Cá como lá

Um fator de previsão muito bem-sucedido da política governamental durante um longo período é o conceito do economista político Thomas Ferguson denominado “teoria política do investimento”, que interpreta as eleições como ocasiões em que segmentos do setor privado formam uma coalisão para investir no controle do estado.

Trecho retirado do ensaio “Ano 514: globalização para quem?” de autoria do linguista americano Noam Chomsky.

No longo prazo, temos duas crises que se articulam e se alimentam: o fim do ciclo de expansão fiscal e o esgotamento do modelo de coalizão política. […] A “bolsa empresário do BNDES é muito maior que o Bolsa Família.

Trecho da entrevista do economista Eduardo Giannetti da Fonseca publicada no jornal O Estado de 17 de janeiro

Uma democracia não consegue funcionar de maneira eficaz quando os membros acreditam que as leis podem ser compradas e vendidas.

Trecho do voto dissidente do Ministro da Suprema Corte dos Estados Unidos John Paul Stevens, dado em 21 de janeiro de 2010 no caso dos Cidadão Unidos contra a Comissão Federal Eleitoral, que tratava da regulamentação dos gastos de organizações em campanhas políticas.

    Prezados leitores, em 21 de janeiro de 2010 uma decisão muito importante foi tomada pela Suprema Corte dos Estados Unidos. Tendo como fundamento a Primeira Emenda à Constituição, de acordo com a qual fica terminantemente proibida a elaboração de qualquer lei que limite a liberdade de expressão, os magistrados daquela corte estabeleceram a ilegalidade da restrição a gastos políticos independentes por parte de organizações sem fins lucrativos. O princípio da liberdade de expressão das pessoas jurídicas, consideradas como tendo direito aos mesmos privilégios das pessoas físicas, foi estendido a organizações com fins lucrativos, sindicatos e associações.

   Na prática, o que uma tal decisão faz é tornar perfeitamente legal a atuação das corporações americanas nas campanhas políticas com o intuito de influenciar os resultados. Se antes havia restrições à manifestação do livre pensamento das pessoas jurídicas nos Estados Unidos, agora elas gozam de chancela oficial para atuarem da maneira que acharem melhor. Considerando o poder que os CEOs têm de dispor do dinheiro das empresas independentemente da opinião sequer dos acionistas, não é difícil vislumbrar o quanto isso faz com que a democracia se transforme na “tirania privada irresponsável” no dizer de Noam Chomsky: as corporações doam dinheiro aos políticos fazerem campanha e estes fazem aquilo que seus doadores solicitam, independentemente da vontade dos eleitores. Uma das razões do sucesso de candidatos alternativos como Bernie Sanders e Donald Trump, que atualmente concorrem nas primárias democratas e republicanas, respectivamente, para a escolha do candidato dos dois partidos à sucessão presidencial nos Estados Unidos, é que se apresentam como não tendo o rabo preso com ninguém: um porque é socialista e portanto, persona non grata às empresas doadoras, e outro porque sua fortuna pessoal faz com que não precise do dinheiro de ninguém.

    Exemplos abundam no país mais rico do mundo da influência perniciosa dos donos do dinheiro sobre as leis promulgadas, citarei apenas dois. O NAFTA, que entrou em vigor em 1994 para estabelecer uma área de livre comércio abrangendo o México, o Canadá e os Estados Unidos, com certeza otimizou a alocação de recursos das multinacionais americanas, mas por outro lado expôs os agricultores mexicanos à concorrência dos produtos americanos altamente subsidiados e expôs igualmente os trabalhadores ao norte do Rio Grande à concorrência de pessoas dispostas a fazer o mesmo por menos. O TARP, lançado em 2008 para ajudar as instituições financeiras a saírem do buraco, representou um investimento de quase 450 bilhões de dólares. Considerando que o buraco foi cavado pela revogação, durante o governo de Bill Clinton, de uma outra lei denominada Glass-Steagall, que proibia que uma instituição financeira realizasse simultaneamente atividade de banco comercial e de banco de investimentos, o TARP nada mais fez do que cobrir os prejuízos causados ao sistema financeiro por instituições que tinham ampla liberdade para usar os depósitos de seus clientes em apostas arriscadas em derivativos, swaps, hipotecas de primeiro e segundo grau e por aí vai.

    Cá como lá, a atuação das pessoas jurídicas no processo eleitoral é uma questão premente. No Brasil as empresas começaram oficialmente a financiar campanhas em 1994. Em 2014 as empresas doaram 3 bilhões de reais dos 7 bilhões de reais gastos por candidatos a presidente, senador, deputado estadual e federal e governador. Juridicamente a situação parece que está melhor aqui, já que o STF decidiu em 17 de setembro de 2015 que a doação de empresas para campanhas políticas é inconstitucional. Por outro lado, há uma PEC no Senado, de número 182, que autoriza o financiamento de campanhas por pessoas jurídicas. Sabemos que mesmo que o Senado decida não aprovar a PEC, essas doações de empresas ocorrerão por inúmeras e obscuras vias. De todo modo, a proibição serviria ao menos para, se não coibir, ao menos estigmatizar as empresas com um nome a zelar que doassem dinheiro a políticos em troca de favores.

