Um raio de esperança

“A Europa, em sua infinita sabedoria, decidiu lidar com a falência colocando o peso do maior empréstimo na história da humanidadenos ombros mais fracos, o contribuinte grego”, ele disse.

“O que tivemos desde então foi uma espécie de waterboarding fiscal, que transformou o país em uma colônia de dívidas”, ele acrescentou.

Trechos retirados do artigo intitulado “Ouviram as novas? O novo Ministro das Finanças da Grécia não é nenhum extremista”, publicado no jornal britânico The Daily Telegraph em 26 de janeiro último

De certa forma, a história do PT é a tragédia política final. Parecia que eles estavam fazendo tudo certo. Tinham uma classe genuinamente trabalhadora na base. Tinham uma visão clara, transformadora. Mas, no fim, para conquistar o poder, precisaramse tornar gradualmente um partido “realista” – e acabaram se tornando o tipo de partido que trairia a própria base ao propor tais ajustes.

David Graeber, antropólogo americano, professor da London School of Economics

  Prezados leitores, permitam-me, como já fiz outras vezes, retomar um assunto passado, maisprecisamente da semana passada em que falei sobre a eleição de um partido de esquerda na Grécia que está propondo mudar os termos dos acordos do país com a dita troika, isto é, a Comissão Europeia, o Banco Central Europeu e o Fundo Monetário Internacional. Faço-o por dois motivos. Em primeiro lugar, assisti a um entrevista de Yanis Varoufakis, dada à BBC de Londres em que o jovial economista de 53 anos consegue não perder a cabeça com a saraivada de ataques da entrevistadora, que estava louca para que ele desse declarações polêmicas do tipo “Nós não confiamos na Alemanha” ou “Nós não mais tomaremos dinheiro emprestado”, ou ainda “Nós vamos interromper as reformas estruturais”. Para quem tiver curiosidade a íntegra da conversa está no site de Yanis, que é blogueiro: www.yanisvaroufakis.eu.

   Eu estudei Letras e tínhamos na faculdade uma matéria, a Análise do Discurso, cujo objetivo era investigar as implicações das escolhas de certas palavras no texto. É útil presumir que as pessoas não escolhem o que vão dizer por acaso para analisarmos a cena política. Vou dar-lhes um exemplo. Quando a jornalista perguntou a Yanis se ele interromperia as reformas estruturais, ele espertamente a cortou e esclareceu que na verdade o Syriza aprofundaria as reformas estruturais, mas acabaria com o processo de deformação e desconstrução a que a Grécia estava sendo submetida há cinco anos. Digo espertamente porque a expressão “reforma estrutural” tem suma importância em todo o discurso a respeito da modernidade da União Europeiae das vantagens que ela traz. Pois se reforma estrutural é algo positivo, é algo que mexe com as estruturas econômicas e sociais de países atrasados, ela deve ser executada para que o país torne-se competitivo, atraia investimentos, participe das cadeias globais de produção e por aí vai.

   Portanto,se Yanis deixasse que a jornalista se apropriasse desse sentido positivo e o fizesse diser que ele não faria tais reformas estruturais, então o programa da nova esquerda na Grécia seria representado como algo retrógrado, de um povo que não tem as qualidades empreendedoras dos alemães e não sabe fazer o capitalismo funcionar bem. Yanis sabe disso e retrucou afirmandoque as mudanças que a troika pede na economia grega, como privatização, desregulamentação levam ao oposto do que pregam. A venda de bens públicos foi feita na bacia das almas em umaépoca de deflação, portanto os preços obtidos foram baixos, e o novo Ministro das Finanças grego qualificou os ganhos auferidos como migalhas jogadas no buraco negro financeiro, isto é, só serviram para amortizar dívidas impagáveis. A economia encolheu 25%, o desemprego geral está em 25% e o desemprego entre os jovens atinge 50%.

   Reforma x deformação, um jogo de palavras sem dúvida, mas imprescindível para as partes fazerem seus respectivos pontos de vista prevalecerem. E neste momento devo explicitar o segundo motivo que me levou a retomar a conversa da semana passada, qual seja, o fato de Grécia e Brasil terem algumas coisas em comum: fomos também submetidos à canga do FMI por muitos sombrios anos na década de 80 e agora temos outra coincidência na circunstância de ambos os países estarem sob o governo da esquerda populista, como ela é chamada aqui no Brasil em nossa imprensa. Inclusive muitos dosmembros do Syriza têm alguma ligação com a América Latina. O novo ministro-adjunto da Defesa, Kostas Issichos, é argentino naturalizado grego, “e vários dirigentes do partido estiveram no Fórum Social Mundial e participaram de mobilizações antiglobalização”, conforme publicado no jornal O Estado de São Paulo de 1 de fevereiro.O Syriza parece espelhar-se na atuação “pragmática” dos governos “progressistas” na Bolívia, Equador, Venezuela e Argentina.

