta, em última análise, dependerá dos valores de cada um, porque a análise filológica das Escrituras e sua comparação com relatos de historiadores não cristãos nunca será suficiente para que os acadêmicos cheguem a uma conclusão definitiva.

    Muitas obras de história se perderam em meio às guerras, às invasões de povos vindos de outros continentes, a desastres naturais. Quem poderia contar uma versão diferente do que ocorria nas províncias do Império Romano no primeiro século da nossa era jamais estará acessível a nós, no século XXI, porque suas obras viraram pó. Resta a nós, depois de termos feito nossa escolha sobre crer ou não na existência de Jesus, decidirmos qual versão podemos aceitar do personagem. Para isso, comparar sua trajetória à de outro místico que viveu no mundo greco-romano pode ser útil. O homem em questão chama-se Apolônio de Tiana, e sua história foi escrita pelo escritor ateniense Filóstrato (170-250) a mando da imperatriz Júlia Domna (170-217), esposa do imperador Septímio Severo (145-211), para contrabalançar a já crescente influência do cristianismo. Portanto, Apolônio foi proposto, enquanto personagem histórico retratado na literatura, como um herói pagão, em contraposição ao herói cristão.

    Filóstrato elaborou uma representação aretológica. Conforme o trecho que abre este artigo, as aretologias eram histórias que ilustravam a perfeição moral. Contava-se a trajetória de um indivíduo não somente com base naquilo que de fato acontecera em sua vida, mas com base nas virtudes que ele encarnava. Assim é que A Vida de Apolônio de Tiana mistura elementos factuais e elementos que exemplificavam a tese de que ele era um homem virtuoso. Nascido em Atenas, aos 16 anos de idade, ele aderiu à irmandade dos seguidores de Pitágoras, os quais seguiam regras e rituais cujo objetivo era a purificação da alma para que ela concretizasse sua natureza divina.

    Apolônio não comia carne, não bebia vinho, não se casou, não se barbeava e chegou a ficar calado por cinco anos. Depois de distribuir seu patrimônio a parentes, vagou pela Pérsia, Índia, Egito, Ásia Ocidental, Grécia e Itália. Ele cultuava o sol e aceitava os deuses do politeísmo, considerando que além deles havia uma divindade suprema que não podia ser conhecida. Por ser abnegado e piedoso, seus discípulos o consideravam filho de Deus e foram-lhe atribuídos vários milagres: o de atravessar portas fechadas, o de entender qualquer língua, o de expulsar demônios e o de ressuscitar uma menina. Tendo sido acusado de sedição e bruxaria, foi a Roma defender-se das acusações perante o imperador Domiciano (51-96), foi preso e depois conseguiu escapar, morrendo, em idade avançada, em 98. Seus seguidores alegaram que depois de sua morte ele apareceu para eles e que depois ascendeu ao céu.

    É fácil ver os temas recorrentes tanto na vida de Apolônio de Tiana, quanto na vida de Jesus de Nazaré: a vida exemplar de negligência dos bens materiais e de ênfase na espiritualidade, os milagres, a perseguição, a filiação divina, a ressurreição. Essas recorrências seriam meras coincidências ou os pregadores religiosos, os ascetas, os filósofos do primeiro século da nossa era eram retratados da mesma maneira porque essas eram as virtudes cultivadas naquele mundo romano cujo império estava se esfacelando? É muito mais provável que todos os homens divinos da época fizessem mais ou menos a mesma coisa de acordo com a história contada de suas vidas porque havia estereótipos morais e filosóficos compartilhados em uma sociedade que estava passando por profundas transformações em virtude das invasões bárbaras.

    Como explica Laurent Guyénot em seu artigo, esses moldes preexistentes usados para elaborar biografias não faziam do sujeito retratado simplesmente um mito, um personagem sem carne e osso, criado apenas para ilustrar determinada corrente filosófica ou teológica. Por outro lado, o fato de as biografias serem aretologia deve chamar nossa atenção para o quanto o personagem histórico, à medida que vão sendo elaboradas as narrativas a respeito dele, adquire um significado que vai muito além do que de fato ele experimentou em sua vida.

    Sob essa perspectiva, a pergunta sobre se Jesus ou Apolônio realmente existiram ou foram uma ficção fica sem sentido. Se há um mito é porque houve um homem histórico cujas vivências e ensinamentos tiveram repercussão na sociedade de forma que essa história, contada e compartilhada por muitos, acaba incorporando os valores e as expectativas dos contadores e receptores dela. A realidade fática estará sempre subordinada ao objetivo de dar exemplos edificantes sobre a vida virtuosa ou ao menos estará combinada com tal objetivo. Mesmo que um cético considere que nem Jesus nem Apolônio viveram e morreram nesse mundo na época de crise do Império Romano, enquanto personagens eles existiram e sempre existirão enquanto o homem contar histórias e der uma moral a elas.