    Além disso, cá como lá, a influência dessas doadoras sobre as políticas governamentais, em detrimento da população como um todo, é flagrante. A Operação Lava Jato está revelando como determinadas empreiteiras investiam dinheiro em políticos para conseguir contratos polpudos com a Petrobrás. A Zelotes por sua vez está dissecando o trato das montadoras com políticos, na base do toma doações que eu levo medidas provisórias favoráveis aos meus interesses. Aliás, as evidências do tratamento privilegiado à indústria automobilística e pior, da inutilidade de tais benesses estão aí: depois de 16 bilhões de reais em subsídios dados pelo governo federal, atualmente a ociosidade no setor é a maior em 25 anos e 40 mil operários poderão perder seu emprego num futuro próximo. Em um momento em que percebemos que o cobertor ficou curto para que as reivindicações de todos possam ser satisfeitas, teremos que estabelecer prioridades. A pergunta é: quem estabelecerá onde gastar o dinheiro público: os doadores das campanhas ou o povo que elege os representantes?

    Ho boulomenos. Essa expressão em grego significa “qualquer pessoa que deseje” e era utilizada pelos cidadãos de Atenas para falar na Assembleia, apresentar uma moção ou ocupar um cargo. É verdade que 80% dos habitantes da cidade não eram considerados cidadãos e não podiam participar das deliberações nem decidir sobre os destinos da sociedade. Por outro lado, os que estavam dentro tinham uma ampla gama de atribuições: discutiam a forma de governar e as leis, nomeavam os dirigentes e juízes, tinham poderes para declarar a guerra. Essa democracia direta, em que todos tinham o direito de opinar e ao mesmo tempo governar, foi reproduzida parcialmente no ocidente pela democracia representativa, iniciada no século XVII na Inglaterra. Mas já no século XVIII Adam Smith denunciava que os mercadores e industriais eram os principais formuladores das políticas estatais e garantiam que seus próprios interesses eram satisfeitos, independentemente de quão deletérios os efeitos sobre os outros, incluindo o povo da Inglaterra.

    Prezados leitores, cá como lá a democracia tal como é praticada está longe de atender às necessidades da maioria da população. Será que a Lava Jato e a Zelotes conseguirão passar o Brasil a limpo e permitir que refundemos nossa democracia representativa? Ou será que elas só servirão para colocar o PT como bode expiatório da corrupção política e deixar tudo como está para os que não forem indiciados? Será que nós brasileiros algum dia teremos mais influência sobre o que nossos políticos decidem? Aguardemos os próximos capítulos.

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Orgulho e Preconceito

Uma onda de indignação tomou conta da Alemanha depois da revelação de uma série de agressões contra mulheres, ocorridas na noite de São Silvestre perto da estação central de Colônia. Agressões sem precedentes, das quais o país só constatou a amplidão em 5 de janeiro.

Trecho retirado de um artigo publicado na versão eletrônica do jornal Le Monde em 6 de janeiro

‘Quando colegas de classe me perguntavam o que fazia um líder comunitário, eu [Barack Obama] não conseguia responder-lhes diretamente,’ escreveu o futuro presidente. Em vez de dar uma resposta, ele dizia, ‘Eu tecia considerações sobre a necessidade de mudança.’
Ao contrário, Trump amealhou uma fortuna de $10 bilhões e emprega 34.500 pessoas. Ele não fez isso sendo um idiota, um louco, um fanático, alguns dos termos mais suaves que foram utilizados para descrevê-lo.

Trecho do artigo de Ronald Klesser sobre a festa de fim de ano a que ele compareceu em uma das propriedades de Donald Trump em Palm Beach, publicado na versão eletrônica do jornal Daily Mail em 6 de janeiro

Os homens são os protetores e mantenedores das mulheres porque Alá fez o homem superior à mulher e porque os homens gastam para sustentá-las. Assim, mulheres direitas são obedientes e na ausência do marido elas guardam aquilo que Alá ordena que elas guardem. E, em relação àquelas mulheres de quem vocês temem a desobediência, dê-lhes um aviso, mande-as para uma cama diferente e bata nelas.

Trecho retirado do Corão, o livro sagrado dos muçulmanos

    Prezados leitores, uma pequena grande notícia passou despercebida. Na noite do dia 31 de dezembro pelo menos 90 mulheres foram atacadas na cidade alemã de Colônia por um bando de homens, entre 20 e 40, que aparentavam ser árabes ou do Norte da África, segundo os testemunhos. Esses homens faziam parte de um grupo de cerca de 1000 indivíduos entre 18 e 35 anos que perigosamente soltou fogos de artifício no meio da multidão, e em seguida cercaram, assediaram, roubaram e agrediram as alemãs, o que incluiu ao menos um estupro. De acordo com a polícia, provavelmente o número de ataques é muito maior. O país está em choque agora que a verdade foi pelo menos parcialmente revelada. Estranhamente, nesses cinco dias que se passaram, nada foi divulgado na mídia tradicional, somente na internet, e as autoridades estão fazendo de tudo para tranquilizar a população dizendo que não se sabe com certeza se esses homens pertencem à leva de 1 milhão e quinhentos mil que a Alemanha recebeu em 2015, instada por sua primeira-ministra, Angela Merkel.

