Exegeses

A tarefa do comentarista é penetrar na alegoria, perceber no corpo material das Escrituras sua alma e seu espírito, descobrir sua referência existencial para o cristão. A exegese correta (interpretação crítica) é uma dádiva da graça àqueles que eram dignos do ponto de vista espiritual.

Trecho retirado do verbete da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica sobre o teólogo e estudioso da Bíblia Origines Adamantius (185-254) ou Orígenes

A Igreja pode ser desculpada por ter condenado Orígenes: seu princípio de interpretação alegórica não somente tornava possível provar qualquer coisa, mas de uma tacada só destruía as narrativas das Escrituras e a vida terrena de Cristo; e recuperava o julgamento individual justamente quando propunha defender a fé. Enfrentando a hostilidade de um governo poderoso, a Igreja sentia necessidade de unidade; ela não poderia permitir-se, de maneira segura, ser dividida em uma centena de partes frágeis a cada lufada do intelecto, por heresias desleais, por profetas enlevados ou por filhos brilhantes.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, do filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) sobre Orígenes

 

Eles desejam recompensar os assassinos pelos atos horrendos perpetrados em nossas crianças, mulheres, pais e amigos. Eles estão comprometidos em erradicar o mal deste mundo, para a nossa existência e, eu acrescento, para o bem da humanidade. Todo o povo e a liderança do povo os abraçam e acreditam neles. ‘Lembrem-se do que Amaleque fez com vocês’ (Deuteronômio 25:17). Nós lembramos e lutamos.

Trecho retirado do discurso do primeiro-ministro de Israel, Benjamim Netanyahu, proferido em 28 de outubro de 2023

    Prezados leitores, de acordo com o Velho Testamento, os amalequitas eram uma tribo nômade que perseguiu os judeus quando do êxodo do Egito e os atacou em Refidim, perto do Monte Sinal. Os amalaquitas foram derrotados por Josué e de maneira definitiva no tempo do profeta Ezequiel, no século VI a.C. Essa é a história contada no Velho Testamento, mas o que exatamente é fato histórico e o que é mito não se sabe e nunca se saberá. O importante é que ela é usada no século XXI para justificar a ofensiva israelense em Gaza após os ataques do Hamas, em 7 de outubro de 2023. É preciso seguir a Bíblia ontem, hoje e no futuro. Não se esquecer do que Amaleque fez, como está no Deuteronômio, citado acima, significa no século XXI não se esquecer dos inimigos de Israel, assim como os amalequitas, supostamente liderados por Amaleque, eram os inimigos do povo judeu quando este saiu do Egito, o que também não se sabe se realmente ocorreu.

    Qualquer que seja o grau de historicidade dos amalequitas e do seu chefe Amaleque, a mensagem é clara: a Bíblia comanda os fiéis a jamais esquecerem e no contexto atual do Estado de Israel, essa exortação à memória é uma exortação à vingança contra os inimigos do povo judeu, no caso o Hamas. Temos aqui um duplo movimento intelectual: em primeiro lugar, toma-se uma narrativa bíblica como se os acontecimentos tivessem realmente ocorrido no tempo histórico e em segundo lugar interpreta-se o comando do Deuteronômio como uma ordem para atacar aqueles que no presente desempenham o papel dos amalequitas de outrora. Para entendermos como tal movimento é possível, é útil fazermos referência a Orígenes, o mais influente e importante teólogo e estudioso da Bíblia do início da Igreja Cristã na Grécia.

    Para Orígenes, sob a letra das leis, das histórias, dos mitos e das parábolas havia uma verdade espiritual escondida que cabia ao exegeta revelar. Não se podia tomar as narrativas bíblicas como uma descrição de acontecimentos históricos, mas como símbolos a serem decifrados pelos poucos que, abençoados pela graça de Deus, conforme o trecho que abre este artigo, se dedicariam à exegese textual. Tal esforço intelectual revelaria que a Bíblia tinha duas camadas mais profundas de significado, além do sentido literal: um sentido moral e um sentido espiritual. Sob tal perspectiva, nenhum homem dotado de sensatez poderia considerar que a história da criação do mundo contida no Gênesis era uma descrição do que realmente havia se passado. Nem que Deus havia plantado a árvore da vida no Jardim do Éden ou que o Diabo havia levado Jesus ao topo de uma montanha e lhe oferecidos os reinos deste mundo. A literalidade dessas histórias escondia seu verdadeiro sentido: o Jesus Cristo de carne e osso descrito no Novo Testamento era o Logos ou Razão que organizava o mundo, o pensamento de Deus que se materializava na Terra e lhe dava ordem e racionalidade.