    Prezados leitores, em tempos como os nossos, em que o discurso religioso no Brasil é usado para conquista de eleitores, é sempre bom lembrar que quem cita trechos da Bíblia como argumento de autoridade o faz no quadro de suas próprias crenças e valores, os quais não necessariamente serão compartilhados por todos. Os Evangelhos, assim como A Vida de Apolônio de Tiana, misturam biografia com mensagens edificantes e éticas. A verdade dessas obras não está necessariamente naquilo que ela descreve como o ser, mas também naquilo que ela descreve como o dever ser, i.e. o conjunto de valores morais a que a sociedade almeja. Esperemos que aqueles que são mais receptivos a essa verdade religiosa saibam perceber essas nuances de maneira a não denegrir aqueles que são menos receptivos a ela. Do contrário teremos que conviver eternamente com a tal da polarização política.

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As civilizações e o ciclo da História

A taxa de natalidade maior fora do Império e o nível de vida maior dentro dele faziam da imigração ou da invasão um destino manifesto para o Império Romano àquela época como para a América do Norte agora.

Toda civilização é um fruto da robusta árvore do barbarismo, e cai na maior das distâncias em relação ao tronco.

Trecho retirado do livro “The Age of Faith”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre a queda do Império Romano do Ocidente em 476 d.C.

Se o homem não tem a visão, a iniciativa, a persistência e, acima de tudo o domínio de si mesmo, necessários para o empreendimento de tirar vantagens da potencialidade de algum fato geográfico, os melhores instrumentos não terão só por eles mesmos a capacidade de realizar a tarefa. No homem, o fato decisivo – o fator que inclina a balança para o sucesso ou o fracasso – não é a raça, e tampouco é a capacidade de conhecimento; é o espírito, com o qual o homem responde ao desafio da soma total do seu próprio aparecimento no Universo.

Trecho retirado do livro “Um Estudo da História” do historiador inglês Arnold Toynbee (1889-1975)

    Prezados leitores, quem já não ouviu falar que os Estados Unidos estão em decadência? Eu particularmente vira e mexe ouço alguns dos especialistas a quem empresto meus ouvidos falarem disso, de como o Império Americano está se desfazendo. Há números grandiosos que parecem corroborar tal visão apocalíptica. Os Estados Unidos têm a maior dívida externa do mundo, de 25,8 trilhões de dólares em 2025. A dívida total atingiu 38 trilhões de dólares em outubro de 2025, de acordo com a Wikipedia e em 2024 os gastos do governo federal com o pagamento de juros superaram os gastos com o Medicare, o equivalente ao nosso SUS e com a defesa.

    É verdade que os Estados Unidos devem ao mundo em sua própria moeda, a qual eles podem imprimir à vontade, mas se a utilização do dólar americano nas operações de comércio internacional diminuir, isso levará a uma menor procura pela moeda americana e colocará em xeque seu valor. O truque de emitir títulos de dívida para cobrir seu déficit e esperar encontrar ávidos compradores ao redor do mundo, que precisam do dólar para liquidar suas posições, seja perante outros indivíduos, seja perante outros países, terá fim. Assim, se houver um colapso da procura pela moeda americana, os Estados Unidos não conseguirão mais rolar sua dívida facilmente, e terão que entrar em acordo com os seus credores sobre o que fazer.

    É uma situação que seria inimaginável na década de 80 e mesmo na década de 90, mas que hoje, na segunda década do século XXI, faz parte das discussões de economistas e historiadores. E, em se falando de história, não há como deixar de traçar paralelos entre o Império Americano e o Império Romano do Ocidente, que caiu no século V. Parece haver em ambos os casos um ciclo percorrido desde as origens, passando pelo desenvolvimento,  pelo apogeu e pela decadência. Nas origens, povos trabalhadores, disciplinados, austeros, com um senso forte de pertencimento a uma família, a uma comunidade que lhes dava a força para enfrentar as dificuldades. No caso de Roma, as lutas para subjugar as outras tribos e povos que viviam na Península Itálica, como os etruscos. Nos Estados Unidos, os embates com as tribos indígenas autóctones e a Marcha para o Oeste. O desenvolvimento se deu num e noutro caso pela expansão territorial.

    Em 146 a.C. Roma derrotou definitivamente Cartago e tornou-se senhora do Mediterrâneo, passando a dominar as rotas comerciais daquele que ficou conhecido como o Mare Nostrum, o Mar dos Romanos. Com a conquista da Gália por Júlio César (100 a.C.-44 a.C.) em 52 a.C. e a conquista do que hoje é a Inglaterra e o País de Gales em 87 d.C., Roma formou um império que lhe permitiu dominar toda a Europa Ocidental e partes da África do Norte. Com a dominação vieram as riquezas obtidas como botim de guerra, tanto materiais quanto humanas. Estabeleceu-se um sistema pelo qual a elite romana, constituída de proprietários de terras, podia explorá-las utilizando escravos capturados nas guerras e podia viver uma vida de conforto e luxo importando toda sorte de produtos, se valendo das rotas de comércio estabelecidas pelas conquistas militares.

