A física quântica e as incertezas esclarecedoras

Luciano, ele mesmo, define a filosofia como uma tentativa de “chegar a um lugar elevado do qual você pode olhar em todas as direções.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, do filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) sobre o filósofo e retórico sírio Luciano de Samósata (120-180)

De acordo com o princípio da incerteza, formulado em 1927 pelo físico alemão Werner Heisenberg, é impossível descobrir com precisão tanto a posição quanto a velocidade de um elétron em movimento ao mesmo tempo. Isso implica dizer que leis de causa e efeito definitivas para descrever o comportamento dessas partículas nunca podem ser obtidas, mas somente leis estatísticas que regem o comportamento de grandes agregados delas.

Trecho retirado do verbete racionalismo da edição de 1975 da Enciclopédia Britânica

O universo parece ter sido desenhado por um puro matemático

Frase do físico, matemático e astrônomo britânico James Jeans (1877-1946)

    Prezados leitores, há dois anos comecei a cultivar o hábito de ouvir podcasts enquanto estou fazendo minhas refeições. Dessa maneira, aproveito meu tempo tentando me instruir, já que a maior parte das minhas 24 horas é preenchida com tarefas de trabalho, um mal necessário. Essa é uma grande dádiva da internet: colocar à disposição de uma pessoa, em qualquer lugar do mundo com acesso a uma rede wi-fi, palestras e entrevistas de estudiosos, acadêmicos e professores de instituições renomadas aos quais, antes do advento da rede mundial de computadores, só seria possível ter acesso in loco.

    Nesta semana assisti a um físico francês, Yves Dupont, falando sobre a física quântica e suas implicações filosóficas. Há alguns anos houve um surto de publicações de livros de auto-ajuda supostamente baseados na física quântica, ou pelo menos em um entendimento estereotipado dela. Não é esse o caso do Sr. Dupont: ele não explicou o Princípio da Incerteza de Heisenberg para ajudar as pessoas a ganhar dinheiro ou a conduzirem melhor suas vidas ou chegarem à felicidade e ao sucesso no mundo dos negócios. Sua explicação teve por objetivo fundamentar sua metafísica, isto é, sua investigação da verdadeira natureza das coisas, dos princípios fundamentais.

    Conforme o trecho que abre este artigo, o Princípio da Incerteza de Heisenberg estabelece que não é possível estabelecer simultaneamente a posição de uma partícula subatômica e sua velocidade ao mesmo tempo, pelo fato de tais partículas comportarem-se como onda. A determinação da posição precisa da partícula leva a uma indeterminação do comprimento da onda, o que afeta a velocidade. Por outro lado, caso a partícula tenha um comprimento de onda bem definido isso a faz espalhar-se, fazendo com que ela não esteja em lugar nenhum.  Assim, a medição de um dos atributos observáveis leva a uma grande incerteza na medição do outro.

    Essa incerteza na mensuração tem uma implicação importante: o ato de mensurar em si tem influência sobre o produto da mensuração, de forma que não é possível estabelecer de antemão qual será o resultado. Medindo a velocidade eu, como observador, prejudico a determinação da posição e vice-versa e é somente no ato da observação que há uma definição das grandezas, seja a velocidade ou a posição da partícula, a depender do que o observador escolhe medir. Ao mesmo tempo, tal incerteza não é absoluta: a equação de Schroedinger é a equação básica da física quântica que dá conta dos fenômenos relevantes no mundo das partículas subatômicas. Ela fornece uma gama de resultados possíveis que é incapaz de prever cada evento quântico isolado, mas que dá a probabilidade do que ocorrerá para o agregado deles.

    É neste ponto que Yves Dupont faz a conexão metafísica. Ora, se há uma indeterminação intrínseca no mundo das partículas elementares, se os atributos delas só se presentificam no momento da mensuração pelo observador, isso quer dizer que a fórmula matemática utilizada para descrever os fenômenos quânticos é num certo sentido mais real do que os produtos da sua aplicação. Ela vale sempre, ao passo que a velocidade e a posição que ela determina no reino das probabilidades se realizam em cada instância individual de maneira diferente, mesmo obedecendo, no agregado, aos cálculos probabilísticos. Dupont insere, portanto, um elemento não material, espiritual que é mais fundamental que o comportamento das partículas em um dado momento, pois é invariável.

    A esse respeito, o físico francês inclusive cita Platão (428 a.C.- 348/347 a.C.), ao fazer o contraponto entre o caráter efêmero das partículas que se comportam como onda e o caráter imutável das formas mentais que estabelecem as probabilidades da sua ocorrência. Em vista das peculiaridades da física quântica, não admira que James Deans tenha proposto a ideia, já aventada por Galileu Galilei (1564-1642), de que a linguagem do universo é a matemática. Se o mundo foi concebido por um ente transcendente, além da matéria, ele o fez de acordo com equações matemáticas, de modo que as formas se presentifiquem no mundo sensível como o produto da aplicação de uma fórmula matemática.