   As aspas no parágrafo anterior mostram que tentarei como Yanis Varoufakis desconstruir o sentido das palavras em relação à atuação da esquerda , particularmente aqui no Brasil. Nâo há duvida que Lula levou em conta sua prática, especificamente suas três derrotas nas eleições para Presidente da República, para ajustar seu discurso e sua atuação política e poder eleger-se. Mas não acredito que o saldo final tenha sido positivo. Ao adaptar-seà realidade para conquistar o poder e poder realizar seu programa de esquerda, nosso ex-presidente e seu partido tornaram-se a esquerda populistadescrita nos manuais de ciência política. Aquela que faz uma aliança dupla: com as camadas mais pobres, dando-lhes benefícios como o Bolsa Família e com as camadas mais ricas,garantindo o pagamento da dívida pública. Não é coincidência que o governo Dilma lance agora o pacote de maldades para a obtenção de um superávit primário das contas do governo.Essas medidas poderiam muito bem ter sido endossadas pela troika europeia, mas lá na Europa a esquerda eleita por enquanto está sendo fiel ao mandato dado pelo povo grego para acabar com a austeridade e fazê-lo deixar de ser o único que paga o pato. Em outras palavras, o Syriza está passando ao largo do populismo, pelo menos por enquanto.

   Prezados leitores, um raio de esperança no panorama da esquerda mundial está surgindo na forma de políticos que ainda não se corromperam pelo poder e portanto ainda não se preocupam unicamente em servir-se a si próprios. Se este raio um dia entrará em nossa casa, como cantava Elis Regina, é uma incógnita.

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Pequenas esperanças

Se você acha que tem a vida que merece, então não faça nada e vote nas mesmas velhas pessoas.

Slogan da campanha para a prefeitura de Atenas em 2014 da candidata vitoriosa, Rena Dourou, do partido Syriza.

São Paulo só tem água garantida até 2010 – Para Sabesp, região metropolitana precisará de novas fontes por causa do aumento da população e do consumo

Manchete do jornal Folha de São Paulo em 12 de outubro de 2003

O boom financeiro prometido com a Copa do Mundo de 2014 não se concretizou. A atividade econômica, em vez de ser estimulada, foi sufocada. […]Em vez de o Brasil ser visto como uma economia em rápido desenvolvimento e bem gerida, foram reforçadosvelhos estereótipos sobre os países da América Latina serem considerados como geridos de maneira ineficiente e às vezes não serem Estados de Direito. […] As evidências mostram que tais espetáculos esportivos não só dão prejuízo no curto prazo, mas também são uma maneira ineficaz de aumentar o valor do país como marca.

 

Trecho do relatório anual da empresa Brand FinanceForum sobre o valor da marca dos países em 2014, em que o Brasil caiu da 8ª para a 10ª posição, valendo agora US$ 1,4 trilhão

 

    Prezadosleitores, nós brasileiros, particularmente aqui na região Sudeste, fomos brindados com várias notícias ruins neste início de 2015. A situação calamitosa das reservas de água é bem pior do que se pensava ou do que as autoridades queriam que nós pensássemos. Não havendo água pode não haver luz, porque 75% da nossa energia elétrica depende das hidrelétricas. Além do apagão hidráulico e elétrico, o governo federal brindou-nos com as primeiras medidas do ajuste fiscal, o que inclui mudanças nas regras de concessão de benefícios previdenciários (seguro-desemprego, auxílio-doença, pensão por morte) com a justificativa de evitar fraudes ao sistema. O chamado pacote de maldades incluiu o veto de dona Dilma à correção da tabela de imposto de renda para diminuir a isenção e aumentar o naco do leão.

    Não posso deixar de refletir de maneira lúgubre sobre o estado da nossa democracia. Reelegemos uma candidata à presidente que está fazendo exatamente aquilo que acusava seu oponente de querer fazer, ou seja, cortar benefícios sociais. Independentemente daquilo que acho que deva ser feito no momento atual para ajustar as contas públicas, o fato é que todos os debates realizados ao longo da campanha não serviram para que pudéssemos chegar a um consenso sobre o que melhor serviria para resolver os problemas brasileiros, entre os quais nossos baixos índices de produtividade e crescimento econômico, nossa infraestrutura em estado deplorável. Eles serviram para que os candidatos posassem para as câmeras e mentissem bastante e descaradamente para ganhar a eleição. Para não me acusarem de ser tucana, o governador de São Paulo reeleito, Geraldo Alckmin, também participou do teatro de ilusões porque só agora, firmemente instalado no poder, ele admite que está havendo racionamento de água em São Paulo e não mais minimiza a gravidade da situação.