    O momento-chave para os Estados Unidos para estabelecer-se como Império deu-se ao fim da Segunda Guerra Mundial, quando saiu vitorioso e credor dos países da Europa, incluindo sua ex-metrópole, o Reino Unido. Substituindo o Império Britânico, os Estados Unidos passaram a dominar os mares com sua marinha e as rotas comerciais. Não é por acaso que o livre comércio se desenvolveu depois de 1945, com o estabelecimento do GATT (Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio) em 1947, que permaneceu vigente até 1994. Em 1995 entrou em cena a Organização Mundial do Comércio, também patrocinada pelos Estados Unidos, que procurava integrar os países ao comércio mundial para incorporá-los à ordem internacional que satisfazia os interesses americanos, na qual o dólar era a única moeda de troca.

    No apogeu de um e de outro, romanos e americanos viviam às custas do comércio viabilizado pelas rotas protegidas por suas respectivas forças militares. Roma importava trigo do Egito, cobre da Espanha, filósofos, pedagogos e escultores da Grécia e impunha suas leis às províncias, permitindo a todos viver em paz e segurança. Os Estados Unidos importavam roupas, sapatos, produtos eletrônicos e toda sorte de manufaturados dos países do Sudeste Asiático e principalmente da China, usando sua moeda, o dólar, aceita em todo o mundo sob os auspícios da ordem financeira mundial criada pelo Acordo de Bretton Woods de 1944 que atrelou todas as moedas ao dólar americano. Além disso, os americanos não se preocuparam muito com a transferência das indústrias para outras partes do globo, devido ao poder de compra do dólar e da capacidade de endividamento que seu status de moeda de reserva global dava ao país.

    No entanto, o conforto tem seu lado negro. Em Roma a vida fácil, feita da exploração comércio com as províncias, teve um impacto nas famílias. Ter filhos deixa de ser uma prioridade porque nem homens e nem mulheres querem sacrificar o divertimento proporcionado pelos jogos e combates de gladiadores, nem os banquetes preparados com as mais finas iguarias de todos os recantos da Europa e da Ásia Ocidental. Como aponta Will Durant no trecho mencionado na abertura deste artigo, com a queda das taxas de natalidade, passa a ocorrer um desequilíbrio entre a diminuição da população dentro das fronteiras do Império e o aumento da população daqueles que estavam fora do Império, a quem os romanos chamavam de bárbaros.

    De fato, com mais gente fora do que dentro e com as riquezas mais dentro do que fora, a tendência era que o Império Romano, despovoado mas rico, fosse invadido por povos mais pobres, mas bem mais numerosos. E foi o que aconteceu ao longo de vários séculos, até que em 476 o último imperador, Rômulo Augusto (465-511), foi deposto por Odoacro (433-493). Essa marcha dos povos em busca dos frutos maduros de uma sociedade próspera também se deu nos Estados Unidos, que em janeiro de 2025, de acordo com a Wikipedia, tinha 53 milhões de habitantes que haviam nascido no exterior e 18 milhões de migrantes ilegais.

    Considerando esse ciclo de origem, desenvolvimento, apogeu e decadência, fica claro o porquê de Durant definir a civilização como o fruto da árvore do barbarismo que cai longe do tronco. A civilização é criada por gente forte e implacável que destrói seus inimigos e perece com pessoas que se acostumam com a vida boa proporcionada pelas dádivas da ordem, da paz e da prosperidade e se esquecem de que nada é eterno e que tudo precisa ser cultivado e mantido para que não vire uma carcaça, sobra do repasto dos chacais. O Império Romano caiu, não sabemos se o Império Americano cairá se e quando sua moeda deixar de ser a moeda de reserva global.

    Tudo depende da resposta ao desafio que será dada pelos Estados Unidos, de acordo com a estrutura conceitual proposta pelo historiador Arnold Toynbee para explicar a dinâmica das civilizações. Conforme o trecho que abre este artigo, o fator fundamental é a atitude dos indivíduos em face da mudança nas circunstâncias. Não é quem tem a melhor tecnologia, o melhor conhecimento, as melhores condições geográficas, a melhor raça que consegue sobreviver, mas aquele que tem o espírito necessário para fazer a civilização se renovar e continuar a dar frutos. Para Toynbee, a História não é uma sequência inevitável de causas e efeitos, mas uma sequência de respostas aos desafios colocados aos grupos humanos, sejam doenças, sejam guerras, sejam desastres naturais, sejam novos concorrentes que encontraram uma maneira melhor de organizar a vida em sociedade. A melhor resposta será dada pelos indivíduos que cultivam seu espirito, isto é que exercem controle sobre si mesmos em busca de um objetivo e que são fortes o suficiente para enfrentar as adversidades.

