Mitos

     Ninguém explica a grandeza, o que se faz é tentar chegar a um acordo com ela.

     Robert Bresson, cineasta francês (1901-1999), diretor do filme Procès de Jeanne D’Arc de 1962

     Prezados leitores, na semana passada eu reclamei dos tempos modernos, do tudo por dinheiro, e confessei que me refugio em outras eras em que o espírito era a medida de todas as coisas. Utilizei o adjetivo mítico, porque na verdade seria muita ingenuidade acreditar que haja tempos históricos em que o poder não tenha sido a medida das coisas. A diferença é que o poder hoje é medido exclusivamente pelo dinheiro e antes que o capitalismo fosse alçado à condição de sistema econômico dominante, no Ocidente havia outras instâncias de poder, como a Igreja Católica.

     Hoje a pobre Igreja Católica é atacada de todos os lados, pelos evangélicos, pelos ateus, pelos agnósticos, pelos zens, pelos neobudistas e tantos outros que não mais querem pautar-se pela moral cristã. É senso comum que a Igreja Católica encontra-se desatualizada em relação aos direitos dos gays, à emancipação feminina, aos novos arranjos familiares. Mas não podemos nos esquecer do tempo em que a Igreja ungia reis e imperadores e excomungava aqueles que literalmente não rezavam pela sua cartilha. É desse tempo que que quero falar, em que a religião era onipresente na vida dos ocidentais. Eu chamo esse tempo de mítico não tanto pelo fato de ser perfeito, mas pelo fato de ser tão distante do nosso em termos de valores que ele parece irreal.

     Vou falar desse tempo não com a pretensão de ser uma historiadora, mas como uma pessoa que admira um personagem que personifica esta ideia de que o espírito é a medida de todas as coisas. Falo de Joana D’Arc (1412?-1431), camponesa nascida na região da Lorena na atual França, país então envolvido na Guerra dos Cem Anos com a Inglaterra. Aos 13 anos, ela já mostrava sinais de uma intensa devoção religiosa e começa a ouvir vozes que diziam a ela ir à França e libertar a cidade de Orleans, então cercada pelos ingleses. Ao redor dos 19 ou 20 anos ela foi atrás do rei Carlos VII em Chinon em março de 1429 e lá disse certas coisas ao soberano ainda não coroado, que tinha a fama ingrata de ser bastardo, que o convenceram de que ela tinha uma missão especial. Nunca saberemos o que ela disse a ele, pois jamais conseguiram retirar dela este segredo. A filha de Jacques D’Arc e Isabelle Romée ainda passou por verificação de virgindade e foi questionada por prelados da Igreja a respeito de sua fé católica.

     Tendo sido aprovada, o rei providenciou-lhe armadura, cavalo e um pequeno exército e lá foi a Virgem juramentada levantar o cerco à cidade de Orleans como ela havia prometido, e posteriormente levar Charfles para ser coroado em Reims em 17 de julho de 1429, após várias vitórias militares ao longo do caminho. Mas a partir deste episódio, que marca o ápice da carreira de Joana, começam as vicissitudes. A Virgem de Orleans queria continuar os esforços bélicos para expulsar os ingleses de vez, mas Charles VII era um grande poltrão e em vez de aproveitar o momento e continuar o ataque, quis descansar e negociar uma trégua com os ingleses, que aproveitaram a deixa para reorganizarem-se e partirem para a ofensiva. A grande vítima dessa virada foi Joana, capturada em maio de 1430 em Compiègne e vendida por 10.000 francos aos ingleses que a acusavam de ser uma “putain” e uma bruxa.

      Perdoem-me tantos detalhes leitores, mas são necessários para contextualizar o julgamento por um tribunal da Inquisição da camponesa analfabeta de Domremy, que havia aprendido a escrever seu nome durante sua fulgurante carreira militar. O inquisidor-chefe era Pierre Couchon, bispo de Beauvais, jurista, doutor em direito civil e direito canônico, assistido pelos mestres vindos da Universidade de Paris, que apoiava a causa inglesa. Pois bem, apesar desta discrepância de saberes, o fascinante deste processo, devidamente documentado por notários que tomaram os depoimentos das testemunhas e da própria acusada, é que Joana mostrou um maravilhoso bom senso, evitando todas as armadilhas filósoficas em que o ladino Couchon e seus asseclas quiseram pegá-la para poder acusá-la de herética. Vou dar-lhes dois exemplos, retirados do livro escrito pela historiadora francesa Régine Pernoud entitulado “ Jeanne D’Arc, par elle-même et par ses témoins” e traduzidos livremente por mim:

     Jean Beupère: Você sabe se está ungida da graça divina ?