    Assim é que Yves Dupont, mesmo sendo cientista e físico, aplica a lição de Luciano de Samósata e usa a filosofia como um trampolim para expandir seu ângulo de visão, conforme o trecho que abre este artigo. Para que o mundo exista, ele precisa ser observado, para que as partículas subatômicas sejam reveladas, elas precisam ser mensuradas, caso contrário elas permanecerão indeterminadas, e para que o observador possa mensurar ele precisa da equação matemática que ofereça a gama de possibilidades de existência da partícula, existência essa que só se presentifica no momento da observação. A metafísica de Dupont é a matemática, e sua física é o comportamento das partículas elementares no tempo e espaço do observador.

    Prezados leitores, sempre que se depararem com alguma pessoa falando como cientista lembrem-se sempre que a boa ciência anda lado a lado com a filosofia: a filosofia permite à ciência explorar hipóteses, oferecer pontos de vista alternativos que enriquecem seu conteúdo. Quem quer que fale da ciência sem fazer referência à filosofia está praticando o cientificismo, isto é, utilizando o discurso científico para fins ideológicos, de manipulação e de dominação, em detrimento da expansão do conhecimento. Fiquem atentos e não se deixem enganar: o bom cientista não despreza a filosofia, mas faz dela sua aliada.

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O fio da roupa

Pedro era tão impopular que muitos se perguntavam como ninguém ainda não o havia matado. […] os camponeses o odiavam por convocá-los para o trabalho forçado que os retirava de sua casa, normalmente de sua família […]

Trecho retirado do livro “The Age of Louis XIV”, de Will Durant (1885-1981) e Ariel Durant (1898-1981) sobre Pedro I (1672-1725), imperador da Rússia

Veja-se como um único fio de tudo o que é usado para fazer uma roupa. … Não procure fazer com que as coisas que acontecem com você aconteçam conforme seus desejos, mas deseje que as coisas que aconteçam sejam como são, e você encontrará a tranquilidade.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ”, do filósofo e historiador americano Will Durant (1885-1981) sobre o ex-escravo e filósofo estoico Epictetus (60-120)

Em geral, as mães se tornaram mães-solo. É raro um homem assumir o cuidado intensivo que é necessário o tempo todo. Quem cuida é a mulher. Pense em como deve ser ter em casa uma criança que tem convulsões, grita, sente dor e precisa ser levada com frequência a hospitais e serviços de saúde para fazer estimulação. A mãe acaba presa a essa rotina. Muitas tiveram de sair do trabalho e desistir dos seus sonhos. Elas escutam, em geral dos políticos, “vocês são umas guerreiras”. Recentemente uma delas me falou: “Doutora, não quero mais ser guerreira. Estou cansada.”

Trecho retirado da entrevista da pediatra da Fiocruz, Maria Elisabeth Moreira, sobre os problemas enfrentados pelas crianças com microcefalia causada pela epidemia do vírus zika, em 2015

    Prezados leitores, em julho deste ano estive durante sete dias em São Petersburgo, a cidade das noites brancas, onde o sol se põe no verão depois das 10 da noite. Não que o sol lá seja algo que surja em abundância, mesmo nessa época. Tive dois dias de firmamento azul, quando vi as pessoas deitadas na grama à beira do rio Neva, aproveitando cada minuto da raridade de um tempo agradável. Nos outros dias, o vento uivou e o céu nublou, como não poderia deixar de ser em uma cidade que fica no golfo da Finlândia a 737 quilômetros do Círculo Ártico. Apesar da minha alma tropical ter ressentido um verão que para mim parecia inverno dos mais rigorosos, eu voltaria à cidade pois não consegui ver tudo o que queria e passear de ônibus vendo os canais pela janela é sempre uma dádiva.

    Mas a cidade fundada por Pedro, o Grande em 1703 tem um lado negro, revelado por seu apelido, “Cidade Construída sobre Ossos”.  Os ossos no caso são dos trabalhadores que foram levados à força para lá, principalmente camponeses, criminosos e prisioneiros de guerra, o que fez Pedro ser odiado pelo povo, conforme o trecho que abre este artigo. À época o local, no estuário do rio Neva, não passava de um pântano cheio de mosquitos no verão e afundado na neve no inverno. O resultado foi que os infelizes que tiveram o azar de ter nascido na classe social errada e portanto, estiveram sujeitos ao trabalho forçado, sofreram com malária, diarreia, escorbuto e hipotermia, morrendo às pencas.

    Se a Veneza do Norte encanta pelos palácios à beira da água, pelas pontes por onde passam os barcos que levam turistas para passear, isso se deve ao sacrifício não reconhecido de milhares de pessoas humildes que deram seu corpo e seu sangue para que a cidade saísse do papel e se transformasse na janela da Rússia para o Ocidente. Talvez em um futuro próximo, seja esse o mesmo destino de Gaza, na Palestina. Caso os planos do presidente dos Estados Unidos Donald Trump saírem do papel e ele construir um empreendimento imobiliário à beira do mar Mediterrâneo, qualquer que seja o nome do local estará sobre os ossos dos palestinos mortos pelos bombardeios de Israel.