    Prezados leitores, a história do século XX foi a história da ascensão do Império Americano. A história do século XXI ainda não são favas contadas, apesar de todas as previsões apocalípticas dos especialistas. Uma coisa é certa: o ciclo de nascimento, crescimento, amadurecimento e morte estará sempre presente, assim como a ressurreição sob um novo formato de algo que estava perecendo. Aguardemos e preparemos o nosso espírito para atuarmos no Universo.

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Religião para quê?

Ele comparou esses pagãos polidos, herdeiros de um milênio de cultura, com os vetustos teólogos que o haviam rodeado em Nicomédia, ou aqueles estadistas piedosos que haviam considerado necessário matar seu pai, seus irmãos e muitos mais; e ele concluiu que não havia bestas mais ferozes que os cristãos.

Trecho retirado do livro “The Age of Faith”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre a vida de Flavius Claudius Julianus ou Juliano, o Apóstata (331-363), imperador romano

[…] ele identificava as ideias arquetípicas criativas de Platão com a mente de Deus, considerava-as como o Logos ou a Sabedoria intermediária por meio da qual todas as coisas tinham sido feitas e olhava o mundo da matéria e do corpo como um impeditivo satânico à virtude e à liberação da alma aprisionada. Por meio da piedade, da bondade e da filosofia, a alma poderia libertar-se, elevar-se à contemplação das realidades e das leis espirituais e assim ser absorvida no Logos, talvez no Deus final Ele mesmo.

Trecho retirado do livro “The Age of Faith”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as ideias filosófico-religiosas de Flavius Claudius Julianus ou Juliano, o Apóstata (331-363), imperador romano

Quando uma religião torna-se uma instituição para forçar a crença ou a devoção; quando ela assume para si o direito exclusivo de interpretar as Escrituras e definir a moralidade; quando ela forma uma classe sacerdotal que alega ter a abordagem exclusiva de Deus e da graça divina; quando ela faz da sua celebração um ritual mágico dotado de poderes miraculosos; quando ela se torna uma arma do governo e um agente de tirania intelectual; quando ela procura dominar o estado e usar os governantes civis como ferramentas da ambição eclesiástica – então o livre pensamento  se rebelará contra tal igreja  e procurará fora dela aquela “pura religião da razão” que é a busca da vida moral.

Trecho retirado do livro “Rousseau and Revolution”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre as ideias de Immanuel Kant (1724-1804) sobre religião

    Prezados leitores, vocês já ouviram falar de Juliano, o Apóstata? É o mesmo personagem histórico que dá nome ao romance Julian, do escritor americano Gore Vidal (1925-2012) que se interessou por este imperador do século IV cujo reinado durou breves 20 meses. A razão do interesse de Vidal por Juliano é que o americano era um classicista, um homem que enfatizava a herança greco-romana da civilização ocidental em detrimento da herança cristã, assim como fez o filósofo Bertrand Russell (1872-1970). E ninguém como imperador Juliano representou esse conflito entre o paganismo e o cristianismo de maneira tão dramática não só por sua vida como por suas ideias.

    Juliano era sobrinho de Constantino, o Grande (272-337), o primeiro imperador romano convertido ao cristianismo. Ao morrer, Constantino fundador da Nova Roma, que depois viria a ser chamada de Constantinopla e hoje é Istambul, deixou o poder para seus três filhos, Constantino, Constâncio e Constante. Quando estes ascenderam ao comando do império, decidiram que seria melhor matar possíveis concorrentes e com isso o pai, o irmão mais velho e os primos de Juliano foram eliminados. Enviado a Nicomédia, Juliano foi educado pelo bispo Eusébio (-341) e voltando à cidade depois de um exílio forçado na Capadócia interessou-se pela filosofia de Libânio (314-394). Em 355 Juliano foi novamente exilado por ordem de Constâncio desta vez para Atenas, onde caiu de amores pelo pensamento, pela religião e pela filosofia dos pagãos.

    Conforme o trecho que abre este artigo, em Atenas Juliano comparou os pagãos educados e sofisticados de Atenas, que discutiam livremente na ágora e cultivavam a beleza e a busca da verdade por meio da razão, com aqueles homens que professavam a religião cristã mas tinham assassinado sua família na luta pelo poder. Em fazendo esse cotejo, Juliano decidiu-se pelo paganismo e quando ascendeu ao trono, em 361, procurou estabelecer uma nova religião em oposição ao cristianismo que retomasse os princípios tradicionais que haviam inspirado a teologia pagã.

    A religião proposta por Juliano fundava-se em argumentos racionais. Tomando a ideia platônica das formas ideais que dão origem às coisas do mundo, aquele que seria chamado pelos cristãos de apóstata considerava que o Logos que dá forma ao mundo material é o ideal a que cada um deveria aspirar. E essa ascensão ao mundo superior espiritual só seria possível se o homem praticasse a virtude para que ele se desvencilhasse dos desejos da carne. O espírito e a matéria estão sempre em conflito e cabe ao ser humano, dotado de livre arbítrio escolher o bem para aproximar-se do Logos e da mente de Deus.