    Assim como os ataques foram abafados o mais possível, provalvemente a identidade desses criminosos será revelada na base das meias-verdades. Afinal, dona Merkel foi eleita a personalidade do ano pela revista Time por sua atitude corajosa de mandar que os refugiados das guerras no Oriente Médio viessem à Europa que seriam muito bem-vindos. Os que alertam contra essa onda de homens desempregados, com altos níveis de testosterona, são considerados como nazistas, como o grupo Pegida na Alemanha e o primeiro-ministro da Hungria, que quis fechar as fronteiras de seu país e aceitar somente refugiados cristãos. Bem, o resultado de misturar pessoas com valores totalmente diferentes está aí: muçulmanos acostumados a verem mulheres cobertas o tempo todo em seu país de origem chegam ao paraíso ocidental e veem fêmeas caminhando livremente nas ruas, vestidas de maneira infinitamente menos pudica que as muçulmanas. Para eles, as ocidentais estão todas disponíveis para o sexo, e nada mais “natural” do que o macho tomar a iniciativa e partir para cima. Alemãs, queiram por favor acostumar-se com esse novo padrão de namoro. Esqueçam o respeito que os alemães nativos mostram por vocês, respeito advindo de uma cultura em que as mulheres têm direitos e dignidade. Mulher existe para servir o homem como prega o Corão, e mulher que se nega a fazer as vontades do macho deve levar chapuletadas para aprender a andar na linha e abrir as pernas quando o homem tiver necessidades a serem satisfeitas.

    Alguns interpretarão minhas palavras como racistas. Voilà. Só quero chamar a atenção para um fato: independentemente da quantidade de besteiras que o Ocidente fez e faz no Oriente Médio, intervenções estas que contribuíram para perpetuar no poder elites predatórias, não há como negar que a religião muçulmana implica valores totalmente incompatíveis com o estilo de vida do Ocidente. Há vantagens e desvantagens da liberação feminina e fazer um balanço sobre se os pontos positivos suplantam os negativos depende em larga medida dos pré-conceitos de cada um. Achar que os recém-chegados vão adaptar-se rapidamente ao direito que as mulheres europeias têm de fazer o que quiserem com seu corpo e sua alma é ser otimista ou leviano. Aliás, corre na internet a notícia de que ataques semelhantes a mulheres ocorreram em outras cidades na Alemanha.

    A propósito de estigmas, os bem-pensantes acusam Donald Trump de ser racista por ele propor a construção de um muro na fronteira com o México e a deportação de ilegais. É bem provável que mandar embora pessoas que estão há anos nos Estados Unidos não seja muito factível, mas a ideia do fenômeno de mídia é simples e clara. É preciso controlar as fronteiras para não deixar que qualquer indivíduo entre no país. Por acaso países civilizados como Canadá e Austrália não têm um processo rígido de seleção de imigrantes? Por acaso faz sentido importar estupradores, assassinos, estelionatários para seu país só para ser considerado magnânimo com os desvalidos deste mundo? Por acaso não é sensato importar somente pessoas que contribuirão de maneira benéfica para a sociedade?

    Trump é a epítome do racista, mas ele foi pioneiro nos clubes que criou na Flórida em aceitar negros e judeus, quando muitos em Palm Beach não faziam e ainda não fazem. Ele certamente é um grande palhaço, mas um palhaço que faz acontecer: cria empregos, gera riquezas e faz isso porque sabe relacionar-se com pessoas, sabe convencê-las, arregimentá-las para seus projetos. Se prestássemos mais atenção ao que as pessoas de fato fazem e não ao que elas falam, com certeza melhoraríamos nossas escolhas políticas, por exemplo. No Brasil, se tivéssemos analisado o que Dilma Rousseff fez ao longo de sua vida, e não tivéssemos deixado-nos inebriar pelas palavras do Grande Timoneiro garantindo que o produto era bom, talvez estivéssemos em situação um pouco melhor. Dilma abriu uma loja que vendia cacarecos a 1 e 99 e faliu e sempre foi conhecida pela dificuldade de relacionar-se com pessoas que não seja na base do grito e da ordem. Quando foi preciso que ela conquistasse pessoas por outros meios que não fossem a demonstração de poder, ela revelou ser uma incompetente. Nunca soube relacionar-se com seu Vice-Presidente, com o Presidente do Congresso, com seu Ministro da Fazenda. Mas o povo brasileiro acreditou nas palavras doces de Lula, que atuava em causa própria, querendo colocar um tampão na Presidência da República para guardar lugar para o iluminado voltar.