     Joana D’ Arc: Se não estou, que Deus abençoe-me com sua graça, e se eu estou, que Deus me preserve assim. Eu seria a pessoa mais sofredora do mundo se eu soubesse não estar abençoada com a graça divina.

     Jean de La Fontaine: Deus odeia os ingleses?

     Joana D’ Arc: Sobre o amor ou o ódio que Deus tem pelos ingleses e sobre aquilo que ele faz à alma deles eu não sei nada; mas sei bem que eles serão expulsos da França, exceto aqueles que aqui morrerão, e que Deus dará a vitória aos franceses contra os ingleses (nota minha: ela disse que essa vitória ocorreria em menos de 7 anos e ela estava corretíssima)

      Pierre Couchon: Você jurará dizer a verdade sobre aquilo que lhe será perguntado a respeito de questões de fé das quais você saiba?

      Joana D’ Arc: Sobre o meu pai, minha mãe e tudo aquilo que eu fiz depois que cheguei à França, eu jurarei de bom grado, mas as revelações feitas a mim por Deus, não as falei sobre elas a ninguém e não as relatei a ninguém, a não ser a Charles, meu rei, e não as divulgarei mesmo que cortem minha cabeça. Isso vem das minhas visões e do meu conselheiro secreto, de não as revelar a ninguém. Nos próximos oito dias eu sabereu se devo divulgá-las.

      Além de não falar nada de absurdo, como pode-se observar nos exemplos acima, Joana ainda mostrava uma insolência que desconcertava os inquisidores:

      Pierre Couchon: Como estava São Miguel quando ele apareceu para você?

      Joana: Não o vi de coroa; e não sei nada das vestimentas dele.

      Pierre Couchon: Ele estava nu?

      Joana D’ Arc: Você acha que Deus não teria com que vesti-lo?

      Pierre Couchon: Ele tinha cabelos?

      Joana D’ Arc: Por que o cabelo haveria de ter sido cortado?

      Prezados leitores, tais respostas, cheias de prudência e sabedoria, mostram como é difícil explicar a trajetória de Joana simplesmente dizendo que ela era esquizofrênica porque tinha alucinações. Uma esquizofrência não teria discutido de igual para igual conceitos difíceis sobre o que é a verdade e sobre os desígnios de Deus como ela fez. Achar uma chave de explicação para um personagem tão complexo é algo inútil, mas de qualquer forma o mito é sempre apropriado em nome de algum interesse. Joana D’Arc, queimada viva em Rouen em 30 de maio de 1431 depois de ter sido condenada por Couchon simplesmente por vestir roupas masculinas, foi canonizada pela Igreja Católica em 1920. O partido de Marine Le Pen, Front National, comemora todos os anos a santa guerreira como símbolo da França profunda, da França que eles consideram autêntica, livre dos muçulmanos. A minha Joana é simplesmente uma mulher inteligente, obstinada e embuída de uma fé inabalável em sua missão, tão inabalável que morreu ardendo em chamas gritando o nome de Jesus. Em última análise cada indivíduo escolhe o quer de um mito. Façam vocês suas próprias escolhas se o personagem lhes interessar.

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Tudo por Dinheiro

O capitalismo transforma tudo em commodities que podem ser vendidas e compradas

Karl Marx, filósofo e economista alemão (1818-1883)

         Prezados leitores, desculpem-me se repito uma citação do velho barbudo, mas não consigo deixar de pensar nesta frase que já se transformou em clichê, mas que a mim parece não perder a validade. Quando olho ao meu redor e contemplo o espetáculo da nossa política, das nossas relações pessoais e profissionais não posso deixar de chegar à conclusão de que a medida de todas as coisas é o dinheiro. Não quero com isso dar-me ares de superioridade moral, afinal eu vivo na sociedade capitalista e conscientemente ou inconscientemente compartilho os mesmos valores, em maior ou menor grau. Vou dar-lhes um exemplo comezinho: minha professora de ginástica julga os homens com os quais suas amigas casaram ou com os quais têm relacionamento do ponto de vista de “ter ou não bala na agulha”, ou seja terem ou não dinheiro. Quem tem “bala na agulha” é mais confiável, não vai decepcionar, quem não tem provavelmente vai cometer um erro ao longo do caminho, ou vai abandonar a mulher grávida, ou não vai pagar pensão ao filho ou vai ser um pai pouco presente. O pressuposto aqui é que a posse de dinheiro dá à pessoa automaticamente um arsenal de virtudes intrínsecas a este estado de bem-aventurança financeira.