    Juliano morreu aos 32 anos em Ctesifonte, no atual Iraque, trespassado por uma lança provavelmente atirada por um cristão quando travava guerra contra os persas. Seus esforços de paganização morreram com ele e o culto à herança cultural grega só seria retomado 1.000 anos depois, com o fim da Idade Média, quando o cristianismo que havia reinado inconteste começa a perder credibilidade entre as elites intelectuais da Europa. No século XVIII, essa crítica ao cristianismo atinge seu ápice com o movimento Iluminista, que teve entre seus maiores expoentes o filósofo Immanuel Kant (1724-1804).

    Kant funda sua crítica à religião no fato de o cristianismo ter se institucionalizado por meio de uma igreja que adquiriu poder político, econômico e cultural e usava e abusava dele para perseguir seus fins, que eram sempre o da autopreservação. Nesse sentido a religião cristã havia se transformado em uma ideologia, isto é, em um sistema de ideias preocupado tanto com a verdade como com a conduta das pessoas. Era preciso moldar o modo como as pessoas se comportavam em todas as dimensões da vida – familiar, profissional, social, intelectual, econômica, política – impondo as verdades da igreja. Quem quer que não se enquadrasse nesse esquema, seja questionando os dogmas teológicos, seja comportando-se mal, deveria ser combatido como inimigo, herege, herético pois sua rebelião era um desafio à posição da igreja como instituição consolidada de controle total sobre a sociedade.

    Tais críticas à Igreja, que fizeram com que em 1793 as autoridades prussianas proibissem Kant de escrever ou falar sobre assuntos religiosos, não significa que Kant fosse ateu. Tal como Juliano, ele propunha uma religião fundada em bases racionais. Acreditar em Deus não exigia que se acreditasse na divindade de Cristo, ou no perdão dos pecados do homem pela crucificação do Filho de Deus, mas simplesmente acreditar que o ser humano era dotado de um senso moral inato, um senso do dever que o leva a escolher o caminho da virtude porque essa é a coisa certa a fazer.

    Nesse sentido uma religião da razão não envolve o cumprimento de rituais de veneração, a solicitação de favores especiais por meio da oração. Pedir coisas a Deus esperando que ele as conceda é uma superstição ilusória e moralmente errada pois fere a lei universal proposta por Kant de que devemos atuar de maneira que se todos atuarem como nós tudo sairá bem. De forma que se cada crente for pedir para si algo em detrimento dos outros, haverá uma violação desse princípio fundamental de uma moralidade fundada na obrigação de cumprir o dever como um fim em si, ditado pela natureza moral do homem.

    Prezados leitores, Juliano no século IV e Kant no século XVIII desafiaram o cristianismo dando novas respostas à pergunta sobre a função da religião: ela não deve ser um instrumento de conquista e perpetuação do poder, nem ser uma ferramenta ideológica exclusiva de um povo ou país a ser imposta a outros. A religião deve ser um caminho de virtude que ao ser trilhado, leva o homem a concretizar sua vocação para a racionalidade, para o uso da razão de maneira a superar as paixões, os desejos, e o mal que advém do culto da matéria em detrimento do espírito. Pode ser que Juliano e Kant tenham exigido demais do homem ao tirar todo o aspecto emocional da fé religiosa, transformando-a em uma busca de um ideal irrealizável, mas uma coisa é certa: apontando a tendência do cristianismo a tentar controlar todas as esferas da vida humana, eles propuseram, cada um à sua maneira, um modo de praticar a piedade sem que seja preciso abdicar da liberdade de pensamento. Fica a lição para o século XXI.

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Esse est percipi

O fornecedor do Pentágono, Elon Musk, atualmente o homem mais rico do mundo, postou um videoclipe mostrando como as pessoas podem usar a ferramenta de geração de vídeos por meio de IA, a Grok Imagine, para criar a imagem do rosto de uma mulher dizendo “Vou sempre amar você.” O clipe gerado por IA parece falso e horripilante, e tudo em relação ao post de Musk é decididamente deprimente. Mas não é tão falso, horripilante e deprimente quanto a distopia capitalista que deu origem a ele. Isso é tudo o que a classe dominante tem a oferecer a você. Amor fake. Conexões fakes. Truques inúteis para nos entreter à custa da biosfera agonizante.

Trecho retirado do artigo “This is All Our Rulers are Offering Us”, publicado em 10 de novembro de 2025 pela jornalista australiana Caitlin Johnstone

Ele não negava a realidade de um mundo externo, uma fonte externa das nossas percepções; ele apenas negava a materialidade daquele mundo. Os objetos externos podem continuar a existir quando não os percebemos, mas isso só ocorre porque são objetos de percepção na mente de Deus. E na verdade (ele continuava), nossas sensações são causadas não pela matéria externa, mas pelo poder divino atuando sobre os nossos sentidos. Somente o espírito pode atuar sobre o espírito; Deus é a única fonte das nossas sensações e ideias.