    Prezados leitores, todos os países têm seu rol de palhaços, que são mais patéticos quanto mais bajulados são pela mídia. Angela Merkel será lembrada pelos alemães como aquela que abriu as portas de Roma para os novos vândalos, mesmo que agora goze do favor dos politicamente corretos. Dilma Rousseff será lembrada por nós como sendo o supremo ato narcísico de Lula, apesar de que há alguns anos ela era louvada como “gerentona”. O destino de Trump ainda não sei. Mas tenho certeza que será muito diferente do que aquilo que os formadores de opinião têm em mente para ele, e quem sabe os americanos possam um dia orgulhar-se por ter um “palhaço que faz” na presidência.

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Botando muita pressão

[…] Em 1845, [o Secretário das Relações Exteriores britânico] declarou que os navios negreiros brasileiros eram piratas e 400 foram capturados em cinco anos. Em 1850 a marinha britânica até entrou à força em portos brasileiros para capturar ou destruir centenas de navios usados para o tráfico de escravos — o que foi decisivo para forçar o Brasil, o maior comprador de escravos de todos, a acabar com a maior emigração forçada da história.

Trecho retirado do livro “The English and their History” do Professor de História na Universidade de Cambridge Robert Tombs

Para que o Brasil possa reconquistar credibilidade rapidamente, precisará do apoio da comunidade internacional. O Brasil não tem o equivalente institucional do Banco Central Europeu para fazer “o que for preciso” para manter acesso ao crédito a taxas de juros razoáveis enquanto realiza um ajuste fiscal e estrutural. O mais próximo disso que o país tem é o Fundo Monetário Internacional (FMI), com o qual deveria negociar um programa de ajuste. Tal programa deveria incluir um aumento no superávit primário para 2-3% do PIB no médio prazo, o corte das despesas governamentais (a carga tributária já está nas alturas), e a eliminação das regras de indexação que causam a extrema rigidez dos gastos. Além do mais, o Brasil teria que desvincular as receitas das despesas — uma característica do orçamento do país que torna difícil seu gerenciamento adequado em tempos difíceis. E teria que acabar gradualmente com os subsídios do Tesouro ao BNDES e aumentar o uso de taxas de mercado nos empréstimos feitos pelo banco, ajudando assim a restaurar a saúde fiscal e eliminar distorções na intermediação financeira.

Trecho do artigo intitulado “Terapia do FMI para o Brasil” de Monica Bolle do Peterson Institute of International Economics e de Ernesto Talvi, do Brookings Institution

    Prezados leitores, para refrescar a memória daqueles que tiveram contato com a história do Brasil nos bancos escolares, a citação que abre este humilde artigo lembra-nos que só acabamos com a escravidão porque a Inglaterra botou muita pressão, como dizem os funkeiros. A Lei Eusébio de Queirós de 1850, faz do tráfico negreiro ato ilícito, a Lei do Ventre Livre de 1871 liberta os filhos nascidos de mães escravas, a Lei Saraiva Cotegipe de 1885 concede liberdade aos escravos sexagenários, a Lei Áurea de 1888 torna livres os escravos no Brasil, o último país do Hemisfério Ocidental a tomar essa providência. Sem a Inglaterra fungando no nosso cangote talvez tivéssemos adentrado o século XX com uma economia baseada no trabalho escravo. Digo talvez porque seria tolo de minha parte pretender ter certeza sobre o que teria ocorrido, afinal nem eu nem nenhum historiador tem o poder de realizar experimentos como fazem os físicos, que mudam algumas variáveis, deixam outros fatores constantes e assim podem tirar conclusões.

    De qualquer forma, o Brasil sempre parece um grande paquiderme que prefere refastelar-se ao sol e só levanta quando alguém o cutuca com vara até tornar sua soneca impossível e obrigá-lo a colocar-se sobre as quatro patas e caminhar. Avançando para o final do século XX, e vemos que de 1978 a 1987 a inflação média anual no Brasil foi de 166% e às vésperas do Plano Real, em junho de 1994, ela havia acumulado nos últimos doze meses uma taxa estratosférica de 4.922,60%. E como debelamos a inflação? Será que foi obra da genialidade econômica de Rubens Ricúpero, o então Ministro da Fazenda de Itamar Franco, que elaborou um plano à prova de erros como haviam sido todos os outros lançados como a salvação da lavoura? (Só para lembrar: Plano Cruzado de fevereiro de 1996, Plano Cruzado II de novembro de 1986, Plano Bresser de junho de 1987, Plano Verão de janeiro de 1989, Plano Collor de março de 1990, Plano Collor II de fevereiro de 1991, Fundo Social de Emergência de dezembro de 1993 e finalmente Plano Real de julho de 1994)

    É tido e sabido que nossa maior inspiração para o Plano Real foram as dez regras básicas colocadas em um texto do economista John Williamson em novembro de 1989, que ficou conhecido como o Consenso de Washington, a receita oferecida aos países da América Latina para livrarem-se do jugo da inflação. E assim fizemos: disciplina fiscal e controle dos gastos públicos aparentemente consolidados por meio da Lei Complementar nº 101 de 2000 – que recentemente foi feita letra morta com as pedaladas do governo federal –, privatização de estatais, abertura comercial, já iniciada com Collor, respeito ao direito à propriedade intelectual por meio da Lei de Propriedade Industrial de 1996. É certo que no Brasil não colocamos em prática tudo o que os economistas do FMI, do Banco Mundial e do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos preconizaram, por exemplo não fizemos reforma tributária e nem cortamos os gastos públicos a sério. Mas o IPMF criado em 1993 e pai da CPMF, criada em 1996 e o boom das commodities, que durou mais ou menos de 2000 a 2014, impediram a explosão do déficit público e garantiram a estabilidade da moeda, pois levaram a um aumento das receitas do governo.