    Não é de se admirar que Orígenes, que morreu depois de ser preso e torturado por sua fé cristã em 250, tenha sido posteriormente declarado um herético pelo Papa Anastásio em 400. Conforme explica Durant no trecho que abre este artigo, se as narrativas das Escrituras não deveriam ser tomadas em seu sentido literal, a vida de Cristo na Terra era um mito: seu nascimento de uma virgem, seus milagres, sua ressurreição não eram fatos históricos, mas símbolos de uma verdade moral e espiritual. Nesse caso, como postular que a fé cristã era algo mais do que a miríade de seitas esotéricas que se propunham estabelecer o contato místico com a divindade? Se o exegeta poderia interpretar individualmente a Bíblia e tirar suas próprias conclusões, porque haveria a necessidade de uma Igreja que centralizasse em si os ritos e os sacramentos, que dissesse o que era acerto e o que era errado, o que pertencia a Deus e o que pertencia ao Diabo?

    Assim é que Orígenes, apesar de ter editado o Velho Testamento, colocando lado a lado seis versões diferentes na Héxapla, acabou sendo renegado pela Igreja Cristã. Sua visão da Bíblia como uma alegoria não permitia que a Igreja pudesse estabelecer seus dogmas em terreno firme, pois eles estariam sempre sujeitos à revelação de uma outra verdade por um outro estudioso das Escrituras. Em seus primeiros séculos de vida, em que a Igreja Cristã se enfrentava com o Império Romano e os deuses do amplo panteão clássico, ela não tinha necessidade de homens místicos cujo encontro com a divindade era uma experiência pessoal e intransferível. De místicos já bastavam João Batista e Jesus Cristo. Ela tinha isso sim a necessidade de estabelecer um conteúdo teológico, fundado na infalibilidade das Escrituras, que mostrasse como a religião cristã era superior a todas as outras, porque Jesus Cristo era filho de Deus, que se fez homem no mundo, viveu e ressuscitou.

    Prezados leitores, essas breves explicações sobre uma parte do pensamento de Orígenes e sobre a razão por que foi declarado herege pela Igreja Cristã permitem-nos ver que a Bíblia se presta a diferentes níveis de interpretação, a depender do objetivo de cada um. Em busca da transcendência espiritual, Orígenes via nos acontecimentos narrados uma mera porta de entrada para um sentido metafórico oculto pela literalidade do texto. A Igreja, querendo estabelecer e consolidar seu poder, apresentava a extraordinária vida de Jesus na Terra como o fundamento da superioridade intelectual da sua mensagem. E o primeiro-ministro de Israel, querendo justificar as ações militares do país nos territórios habitados pelos palestinos, cita a Bíblia para exortar os israelenses a fazer o que Deus manda e derrotar seus inimigos. Diferentes objetivos, diferentes exegeses. Uma coisa é certa, no entanto: mito ou testemunho histórico, poesia ou biografia de grandes profetas, literatura ou narrativa dos feitos de um povo e de uma pessoa em especial, a Bíblia será sempre invocada, manipulada, usada e abusada enquanto houver fiéis das três religiões monoteístas, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo.

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C’est Nicolas qui paie

“É o Nicolas quem paga.” Esta meme, que circula nas esferas libertárias há vários anos, mas que recentemente teve um aumento de popularidade, consiste em reclamar que Nicolas, um membro da classe média alta de 30 anos, pagará, por meio dos impostos e de suas contribuições previdenciárias, por todo o resto da população.

Explicação retirada do perfil do jornal eletrônico Mediapart no Instagram sobre a meme que circula nas redes sociais na França “C’est Nicolas qui paie”

Certamente, na ausência de leis que limitem a dívida, os regimes políticos em que o sistema eleitoral é majoritário são tão vulneráveis a problemas fiscais quanto quaisquer outros – talvez mais ainda. A polarização política foi sua ruína. Uma teoria da dívida pública estabelece que ela é um meio pelo qual os governos podem sabotar seus opositores; há uma “guerra de atrito” em que cada lado prefere postergar o aperto de cintos do que aceitar a austeridade.

Trecho retirado do artigo “How to avoid high public debt”, publicado na revista The Economist de 18 de outubro de 2025

Confiando que só o debate do tema pode render a ele alguns pontos de popularidade, Lula pediu ao Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, um estudo sobre o custo da medida. A previsão é que a análise seja entregue até o final do ano, mas o valor que circula nos gabinetes do governo é de algo em torno de 100 bilhões de reais. Só para ter ideia do quanto isso representa, o Gás do Povo e a Farmácia Popular, juntos, custam anualmente menos de 10 bilhões de reais. O Bolsa Família consome 160 bilhões de reais por ano.

Trecho retirado do artigo “A conta não fecha”, publicado na revista VEJA de 17 de outubro de 2025 sobre a possibilidade de o governo federal oferecer transporte gratuito no país

    Prezados leitores, as redes sociais inventaram na França a meme do personagem Nicolas, um homem jovem que aparece sempre de mãos à cabeça, preocupado com tudo o que se gasta no país, pois é ele, profissional de nível superior, quem paga por tudo, desde a aposentadoria dos velhinhos até as obras públicas, passando pelas gratuidades destinadas a determinados grupos. A meme é uma crítica bem-humorada sobre o descontrole das despesas públicas na França, que fazem com que a dívida pública do governo represente 108% do PIB em 2025 e que as receitas governamentais abocanhem 51,9% do PIB, de acordo com dados do FMI, da Bloomberg e da The Economist.