Trecho retirado do livro “The Age of Louis XIV”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981), sobre o filósofo irlandês George Berkeley (1685-1753)

    Prezados leitores, quem não se entretém com videoclipes do TikTok ou do YouTube? Sou fã de videoclipes chamados PUPPET REGIME, que mostram bonecos representando líderes mundiais como Vladimir Putin, Donald Trump, Nicolas Maduro, Xi Jinping, Narendra Modi e até Lula e Bolsonaro conversando entre si. O boneco de Donald Trump cantando “I brought peace to the Middle East” é impagável. O topete loiro está lá, a profusão de adjetivos que ele usa, o tom de voz que ele adota para proferi-los e principalmente o cacoete que o Trump real tem de sugar saliva na boca antes de começar uma nova sentença depois de uma pausa. Recomendo PUPPET REGIME a qualquer um que queira dar umas risadas com uma sátira às vezes inteligente e às vezes estereotipada do que fazem todos esses políticos citados. A inteligência artificial tem esse poder cada vez maior de imitar vozes e trejeitos das pessoas. Não há nada melhor para um esquete cômico do que tal verossimilhança.

    Por outro lado, há o lado negro dessa capacidade de imitação da realidade da IA, apontado por Caitlin Johnstone em seu artigo. Fazer um videoclipe em que uma bonita mulher diz ao espectador aquilo que ele quer ouvir pode ser à primeira vista um feito e tanto, mas o perigo está em substituir o real pelo fake: contentar-se com a interação com uma mulher fake, falando de maneira falsa que ama o espectador.  A pessoa que assiste a esse videoclipe está gastando o tempo dela consumindo aquele conteúdo quando poderia estar se dedicando a estabelecer conexões de verdade com o sexo oposto no mundo físico e não no mundo virtual dos aparelhos eletrônicos. Para Caitlin Johnstone, a distopia que os bilionários que estão desenvolvendo a IA estão criando consiste em colocar o ser humano em um ambiente cada vez mais fake, de contatos virtuais, de mensagens virtuais, de relacionamentos virtuais e a consequência disso é que vamos pouco a pouco nos desumanizando. O futuro é distópico porque as pessoas falarão de seus problemas emocionais com um terapeuta virtual, farão sexo com bonecos e terão namorados ou namoradas que serão criações de IA feitas sob medida para o usuário. Imerso na virtualidade total, o ser humano se transformará em um consumidor passivo de conteúdos fake destituído de autonomia, da capacidade de pensar e de atuar no mundo. Esta é a visão pessimista de Caitlin Johnstone se deixarmos que a revolução tecnológica proporcionada pela IA crie raízes na sociedade.

    O que é chocante para pessoas nascidas ainda no século XX é a disrupção do paradigma materialista tão entranhado na sociedade ocidental há séculos, desde o começo dos ataques ao cristianismo e sua espiritualidade engessada por parte dos filósofos iluministas. Esse paradigma postula basicamente que o mundo consiste em objetos materiais, duros, corpóreos, que podem ser vistos, tocados, cheirados, degustados, ouvidos. Objetos que têm uma certa consistência, um certo volume, uma certa maleabilidade, uma certa forma, uma certa cor, um certo odor. Há uma maneira objetiva de verificar a existência desses objetos, descrevendo-os e medindo-os de modo a estabelecer suas qualidades e quantidades. Tudo muito óbvio antes do advento do mundo virtual da internet e dos simulacros da IA, não? Não necessariamente, pois houve quem questionasse esses pressupostos materialistas que embasavam nossa visão de mundo até pouco tempo. Um desses indivíduos, foi o filósofo George Berkeley, cuja filosofia pode ser resumida na frase “Existir é perceber” ou “Esse est percipi”, como ele escreveu em latim.

    Berkeley nega o materialismo colocando a seguinte indagação: como podemos ter certeza que os objetos externos que causam uma impressão nos nossos órgãos do sentido realmente existem? Como ter certeza de que eles não passam de imagens vívidas surgidas durante o dia como os sonhos o são durante a noite? Para Berkeley, aquilo que consideramos como as marcas do que fazem os objetos terem uma realidade independente e a que chamamos de matéria, não passam de qualidades e quantidades determinadas por nossa mente. A extensão, a solidez, o formato, o número, o movimento, o repouso dos objetos são percepções da nossa mente e os objetos só adquirem existência para nós na medida em que são percebidos, daí o “Esse est percipi”.