    Os defensores do lulismo dirão que o Brasil soube ser dono do seu nariz durante os dois mandatos do ex-metalúrgico, tanto assim que ao Consenso de Washington executado por Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio Lula da Silva contrapôs o Consenso de Brasília, de sua própria lavra, fundado em políticas distributivas. Melhor dizendo, para os maledicentes, como eu, fundado na aliança maquiavélica (maquiavélica no sentido de realizada para a manutenção no poder) que o 35º Presidente do Brasil estabeleceu entre os mais ricos, agraciados com empréstimos subsidiados do BNDES, contratos com empresas estatais e desonerações fiscais, e os muito pobres, agraciados com os programas de transferência de renda. Para os otimistas defensores do jeito de Lula de fazer amigos por onde quer que passe, basta que ele volte em 2018 com sua proverbial capacidade de negociação para que as coisas voltem aos eixos, depois da desastrada passagem de Dilma Rousseff, que não sabe tratar com as pessoas, como seu mentor sabe.

    Será? Será que uma versão atualizada do Consenso de Brasília é possível? Estamos com um déficit de R$536 bilhões, o equivalente a 9% do PIB, sendo que há 18 meses ele estava em 3% do PIB (dados do Bloomberg). Nossas reservas de 370 bilhões de dólares, que ancoraram o real, não cobrem mais a totalidade da dívida pública de curto prazo interna e externa, caso haja uma corrida contra nossa moeda. Os investimentos autorizados do governo federal, que em 2015 foram de 82 bilhões de reais serão de 45,4 bilhões para 2016 e estima-se que a dívida pública chegue a 70% do PIB no primeiro semestre de 2016 (dados do jornal Estado), o que diminui as perspectivas de crescimento econômico. Será que num cenário de deterioração das contas públicas como não conhecíamos desde a época da hiperinflação na década de 80, o sorriso fácil de um líder carismático conseguirá aparar as arestas? Ou será que a Lava-Jato mostrou que o tal do consenso era unicamente uma fórmula certeira para ganhar eleições? E se Lula não voltar, quem terá credibilidade para darmos marcha a ré na nossa disparada rumo ao precipício? Há algum político ou partido proeminente no Brasil que não faça uso das mesmas estratégias de financiamento de campanha de que Lula e o seu PT fazem?

    Prezados leitores, será que precisaremos de outro agente externo para nos enfiar goela abaixo um programa de ajustes, tal como esboçado por Monica Bolle e Ernesto Talvi? Será que teremos que ir de pires na mão ao FMI em 2016 e ouvir lições de moral de uma instituição presidida atualmente por uma mulher, Christine Lagarde, que está respondendo a processo na justiça francesa por favorecer um grande empresário, Bernard Tapie? Por que nunca conseguimos fazer as coisas no nosso ritmo durante um tempo razoável e no final sempre precisamos ser coagidos a agir na base do sufoco? Enquanto procuram as respostas para essas perguntas, tratem de preparar-se para a volta da CPMF, porque com certeza ela voltará.

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A Valsa

[…] a um príncipe é mister saber comportar-se como homem e como animal. […] Um príncipe sábio não pode, pois, nem deve manter-se fiel às suas promessas quando, extinta a causa que o levou a fazê-las, o cumprimento delas lhe traz prejuízo. […] Mas é preciso saber mascarar bem esta índole astuciosa, e ser grande dissimulador. […] Não é necessário a um príncipe ter todas as qualidades mencionadas, mas é indispensável que pareça tê-las. Direi, até, que, se as possuir, o uso constante delas resultará em detrimento seu, e que, ao contrário, se não as possuir, mas afetar possuí-las, colherá benefícios.

Trechos retirado do livro “O Príncipe” de Nicolau Maquiavel (1469-1527), escritor florentino

Sei que a senhora não tem confiança em mim e no PMDB, hoje, e não terá amanhã. Lamento, mas esta é a minha convicção.