    Nicolas é uma invenção da era digital, mas ele retrata a indignação de pessoas que consideram que elas dão mais ao sistema do que recebem. Se a desopilação do fígado por meio de memes compartilhadas na internet não é suficiente, o sujeito com qualificações parte para a ação concreta e pode acabar tomando a decisão mais drástica, que é sair do país. De acordo com o jornal Libération, quinze mil jovens diplomados formados nas escolas de engenharia e administração na França deixam a terra do Asterix, segundo o indicador da federação Syntec, publicado em 30 de setembro. A fuga de cérebros, representada por essa emigração de pessoas para locais onde vão pagar menos impostos e ser mais bem tratados pelo governo, cria assim um círculo vicioso. Os que têm o talento e a formação para criar riquezas e gerar receitas para os cofres públicos se vão, deixando para trás cidadãos cuja contribuição líquida é negativa, ou seja, recebem mais do Estado do que dão. Isso diminui ainda mais a capacidade do governo de investir para criar a infraestrutura de transporte, comunicação, escolas e hospitais e para garantir a segurança pública, piorando a qualidade de vida da população e enervando ainda mais os Nicolas que ainda insistem em permanecer no país. Se estes forem tentar a vida nos Estados Unidos, o Instituto Cato estima que cada um deles, com idade entre 25 e 34 anos e diploma universitário, gere ao longo de sua vida, para o governo que os recebe de braços abertos, benefícios fiscais da ordem de dois milhões e 300 mil dólares.

    As facilidades tecnológicas do século XXI tornam a emigração um evento cada vez menos dramático. Mesmo que o resto da família permaneça no país de origem, a comunicação é instantânea e constante e sempre é possível passar alguns meses na antiga pátria para matar as saudades se o Nicolas consegue um emprego que lhe dá direto a trabalhar em regime de home office. De forma que o jovem profissional irá sair da França, mudar seu domicílio fiscal e assim deixar de pagar pelas contas do governo francês. Os líderes do país terão que pensar em novas maneiras de arrecadar impostos dos Nicolas em uma era de livre circulação de pessoas e de capital, como é a nossa. Ou terão que cortar despesas para enfrentar o problema.

    Será isso politicamente possível? Conforme o trecho que abre este artigo, é muito difícil, independentemente do regime político e do sistema de votação. Quando o voto é proporcional e o regime é parlamentarista, a necessidade de coalizões para formar um governo faz com que os políticos busquem agradar a todos por meio do toma-lá-dá-cá. Quando o sistema político é dominado por grupos de interesse, os lobbies fazem pressão para ter seus pleitos atendidos às expensas da população em geral, que paga pelas benesses. E mesmo quando o sistema de votação é majoritário e o regime é presidencialista os males da coalização são substituídos pelos males da polarização. O partido no poder quer aproveitar o tempo que tem com a rédeas do orçamento em suas mãos para tomar medidas que garantam que ele permaneça no topo e que a oposição seja derrotada no próximo pleito. Não há nenhum incentivo para medidas de austeridade, porque elas só agem de maneira benéfica no longo prazo e o que importa no aqui e agora é viabilizar a reeleição pela gastança.

    Essa lógica se aplica à perfeição ao Brasil. Para ter sucesso na próxima eleição, o incumbente deve enfocar a distribuição de benefícios para os potenciais eleitores, que o premiam por sua generosidade dando-lhe seu voto. Em seu terceiro mandato, Lula já criou o Pé de Meia, bolsa de estudo para alunos do ensino médio, ampliou o Vale Gás, estabeleceu por medida provisória a isenção de tarifas de energia elétrica para 60 milhões de consumidores e, de acordo com a notícia veiculada no começo deste artigo, está estudando custear tarifa zero para o transporte público. No entanto, as bondades não são só para a classe baixa, porque é preciso agradar o andar de cima. Afinal, este controla os meios de comunicação tradicionais e seus membros são os principais credores do governo e roladores da enorme dívida, permitindo que ela não seja paga, mas administrada.

    Por meio de outra medida provisória em setembro, o governo federal lançou a Política Nacional de Datacenters, que, entre outras medidas zera os impostos federais sobre investimentos em datacenters, incluindo a aquisição de equipamentos. Como exigir que Lula agisse de outra maneira se seu antecessor no poder, Jair Bolsonaro, fez o mesmo, estabelecendo entre outras medidas o aumento do Bolsa Família para 600 reais para tentar se reeleger? Que incentivo um governante terá para ser comedido em seus dispêndios se a austeridade não será premiada com o voto dos que sentirão os efeitos dos cortes imediatamente? Se os eventuais benefícios não estão bem claros e não estão assegurados para o futuro?