         A política é o ambiente por excelência em que é óbvio a todos os eleitores, independentemente de suas escolhas políticas, que a métrica é exclusivamente pecuniária. Não teríamos este nível de corrupção agora escancarado pela Operação Lava Jato se os nossos políticos não tivessem a convicção de que quem tem mais tem mais valor. Quem tem mais dinheiro organiza campanhas mais poderosas, consegue eleger-se na base dos jingles feitos por publicitários regiamente pagos para oferecerem aos seus contratantes toda a gama de técnicas mercadológicas necessárias para vender o produto em questão. E como negar a verdade factual dessa premissa? Por acaso algum político desconhecido que dispusesse de parcos segundos no horário eleitoral gratuito ou que não fosse uma celebridade na televisãoteria sido eleito? Há alguma chance de uma pessoa expor suas ideias em um blog como eu faço e tentar angariar simpatizantes para sua causa, com base exclusivamente na lucidez das suas propostas? Lembremos que criaturas esdrúxulas como Enéas e Tiririca foram escolhidaspor pessoas que estavam a fim de avacalhar e simpatizaram com o bordão “Meu nome é Enéas”e “Vote em Tiririca, pior que tá não fica!”.

         Poder-se-ia objetar que nesses dois casos o dinheiro não foi determinante para a eleição, o que é verdade,mas o ponto central permanece o mesmo: há uma tal ausência de valores que quando o dinheiro não está diretamente presente, surge um vácuo, preenchido por candidatos que não têm nada a oferecer, além da negação niilista do “tudo por dinheiro” sem que nada seja colocado em seu lugar. Afinal, o que Enéas Ferreira Carneiro, morto em 2007 propôs de novo em termos de fazer política, em termos de projetos, ele que era médico cardiologista e que portanto tinha plenas condições de fazer propostas na área da saúde? Ele esbravejava contra a corrupção de maneira indiscriminada e portanto inútil. Nem falemos de Tiririca, que nem a cruzada da vassourinha que vai varrer a bandalheira tentou, pois seu objetivo é realmente divertir-se e divertir.

        Não podemos esqueceras outras partes interessadas no balcão de negócios, as empresas que compram favores de políticos, na forma de contratos, concessões e outras benesses e os funcionários de estatais que os vendem a preço de ouro. A referência é sempre o dinheiro. Os políticos precisam de dinheiro para reeleger-se, as empresas precisam encontrar fontes contínuas de receita que garantam a continuidade operacional por longos anos, os funcionários da Petrobrás (para ficar no foco da Lava Jato) precisam do vil metal para acumularem mais vil metal. Em um mundo democrático em que os sinais de status não mais são dados pela família ou o local em que o sujeito nasceu ou pela faculdade que frequentou, a diferenciação entre os melhores e os piores só pode dar-se pela ganância: quanto mais o indivíduo faz qualquer coisa por dinheiro, mesmo que ele tenha possibilidade de viver honesta e confortavelmente com seus ganhos salariais, mais ele acumulará e mais status terá em uma sociedade cuja única baliza moral realmente sólida é a lógica da acumulação.

          Tanto isso é verdade que as pessoas que seguem essa lógica do dinheiro como medida de todas as coisas agem com muita desfaçatez. No sábado passado estava assistindo a um documentário de Nelson Honieff sobre Paulo Francis em que abordaram-se as circunstâncias de sua morte. Para quem não se lembra, ele estava sendo processado nos Estados Unidos por ter feito acusações sem provas contra diretores da Petrobrás que teriam dinheiro na Suíça. Quase vinte anos depois as investigações da Polícia Federal estão revelando exatamente aquilo que ele ouvira de um advogado com quem compartilhara uma refeição. E no entanto à época, Joel Rennó, o então presidente da Petrobrás, entrou com uma ação pedindo indenização por danos morais no valor de 100 milhões de dólares. Claro que todos aqueles que apoiaram Joel em sua empreitada e que trabalhavam na Petrobrás sabiam que as acusações do jornalista tinham um fundo de verdade, mas também sabiam que ele jamais poderia prová-las, daí a ação na Justiça. Não há dúvida de que o espectro de ficar devedor de uma bolada que ele não tinha condições de pagar por calúnia contribuiu para que Paulo Francis sofresse o ataque cardíaco que o matou em 4 de fevereiro de 1997, em pleno Carnaval. Mas o importante é que as negociações escusas puderam continuar incólumes e o dinheiro a fluir e a gerar mais dinheiro. A morte de um indivíduo cuja única culpa foi ter falado demais e publicamente não é importante.