    Se os construtores de São Petersburgo soubessem, quando iniciaram as obras do Forte de São Pedro e São Paulo, que a cidade ficaria tão linda e seria admirada por pessoas de todo o mundo mais de 300 anos depois, eles não teriam odiado tanto o responsável pela ideia, o tzar de todas as Rússias. Talvez teriam seguido o conselho de Epictetus, o filósofo estoico mais uma vez citado neste meu humilde espaço, conforme o trecho acima. Ou seja, veriam os sofrimentos físicos que lhes foram impostos, os membros amortecidos pelo frio, as picadas de mosquitos, a falta de alimentação adequada, as gengivas sangrando e o sofrimento emocional, causado pelo isolamento no extremo norte do país, longe de seus familiares, como algo que valia a pena porque atendia um objetivo maior. A confecção da roupa de que fala Epictetus, para a qual cada um dá sua humilde contribuição, é a motivação para que todos aceitem sua cota de atribulações materiais e espirituais como algo necessário para o bem comum. Para os estoicos, essa consciência do nosso papel no grande esquema das coisas dá tranquilidade à alma, impedindo que chafurdemos no desespero.

    E se perdemos de vista a roupa que está sendo costurada ou pior, não a vemos de jeito nenhum e nos sentimos como um fio solto no ar voando por aí de déu em déu? E se não achamos sentido para o nosso sofrimento e nos vemos apenas como seres azarados que nasceram no local e no tempo errados? Esse parece ser o caso da mãe de uma criança com microcefalia atendida pela médica entrevistada pela revista Pesquisa Fapesp de outubro de 2025. Ela é chamada de guerreira por políticos que querem dourar a pílula, que querem motivar mulheres a continuar cuidando do filho doente porque sabem que em última análise elas estão sozinhas nisso e há muito pouca ajuda das autoridades e mesmo da família.

    Uma criança com microcefalia precisa de atendimento multidisciplinar, já que além do atraso no desenvolvimento motor e cognitivo, ela também pode ter disfagia, desnutrição, displasia de quadril, alterações auditivas e oculares. Ou seja, seria preciso que houvesse unidades de saúde à disposição com fisioterapeutas, neurologistas, cirurgiões, fonoaudiólogos, oftalmologistas, otorrinolaringologistas e outros profissionais de saúde que trabalhassem para que as sequelas do dano cerebral fossem as menores possíveis e a criança pudesse praticar o maior número de atividades que seu corpo permite. É óbvio que esse nível de serviços não é oferecido no Brasil para o alvo principal da epidemia de zika ocorrida há dez anos, nordestinos de baixa renda. O resultado é que as crianças serão sempre dependentes de alguém pelo resto da vida, porque não conseguirão ter cognição e mobilidade em um nível adequado para estudar, conseguir emprego e trabalhar. Serão, em suma, sempre um fardo para a família e principalmente para a mãe.

    Será que o sofrimento das vítimas do vírus zika no Brasil no século XXI é da mesma natureza que aquela dos construtores de São Petersburgo no século XVIII? Por mais que Pedro, o Grande tivesse escolhido como alvo do trabalho forçado aqueles que estavam na escala mais baixa da sociedade e portanto, não tinham poder para resistir, o fato é que, considerando o nível tecnológico da época, seria impossível estabelecer condições salubres e seguras de trabalho num pântano gelado e nauseabundo. Era injusta a escolha dos mais pobres para serem os braços que construiriam os palácios, as igrejas, as fortalezas e as pontes de São Petersburgo, mas as condições do trabalho em si eram inevitáveis e ao final os sacrifícios deram fruto, a nova capital da Rússia.

    No caso das mães e crianças brasileiras a injustiça é dupla. Foram afetadas pessoas vulneráveis economicamente e tanto a epidemia de zika quanto a microcefalia resultantes poderiam ter sido evitadas se houvesse saneamento básico universalizado em nosso país, se houvesse combate frequente aos mosquitos e se os serviços de saúde contassem com infraestrutura e profissionais adequados. O sofrimento aqui é eterno e sem razão, pois não leva a lugar nenhum, não gera nenhum fruto. Daí o desespero da mãe, que está cansada de lutar sozinha, pois sabe que sua luta é inglória e ocorre por incompetência das autoridades governamentais.

    Prezados leitores, o sofrimento faz parte da vida, mas como nos ensinou Epictetus ele se torna mais ou menos suportável se vemos um sentido para ele, se nos vemos como o fio que será costurado à roupa. Se o fio cai e é pisoteado, esgarçado e se perde deixamos de ser guerreiros e nos tornamos simplesmente vítimas de um sistema injusto, que não dá a cada um o que é seu. Oxalá possamos um dia evitar o sofrimento inútil no Brasil.

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Racionalidades

Ele era simplesmente um homem cujos desejos tinham sido mais fortes que as suas crenças teóricas e que gradualmente havia explicado a gratificação dos seus desejos de maneira a acordá-la satisfatoriamente com aquelas crenças. […] Mas um homem que acredita em algo além da sua própria cobiça necessariamente tem uma consciência ou padrão ao qual ele mais ou menos se adapta. O padrão de Bulstrode tinha sido sua utilidade para a causa de Deus.