    Prezados leitores, a responsabilidade fiscal só ocorrerá quando o Nicolas que paga as contas manifestar-se de maneira contundente contra o status quo, seja votando em candidatos que preguem uma racionalização das despesas seja emigrando no caso de se desesperar com as opções políticas disponíveis. Talvez no Brasil, se criássemos um personagem similar ao Nicolas francês que representasse o cidadão da classe média brasileira que dá muito mais ao Estado do que recebe, poderíamos dar o passo inicial de ao menos reconhecer que o problema existe.

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Verdade ou mentira?

A história da vida, da obra e da morte de Jesus de Nazaré não revela nada do movimento mundial o qual ele fez surgir. Ele viveu e ensinou em uma área remota (Palestina) na periferia do Império Romano. Sua vida foi de curta duração e o conhecimento dela permaneceu escondido da maior parte do mundo contemporâneo. Nenhuma das fontes da sua vida e obra pode ser traçada até o próprio Jesus; ele não deixou uma única palavra escrita conhecida. Além disso, não há narrativas contemporâneas escritas sobre sua vida e morte. O que pode ser estabelecido sobre o Jesus histórico depende quase sem exceção das tradições cristãs, especialmente do material mais antigo utilizado na elaboração dos três primeiros Evangelhos do Novo Testamento (Marcos, Mateus e Lucas), que refletem o ponto de vista da igreja posterior e sua fé em Jesus.

Trecho retirado do verbete da Edição de 1974 da Enciclopédia Britânica sobre Jesus Cristo

Um homem foi morto, se não foi Jesus Cristo, foi da mesma forma que ele, ele foi colocado neste sudário. Não pode ser uma falsificação da Idade Média. Uma falsificação não poderia jamais ser realizada dessa maneira. É algo estritamente objetivo isso que digo a vocês. […] O corpo não permaneceu muito tempo envolto pelo sudário, do contrário ele teria se putrefeito e não há sinais de putrefação.

Trecho da palestra dada pelo médico legista belga Philippe Boxho em 26 de setembro de 2023 sobre o Santo Sudário de Turin, que teria envolvido o corpo de Jesus Cristo (6 a.C.-30 d.C.) após sua morte

    Prezados leitores, há duas semanas lhes revelei que estive em São Petersburgo na Rússia em julho. Na mesma viagem passei por Turim, na Itália, e não pude deixar de visitar a catedral que guarda desde o ano de 1578 um pedaço de linho com a imagem impressa da parte da frente e da parte de trás de um homem que apresenta as marcas de alguém que foi flagelado e crucificado. O Santo Sudário, como é chamado em português (Suaire de Turin em francês e Shroud of Turin em inglês) fica guardado no altar em uma capela protegida por um vidro à esquerda da nave da catedral e de tempos em tempos é mostrado ao público. Quando estive lá ele não estava à mostra. As pessoas podem simplesmente sentar-se em bancos e rezar ou tirar fotos.

    Há os que defendem a autenticidade da peça de linho e os que dizem tratar-se de uma falsificação da Idade Média. Não entrarei em detalhes sobre os argumentos de cada uma das partes beligerantes porque não tenho conhecimento técnico para tal, mas é possível, sem incorrer em erros, estabelecer os pontos fortes e fracos de ambos os lados da contenda. Para os que consideram que o Santo Sudário é falso, o fato de sua história só poder ser contada a partir da segunda metade do século XIV, portanto em plena Idade Média é um forte argumento. Afinal, trata-se de uma época em que possuir uma relíquia de Jesus Cristo, ou dos Apóstolos ou de algum santo, era uma grande vantagem, porque atraía peregrinos ao local e movimentava a economia, além de conferir prestígio à igreja que a guardava. Dessa forma, havia um incentivo à produção de falsas relíquias. Se a cadeia de custódia dessa peça de linho não pode ser estabelecida com segurança desde a morte de Jesus, mas apenas mais de 1300 anos depois, como acreditar que ela seja autêntica? Como prova da falsificação, os detratores citam os resultados da datação da presença de carbono-14 no Santo Sudário realizada em 1988 em três laboratórios diferentes: no Arizona, nos Estados Unidos, em Zurique na Suíça e em Oxford na Inglaterra, que colocam a origem do pano há mais ou menos 700 anos, portanto no século XIII, em plena Idade Média. Caso encerrado então?