     Em suma, a democracia tal como praticada no Brasil não permite ao povo ter um controle efetivo sobre as políticas públicas. Somos convidados a apertar os números nas urnas eletrônicas a cada dois anos para assistirmos aparvalhados àquilo que fazem com nosso dinheiro. A crise da água no Sudeste, a região mais importante para a economia do país, já era prevista em 2003 e no entanto a prioridade das nossas autoridades foi garantir nossa escolha para sediar a Copa do Mundo, o que foi conseguido em outubro de 2007. Para a concretização das prioridades normalmente são encontradas as verbas e aos trancos e barrancos construímos as arenas, que terão o destino dos elefantes-brancos daqui a alguns anos. Será que se o governo realmente fosse do povo, pelo povo e para o povo, não teria sido razoável convocar um referendo para que nós brasileiros tivéssemos decidido se queríamos gastar bilhões de reais para sediar o maior evento do futebol mundial?É bem provável que mesmo que tivesse havido a consulta nós teríamos sido ludibriados com promessas fantásticas sobre os benefícios da Copa do Mundo, como fomos ludibriados na última campanha presidencial de que tudo estava bem no Brasil e de que as políticas generosas eram sustentáveis a longo prazo sem mudanças profundas na organização do Estado. De qualquer forma, a decisão de ser o anfitrião não teria sido tomada por um punhado de políticos – de todos os matizes, diga-se de passagem, pois o oba-oba foi geral – que quis fazer bondades com o chapéu alheio.

     Pobre democracia brasileira, que nos aparta das principais decisões políticas a serem tomadas. Mas, como diria Camões, cessa tudo quanto a antiga musa canta que um valor mais alto se alevanta. Alhures surge uma pequena esperança de que governos de esquerda possam oferecer um programa consistente ao eleitorado, e não apenas umas migalhinhas suficientes para conseguir votos e virar a casaca depois. A Grécia acaba de eleger seu mais novo-primeiro ministro em 150 anos, Alexis Tsipras, um engenheiro de 40 anos, líder do partido de esquerda radical Syriza. Para quem não se lembra, a Grécia é aquele país que entrou na zona do euro por força dos truques contábeis da Goldman Sachs– que lucrou muito com isso emitindo swaps para o caso de calote –, foi à lona em 2008 e recebeu a ajuda do FMI, da Comissão Europeia e do Banco Central Europeu para pagar as obrigações contraídas em euro.

     Tal ajuda, dada em troca da austeridade fiscal para salvar os bancos que haviam emprestado à Grécia, só fez aumentar a dívida do país que hoje está em 175% do PIB (a nossa está na faixa de 63%)pois causou uma enorme recessão econômica, desemprego e miséria, pelo corte de aposentadorias e outros benefícios sociais. Pois bem, o que o Syriza propõe é que parte dessa ajuda financeira dada pela EU e pelo FMI seja utilizada para melhorar a vida da população, especificamente um aumento do salário mínimo para 700 euros, um 13º salário para os aposentados que ganham menos do que 700 euros e uma reformulação da tabela de imposto de renda de maneira a isentar de tributação aquelesque ganham até 12.000 euros, em vez dos atuais 5.000 euros. Tal pacote de bondades custaria dois bilhões de euros nos próximos dois anos, e incluiria uma reestruturação da dívida da Grécia.

      Será que o senhor Tsipras, admirador do argentino Ernesto Che Guevara, conseguirá realizar aquilo que prometeu? Será que conseguirá enfrentar Angela Merkel e Christine Lagarde, que defendem os interesses dos bancos que investiram em títulosde um país de alto risco como a Grécia, e não querem perder dinheiro com a aposta? Ou será que fará como a esquerda brasileira no poder e se acomodará com o mercado, colocando gente das finanças para cuidar da moeda e da economia? É inútil fazer previsões agora, mesmo porque ele não tem um mandato claro. Seu partido conseguiu 149 cadeiras no Parlamento em Atenas, duas a menos do que onúmero necessário para uma maioria absoluta, e terá que negociar com outros grupos. De qualquer forma, é um sopro de renovação depois de quatro décadas do domínio de dois grandes partidos, a Nova Democracia e o Pasok. E, principalmente, pode dar força às outras aglomeraçõespolíticas na Europa Meridional, como o Podemos na Espanha, para enfrentarem os poderes constituídos, que querem que o povo pague até a última gota de sanguepelas apostas irresponsáveis dos bancos.