Trecho retirado do livro Middlemarch, escrito por George Eliot, pseudônimo da escritora inglesa Mary Ann Evans (1819-1874)

 

Há algo no nosso cérebro que é determinado pela embriologia, que por sua vez é determinada pelos genes que nos tornam suscetíveis não só à religião, mas a todas as coisas em que acreditamos e nas quais somos suscetíveis a acreditar. […] Provavelmente há um componente genético na religião. Onde você pode estar errado é em pensar que pelo fato de haver uma tendência genética de tornar-se religioso você não pode se livrar disso. […] Você pode ter uma tendência genética a ser religioso, mas você pode superar isso pela educação e pela racionalidade.

Resposta do biólogo britânico Richard Dawkins (1941-) à pergunta de uma pessoa da plateia sobre a origem genética das crenças religiosas durante uma palestra em 9 de novembro de 2024 em Antuérpia, na Bélgica

    Prezados leitores, nesta semana eu volto ao livro Middlemarch, de George Eliot, para focalizar mais um dos seus personagens, Nicholas Bulstrode um banqueiro residente na fictícia cidade e que pertence à Igreja Metodista. Ler Middlemarch é receber um soco no estômago devido às duras verdades que ele contém. Tanto é assim que nunca tive interesse em assistir à série produzida pela BBC em 1994. Já assistir à adaptação de Pride and Prejudice, de Jane Austen (1775-1817), é sempre um prazer, porque o livro é leve, cheio de diálogos facilmente transponíveis para a tela, e o final é feliz. Em Middlemarch a autora mergulha na consciência dos seus personagens, descrevendo o que lá vê e fazendo uso esporádico das trocas de palavras entre as pessoas. E o que George Eliot vê é assombroso no caso de Nicholas Bulstrode.

    Quando jovem, Bulstrode foi adotado pela família Dunkirk, que fez fortuna penhorando bens roubados. Ele casa com a viúva, mais velha que ele, e deliberadamente esconde dela a localização da filha Sara de maneira que ele herda sua fortuna depois que a esposa morre desgostosa de a filha ter desaparecido e nunca ter retornado ou dado notícias. Bulstrode casa de novo e vive em Middlemarch, onde goza de posição social respeitável, incluindo a de filantropo. Ocorre que um dia seu mundo cai quando um certo John Raffles, que havia ajudado Bulstrode a achar Sara e é pago por ele para ficar calado, aparece ameaçando contar tudo. Raffles acaba morrendo na casa de Bulstrode por uma overdose de ópio ministrada erroneamente para tratamento de uma crise alcoólica.

    Os trechos que abrem este artigo flagram o momento da história em que Bulstrode está com Raffles em sua casa, doente, e conjectura o que fazer para resolver o problema colocado pela presença dele em Middlemarch. George Eliot, descrevendo o fluxo de consciência de um homem que se considera ético e seguidor dos preceitos cristãos como Bulstrode, nos mostra as complexidades da crença religiosa.  Bulstrode nunca foi um homem humilde, magnânimo, amoroso. Ao contrário, seu objetivo era subir na vida, enriquecer e conquistar poder e influência. E para conciliar essa indiferença que ele nutre em relação a outras pessoas que não sejam ele com a ideia que tem de si mesmo de que é um homem piedoso, ele faz uso de malabarismos intelectuais.

    Se Bulstrode privou a esposa da felicidade de reencontrar a filha e o neto para ficar com o dinheiro para si, ele o fez para realizar a obra de Deus: o dinheiro estava em melhores mãos se ficasse com ele, um homem com tino para os negócios e que acabara de fundar e financiar um novo hospital em Middlemarch, do que se tivesse ficado com uma mulher que dilapidaria a fortuna na satisfação dos seus prazeres carnais e materiais. Sob essa ótica se Bulstrode pecou ele o fez para servir a Deus por meio do bom emprego do dinheiro. Realizando os desígnios de Deus na Terra, o banqueiro ambicioso e cheio de cobiça continua a ter uma avaliação positiva do seu próprio comportamento, pois ele estabelece como padrão de julgamento aquilo que ele considera como os objetivos divinos, jamais questionando se tais objetivos são realmente oriundos do Todo-Poderoso ou se são simplesmente uma desculpa que sua mente brilhante arranja para justificar seu comportamento perante si mesmo e continuar crendo-se o mais religioso dos homens, apesar do mal que ele causa a várias pessoas ao redor de si.