    O caso não está encerrado para os defensores da autenticidade do Santo Sudário. Eles questionam a confiabilidade dos testes de carbono-14 considerando que a peça de linho foi remendada pelas irmãs Clarissas que tomavam conta do Santo Sudário depois de um incêndio que a danificou enormemente. Além disso, conforme o médico legista Pierre Boxho, que se confessa um homem sem fé, mas que, como homem da ciência, está disposto a descobrir o que o Santo Sudário pode revelar, a análise da imagem impressa na peça fornece detalhes que condizem com a história conhecida da morte e transfiguração de Jesus Cristo: há marcas de feridas produzidas por flagelação; há presença de sangue (AB negativo), bilirrubina e plasma, o que condiz com a causa da morte de um homem crucificado, que é a asfixia pela impossibilidade de respirar devido à posição do corpo; há presença de pólen de plantas encontradas em áreas desérticas do Oriente Médio; os órgãos genitais e as orelhas não aparecem na imagem no linho devido à posição em que fica um homem crucificado; e finalmente o corpo ficou pouco tempo envolto pelo Sudário, pois não há sinais de putrefação, o que condiz com a história narrada nos Evangelhos de que Jesus Cristo ressuscitou ao terceiro dia.

    Infelizmente, a tecnologia atual não permite extrair DNA suficiente para traçar um perfil genético do homem que media entre 1,78 e 1,81 e que tinha ao redor de 35 anos. O DNA obtido limita-se a algumas centenas de pares de bases e além disso foi contaminado porque inúmeras pessoas manipularam o Santo Sudário ao longo dos séculos. Talvez algum dia esse problema técnico seja resolvido e os cientistas possam estabelecer a que grupo populacional pertence este homem. Pois Pierre Boxho não tem dúvidas de que não se trata de uma pintura, mas de um homem que um dia existiu em carne e osso e cujo corpo flagelado se torna visível somente por meio de imagem fotográfica negativa.

    Talvez o mistério do Santo Sudário nunca seja resolvido pela ciência de maneira categórica. Para repetir os testes de carbono-14 seria preciso retirar outras amostras do tecido de outras partes da peça e a Igreja Católica não tem interesse em fazer isso, pois tal procedimento poderia danificá-la e se o resultado fosse o mesmo de 1988 poderia ser um desrespeito à fé dos crentes. Para a Igreja, é melhor que a questão da autenticidade ou da falsificação fique em uma zona cinzenta, pois assim ela não se compromete com afirmações não respaldadas pela ciência e ao mesmo tempo mantém a chama acesa para os crentes que veem o Santo Sudário como prova da ressurreição de Jesus Cristo. Nesse sentido, a relíquia de Turim segue o mesmo destino do próprio Jesus.

    Por um lado, há razões para acreditar na existência histórica de Jesus, pois autores não cristãos fazem referência a ele ou aos seus seguidores: o historiador Tácito (56-117) nos Anais, escritos em 110, faz referência aos cristãos como o bode expiatório escolhido pelo imperador Nero (37-68) para serem responsabilizados pelo incêndio de Roma; Plínio, o Jovem (62-114), governador da Síria, aconselha o imperador Trajano (53-117) sobre como tratar os cristãos; Suetônio (69-141), outro historiador, relata como os cristãos instigavam os judeus à revolta em Roma. Flávio Josefo (37-?), historiador judeu, se refere à morte do irmão de Jesus por apedrejamento em 62, referindo-se a ele como Tiago, o irmão daquele “que chamavam de Cristo”.

    Por outro lado, conforme o trecho que abre este artigo, nenhum autor não cristão descreve a vida e a morte de Jesus Cristo. O que sabemos sobre esse homem palestino é o que nos contam os evangelhos, que só foram escritos de 60 a 100 anos depois de sua morte, em uma língua – o grego – que não era a falada nem por Jesus nem por seus apóstolos, usuários do aramaico. Tem-se assim um retrato nebuloso, como é o Santo Sudário: é muito provável que Jesus realmente tenha existido, mas o que ele fez e realmente falou foram filtrados pela tradição oral que se transmitiu por décadas antes de ser consolidada em um meio escrito, pela tradução desse conteúdo de vida e de pensamento do aramaico para o grego e pelos vieses e objetivos teológicos dos que escreveram os evangelhos para conquistar fieis judeus e não judeus.

    Prezados leitores, à pergunta sobre se o Santo Sudário é uma falsificação ou é autêntico pode ser respondida da mesma maneira que se pode responder à pergunta se Jesus Cristo é verdadeiro ou falso: para além do que as ciências exatas (química e física) e a biologia podem estabelecer sobre o que há naquele pedaço de linho, o que resta é a fé ou a falta de fé de cada um. Assim como a ciência histórica não tem e nunca terá acesso a fontes originais escritas que façam menção contemporânea ao carpinteiro de Nazaré, na Galileia, os testes que possam ser feitos do Santo Sudário sempre estarão sujeitos a contestações devido à antiguidade e à contaminação do material. Resta a cada um tirar suas próprias conclusões com aquilo que temos, que será sempre pouco para os descrentes e sempre suficiente para os crentes.