      Prezados leitores, enquanto esperamos o desenrolar dos acontecimentos na Europa, aqui no Brasil só temos a lamentar o papelão que a esquerda no poder está fazendo, seja ela social-democracia ou socialista. Coitadinhos de nós!

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Sanctimonious

Um tributo à tradição cinematográfica soviética num ensaio devastador sobre a corrupção russa

Rodrigo Fonseca no jornal O Globo de 18 de janeiro sobre o filme Leviatã, do diretor russo Aleksey Serebryakov, que liderao páreo do Oscar de filme estrangeiro deste ano

Quando o advogado Dmitri vai ao escritório do prefeito Vadim ameaçá-lo com um dossiê que detalhe os seus malfeitos para assim obrigá-lo a recuar da desapropriação das terras de Nikolai, o retrato oficial de Putin está em destaque na parede da prefeitura, presidindo sobre a corrupção e repressão que emanam dali.

Isabela Boscov, crítica de cinema da revista Veja sobre o mesmo filme

O filme é realizado no estilo do ‘realismo da perestroika’ ou ‘carnificina’. É por isso que muitos festivais estrangeiros apressaram-se em dar-lhe vários prêmios internacionais, devido à tensão nas relações entre o Ocidente e a Rússia.

Valentin Lebedev, líder da União dos Cidadãos Ortodoxos

                Prezados leitores, gosto muito da palavra da língua inglesa sanctimonious, que quer dizer achar-se moralmente superior aos outros e que nos dicionário inglês-português é traduzida pelo adjetivo santarrão (falso beato).. A civilização ocidental sempre apresentou essa característica, desde os tempos da descoberta das Américas, quando os conquistadores consideravam uma de suas tarefas levar a verdadeira religião aos indígenas e assim salvar-lhes a alma das agruras do inferno que esperavam os gentios que permanecessem pagãos. O fardo do homem branco esteve presente na África como missão daqueles que deveriam civilizar os bárbaros. Atualmente os ocidentais não mais se vangloriam da exploração desenfreada desses dois continentes em nome do Cristianismo e muito menos do papel dos cruzados no Oriente Médio. O genocídio dos indígenas e dos negros é muito óbvio e o fato de haver ainda grandes contingentes populacionais nesse lugares ainda em condições materiais difíceis faz com que haja a percepção atualmente de que o empreendimento civilizatório teve resultados ambíguos.

                No entanto, isso não significa que os ocidentais tenham abandonado sua tendência santimonial (que não tem o mesmo sentido que tem em inglês), pois ela transparece de maneiras muito mais sutis.Uma delas é a defesa dos valores que a civilização ocidental pode com justiça vangloriar-se de ter inventado, como o devido processo legal, a democracia e a liberdade de expressão, de uma maneira menos invasiva. Não se trata mais de colonizar países para colocar tais valores em prática à força, apesar de isso ainda existir coma invasão do Iraque e do Afeganistão pelos Estados Unidos neste século. Trata-se antes de colonizar as mentes, mostrar os defeitos dos outros países não ocidentais em termos de repressão e injustiça para realçar as virtudes dos países do lado superior esquerdo do globo.

                Isso fica claro na promoção que está sendo feita do filme Leviatã, ganhador do Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro e de melhor roteiro no festival de Cannes. Trata-se da históriade Nikolai, que tem uma casa na vila de pescadores de Teriberka à beira do Mar de Barents, na região de Murmansk, no norte da Rússia. A propriedade é cobiçada pelo prefeito da cidade de Kirovsk, onde fica a vila, que quer construir lá um empreendimento imobiliário. Em sua luta desigual contra o prefeito,Nikolai é derrotado em todos os sentidos: recebe uma indenização pífia, seu advogado apanha dos capangas do prefeito e vai embora e ao final Kolya é colocado na prisão injustamente pela morte de sua esposa Lylia, com base em provas forjadas.O retrato da corrupção da política, da justiça, da Igreja (cujo chefe apóia o prefeito para o bem da divulgação da fé cristã) e das pessoas(que passam o tempo todo bebendo e enganando-se mutuamente) é tão negativo da Rússiaque no sábado dia 17 de janeiro, um membro do parlamento em São Petersburgo, Vitaly Milonov, conclamou o primeiro-ministro Dmitry Medvedev a recuperar para os cofres públicosos recursos orçamentários fornecidos ao diretorpara realizar o filme.