           Assim, o crucial é que a roda da fortuna continue a girar. Como comentei neste espaço na semana passada o Programa FIES de subsídios às universidades particulares é uma bomba de efeito retardado que um dia vai estourar na mão dos contribuintes, sem que tenha de fato contribuído com a melhora das qualificações do nosso povo. Mas o que importam valores educacionais? O que importa é que muitos lucram: os políticos que ganham votos dos eleitores agraciados com o status de universitários, os donos de universidades e os próprios funcionários das universidades que garantem seu emprego alimentando a fantasia do diploma de nível superior sem esforço. Pude constatar a inutilidade de tudo isso ao conversar com o motorista da ambulância que carregava minha mãe para o hospital no domingo dia 22. Ele formou-se em Gestão de Logística e confessou-me que não se lembra de nada que viu na faculdade, que não aprendeu nada e que ao comprar o diploma com empréstimo do governo tinha certeza de que nunca trabalharia com Logística.

           Prezados leitores, tudo é tão lógico e no entanto tudo é tão deprimente A mim é deprimente porque como sou amante de História sei que em outras eras o dinheiro não era a medida de todas as coisas, por isso sempre que posso refugio-me nesse tempo perdido e mítico, em que o espírito era a medida das coisas. Mais sobre esse assunto, para quem tiver curiosidade, acompanhem-me semana que vem.

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Que justiça?

Para resolver a crise da Grécia, a Europa precisa focar menos na dívida e mais na justiça. Atenas simplesmente não dilapidou algumas centenas de bilhões de euros: muito do dinheiro foi roubado. No entanto, a União Europeia pouco fez para obrigar o país a combater a corrupção de alto nível.[…] Os gregos sofreram por causa dos desmandos de algumas dezenas de milhares, talvez, de seus cidadãos.

Trecho retirado do artigo “Na Grécia o foco é na justiça” de Gregory A. Maniati, conselheiro sênior das Nações Unidas, publicado na edição eletrônica do jornal The New York Times de 20 de fevereiro

Para juiz, Eike vive em “ostentação incompatível com quem tem dívidas”, diz juiz

Manchete de artigo sobre a fala do juiz Flávio Roberto de Souza, titular da 3ª Vara Federal Criminal que cuida do caso de Eike Batista e deu entrevista ao Fantástico em 22 de fevereiro

      Prezados leitores, aqui e acolá estamos todos em busca da justiça. Os gregos elegeram um partido radical de esquerda porque estão fartos da hipocrisia da União Europeia, que agora prega a austeridade, mas que permitiu com seu aval que bilhões fossem emprestados em transações para lá de duvidosas. `Mas o importante era que os bancos tivessem oportunidade de fazer negócios, desovar seus produtos de crédito em um país cuja classe dirigente é altamente corrupta. A organização Brookings Institution estimou em 2010 que sejam perdidos 20 bilhões de euros por ano na Grécia com a corrupção nos altos escalões.

      Essa hipocrisia, que causa tanta indignação nos gregos, fica evidente na atitude da União Europeia. Outrora ela fomentou o conluio entre banqueiros em busca de novos mercados e dirigentes picaretas ao permitir à Grécia entrar na zona do euro na base do triunfo da esperança sobre a experiência. Agora que o caldo entornou, a sagrada União acusa os gregos de serem preguiçosos. Ora, de acordo com os dados da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico, em 2013 cada trabalhador grego despendeu 2037 horas na labuta. Sabem qual a cifra germânica? 1388 horas. À vista desses números, quem é preguiçoso, independentemente de trabalhar melhor, gregos ou alemães? Definitivamente, essas inconsistências da União Europeia, que pretende ter virtudes que na verdade não tem, mina sua credibilidade e fez o povo protestar votando nos “marginais” do Syriza.

      No Brasil temos sede de justiça tão grande quanto no berço da democracia. Pudera, ambos os países ocupam a mesma posição no Índice de Percepção da Corrupção de 2014 publicado pela Transparência Internacional: 69, num total de 174 posições em que a primeira é a do país mais limpo, Dinamarca, e a última posição é ocupada pelo país mais sujo, a Somália. Queremos ver a punição dos corruptos, desde os pagadores de propina investigados pela Operação Lava Jato da Polícia Federal, passando pelos funcionários da Petrobrás que receberam as propinas, até indivíduos como Eike Batista que construiu um castelo de cartas que ludibriou acionistas das empresas do Grupo X.

      Louvável sentimento de nós brasileiros. Se ainda não conseguimos canalizar nosso sentimento de saco cheio elegendo candidatos alternativos para postos no Executivo, como fizeram recentemente os gregos, ao menos compartilhamos com eles o nojo pela desfaçatez de políticos, empreiteiros e funcionários públicos que se locupletam na casa dos bilhões de reais. Se nossa sede de vingança é justificável por um lado, por outro temo que em certo sentido ultrapassamos um pouco os limites, o que pode prejudicar nossos objetivos de longo prazo.