    O personagem do metodista hipócrita permite a George Eliot demonstrar uma verdade incômoda. Não é a religião que torna as pessoas mais ou menos morais. Um psicopata rematado como Bulstrode, que usa as pessoas como instrumentos para satisfazer sua ambição – inclusive as pessoas de sua família que o amam verdadeiramente – não será jamais disciplinado pelos mandamentos éticos do cristianismo que ele prega. As faculdades mentais do banqueiro, inesgotáveis na astúcia, são sempre usadas para descartar qualquer imperativo categórico de comportamento e reforçar suas tendências egoístas, dando-lhes um verniz de respeitabilidade e motivando-o a seguir em frente, crente que está realizando a obra de Deus. Temos então um homem que engana os outros e que engana a si mesmo pretendendo ser algo que não é, isto é, um homem que se solidariza com o resto da humanidade.

    Nesse sentido, o único padrão de referência para Bulstrode é ele mesmo e sua versão peculiar do que é a religião, moldada para satisfazer suas paixões. Ao ser descoberto, ele não mostra arrependimento nem mesmo à segunda mulher que não o abandona e segue com ele para outra cidade, fiel na tristeza e na ignomínia. Incapaz de amar e de reconhecer o amor nos que o rodeiam, Bulstrode continua a crer que é um homem de Deus, apesar de assassinar Raffles. Portanto, o discurso religioso, por mais perfeitamente que possa ser proferido por um indivíduo não garante que a pessoa agirá de maneira ética, porque a vontade de ser ético está no coração do indivíduo e o coração de Bulstrode era uma pedra de gelo.

    George Eliot talvez fosse partidária do ateísmo, talvez apenas desconfiasse das pessoas que fazem questão de alardear sua virtude aos quatro ventos por vaidade ou talvez achasse que o ensinamento básico de Cristo, o amor, tivesse se perdido na doutrina das igrejas institucionalizadas. Não é possível sabermos o que ela pensava exatamente da religião porque àquela época falar abertamente desse assunto era perigoso e o melhor era fazê-lo por meio de personagens fictícios. Este não é o caso de Richard Dawkins, o biólogo nascido em Nairóbi que critica abertamente a religião. Conforme o trecho que abre este artigo, para Dawkins, a predisposição a crer é um componente genético do homem, como a cor dos cabelos ou a propensão ao câncer. Esse gene teve um papel na sobrevivência do homem na Terra na medida em que crer em determinadas coisas era útil para criar uma unidade do grupo e forjar laços entre seus membros que lhes permitissem enfrentar melhor os inimigos da outra tribo. Mas para o autor de “The Blind Watchmaker” e “The God Delusion”, em pleno século XXI a crença no transcendente a despeito dos fatos e do conhecimento sobre o mundo natural já acumulado pela civilização não faz mais sentido. É melhor que esse gene seja desativado pela educação e pelo exercício da razão, que abre a mente humana para enfocar o que pode ser constatado materialmente.

    Prezados leitores, entre a racionalidade maquiavélica de Bulstrode e a racionalidade científica de Dawkins, não é difícil escolher qual a melhor do ponto de vista ético. Uma serve para o engrandecimento de um indivíduo em detrimento de todos os que o cercam, a outra serve para descobrir os mecanismos do mundo de forma que possamos viver melhor nele. Por outro lado, não é tão fácil determinar que papel a religião pode ter se ela não é necessariamente o fundamento da moral e ao mesmo tempo não é fácil justificar moralmente a ciência que leva à produção de armas nucleares. Será que no frigir dos ovos o fundamento da racionalidade e da moralidade não deve ser o amor ao próximo ou o esforço de amar o próximo? Para evitarmos tanto a hipocrisia religiosa quanto o desenvolvimento tecnológico desumanizador a receita é aquela que Cristo pregou na Palestina e que sobrevive a despeito de todas as traduções, traições e deturpações da mensagem ao longo de 2.000 anos.

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Escolher como?

Um estudo das dinastias principescas mostra que os netos dos fundadores carecem das qualidades para governar. Isso é compreensível: homens ambiciosos que querem ascender socialmente terão mais energia, mais vontade de governar do que homens nascidos na elite. O grau de aceitação de recém-chegados pela classe dominante é uma característica importante em qualquer sociedade. A impermeabilidade inevitavelmente, com o tempo, faz qualquer classe dominante ilegítima aos olhos dos comandados, qualquer que seja a sofisticação da sua propaganda ou mitologia (sangue real, direito divino, etc.).

Trecho retirado do artigo “Our ruling class”, publicado em 19 de setembro pelo escritor francês Laurent Guyénot

O conhecimento tem valor somente como uma ferramenta da boa vida. “O que pode, então, nortear o homem? Uma coisa somente – a filosofia – não como lógica ou aprendizado, mas como um treinamento persistente em excelência moral. […] A virtude é a vida da razão.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ” do filósofo e historiador norte-americano Will Durant (1885-1981) sobre as Meditações escritas pelo imperador romano Marco Aurélio (121-180)

 

O jovem preferia modelar copos, dançar, cantar, caçar e praticar esgrima; ele desenvolveu uma aversão compreensível a livros, estudiosos e filósofos, mas apreciava a companhia de atletas e gladiadores. Logo ele superava todos os seus companheiros na mentira, na crueldade e na linguagem chula. Marco era exageradamente bom para ser grande o suficiente para discipliná-lo ou colocá-lo de lado; ele continuava esperando que a educação e a responsabilidade iriam endireitá-lo e fazê-lo um rei.