    Nesse sentido, aquilo que chamamos de átomos, prótons, ânions, elétrons, nêutrons ou partículas fundamentais são convenções baseadas em nossas premissas materialistas. A existência de tal matéria é verificada por meio das qualidades e quantidades que determinamos e medimos por meio dos equipamentos que o ser humano teve a capacidade de inventar: a massa, a carga elétrica, a posição, a velocidade, o momento, o atrito e outras categorias. Para Berkeley, não há existência sem percepção, pois uma pressupõe a outra, o objeto só existe porque é percebido por uma mente que o descreve. Daí que uma mente inativa, que não está exercitando a percepção, não pode existir a não ser que ela mesma seja objeto de percepção de outra mente ativa. É nesse ponto que Berkeley introduz a noção de Deus, conforme o trecho que abre este artigo: a divindade é a mente que percebe tudo, que dá existência a tudo, inclusive a nós, seres humanos, é a consciência universal que é a fonte de todas as percepções e ideias. A ideia de Deus é o instrumento pelo qual Berkeley garante a existência eterna das mentes e daquilo a que chamamos de objetos físicos, os quais sob a ótica berkeliana são somente construções mentais.

    Como não deixarmos de traçar um paralelo entre essa consciência universal que dá vida a tudo por meio de sua constante atividade mental e a IA que hoje está sendo desenvolvida pelos bilionários capitalistas denunciados por Caitlin Johnstone? Afinal, ambos os pontos de vista substituem o paradigma da matéria pelo paradigma daquilo que só existe virtualmente e, em assim fazendo causam a subversão da noção de realidade: para Berkeley no século XVIII nada existe fora e independente de uma mente, assim como no mundo da IA no século XXI nada existe além do ambiente virtual, pois tudo pode ser criado dentro dele: pessoas, conexões, relações, mensagens.

    Prezados leitores, a disrupção do paradigma do materialismo e do realismo tão naturalizado na sociedade com o advento da Revolução Industrial no século XIX pode ser maléfica aos olhos de uma pessoa da geração de Caitlin Johnstone, educada com base naqueles princípios fundamentais. No entanto, o idealismo de Berkeley, isto é a noção de que o que quer que existe só é conhecido pelo homem por meio das ideias e como ideias, pode nos ajudar a entender e aceitar melhor o inevitável advento do mundo virtual criado pela IA.

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Exegeses

A tarefa do comentarista é penetrar na alegoria, perceber no corpo material das Escrituras sua alma e seu espírito, descobrir sua referência existencial para o cristão. A exegese correta (interpretação crítica) é uma dádiva da graça àqueles que eram dignos do ponto de vista espiritual.

Trecho retirado do verbete da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica sobre o teólogo e estudioso da Bíblia Origines Adamantius (185-254) ou Orígenes

A Igreja pode ser desculpada por ter condenado Orígenes: seu princípio de interpretação alegórica não somente tornava possível provar qualquer coisa, mas de uma tacada só destruía as narrativas das Escrituras e a vida terrena de Cristo; e recuperava o julgamento individual justamente quando propunha defender a fé. Enfrentando a hostilidade de um governo poderoso, a Igreja sentia necessidade de unidade; ela não poderia permitir-se, de maneira segura, ser dividida em uma centena de partes frágeis a cada lufada do intelecto, por heresias desleais, por profetas enlevados ou por filhos brilhantes.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, do filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) sobre Orígenes

 

Eles desejam recompensar os assassinos pelos atos horrendos perpetrados em nossas crianças, mulheres, pais e amigos. Eles estão comprometidos em erradicar o mal deste mundo, para a nossa existência e, eu acrescento, para o bem da humanidade. Todo o povo e a liderança do povo os abraçam e acreditam neles. ‘Lembrem-se do que Amaleque fez com vocês’ (Deuteronômio 25:17). Nós lembramos e lutamos.

Trecho retirado do discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu, proferido em 28 de outubro de 2023

    Prezados leitores, de acordo com o Velho Testamento, os amalequitas eram uma tribo nômade que perseguiu os judeus quando do êxodo do Egito e os atacou em Refidim, perto do Monte Sinal. Os amalaquitas foram derrotados por Josué e de maneira definitiva no tempo do profeta Ezequiel, no século VI a.C. Essa é a história contada no Velho Testamento, mas o que exatamente é fato histórico e o que é mito não se sabe e nunca se saberá. O importante é que ela é usada no século XXI para justificar a ofensiva israelense em Gaza após os ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023. É preciso seguir a Bíblia ontem, hoje e no futuro. Não se esquecer do que Amaleque fez, como está no Deuteronômio, citado acima, significa no século XXI não se esquecer dos inimigos de Israel, assim como os amalequitas, supostamente liderados por Amaleque, eram os inimigos do povo judeu quando este saiu do Egito, o que também não se sabe se realmente ocorreu.