       Refiro-me a esse comportamento de celebridade de certos membros do Judiciário, cujas atividades estão agora na berlinda. A mim parece-me um disparate um juiz dar entrevista à Rede Globo para falar mal de um acusado. Qual o objetivo do senhor Flávio Roberto de Souza? Esclarecer a população sobre fatos que ainda não foram plenamente investigados, já que o processo criminal ainda está em andamento? Aparecer na mídia, sentir o prazer de ver-se admirado pelos espectadores e ser reconhecido como o fazedor de justiça? Ou dar razões para que os advogados de Eike entrem com ação peticionando que ele seja declarado suspeito por mostrar-se interessado no julgamento da causa em favor de uma das partes, conforme definido no Código de Processo Civil? Será que a possibilidade de ter sucesso instantâneo é mais forte em seu espírito do que o desejo que a justiça seja feita?

       De acordo com o filósofo do direito Charles Perelman, no século XIX, época áurea das codificações e do direito liberal que favorecia a burguesia, o ideal de juiz era o de um sujeito passivo que simplesmente aplicava a lei da maneira exata e única estabelecida pelo método de exegese vigente. A tarefa do juiz era satisfazer a necessidade de segurança jurídica para que os cidadãos se sentissem abrigados pelas instituições e não ficasseem à mercê dos abusos e arbitrariedades dos homens. Passados dois séculos, percebemos que houve uma mudança enorme de paradigmas nos países ocidentais. A tarefa do juiz não é mais a de ser um intérprete autômato, mas a de ser um concretizador dos valores colocados na Constituição do país, entre eles o da democracia. E para atingir esse objetivo o juiz pode inclusive interpretar uma lei de maneira tão larga que o seu conteúdo original, estabelecido pelo Poder Legislativo, acaba sendo diluído. São esses novos poderes do juiz executor dos princípios constitucionais um dos motivos que nos levam a falar no ativismo do Judiciário.

       O magistrado Flávio Roberto de Souza sabe que a corrupção mina a democracia, porque ao levar ao abuso de poder por aqueles que exercem posição de comando, desacredita todo o processo de escolha dos dirigentes pelo voto. Sabedor da sua incumbência de fazer valer a Constituição, lutar contra a corrupção torna-se uma tarefa de suma importância, e é importante o que ele tem feito para evitar que os bens do senhor Eike sumam pelo ralo e que ao final do processo não sobre nada para a execução da sentença. Mas dar entrevistas ao Fantástico despejando os podres de uma das partes do processo que está sob seus cuidados é demais. O tiro acaba saindo pela culatra e ao invés de cada um ter o que é seu (a definição aristotélica de justiça), poderemos ter simplesmente factóides legais, muito barulho (vazamentos de depoimentos, entrevistas bombásticas) para poucos resultados.

      Justiça é o anseio dos cidadãos de bem que sabem que para todos prosperarem e gozarem de direitos é preciso que cada um cumpra suas obrigações. Torçamos para que no Brasil, a proeminência das atividades do Judiciário na mídia não acabe atrapalhando a consecução desse ideal. Esse é um risco maior porque se na Grécia, os membros do Syriza, que estão tentando fazer justiça lá, forem atabalhoados e agirem de maneira errada poderão ser defenestrados pelos eleitores nas próximas eleições. Mas no Brasil o que podemos fazer quando um juiz mete os pés pelas mãos, já que ele não foi eleito? Qualquer punição acaba dependendo do julgamento dos pares, que não têm lá muito interesse em desprestigiar membros da sua própria classe. Portanto, esperemos que em nosso país a justiça acabe não sendo sacrificada no altar das vaidades dos seus supostos defensores.

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Bombas

[…] o motivo pelo qual o Estado não pode mais dar-se ao luxo de custear diplomas de graduação é que o número de pessoas com diploma de universidade aumentou de maneira tão astronômica. Isso por si só ajudará a acabar com a falsa mística da expressão “com diploma superior”. […] Ao invés de perguntar ‘Você frequentou a universidade?’, os empregadores perguntarão ‘Que universidade você frequentou?’

Trecho retirado do artigo “A Universidade está fora – Por que ser formado na universidade está prestes a perder seu prestígio”de autoria de Mark Mason, publicado na revista Spectator de 24 de janeiro

Gasto com FIES cresce 13 vezes e chega a R$ 13,4 bi, mas ritmo de matrículas cai

Manchete de artigo publicado no jornal O Estado de São Paulo de 15 de fevereiro sobre o financiamento às universidades privadas dado pelo programa de Financiamento Estudantil do governo federal

Os políticos estão lá para dar a impressão de que você tem liberdade de expressão. Você não tem. Você tem dono. Eles mandam em você.