Trecho retirado do livro “Caesar and Christ” do filósofo e historiador norte-americano Will Durant (1885-1981) sobre o filho do imperador Marco Aurélio (121-180), Cômodo (161-192)

    Prezados leitores, o filme Gladiador de Ridley Scott, lançado em 2000, baseia-se mais ou menos em fatos reais. Sim, houve o imperador Marco Aurélio, cujo filho Cômodo o sucedeu, mesmo sem ter capacidade para liderar nada. Mas Cômodo não matou seu pai por sufocamento, como mostra o filme, pois Marco Aurélio morreu de doença em Vindobona, na atual Viena. E Cômodo não morreu no Coliseu nas mãos de um gladiador, mas foi estrangulado na banheira, quando tinha 31 anos de idade, depois que o veneno que lhe foi dado por sua amante Márcia falhou. O roteirista obviamente distorceu a história para poder criar o drama da luta entre o imperador assassino, paranoico e incompetente e o gladiador íntegro e com óbvias capacidades de liderança como era o personagem representado pelo ator neozelandês Russell Crowe.

    De qualquer forma, a disputa entre Cômodo e Maximus Decimus Meridius alude ao problema perene de como a sociedade deve escolher seus líderes e o estrago que a má escolha causa. Conforme o trecho que abre este artigo, Cômodo era totalmente diferente de seu pai, Marco Aurélio. Não tinha pendor intelectual nenhum e nenhum freio moral, preferindo dedicar-se a atividades físicas e às suas paixões. A diferença entre um e outro era tão gritante que corria o boato de que Cômodo na verdade era filho da esposa de Marco Aurélio, Faustina (130-175), com um dos gladiadores que ela tomou como amante. Como bom filósofo que era, o imperador considerava que a educação e a atribuição de tarefas militares a Cômodo iriam instilar-lhe aquela centelha de racionalidade que era o caminho da virtude. Afinal, para os estoicos, pensar servia para conhecer, que servia para descobrir a rota da vida moral, que servia para conduzir a vida da maneira eticamente correta.

    A trajetória de Cômodo como imperador mostrou que ele era totalmente refratário à racionalidade virtuosa de seu pai, ao controle das paixões rumo à vida moral. Os historiadores do período nos relatam que ele juntava aleijados para poder matá-los a flechadas, tinha um harém de 300 mulheres e 300 meninos, mandou que um devoto amputasse um braço para provar sua crença, lutava com os gladiadores na arena e mandou matar sua tia Lucila, acusada de tentar tirá-lo do poder. Em suma, Marco Aurélio, apesar de ter sido um líder de qualidade, enfrentando com galhardia as tribos bárbaras da Europa Central no rio Danúbio e a peste que assolou Roma em 166-167, errou redondamente ao fazer do seu filho seu sucessor, confiando que seu exemplo seria suficiente para inspirar o moço. Ou Cômodo não tinha os bons genes do pai ou ele não era filho de Marco Aurélio realmente.

    Para Laurent Guyénot no trecho que abre este artigo, a escolha de líderes por sucessão hereditária é inerentemente falha, porque depois de algumas gerações aquele espírito ambicioso, que tinha vontade de poder e a a capacidade de conquistá-lo e de mantê-lo se perde. A virtù maquiavélica se dilui de pai para filho e se transforma apenas em privilégio de classe. O desafio em uma sociedade que escolhe seus líderes pelo critério do parentesco é oxigenar esse grupo restrito permitindo que ele seja renovado por membros de outras classes que tenham as qualidades necessárias para ascender ao poder.

    Se as monarquias não conseguem manter o nível da liderança porque os genes falham, será que as democracias são o melhor sistema de escolha porque permitem alternância de poder? A questão da escolha democrática pelo voto é que ela requer eleições e ter as qualidades para conquistar votos não necessariamente leva o indivíduo a ter as qualidades para governar e entregar resultados. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, soube ganhar duas eleições por falar aquilo que os americanos queriam ouvir, dando vazão a sua frustração com o status quo. Resta saber se nesses três anos e meio que Trump tem de governo ele conseguirá executar as promessas de campanha, entre as quais realizar a reindustrialização do país e parar com as guerras no exterior. É cedo demais para saber se a dança das tarifas a que se dedica Trump, ora aumentando-as, ora diminuindo-as, a depender do país exportador, irá incentivar as empresas a de fato construir fábricas nos Estados Unidos. Quanto à política externa, Trump encontrou-se com Putin para falar de paz, mas a guerra na Ucrânia continua. E a guerra dos dozes dias travada em junho contra o Irã teve participação de mísseis americanos. Para não falarmos da conivência americana com o que acontece em Gaza.