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A física quântica e as incertezas esclarecedoras

Luciano, ele mesmo, define a filosofia como uma tentativa de “chegar a um lugar elevado do qual você pode olhar em todas as direções.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, do filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) sobre o filósofo e retórico sírio Luciano de Samósata (120-180)

De acordo com o princípio da incerteza, formulado em 1927 pelo físico alemão Werner Heisenberg, é impossível descobrir com precisão tanto a posição quanto a velocidade de um elétron em movimento ao mesmo tempo. Isso implica dizer que leis de causa e efeito definitivas para descrever o comportamento dessas partículas nunca podem ser obtidas, mas somente leis estatísticas que regem o comportamento de grandes agregados delas.

Trecho retirado do verbete racionalismo da edição de 1975 da Enciclopédia Britânica

O universo parece ter sido desenhado por um puro matemático

Frase do físico, matemático e astrônomo britânico James Jeans (1877-1946)

    Prezados leitores, há dois anos comecei a cultivar o hábito de ouvir podcasts enquanto estou fazendo minhas refeições. Dessa maneira, aproveito meu tempo tentando me instruir, já que a maior parte das minhas 24 horas é preenchida com tarefas de trabalho, um mal necessário. Essa é uma grande dádiva da internet: colocar à disposição de uma pessoa, em qualquer lugar do mundo com acesso a uma rede wi-fi, palestras e entrevistas de estudiosos, acadêmicos e professores de instituições renomadas aos quais, antes do advento da rede mundial de computadores, só seria possível ter acesso in loco.

    Nesta semana assisti a um físico francês, Yves Dupont, falando sobre a física quântica e suas implicações filosóficas. Há alguns anos houve um surto de publicações de livros de auto-ajuda supostamente baseados na física quântica, ou pelo menos em um entendimento estereotipado dela. Não é esse o caso do Sr. Dupont: ele não explicou o Princípio da Incerteza de Heisenberg para ajudar as pessoas a ganhar dinheiro ou a conduzirem melhor suas vidas ou chegarem à felicidade e ao sucesso no mundo dos negócios. Sua explicação teve por objetivo fundamentar sua metafísica, isto é, sua investigação da verdadeira natureza das coisas, dos princípios fundamentais.

    Conforme o trecho que abre este artigo, o Princípio da Incerteza de Heisenberg estabelece que não é possível estabelecer simultaneamente a posição de uma partícula subatômica e sua velocidade ao mesmo tempo, pelo fato de tais partículas comportarem-se como onda. A determinação da posição precisa da partícula leva a uma indeterminação do comprimento da onda, o que afeta a velocidade. Por outro lado, caso a partícula tenha um comprimento de onda bem definido isso a faz espalhar-se, fazendo com que ela não esteja em lugar nenhum.  Assim, a medição de um dos atributos observáveis leva a uma grande incerteza na medição do outro.

    Essa incerteza na mensuração tem uma implicação importante: o ato de mensurar em si tem influência sobre o produto da mensuração, de forma que não é possível estabelecer de antemão qual será o resultado. Medindo a velocidade eu, como observador, prejudico a determinação da posição e vice-versa e é somente no ato da observação que há uma definição das grandezas, seja a velocidade ou a posição da partícula, a depender do que o observador escolhe medir. Ao mesmo tempo, tal incerteza não é absoluta: a equação de Schroedinger é a equação básica da física quântica que dá conta dos fenômenos relevantes no mundo das partículas subatômicas. Ela fornece uma gama de resultados possíveis que é incapaz de prever cada evento quântico isolado, mas que dá a probabilidade do que ocorrerá para o agregado deles.

    É neste ponto que Yves Dupont faz a conexão metafísica. Ora, se há uma indeterminação intrínseca no mundo das partículas elementares, se os atributos delas só se presentificam no momento da mensuração pelo observador, isso quer dizer que a fórmula matemática utilizada para descrever os fenômenos quânticos é num certo sentido mais real do que os produtos da sua aplicação. Ela vale sempre, ao passo que a velocidade e a posição que ela determina no reino das probabilidades se realizam em cada instância individual de maneira diferente, mesmo obedecendo, no agregado, aos cálculos probabilísticos. Dupont insere, portanto, um elemento não material, espiritual que é mais fundamental que o comportamento das partículas em um dado momento, pois é invariável.

    A esse respeito, o físico francês inclusive cita Platão (428 a.C.- 348/347 a.C.), ao fazer o contraponto entre o caráter efêmero das partículas que se comportam como onda e o caráter imutável das formas mentais que estabelecem as probabilidades da sua ocorrência. Em vista das peculiaridades da física quântica, não admira que James Deans tenha proposto a ideia, já aventada por Galileu Galilei (1564-1642), de que a linguagem do universo é a matemática. Se o mundo foi concebido por um ente transcendente, além da matéria, ele o fez de acordo com equações matemáticas, de modo que as formas se presentifiquem no mundo sensível como o produto da aplicação de uma fórmula matemática.