George Carlin, humorista americano (1937-2008)

    Prezados leitores, neste feriado de Carnaval, resolvi fugir da folia e apreciar a natureza no SESC Interlagos, acompanhada de duas amigas. As quaresmeiras, primaveras e ipês estavam maravilhosamente floridos, mas o cheiro à beira da Represa Billings estava nauseabundo. Funcionários explicaram-nos que o olor desagradável é devido à proliferação de algas no verão, já que o esgoto é lançado sem tratamento em águas que poderiam estar agora aliviando o sofrimento dos paulistanos nessa época de escassez. Foi uma pena e uma surpresa para mim, que já havia estado no local antes e o único cheiro que sentira tinha sido o da vegetação.

    De qualquer forma pudemos conversar e reclamar da vida, cada qual a seu modo. Uma das minhas amigas é professora em uma universidade particular e diz que está insuportável continuar, porque metade do corpo docente foi mandado embora para cortar custos e os profissionais que ficaram terão que dar conta do dobro dos alunos em cursos presenciais e à distância. Corre o boato de que a universidade está para ser vendida, já que está hazendo uma consolidação no setor, e os donos estão cortando as despesas no afã de auferir lucros suficientes para aumentar a atratividade do negócio e por tabela o preço de venda. De fato, com base nos relatos da minha amiga sobre o modo como a organização é feita, a educação é um grande negócio, os professores e os alunos são os insumos que serão processados para gerar os números. Se nessa máquina de moer gente houver a aquisição de educação por parte do cliente será um mero acidente, cuja realização ou não não determina o sucesso ou o fracasso do empreendimento.

   Essa baixa qualidade é evidenciada, entre outros indicadores, pelos 16% de faculdades, centros universitários e universidades que têm índices de qualidade acima do mínimo exigido para participar do FIES. Mas não atingir o mínimo estipulado pelo MEC não significa uma sentença de morte, porque 10% das 448 instituições que receberam 80% de todo o valor gasto pelo governo com o programa não tinham conceito. Enfim, é um grande negócio para os capitalistas da educação, grupos como Anhanguera, UNIP, Estácio de Sá, Nove de Julho, para citar os maiores recipientes de verbas públicas. Essas universidades não correm risco de receber calote, pois o governo paga a mensalidade, e dão ao aluno um diploma de qualidade duvidosa, considerando o quanto sua obtenção é facilitada para que o aluno vá até o fim. Essas empresas muito espertamente têm transferido os estudantess que antes pagavam mensalidades por si próprios para o FIES de forma a garantir o fluxo de caixa. Tenho certeza que daqui a alguns anos, quando esses formandos perceberem que o canudo não lhes proporcionou a ascensão profissional que esperavam, haverá um calote geral nos pagamentos dos empréstimos ao governo federal. E claro, o prejuízo será arcado por toda a sociedade brasileira, para que uns poucos empresários ganhem muito dinheiro.

     Essa é apenas uma das bombas de efeito retardado que descobri no meu retiro carnavalesco. Outra má notícia que projeto para o futuro é o uso desenfreado que está sendo feito dos recursos do FGTS para a construção da infraestrutura da Copa do Mundo e das Olimpíadas do Rio. Isso não inclui somente as obras, mas a remoção de populações à bala dos locais, como ocorreu com a Aldeia Maracanã em março de 2013, nas proximidades do estádio. Alguns poderão acusar-me de vir com notícia velha, mas confesso que eu não sabia que havia uma aldeia indígena urbana no Rio de Janeiro. Fiquei sabendo disso por intermédio de um documentário a que assisti em algum canal obscuro da TV a cabo. Sâo notícias que não recebem a devida atenção da mídia, porque elas são importantes demais para serem debatidas. Afinal, se as televisões, jornais impressos e sites de notícia dessem ênfase à tragédia pessoal das pessoas que tiveram que ser retiradas de suas casas para dar lugar ao tal do legado da Copa e das Olimpíadas, nós, brasileiros que pagamos a conta, conscientizaríamo-nos de como o dinheiro está sendo gasto para encher o bolso das empreiteiras.

     Agora eu pergunto: será que o Conselho Curador do FGTS está acompanhando atentamente o destino do patrimônio dos trabalhadores? Ou está chancelando tudo, como fez o Conselho de Administração da Petrobrás a respeito da compra da refinaria de Pasadena? Meu fatalismo em relação aos empréstimos do FIES aplica-se aos recursos do fundo de garantia, e pressinto que nossas autoridades daqui a alguns anos cobrarão alguma taxa para cobrir o rombo, seja tornando o saque ainda mais difícil do que já é, seja corrigindo-o com índices que espelhem cada vez menos a perda monetária com a inflação.