    Na verdade, se formos utilizar como critério de avaliação da qualidade da liderança os indicadores econômicos e sociais do país, a China, por exemplo, tem melhores líderes que o Brasil, apesar de o método de escolha deles não ser pelo voto da população. Em 1980, a China tinha um PIB per capita de 195,15 dólares, e em 2024 esse número era 13.313,15. Já o Brasil tinha um PIB per capita de 1.958,57 em 1980 e de 10.280,31 em 2024. Portanto, enquanto a riqueza por habitante da China aumentou quase 7.000% em 44 anos, no Brasil o aumento foi de 524%. Quanto à desigualdade de renda, no Brasil, de acordo com o World Inequality Report de 2022, os 50% mais pobres ganham 29 vezes menos que os 10% mais ricos. Na China, o número fica entre 13 e 16 vezes mais. Esses números mostram que, sob líderes escolhidos pelos membros do Partido Comunista, a China produziu muito mais riqueza que o Brasil e a distribui melhor do que nós, governados por pessoas eleitas pelo voto da maioria da população.

    Isso significa que a democracia é ruim e deve ser descartada? Não, simplesmente significa que ela não é uma panaceia nem um fim em si, mas um instrumento a ser utilizado para perseguir os objetivos de melhora das condições da população. E o aprimoramento da democracia passa pela forma como conduzimos as eleições. Menos obsessão com pesquisas eleitorais, clips no Tik Tok para chamar atenção de eleitores, vídeos que viralizam por causarem polêmica e mais foco em questões pertinentes. Ou será que isso é impossível e o povo prefere diversão do que reflexão? Será que formamos uma maioria de Cômodos que querem se divertir assistindo a lutas entre candidatos como vimos na disputa para a prefeitura de São Paulo entre Pablo Marçal e Luiz Datena? Será que esperar que o conhecimento e a razão iluminem nossa conduta na hora de votar seja uma quimera?

    Prezados leitores, a questão de como escolher líderes dignos do nome é um desafio desde a época do Império Romano. O pai adotivo de Marco Aurélio, Antonino Pio (86-161), o escolheu bem, adotando-o, Marco Aurélio escolheu mal seu sucessor, por amor pelo seu próprio filho. Nós no Brasil escolhemos ao sabor cada vez mais do que é manchete nas mídias sociais. Oxalá um dia possamos chegar a um método que escolha aqueles que mais conseguirão entregar resultados à população.

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Modesta proposta de racionalidade

O pragmatismo enfatiza a irracionalidade das opiniões e a psicanálise enfatiza a irracionalidade da conduta. Ambos levaram muitas pessoas a adotar o ponto de vista de que não há um ideal de racionalidade ao qual a opinião e a conduta podem conformar-se de maneira vantajosa. Daí parece seguir-se que, se eu e você temos opiniões diferentes, é inútil recorrer aos argumentos, ou procurar a arbitragem de um indivíduo de fora imparcial; não há nada a fazer a não ser disputar para ver quem ganha, pelos métodos da retórica, propaganda ou pela guerra, de acordo com o grau da nossa força militar ou financeira.

Trecho retirado do ensaio “Can Men be Rational?”, incluído na coletânea “Skeptical Essays” do filósofo e matemático britânico Bertrand Russell (1872-1970)

O ministro Fux terminou calado e mesmo hostilizado por um voto “exageradamente apegado à lei”, como escutei de um advogado. Haveria algo errado nisso? Cada um pode responder. O tempo dirá, como de resto sempre acontece, quem tem a razão.

Trecho do artigo “O divórcio brasileiro”, escrito por Fernando Schüler, doutor em Filosofia e mestre em Ciências Políticas pela UFRGS, publicado no jornal O Estado de São Paulo, em 14 de setembro de 2025

    Prezados leitores, no Museu Capitolino em Roma, há uma famosa estátua do imperador Marco Aurélio (121-180) sentado em um cavalo com o braço estendido em posição de comando. Ele foi um dos governantes de Roma pertencentes ao seleto grupo de reis-filósofos que governaram entre 96, com a ascensão de Nerva (30-98) ao poder naquele ano, até a morte do autor de Meditações em 180. Os historiadores consideram que neste ínterim exerceu o poder a melhor série de bons e grandes soberanos que o mundo jamais conheceu. Bons porque no geral eram pessoas virtuosas, não corruptas, que pensavam em servir às pessoas sob seu comando e não em satisfazer suas paixões pelo exercício do poder; e grandes porque comandaram o império romano aprimorando a justiça, garantindo a paz e a segurança das fronteiras e expandindo a infraestrutura pública.

    Marco Aurélio em particular optou logo cedo por priorizar a filosofia não só como objeto de estudo como objeto de prática de vida. Como já mencionado aqui neste humilde espaço, ele era um estoico e por isso procurou ao longo de sua vida ser modesto, paciente, viril, abstêmio, piedoso e benevolente e levar uma vida simples. Apesar de ter carinho pelo seu professor de retórica Cornelius Fronto, ele deixou-a de lado, porque a considerava uma arte vã e desonesta, preferindo a especulação filosófica que lhe oferecia a possibilidade de elaborar hipóteses sobre o funcionamento do mundo e o comportamento das pessoas que nele vivem.