    Assim é que Yves Dupont, mesmo sendo cientista e físico, aplica a lição de Luciano de Samósata e usa a filosofia como um trampolim para expandir seu ângulo de visão, conforme o trecho que abre este artigo. Para que o mundo exista, ele precisa ser observado, para que as partículas subatômicas sejam reveladas, elas precisam ser mensuradas, caso contrário elas permanecerão indeterminadas, e para que o observador possa mensurar ele precisa da equação matemática que ofereça a gama de possibilidades de existência da partícula, existência essa que só se presentifica no momento da observação. A metafísica de Dupont é a matemática, e sua física é o comportamento das partículas elementares no tempo e espaço do observador.

    Prezados leitores, sempre que se depararem com alguma pessoa falando como cientista lembrem-se sempre que a boa ciência anda lado a lado com a filosofia: a filosofia permite à ciência explorar hipóteses, oferecer pontos de vista alternativos que enriquecem seu conteúdo. Quem quer que fale da ciência sem fazer referência à filosofia está praticando o cientificismo, isto é, utilizando o discurso científico para fins ideológicos, de manipulação e de dominação, em detrimento da expansão do conhecimento. Fiquem atentos e não se deixem enganar: o bom cientista não despreza a filosofia, mas faz dela sua aliada.

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O fio da roupa

Pedro era tão impopular que muitos se perguntavam como ninguém ainda não o havia matado. […] os camponeses o odiavam por convocá-los para o trabalho forçado que os retirava de sua casa, normalmente de sua família […]

Trecho retirado do livro “The Age of Louis XIV”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre Pedro I (1672-1725), imperador da Rússia

Veja-se como um único fio de tudo o que é usado para fazer uma roupa. … Não procure fazer com que as coisas que acontecem com você aconteçam conforme seus desejos, mas deseje que as coisas que aconteçam sejam como são, e você encontrará a tranquilidade.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, do filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) sobre o ex-escravo e filósofo estoico Epictetus (60-120)

Em geral, as mães se tornaram mães-solo. É raro um homem assumir o cuidado intensivo que é necessário o tempo todo. Quem cuida é a mulher. Pense em como deve ser ter em casa uma criança que tem convulsões, grita, sente dor e precisa ser levada com frequência a hospitais e serviços de saúde para fazer estimulação. A mãe acaba presa a essa rotina. Muitas tiveram de sair do trabalho e desistir dos seus sonhos. Elas escutam, em geral dos políticos, “vocês são umas guerreiras”. Recentemente uma delas me falou: “Doutora, não quero mais ser guerreira. Estou cansada.”

Trecho retirado da entrevista da pediatra da Fiocruz, Maria Elisabeth Moreira, sobre os problemas enfrentados pelas crianças com microcefalia causada pela epidemia do vírus zika, em 2015

    Prezados leitores, em julho deste ano estive durante sete dias em São Petersburgo, a cidade das noites brancas, onde o sol se põe no verão depois das 10 da noite. Não que o sol lá seja algo que surja em abundância, mesmo nessa época. Tive dois dias de firmamento azul, quando vi as pessoas deitadas na grama à beira do rio Neva, aproveitando cada minuto da raridade de um tempo agradável. Nos outros dias, o vento uivou e o céu nublou, como não poderia deixar de ser em uma cidade que fica no golfo da Finlândia a 737 quilômetros do Círculo Ártico. Apesar da minha alma tropical ter ressentido um verão que para mim parecia inverno dos mais rigorosos, eu voltaria à cidade pois não consegui ver tudo o que queria e passear de ônibus vendo os canais pela janela é sempre uma dádiva.

    Mas a cidade fundada por Pedro, o Grande em 1703 tem um lado negro, revelado por seu apelido, “Cidade Construída sobre Ossos”.  Os ossos no caso são dos trabalhadores que foram levados à força para lá, principalmente camponeses, criminosos e prisioneiros de guerra, o que fez Pedro ser odiado pelo povo, conforme o trecho que abre este artigo. À época o local, no estuário do rio Neva, não passava de um pântano cheio de mosquitos no verão e afundado na neve no inverno. O resultado foi que os infelizes que tiveram o azar de ter nascido na classe social errada e portanto, estiveram sujeitos ao trabalho forçado, sofreram com malária, diarreia, escorbuto e hipotermia, morrendo às pencas.

    Se a Veneza do Norte encanta pelos palácios à beira da água, pelas pontes por onde passam os barcos que levam turistas para passear, isso se deve ao sacrifício não reconhecido de milhares de pessoas humildes que deram seu corpo e seu sangue para que a cidade saísse do papel e se transformasse na janela da Rússia para o Ocidente. Talvez em um futuro próximo, seja esse o mesmo destino de Gaza, na Palestina. Caso os planos do presidente dos Estados Unidos Donald Trump saírem do papel e ele construir um empreendimento imobiliário à beira do mar Mediterrâneo, qualquer que seja o nome do local estará sobre os ossos dos palestinos mortos pelos bombardeios de Israel.

