Luciano, ele mesmo, define a filosofia como uma tentativa de “chegar a um lugar elevado do qual você pode olhar em todas as direções.
Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, do filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) sobre o filósofo e retórico sírio Luciano de Samósata (120-180)
De acordo com o princípio da incerteza, formulado em 1927 pelo físico alemão Werner Heisenberg, é impossível descobrir com precisão tanto a posição quanto a velocidade de um elétron em movimento ao mesmo tempo. Isso implica dizer que leis de causa e efeito definitivas para descrever o comportamento dessas partículas nunca podem ser obtidas, mas somente leis estatísticas que regem o comportamento de grandes agregados delas.
Trecho retirado do verbete racionalismo da edição de 1975 da Enciclopédia Britânica
O universo parece ter sido desenhado por um puro matemático
Frase do físico, matemático e astrônomo britânico James Jeans (1877-1946)
Prezados leitores, há dois anos comecei a cultivar o hábito de ouvir podcasts enquanto estou fazendo minhas refeições. Dessa maneira, aproveito meu tempo tentando me instruir, já que a maior parte das minhas 24 horas é preenchida com tarefas de trabalho, um mal necessário. Essa é uma grande dádiva da internet: colocar à disposição de uma pessoa, em qualquer lugar do mundo com acesso a uma rede wi-fi, palestras e entrevistas de estudiosos, acadêmicos e professores de instituições renomadas aos quais, antes do advento da rede mundial de computadores, só seria possível ter acesso in loco.
Nesta semana assisti a um físico francês, Yves Dupont, falando sobre a física quântica e suas implicações filosóficas. Há alguns anos houve um surto de publicações de livros de auto-ajuda supostamente baseados na física quântica, ou pelo menos em um entendimento estereotipado dela. Não é esse o caso do Sr. Dupont: ele não explicou o Princípio da Incerteza de Heisenberg para ajudar as pessoas a ganhar dinheiro ou a conduzirem melhor suas vidas ou chegarem à felicidade e ao sucesso no mundo dos negócios. Sua explicação teve por objetivo fundamentar sua metafísica, isto é, sua investigação da verdadeira natureza das coisas, dos princípios fundamentais.
Conforme o trecho que abre este artigo, o Princípio da Incerteza de Heisenberg estabelece que não é possível estabelecer simultaneamente a posição de uma partícula subatômica e sua velocidade ao mesmo tempo, pelo fato de tais partículas comportarem-se como onda. A determinação da posição precisa da partícula leva a uma indeterminação do comprimento da onda, o que afeta a velocidade. Por outro lado, caso a partícula tenha um comprimento de onda bem definido isso a faz espalhar-se, fazendo com que ela não esteja em lugar nenhum. Assim, a medição de um dos atributos observáveis leva a uma grande incerteza na medição do outro.
Essa incerteza na mensuração tem uma implicação importante: o ato de mensurar em si tem influência sobre o produto da mensuração, de forma que não é possível estabelecer de antemão qual será o resultado. Medindo a velocidade eu, como observador, prejudico a determinação da posição e vice-versa e é somente no ato da observação que há uma definição das grandezas, seja a velocidade ou a posição da partícula, a depender do que o observador escolhe medir. Ao mesmo tempo, tal incerteza não é absoluta: a equação de Schroedinger é a equação básica da física quântica que dá conta dos fenômenos relevantes no mundo das partículas subatômicas. Ela fornece uma gama de resultados possíveis que é incapaz de prever cada evento quântico isolado, mas que dá a probabilidade do que ocorrerá para o agregado deles.
É neste ponto que Yves Dupont faz a conexão metafísica. Ora, se há uma indeterminação intrínseca no mundo das partículas elementares, se os atributos delas só se presentificam no momento da mensuração pelo observador, isso quer dizer que a fórmula matemática utilizada para descrever os fenômenos quânticos é num certo sentido mais real do que os produtos da sua aplicação. Ela vale sempre, ao passo que a velocidade e a posição que ela determina no reino das probabilidades se realizam em cada instância individual de maneira diferente, mesmo obedecendo, no agregado, aos cálculos probabilísticos. Dupont insere, portanto, um elemento não material, espiritual que é mais fundamental que o comportamento das partículas em um dado momento, pois é invariável.
A esse respeito, o físico francês inclusive cita Platão (428 a.C.- 348/347 a.C.), ao fazer o contraponto entre o caráter efêmero das partículas que se comportam como onda e o caráter imutável das formas mentais que estabelecem as probabilidades da sua ocorrência. Em vista das peculiaridades da física quântica, não admira que James Deans tenha proposto a ideia, já aventada por Galileu Galilei (1564-1642), de que a linguagem do universo é a matemática. Se o mundo foi concebido por um ente transcendente, além da matéria, ele o fez de acordo com equações matemáticas, de modo que as formas se presentifiquem no mundo sensível como o produto da aplicação de uma fórmula matemática.
Assim é que Yves Dupont, mesmo sendo cientista e físico, aplica a lição de Luciano de Samósata e usa a filosofia como um trampolim para expandir seu ângulo de visão, conforme o trecho que abre este artigo. Para que o mundo exista, ele precisa ser observado, para que as partículas subatômicas sejam reveladas, elas precisam ser mensuradas, caso contrário elas permanecerão indeterminadas, e para que o observador possa mensurar ele precisa da equação matemática que ofereça a gama de possibilidades de existência da partícula, existência essa que só se presentifica no momento da observação. A metafísica de Dupont é a matemática, e sua física é o comportamento das partículas elementares no tempo e espaço do observador.
Prezados leitores, sempre que se depararem com alguma pessoa falando como cientista lembrem-se sempre que a boa ciência anda lado a lado com a filosofia: a filosofia permite à ciência explorar hipóteses, oferecer pontos de vista alternativos que enriquecem seu conteúdo. Quem quer que fale da ciência sem fazer referência à filosofia está praticando o cientificismo, isto é, utilizando o discurso científico para fins ideológicos, de manipulação e de dominação, em detrimento da expansão do conhecimento. Fiquem atentos e não se deixem enganar: o bom cientista não despreza a filosofia, mas faz dela sua aliada.