Trecho da carta enviada pelo vice-presidente Michel Temer à Dilma Rousseff em 7 de dezembro e “acidentalmente” vazada

    Prezados leitores, quem está mentindo na nossa Nova República? Por acaso Dilma mente quando diz que não houve nenhum tipo de barganha com Eduardo Cunha para livrá-la do processo de impeachment em troca de uma amaciada para o presidente da Câmara na Comissão de Ética? Ou é Cunha o mentiroso contumaz que mentiu sobre a existência das contas na Suíça e mente agora ao dizer-se vítima de coação pelo PT? Será Michel Temer pura falsidade ao mostrar sua mágoa em relação a uma presidente que nunca confiou nele? O que pensar sobre os quatro mosqueteiros tucanos FHC, Serra, Aécio Neves e Alckmin: será que estão sendo sinceros sobre seus reais motivos para defenderem o impeachment? E Lula, será que ele é um líder do povo cuja boa-fé foi manipulada por pessoas que queriam locupletar-se? Será que o legado de Lula é muito maior do que os desdobramentos do mensalão e da Operação Lava-Jato?

    Independentemente das convicções políticas de cada um, cada um de nós brasileiros intuir o que está acontecendo. Nossos políticos, para fazerem jus ao nome, dançam a valsa composta por Maquiavel no século XV no que depois viria ser a Itália. A coreografia foi bem elaborada, quem sabe lê-la consegue não só realizar os passos corretos, mas o faz com graça, causando a admiração geral. Não é meu propósito aqui fazer um resumo da obra do gênio florentino que inaugurou a ciência política moderna mostrando o caminho das pedras para um indivíduo manter-se no poder, uma vez conquistando-o. Basta dizer que um príncipe virtuoso não é aquele que fala a verdade, que age de maneira leal, que não deseja o mal de ninguém. O príncipe virtuoso é aquele que sabe que a natureza humana é intrinsecamente corrupta e age em duas frentes: de um lado protege-se da corrupção alheia, antecipando os passos dos inimigos que querem destruí-lo; de outro, como ele mesmo é corrupto, age para amealhar para si a maior quantidade de poder possível. A política não é o lugar para os inocentes e nem para os que têm verdadeiras convicções: é o lugar para aqueles cujo único objetivo é manter-se no poder. Maquiavel confiava que tal receita seria benéfica para sua Florença natal, que havia sido invadida por potências estrangeiras e perdido sua autonomia. Ter um príncipe consolidado como il signori permitiria fortalecer o próprio Estado e garantir a paz pela demonstração de força perante aqueles que cobiçassem a cidade que era um dos berços do Renascimento.

    Infelizmente essa valsa maquiavélica não cai muito bem para nós brasileiros. O entrincheiramento de um grupo no poder à custa de mentiras, meias-verdades e ganância definitivamente não está contribuindo para a prosperidade da sociedade, ou pelo menos, não da forma como gostaríamos que fosse. Essa Nova República, inaugurada em 1985 com a eleição de Tancredo Neves que nunca tomou posse está mais podre do que nunca. Para que não fiquemos falando de maneira abstrata, vou dar-lhes alguns exemplos de que falta fazer muita coisa neste Brasil lindo e trigueiro. O Brasil ocupa a 57a posição no ranking de produtividade que relaciona 62 países de acordo com o PIB produzido por hora (números de 2013 do Eurostat, o órgão de estatísticas da União Europeia). No exame PISA de 2012, nosso desempenho escolar foi o 58º melhor (391 pontos contra os 494 do primeiro colocado), em uma lista de 65 participantes. Os resultados de 2015 serão divulgados ainda neste mês de dezembro. O ranking de competitividade elaborado pelo Fórum Econômico Mundial põe o Brasil na 57a posição (de novo!) dentre 144 países. Por fim, o conhecimento da língua inglesa dos brasileiros, algo fundamental para qualquer pessoa que queira ter uma carreira em um mundo global, é considerado baixo pela EF, Education First, uma empresa do ramo educacional que elabora um Índice de Proficiência em Inglês reconhecido internacionalmente: somos o 41º colocado dentre 70 países. Não incluirei nesse rol de males o vírus zika porque não quero ser alarmista: pode ser que ele seja a talidomida do século XXI, causando danos irreversíveis em milhares de crianças brasileiras, ou pode ser que ele seja uma febre de verão que passará. Não sabemos ainda. De qualquer forma, o fato de ele ter chegado em nossas plagas tropicais há oito meses e só agora ele ter se tornado manchete mostra que nossas autoridades sanitárias não se anteciparam ao perigo.

    Sem zika ou com zika, a zica é geral. E o pior de tudo é que não temos ideia de quais devem ser nossas prioridades. Será que devemos continuar disputando o FLA X FLU para sabermos quem mete mais a mão no dinheiro público? Será que devemos esperar a conclusão da Operação Lava-Jato para passar o Brasil a limpo? Os deputados constituintes brasileiros em 1988 estipularam um processo legal para proteger réus do arbítrio de ditadores, não para a busca implacável de corruptos onde quer que estivessem. Esses enxertos que foram feitos no direito processual criminal posteriormente, como a delação premiada, e a reformulação do instituto das medidas cautelares e da prisão preventiva, ainda não estão bem encaixados no nosso sistema, que há quase 30 anos colocava a presunção da inocência como valor máximo. E se os indivíduos presos no âmbito da Operação Lava-Jato forem soltos para responderem às acusações em liberdade? Deveremos considerar que a justiça no Brasil está à venda para quem paga mais ou que simplesmente tivemos expectativas desmesuradas sobre o que o Judiciário pode fazer em termos de combate à roubalheira? Será que o tema da corrupção estará sempre onipresente e nunca conseguiremos, enquanto país, dedicarmo-nos a outro assunto? Será que o nosso critério de escolha de mandatários será sempre aquele que maquiavelicamente aparenta ser honesto, ou que rouba menos, ou conseguiremos ampliar nosso leque de critérios para incluir a coerência e viabilidade das propostas?