    Não é diferente a ideia de retórica do filósofo Bertrand Russell, de acordo com o trecho que abre este artigo. No ensaio “Can Men be Rational?”, ele tenta responder à pergunta sobre se é possível ao homem agir de maneira racional ou guiar-se pela racionalidade, isto é, pela ponderação de todas as evidências disponíveis e as probabilidades do caso para chegar a uma conclusão de maneira objetiva. Para os pragmáticos, a racionalidade não existe. O que o homem diz que é verdade é simplesmente a opinião que ele adota como uma ferramenta na luta pela sobrevivência. Assim, uma religião é adotada não por ser a verdadeira, que fala do verdadeiro e único Deus, mas por ela trazer benefícios a quem detém o poder. Para os psicanalistas, a racionalidade é apenas racionalização, o verniz que o ser humano dá aquilo que ele decide com base em seus impulsos, desejos e paixões. Nesse sentido, a decisão não é fruto da análise desapaixonada de todas as facetas de uma situação, mas do esforço de dar vazão ao conteúdo inconsciente do homem por meio de uma forma consciente, que é a razão elaborada a posteriori, isto é como justificativa para determinado comportamento instintivo.

    Se a irracionalidade é a norma, seja em termos de opiniões, como no caso dos pragmáticos, seja em termos de conduta, como no caso dos psicanalistas, isso significa que a decisão sobre quem está certo e quem está errado é pura e simplesmente uma luta. Argumentos, se os há, são baseados nas armas disponíveis, seja a retórica, seja a propaganda, de maneira que eles sejam elaborados para serem atraentes e conquistarem as pessoas. Em último caso, quando não há nem esforço de argumentação, por não haver mais possibilidade de diálogo entre os contendores, a guerra resolve a disputa, estabelecendo pela força o vencedor e, portanto, aquele que tem direito ao discurso.

    Bertrand Russell não é partidário do irracionalismo nem sob a ótica pragmática, nem sob a ótica psicanalítica. Ele defende a possibilidade da racionalidade com base no que ele chama de egoísmo esclarecido. Não conseguimos nos desvencilhar totalmente dos nossos vieses, temos nossas preferências e preconceitos, mas podemos trabalhar em busca desse horizonte de racionalidade. A única maneira é termos consciência dos nossos desejos e paixões momentâneas, mas também daqueles que não prevalecem agora, mas que estão latentes em nós. Temos, ódio, raiva ou inveja de uma pessoa, mas também devemos procurar nos conscientizar que tais paixões passam e que no longo prazo agir de acordo com esses instintos nos prejudicará no longo prazo, cegando-nos para o que nos é benéfico no frigir dos ovos, isto é, quando levamos em consideração nossas circunstâncias presentes e futuras.

    É nesse sentido desassombrado que a racionalidade é possível, se não como realização perfeita, ao menos como um ideal a ser perseguido. Não podemos nos iludir que a objetividade está facilmente ao nosso alcance. Ao contrário, ela requer um esforço cotidiano de contrabalançar nossas motivações atuais com aquelas que se revelarão num futuro próximo ou nem tão próximo, o que queremos agora e o que queremos em última análise para nós, nossos desejos atuais e nossos objetivos de vida. Só assim conseguiremos vislumbrar a gama de aspectos de uma situação e fazermos julgamentos, não nos detendo somente naqueles que são mais chamativos a nós no momento presente. Só assim a irracionalidade presente na religião, na política, na imprensa poderá ser superada.

    Prezados leitores, na semana passada, de acordo com os princípios estoicos que embasaram o Direito Romano, propus aos ínclitos Ministros do Supremo Federal que na dúvida não condenassem o ex-presidente Jair Bolsonaro por golpe de Estado. Bem, o único que teve dúvidas e as externou foi Luiz Fux, que conforme relata Fernando Schüler no artigo citado acima, foi considerado extremamente legalista. Os outros quatro Ministros tinham absoluta certeza da culpabilidade do réu. Mas que certeza foi aquela? A certeza como artifício retórico para convencer as pessoas a aderir aos argumentos dos donos do poder, no caso o Judiciário? A certeza da propaganda pela democracia de forma que vale tudo para defendê-la, inclusive não garantir o devido processo legal àqueles considerados como inimigos dela? A certeza pragmática de que Bolsonaro é culpado porque é melhor que assim seja considerando seu despreparo para exercer o cargo de presidente? A certeza de que ele só pode ser culpado porque ele é uma figura odiosa e nojenta?

    A mim me parece que o modesto caminho da racionalidade proposta por Bertrand Russell seria melhor para nós brasileiros, o caminho que levasse em conta o frenesi do momento, pelas lembranças da depredação do patrimônio público e pelas incivilidades de Bolsonaro, mas também considerasse que esse frenesi vai passar e que mais uma condenação presidente – considerando a de Lula por Sérgio Moro – por juízes que tinham o objetivo de dar uma lição de moral em um inimigo político em última análise enfraquece a figura do chefe do Executivo e mina nossa confiança nas instituições. Oxalá que da próxima vez sejamos mais racionais.

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