    Qualquer que seja o grau de historicidade dos amalequitas e do seu chefe Amaleque, a mensagem é clara: a Bíblia comanda os fiéis a jamais esquecerem e no contexto atual do Estado de Israel, essa exortação à memória é uma exortação à vingança contra os inimigos do povo judeu, no caso o Hamas. Temos aqui um duplo movimento intelectual: em primeiro lugar, toma-se uma narrativa bíblica como se os acontecimentos tivessem realmente ocorrido no tempo histórico e em segundo lugar interpreta-se o comando do Deuteronômio como uma ordem para atacar aqueles que no presente desempenham o papel dos amalequitas de outrora. Para entendermos como tal movimento é possível, é útil fazermos referência a Orígenes, o mais influente e importante teólogo e estudioso da Bíblia do início da Igreja Cristã na Grécia.

    Para Orígenes, sob a letra das leis, das histórias, dos mitos e das parábolas havia uma verdade espiritual escondida que cabia ao exegeta revelar. Não se podia tomar as narrativas bíblicas como uma descrição de acontecimentos históricos, mas como símbolos a serem decifrados pelos poucos que, abençoados pela graça de Deus, conforme o trecho que abre este artigo, se dedicariam à exegese textual. Tal esforço intelectual revelaria que a Bíblia tinha duas camadas mais profundas de significado, além do sentido literal: um sentido moral e um sentido espiritual. Sob tal perspectiva, nenhum homem dotado de sensatez poderia considerar que a história da criação do mundo contida no Gênesis era uma descrição do que realmente havia se passado. Nem que Deus havia plantado a árvore da vida no Jardim do Éden ou que o Diabo havia levado Jesus ao topo de uma montanha e lhe oferecidos os reinos deste mundo. A literalidade dessas histórias escondia seu verdadeiro sentido: o Jesus Cristo de carne e osso descrito no Novo Testamento era o Logos ou Razão que organizava o mundo, o pensamento de Deus que se materializava na Terra e lhe dava ordem e racionalidade.

    Não é de se admirar que Orígenes, que morreu depois de ser preso e torturado por sua fé cristã em 250, tenha sido posteriormente declarado um herético pelo Papa Anastásio em 400. Conforme explica Durant no trecho que abre este artigo, se as narrativas das Escrituras não deveriam ser tomadas em seu sentido literal, a vida de Cristo na Terra era um mito: seu nascimento de uma virgem, seus milagres, sua ressurreição não eram fatos históricos, mas símbolos de uma verdade moral e espiritual. Nesse caso, como postular que a fé cristã era algo mais do que a miríade de seitas esotéricas que se propunham estabelecer o contato místico com a divindade? Se o exegeta poderia interpretar individualmente a Bíblia e tirar suas próprias conclusões, porque haveria a necessidade de uma Igreja que centralizasse em si os ritos e os sacramentos, que dissesse o que era acerto e o que era errado, o que pertencia a Deus e o que pertencia ao Diabo?

    Assim é que Orígenes, apesar de ter editado o Velho Testamento, colocando lado a lado seis versões diferentes na Héxapla, acabou sendo renegado pela Igreja Cristã. Sua visão da Bíblia como uma alegoria não permitia que a Igreja pudesse estabelecer seus dogmas em terreno firme, pois eles estariam sempre sujeitos à revelação de uma outra verdade por um outro estudioso das Escrituras. Em seus primeiros séculos de vida, em que a Igreja Cristã se enfrentava com o Império Romano e os deuses do amplo panteão clássico, ela não tinha necessidade de homens místicos cujo encontro com a divindade era uma experiência pessoal e intransferível. De místicos já bastavam João Batista e Jesus Cristo. Ela tinha isso sim a necessidade de estabelecer um conteúdo teológico, fundado na infalibilidade das Escrituras, que mostrasse como a religião cristã era superior a todas as outras, porque Jesus Cristo era filho de Deus, que se fez homem no mundo, viveu e ressuscitou.

    Prezados leitores, essas breves explicações sobre uma parte do pensamento de Orígenes e sobre a razão por que foi declarado herege pela Igreja Cristã permitem-nos ver que a Bíblia se presta a diferentes níveis de interpretação, a depender do objetivo de cada um. Em busca da transcendência espiritual, Orígenes via nos acontecimentos narrados uma mera porta de entrada para um sentido metafórico oculto pela literalidade do texto. A Igreja, querendo estabelecer e consolidar seu poder, apresentava a extraordinária vida de Jesus na Terra como o fundamento da superioridade intelectual da sua mensagem. E o primeiro-ministro de Israel, querendo justificar as ações militares do país nos territórios habitados pelos palestinos, cita a Bíblia para exortar os israelenses a fazer o que Deus manda e derrotar seus inimigos. Diferentes objetivos, diferentes exegeses. Uma coisa é certa, no entanto: mito ou testemunho histórico, poesia ou biografia de grandes profetas, literatura ou narrativa dos feitos de um povo e de uma pessoa em especial, a Bíblia será sempre invocada, manipulada, usada e abusada enquanto houver fiéis das três religiões monoteístas, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

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