    Se os construtores de São Petersburgo soubessem, quando iniciaram as obras do Forte de São Pedro e São Paulo, que a cidade ficaria tão linda e seria admirada por pessoas de todo o mundo mais de 300 anos depois, eles não teriam odiado tanto o responsável pela ideia, o tzar de todas as Rússias. Talvez teriam seguido o conselho de Epictetus, o filósofo estoico mais uma vez citado neste meu humilde espaço, conforme o trecho acima. Ou seja, veriam os sofrimentos físicos que lhes foram impostos, os membros amortecidos pelo frio, as picadas de mosquitos, a falta de alimentação adequada, as gengivas sangrando e o sofrimento emocional, causado pelo isolamento no extremo norte do país, longe de seus familiares, como algo que valia a pena porque atendia um objetivo maior. A confecção da roupa de que fala Epictetus, para a qual cada um dá sua humilde contribuição, é a motivação para que todos aceitem sua cota de atribulações materiais e espirituais como algo necessário para o bem comum. Para os estoicos, essa consciência do nosso papel no grande esquema das coisas dá tranquilidade à alma, impedindo que chafurdemos no desespero.

    E se perdemos de vista a roupa que está sendo costurada ou pior, não a vemos de jeito nenhum e nos sentimos como um fio solto no ar voando por aí de déu em déu? E se não achamos sentido para o nosso sofrimento e nos vemos apenas como seres azarados que nasceram no local e no tempo errados? Esse parece ser o caso da mãe de uma criança com microcefalia atendida pela médica entrevistada pela revista Pesquisa Fapesp de outubro de 2025. Ela é chamada de guerreira por políticos que querem dourar a pílula, que querem motivar mulheres a continuar cuidando do filho doente porque sabem que em última análise elas estão sozinhas nisso e há muito pouca ajuda das autoridades e mesmo da família.

    Uma criança com microcefalia precisa de atendimento multidisciplinar, já que além do atraso no desenvolvimento motor e cognitivo, ela também pode ter disfagia, desnutrição, displasia de quadril, alterações auditivas e oculares. Ou seja, seria preciso que houvesse unidades de saúde à disposição com fisioterapeutas, neurologistas, cirurgiões, fonoaudiólogos, oftalmologistas, otorrinolaringologistas e outros profissionais de saúde que trabalhassem para que as sequelas do dano cerebral fossem as menores possíveis e a criança pudesse praticar o maior número de atividades que seu corpo permite. É óbvio que esse nível de serviços não é oferecido no Brasil para o alvo principal da epidemia de zika ocorrida há dez anos, nordestinos de baixa renda. O resultado é que as crianças serão sempre dependentes de alguém pelo resto da vida, porque não conseguirão ter cognição e mobilidade em um nível adequado para estudar, conseguir emprego e trabalhar. Serão, em suma, sempre um fardo para a família e principalmente para a mãe.

    Será que o sofrimento das vítimas do vírus zika no Brasil no século XXI é da mesma natureza que aquela dos construtores de São Petersburgo no século XVIII? Por mais que Pedro, o Grande tivesse escolhido como alvo do trabalho forçado aqueles que estavam na escala mais baixa da sociedade e portanto, não tinham poder para resistir, o fato é que, considerando o nível tecnológico da época, seria impossível estabelecer condições salubres e seguras de trabalho num pântano gelado e nauseabundo. Era injusta a escolha dos mais pobres para serem os braços que construiriam os palácios, as igrejas, as fortalezas e as pontes de São Petersburgo, mas as condições do trabalho em si eram inevitáveis e ao final os sacrifícios deram fruto, a nova capital da Rússia.

    No caso das mães e crianças brasileiras a injustiça é dupla. Foram afetadas pessoas vulneráveis economicamente e tanto a epidemia de zika quanto a microcefalia resultantes poderiam ter sido evitadas se houvesse saneamento básico universalizado em nosso país, se houvesse combate frequente aos mosquitos e se os serviços de saúde contassem com infraestrutura e profissionais adequados. O sofrimento aqui é eterno e sem razão, pois não leva a lugar nenhum, não gera nenhum fruto. Daí o desespero da mãe, que está cansada de lutar sozinha, pois sabe que sua luta é inglória e ocorre por incompetência das autoridades governamentais.

    Prezados leitores, o sofrimento faz parte da vida, mas como nos ensinou Epictetus ele se torna mais ou menos suportável se vemos um sentido para ele, se nos vemos como o fio que será costurado à roupa. Se o fio cai e é pisoteado, esgarçado e se perde deixamos de ser guerreiros e nos tornamos simplesmente vítimas de um sistema injusto, que não dá a cada um o que é seu. Oxalá possamos um dia evitar o sofrimento inútil no Brasil.

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