     Prezados leitores, muitas bombas estão colocadas no nosso colo pelos nossos donos, como descreve precisa e sarcasticamente o humorista americano George Carlin que falava das mazelas dos Estados Unidos, mazelas essas que são similares àquelas enfrentadas aqui. Elegemos políticos que quando chegam ao poder têm sua própria pauta secreta, que não compartilham conosco quando pedem nosso voto. Por acaso nessa última eleição presidencial houve uma discussão transparente sobre o impacto nas contas públicas causado pelas benesses dadas a donos de universidades, empreiteiras, indústria automobilística com subsídios, isenções fiscais, facilidades de crédito? Lembro-me de Dona Dilma mostrando os números do PRONATEC, de incentivo ao ensino técnico, e do FIES, mas ela jamais falou sobre os casos de universidades que continuam recebendo dinheiro do governo, mesmo depois de o aluno ter abandonado o curso, ou que recebem dinheiro por alunos que teoricamente cursam Medicina, mas que na prática cursam pedagogia. E o senhor Aécio Neves também não perguntou sobre isso, talvez porque tenha recebido doações desses grandes grupos educacionais.

     E assim é a vida, nossos donos nos mandam segurar as bombas e nós as seguramos, torcendo para que a explosão não nos cause sérios danos…

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De pernas para o ar

Um até então obscuro deputado conservador do Parlamento Britânico, Nigel Mills, foi fotografado jogando Candy Crush no seu celular enquanto ele deveria supostamente estar ouvindo pessoas do setor de seguros o entediando até a morte sobre certos assuntos. O Senhor Mills, não mais obscuro! – é membro do Comitê de Trabalho e Aposentadoria, mas considerou um jogo provavelmente feito para crianças de quatro anos mais interessante do que ouvir o que os funcionários da empresa Aviva pensavam sobre o Pronunciamento de Outono do primeiro-ministro {…} O comportamento de crianças que estão aprendendo a andar, com toda a auto-absorção e o narcisismo dos muito, muito jovens parece ser a característica definidora da nossa população.

 

Trecho do artigo “Tornamo-nos uma nação de birrentos”, do jornalista britânico Rod Liddle, publicado na edição da revista Catholic Herald de 16 de janeiro

   Prezados leitores, vivenciei um pequeno episódio no sábado à noite que me deu o mote para o meu artigo semanal. Estava em um encontro com ex-colegas de faculdade em uma pizzaria. Um deles tem um filho de um ano e dois meses e a esposa está esperando o outro. Para que ela pudesse ter um pouco de sossego eu peguei a criança no colo: afinal mãe e filho passam o dia inteiro juntos, seria bom que ela tivesse uns minutos para conversar.  Pois bem, mal eu peguei o menino no colo e ele começou a chorar estendo os braços em direção ao pai e à mãe para voltar ao seu cafofo preferido. Eu tentei distraí-lo, mas foi em vão, o bebê queria porque queria livrar-se da estranha. Eu teria até insistido mais, porque via que a mãe estava evidentemente cansada, mas minha resolução desmanchou-se quando um outro colega, solteiro, ralhou comigo: “O menino está chorando, você não vê? Devolva-o para os pais!” Pelo tom, ele achava meu comportamento absurdo, afinal porque fazer o menino sofrer em vão?

   E assim foi feito, eu o devolvi e não mais fiz qualquer tentativa de aproximação. O fato é que me senti totalmente derrotada, porque eu não tinha argumentos, melhor dizendo, meus argumentos são despropositados em nosso admirável mundo novo. Eu não me incomodo nem um pouco de ver e deixar uma criança chorar: por que haveria de ser um problema, contanto que a criança esteja alimentada, confortável e segura? Mas, essa é obviamente uma mentalidade para lá de ultrapassada. O Estatuto da Criança e do Adolescente, em seu artigo terceiro, garante aos rebentos brasileiros “proteção integral”, o que parece querer dizer uma ausência total de qualquer inconveniente, de qualquer contrariedade. Digo parece porque vejo ao meu redor, inclusive em minha própria família, um esforço determinado, diria até uma angústia dos pais em tentar poupar ao máximo seus pimpolhos de todo perigo e sofrimento. Outro dia estava visitando uma amiga que tem um filho de 16 anos. Fiquei lá ao redor de quatro horas e o moçoilo ficou o tempo todo jogando no computador. Quando ele surgiu da penumbra mal cumprimentou-me de vergonha. Pudera, a mãe não o deixa ir à escola a pé, que fica a dez minutos da casa, porque acha que o caminho está infestado de bandidos. Eu pensei: Bem, mas ele vive no Brasil, o que há de ser feito? Ela vai acompanhá-lo a todos os lugares durante a vida dele toda? Ele nunca sairá sozinho?