    Enquanto nós, eleitores, estamos ansiosos para assistir às cenas dos próximos capítulos, querendo saber quem será preso e quem será solto, quem será condenado e quem será inocentado, quem será impedido e quem será salvo, nossos eleitos continuam valsando no salão. Hoje o PT está dando uns passos em falso e provavelmente seus membros terão que dar lugar a outros dançarinos. Delcídio Amaral seguiu mal o roteiro do príncipe e suas malandragens deram muito na vista, daí o pito dado por Lula. Outros artistas entrarão em cena, mas eles continuarão executando o mesmo projeto de vida daqueles que estão saindo pela porta dos fundos, que é o de manter seus privilégios. Qual deve ser nosso papel nisso tudo? Continuar vaiando os maus dançarinos e exigindo sua substituição? Essa alta rotatividade permitirá que a sociedade brasileira enfrente os problemas refletidos em nosso mau desempenho em rankings internacionais?

    Prezados leitores, reflitam sozinhos e se decidirem voltar a assistir ao espetáculo dançante lembrem-se que os produtores não distribuem o lucro obtido com a venda dos ingressos.

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Uberizando-se

O trabalho que produz commodities é trabalho despido de qualquer qualidade. A individualidade do trabalho é perdida, e as formas específicas do trabalho são perdidas quando da sua abstração e transformação em dinheiro. O trabalho que produz commodities é o trabalho que cria valor de troca em vez do valor de uso para o trabalhador.

Trecho retirado do livro “Alienation and Central Planning in Marx escrito pelo economista americano Paul Craig Roberts

Antigamente a indústria da prostituição na Grécia era dominada pelas mulheres da Europa Central e do Leste Europeu, mas seis anos de austeridade financeira asfixiante forçaram as mulheres gregas a exercer uma profissão na qual agora elas oferecem alguns dos preços mais baixos do continente. A deprimente competição levou meninas e estudantes a cortar drasticamente os preços e oferecer encontros sexuais em troca de algo para comer.

Trecho de artigo publicado na versão eletrônica do jornal londrino The Times em 27 de novembro

    Prezados leitores, vocês sabem qual o valor de mercado da empresa americana Uber, fundada na Califórnia em 2009? 51 bilhões de dólares. A Uber revolucionou o transporte urbano de passageiros introduzindo o conceito de e-hailing que permite chamar um táxi pelo smartphone e pagar pela corrida usando informações do cartão de crédito armazenadas no próprio dispositivo móvel. Para o usuário, fica mais rápido e fácil ter acesso a um meio de transporte confortável na hora que quiser, e para a empresa que oferece o serviço o custo da operação é muito baixo, pois não é preciso montar uma estrutura física de recebimento de pedidos de táxi pelo telefone. Além disso, a alocação dos carros é muito mais eficiente, pois o usuário sempre tem acesso àquele que está mais perto, por meio da localização pelo GPS. Sem dúvida uma maravilhosa criação mercadológica.

    Maravilhosa para uns, infernal para outros. Pensem nas telefonistas que trabalham ou trabalhavam em empresas de rádio-taxi, pensem nos taxistas que pagam taxas de licenciamento à prefeitura e ficam esperando o cliente parados no ponto ou rodando pelas ruas às vezes ficando horas sem conseguir um passageiro. Para estes dois grupos o UBER é a besta do apocalipse, pois os tira do mercado oferecendo o mesmo produto a um preço infinitamente menor. Os taxistas estão lutando bravamente, tendo conseguido em São Paulo que fosse aprovada uma lei proibindo aplicativos para o transporte individual de passageiros em carros particulares. Recentemente em Porto Alegre, a mesma vedação foi aprovada pelos vereadores, enquanto no Rio de Janeiro a justiça suspendeu em outubro a lei proibidora que havia sido aprovada, e a coisa está indefinida na Cidade Maravilhosa. Mas sabemos que tais vitórias são pírricas, o jeito UBER de oferecer serviços de transporte irá comendo pelas beiradas até que a realidade seja tão gritante que o lobby do sindicato dos taxistas será inócuo.

