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Fé para todos

Posted by on 01/04/2026

Eu rezo por SUA graça e proteção das nossas tropas e de todos os homens
e mulheres que servem nas forças armadas.
Trecho de uma oração coletiva conduzida por pastores evangélicos no dia 6
de março de 2026 ao redor do Presidente dos Estados Unidos, Donald
Trump dias depois od inpicio da guerra contra o Irã em 28 de fevereiro

Apesar de o filósofo não poder aceitar em seu sentido literal os dogmas do
“Alcorão, da Bíblia e de outros livros revelados”, ele percebe a necessidade
deles ao elaborar uma devoção e moralidade saudáveis entre a população,
que é tão assediada por inconveniências econômicas que ela não encontra
tempo para desenvolver nada melhor do que um raciocínio incidental,
superficial e perigoso sobre as primeiras coisas e as últimas coisas. Assim, o
filósofo maduro não pronunciará nem estimulará nenhuma palavra contra a
fé estabelecida.


Trecho retirado do livro “A Idade da Fé”, do historiador e filósofo americano
Will Durant (1885-1981) sobre o filósofo islâmico Averróis (1126-1198)

O estabelecimento do sentido verdadeiro e profundo das crenças e
convicções religiosas é o objetivo da filosofia em sua busca da verdade.
Este sentido profundo não deve ser divulgado às massas, que devem
aceitar o significado simples e externo da Escritura contido em histórias,
símiles e metáforas.
Trecho retirado verbete da edição de 1974 da Enciclopédia Britânica sobre o
filósofo islâmico Averróis (1126-1198)

          Prezados leitores, imaginem a cena: ao redor de 15 pastores
evangélicos rezando em torno de Donald Trump no Salão Oval da Casa
Branca, colocando as mãos sobre os ombros e o braço direito do presidente
americano, que mostra um rosto sério, contrito. Além de implorarem para
que Deus dê-lhe sabedoria para governar, os pastores também imploraram
que Deus protegesse as tropas americanas. Detalhe importante: a guerra
contra o Irã começara com o bombardeio no sábado dia 28 de fevereiro de
uma creche, causando a morte de 175 crianças e funcionários. Será que
esses pastores devem mesmo rogar a Deus que proteja o exército
americano que foi capaz de matar crianças em uma creche? Será que a
guerra contra o Irã é santa e justa e justifica o massacre de civis?
          Não pretendo aqui neste meu humilde espaço bater o martelo e
decidir se a guerra se justifica ou não do ponto de vista religioso,
considerando o sofrimento que causará à população de um país que não
atacou os Estados Unidos antes. Meu objetivo é lançar mão dos
ensinamentos de um filósofo que procurou combinar a fé e a razão e assim
separar o joio do trigo, isto é a religião verdadeira, que deveria ser apoiada
e cultivada por todos, independentemente do nível de educação e de

inteligência da pessoa, e a falsa religião, que só serve para semear a
discórdia e fomentar heresias e descrença. Falo de Averróis cujo verdadeiro
nome era Abu al Walid Muhammad ibn Ahmad ibn Muhammad ibn Rushd.
Nascido em Córdoba e falecido em Marrakesh, Averróis foi médico, juiz e
estudioso de Aristóteles e de Platão. De Aristóteles, o filósofo islâmico
tomou emprestado o conceito dos três tipos de argumentos, para atribui-los
aos diferentes atores da sociedade. O primeiro é o demonstrativo,
empregado pelos filósofos, que com base em alguns axiomas e premissas
estabelecidas demonstram uma afirmação como consequência lógica
daqueles pontos de partida. O segundo tipo de argumento é o dialético,
utilizado pelos teólogos, que não cumpre os requisitos de uma
demonstração estrita e acaba sendo uma opinião não corroborada por
provas. O terceiro tipo de argumento é o persuasivo, isto é aquele
empregado na retórica e na poesia para convencer, para emocionar, para
encantar as massas. Portanto a dialética fica a meio caminho entre o rigor
da demonstração lógica e a liberdade de usar qualquer artifício para
arrebatar o coração do ouvinte ou leitor.
         Averróis não vê conflito entre a fé e a razão no sentido de que ele
acredita que a Sharia, baseada no Alcorão, é verdadeira, porque foi
revelada por Deus ao profeta Maomé. A fé na origem divina da Sharia, fonte
de todo conhecimento, não impede que Averróis atribua um papel à razão,
conforme o trecho que abre este artigo. O filósofo, praticante da
argumentação demonstrativa, é o único a poder revelar o sentido profundo
da revelação da Escritura, interpretando-a simbolicamente de maneira a
harmonizá-la com as descobertas da ciência e da filosofia.
         Tal interpretação não deve ser divulgada às massas, que não têm
capacidade de raciocinar neste nível de abstração. A fé da população deve
ser cultivada por meio de histórias de milagres, de homens excepcionais
como o Profeta, de histórias que antropomorfizam Deus. É só dessa
maneira persuasiva que ELE se torna acessível ao intelecto simples daqueles
que passam a vida a se preocupar com a sobrevivência cotidiana e que mais
sentem do que pensam.
         Dessa maneira, Averróis estabelece uma fé para todos, mas uma fé
praticada de maneira diferente pelos diferentes crentes. Ao indivíduo
comum cabe seguir as regras morais inspiradas pela Escritura sem
questionar sua origem ou seu conteúdo porque este é o melhor caminho a
seguir para uma vida saudável, sem grandes desastres causados pelo
comportamento desregrado. Ao filósofo cabe estudar a Escritura como fonte
da verdade para revelar seu sentido íntimo. A pior fé é aquela dos teólogos,
que raciocinam dialeticamente e portanto, de maneira não fundamentada,
colocando dúvidas na cabeça daqueles que não foram educados para pensar
direito e por isso são mais vulneráveis a sofismas.

Para Averróis, pior do que não refletir é refletir de maneira
equivocada, sem seguir as regras da lógica, pois isso leva ao
surgimento de versões conflitantes sobre o conteúdo da religião,
tirando a credibilidade da palavra revelada por Deus aos seus

escolhidos. Se os teólogos tiverem liberdade para tecerem
argumentos dialéticos ao sabor das suas conveniências e dos seus
interesses, isso acabará minando a sociedade, tirando-lhe o
sustentáculo da moral fundada na verdade da religião.

Prezados leitores, os ensinamentos do cordovês Averróis mostram
que para que possa haver fé para todos é preciso consideração às
especificidades de cada indivíduo. Para uns a literalidade da Escritura
alimenta a fé, para outros a simbologia do texto sagrado faz nascer o
sentimento da transcendência. De qualquer forma, fica o alerta para quem
quiser abordar a religião por meio da argumentação que justifica certos
comportamentos em nome de Deus: que o faça da maneira mais rigorosa
possível, demonstrando e não apenas lançando ideias como meros
expedientes para dar um verniz de respeitabilidade a atos que causam mal.
Do contrário, teremos teólogos como os pastores trumpistas que não estão
defendendo Deus e os preceitos morais que emanam DELE, mas apenas o
Império Americano. E isso não é a religião concebida por um filósofo como
Averróis, é simplesmente ideologia, isto é, teoria voltada à atuação no
mundo com vistas a um certo objetivo.

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