   De novo eu me calei, não discuti, não contra argumentei. Para quê? Em certos aspectos da modernidade considero-me uma derrotada. Meus valores são muito diferentes, do século passado, e não vejo como compatibilizá-los. O máximo que tento fazer é adaptar-me para sobreviver no mercado de trabalho e no meio social. Adaptação não quer dizer rendição completa, no fundo da minha alma acho que está tudo de pernas para o ar. As condições materiais da vida mudaram muito, mas ainda não foi estabelecido um código moral para refletir essa nova realidade. Dessa discrepância surgem muitas inconsistências na reação das pessoas. Vou dar-lhes alguns exemplos.

   Em agosto do ano passado causou grande comoção a imagem da moça que tirou um selfie de si mesma, toda sorridente, ao lado do caixão de Eduardo Campos, então candidato à Presidência da República, como se o enterro de uma pessoa fosse uma celebração como outra qualquer. No entanto, permitam-me levantar um ponto: quem parece ter dado o tom do enterro, o quê de convescote que ele tomou, foi a própria família do finado, que fez questão de usar camisetas amarelas com uma mensagem política estampada, fazendo-nos propositalmente esquecer que se tratava do falecimento de uma pessoa. Luto, preto, é uma coisa muito triste! O lema desse mundo novo é evitar toda dor, todo sofrimento, e para isso é imperioso livrarmo-nos dos símbolos da perda: nada de cores sombrias, de óculos escuros, de véus cobrindo o rosto, de formalidade, de reverência. A viúva desfila no carro dos bombeiros, veste-se de calça jeans e tênis, e leva a tiracolo o filho que ainda mama. Como evitar que tal informalidade e descontração descambassem para o selfie ao lado da foto do guapo candidato de olhos azuis?

    Quando uso a expressão de pernas para o ar o meu objetivo é chamar a atenção para o fato de que ainda não achamos o tom da nova era, em que estamos totalmente imersos na tecnologia. Foto em enterro não pode, mas porque selfie de uma mulher acamada na UTI, com hematomas na perna pode? Não é tão enojante quanto, ou há uma pequena diferença de grau? Uma colega minha de trabalho colocou em sua página no Facebook a pedra retirada do seu rim. No outro dia as pessoas comentavam: “Vocês viram que grande a pedra no rim de fulana? Nossa!”. O espanto obviamente era em relação ao tamanho do objeto, não ao fato de postá-lo na internet. Afinal, o importante é todos saberem da vida de todos, e como alertou Edward Snowden, a vida privada, tal como a conhecemos no século XX, é letra morta no século XXI.

    Rod Liddle, em seu artigo, citado acima, sobre a infantilização das pessoas do seu país, a Grã-Bretanha,  põe a culpa principal na falta de religião, que privou as pessoas de um código moral imutável. É difícil saber, pois é o tipo da questão sobre quem nasceu primeiro, o ovo ou a galinha: a tecnologia tornou-nos ateus, porque nos deu tantos poderes sobre a natureza que agora prescindimos da ajuda de um Deus?; ou o nosso abandono da estrutura de pensamento religioso tornou-nos mais propensos a aceitar a tecnologia de maneira acrítica, mitificadora, como se ela fosse capaz de resolver todos os nossos problemas e não criasse nenhum? O mais sensato é dizer que as duas correntes juntam-se para formar um rio caudaloso que é a flexibilização dos princípios. No passado os pais costumavam disciplinar os filhos e havia até o ditado, que eu tentei seguir com o filho do meu colega: “É de pequenino que se torce o pepino”. Os pais estavam em um patamar acima. Não mais. Hoje a principal função dos pais parece ser a de entreter os filhos, fazer de tudo para que eles fiquem os mais seguros e confortáveis possíveis e assim, na língua venenosa de Rod Liddle, cheguem aos seus trinta anos despreocupadamente jogando Candy Crush em uma audiência pública. No passado cultivávamos valores como pudor, privacidade, modéstia. Hoje o ser humano só existe no mundo, só se relaciona com seus pares,  se ele estiver devidamente fotografado e publicado na internet.

    Não me entendam mal: por incrível que parece não estou reclamando. Não estou aqui conclamando as pessoas a mudarem de hábitos, porque o caminho é sem volta. O que ocorre é que como formei minha cabeça antes da avalanche das mídias sociais e da tecnologia móvel, eu tenho um olhar digamos antropológico sobre esses desdobramentos, justamente porque vivi em um outro período que me dá termos de comparação. Seria ingênuo achar que nosso mundo virtual, narcísico e feito de pessoas sorridentes que posam para fotos seja totalmente bom, ou totalmente mau. No final das contas, quem nasceu dentro dele tende a achá-lo natural, quem não nasceu, como eu, pode dar-se o direito de escolher algumas coisas e descartar outras. E assim o farei, para bem da minha saúde mental.

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