    O objetivo de eu falar sobre a briga entre os representantes da velha guarda e os revolucionários motoristas particulares é que ela já deu ensejo a um conceito que retrata os dramas da vida no século XXI, a uberização. Se alguém perguntar-lhe: “você já se uberizou?” não se assuste e responda tranquilamente depois de analisar sua situação profissional. Uberizar-se é transformar-se em um produto ou mercadoria que pode ser oferecido a um preço menor alhures. Os taxistas foram uberizados por um aplicativo no smartphone, assim como os hotéis foram uberizados pelo Airbnb, “serviço online comunitário para as pessoas anunciarem, descobrirem e reservarem acomodações”, conforme informado na Wikipedia. A Airbnb é outra empresa californiana como a Uber, fundada em 2008 que revolucionou o serviço de hospedagem porque é capaz de oferecer um lugar limpo, seguro e confortável para ficar a preços infinitamente melhores do que o de hotéis. Eu mesma já fiquei hospedada em apartamentos ofertados no airbnb.com na Itália, Espanha, Grécia e Argentina, e nunca tive nenhum grande problema: o que foi prometido foi cumprido, o que permitiu a mim, pobre trabalhadora que ganha em reais, a economizar dinheiro não só na hospedagem como na comida, já que eu podia prepará-la em “casa” utilizando ingredientes comprados no Lidl, o supermercado frequentado pela plebe europeia. O airbnb também tem provocado reações, como era de se esperar, o procurador-geral de Nova York Eric Schneidermann classificou as acomodações airbnb como hotéis ilegais, porque são alugadas por menos de trinta dias enquanto os donos não estão ali. Enfim, fica difícil imaginar como alguns tipos de hospedagem poderão sobreviver à concorrência do airbnb, porque a lógica da uberização é implacável: o vencedor é aquele que oferece a melhor relação custo-benefício. Portanto rezemos uma missa de réquiem para os donos de modestas pousadas e hóteis de até três estrelas, pois seu serviço transformou-se em uma commodity: algo que não tem nada de especial, que não agrega valor, e a única maneira de ganhar dinheiro acaba sendo pela oferta de grandes volumes a preços baixos.

    Uber e Airbnb são só dois exemplos dessa commoditização, que também foi obtida pela Amazon, com suas vendas de livros on-line. Quem ainda visita livrarias para folhear as páginas e escolher nas prateleiras de madeira o que comprar? O que um estabelecimento físico oferece a mais do que uma loja eletrônica? Conselhos do livreiro? Por acaso o Amazon não dá estrelas aos livros de acordo com a crítica de pessoas que já o compraram? Por acaso os softwares de CRM não oferecem produtos aos clientes que se encaixam à perfeição nos seus gostos, cujo padrão foi obtido pela análise do histórico de compras? Para que ter uma pessoa no balcão dando palpites e conselhos sobre o que o cliente deveria ler se algoritmos leem nossa mente? Não posso também deixar de citar as farmácias on-line, em que basta anexar a receita do médico e pode-se comprar vários tipos de remédios ao clique do mouse. Em um país como o Brasil, em que o papel do farmacêutico sempre foi surrupiado pelo médico, o advento do comércio eletrônico de remédios pode ser a pá de cal na possibilidade de os “boticários” terem alguma relevância para a saúde dos brasileiros.

    Os gurus da administração e da economia dizem que a extinção de atividades não importa, o que importa é a capacidade de gerar novas funções. O conselho padrão é que se você passou pelo processo de uberização, mexa-se, adquira novos conhecimentos para agregar valor ao seu trabalho e assim voltar a tornar-se comercializável no mercado, afinal o velho Marx nos ensinou que o que distingue o capitalismo dos outros sistemas econômicos é que a produção sempre visa atender a necessidade dos invisíveis participantes da entidade chamada mercado. Portanto, aprender filosofia pode até aumentar o conhecimento do indivíduo, mas só vai torná-lo um produto comercializável se houver agentes dispostos a oferecer um preço por esse ser filosofante. Marco Rubio, pré-candidato republicano às eleições presidenciais americanas de 2016, resumiu bem esse imperativo ao dizer no quarto debate dos que disputarão as primárias a partir de fevereiro que “Os soldadores ganham mais dinheiro do que os filósofos. Precisamos de mais soldadores e menos filósofos.” O senador da Flórida quis dizer com isso que o ensino técnico deveria ser estimulado para que as pessoas pudessem ter um ofício demandável que lhes permita arranjar um emprego.

    O fato é que o fantasma da uberização está à espreita de todos e os políticos sempre oferecem uma solução mágica para garantir que as pessoas possam continuar tendo valor de troca: investimento em educação, diminuição da carga tributária, simplificação da burocracia para criação de empregos, etc. No final das contas, não há um método infalível. Quem haveria de imaginar que a Grécia, que investiu pesadamente na infraestrutura para sediar os Jogos Olímpicos em 2004 (pude andar no metrô de Atenas e garanto que é novíssimo em folha) e é membro da União Europeia está em uma tal situação que as estudantes mulheres estão vendendo seu corpo? A prostituição pode ser considerada o paroxismo da commoditização, já que qualquer um pode dedicar-se a ela, independentemente de qualquer habilidade intelectual ou qualidade física. E no entanto, assim está acontecendo no berço da civilização ocidental em pleno século XXI.

    Prezados leitores, uberizar-se talvez seja uma questão de sobrevivência, mas não exageremos. Desejo-lhes que se isso acontecer com vocês, livrem-se logo da maldição e transmutem-se em uma nova marca no mercado que atraia os consumidores.

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