                Prezados leitores, não é meu propósito aqui discutir se o filme reflete o que de fato ocorre nas entranhas do Judiciário e do Executivo na Rússia. Não tenho condições de saber, pois não conheço o país e nem conheço pessoas que lá moraram recentemente. O meu ponto é que os elogios rasgados ao filme servem à essa mentalidade de santarrão para mostrar que há países e países, e que os países não ocidentais não conseguem estar à altura dos altos padrões colocados pela Europa e Estados Unidos. Digo que é sanctimonious porque nem o Ocidente consegue realizar seus ideais, e por isso acaba-se chegando à situação do roto falando do esfarrapado. Vou dar-lhes um pequeno exemplo de uma situação parecida àquela retratada no filme que ocorreu na vida real nos Estados Unidos, no Texas.

                Em 1989 o senhor George W. Bush, que dispensa apresentações, investiu 600.000 dólares para, juntamente com outros investidores, comprar o Texas Rangers, time de baseball, e construir um estádio em Arlington. Graças aos poderosos amigos do Bushinho, ele conseguiu isenção do imposto de vendas sobre as compras realizadas para a construção do estádio, a doação de parte do terreno utilizada e a isenção do imposto sobre propriedade. Ao todo os cofres públicos contribuíram com 200 milhões de dólares de acordo com George Sodd um advogado qiue defendeu duas famílias cujas terras foram desapropriadas para que fosse construído o estacionamento do estádio. Aqui vai o detalhe mais importante: foi pago somente um sétimo do que as terras valiam. Bush lucrou 15 milhões com o negócio quando o time foi vendidoem 1998 e apublicidade do estádio ajudou a promover sua candidatura ao governo do Texas em 1994. O mesmo Bush que se valeu de meios escusos para auferir lucros,quando tornou-se presidente ordenou a invasão do Iraquee justificou-se dizendo que era preciso introduzir a luz da democracia em meio aos povos bárbaros do Oriente Médio.

                Em suma, ter bons amigos nos lugares certos permitem a certos indivíduos driblar a lei, ou usá-la em proveito próprio em qualquer lugar do mundo. A influência do dinheiro corrompe democracias em todo o mundo, inclusive no Ocidente, onde elas estão mais consolidadas. É bem provável que haja uma diferença de grau de corrupção entre a Rússia e os Estados Unidos, em detrimento da primeira, mas o importante quando críticas aos países não ocidentais são feitas de maneira competente, como é o caso do filme Leviatã, é que os grupos que estão no poder nospaíses ocidentais podem entrar em uma zona de conforto na qual aqueles que não se alinham com a política externa dos Estados Unidos e da Europa são vilipendiados e ostracizados. Isso em certa medida pode contribuir para o sucesso dessas políticas, ao garantir a adesão da população às sanções impostas ao membros do eixo do mal como Irã, Rússia e Coreia do Norte. Assim, achar-se moralmente superior aos outros, sem ver seus próprios defeitos, parece ser uma característica indelével dos países ocidentais, principalmente das suas elites, que ganham em posar-se como democratas e justas, mesmo quando são o oposto disso.

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uma pitada de sal

É necessário continuar a rir da religião muçulmana? Para o hebdomadário satírico a resposta é sim, sem hesitação. “É preciso continuar até que o Islã seja tão banalizado quanto o catolicismo, afirma Charb com a  segurança de um pregador. “Nós ferimos os dois tabus que são Eros e Tânatos, mas ainda resta o tabu das religiões”, afirma o desenhista Luz. “Se alguém diz às religiões: “Vocês são intocáveis”, nós estamos mal”, adiciona Gérard Biard, redator-chefe.

Se há um assunto que cimenta a redação, é o anti-clericalismo. “O ataque contra todas as religiões é o que constitui nossa identidade, constata Gérard Biard. A redação consiste de anarquistas, ecologistas, comunistas, trotskistas, socialistas. Mas todo mundo concorda a respeito da religião. E acho que somos todos ateus.”

Entrevista publicada em 20 de setembro de 2012 no jornal Le Monde com os membros da equipe do jornal Charles Hebdo

     Prezados leitores, não é possível deixar de abordar o assunto da semana, o assassinato de 17 pessoas em ataques perpetrados, segundo a polícia francesa, por Chérif e Said Kouachi contra a redação do jornal satírico Charles Hebdo, e por Amedy Coulibaly contra um supermercado de produtos kosher, todos em Paris. Digo que não é possível porque as reações aos ataques foram muito grandes: milhões de pessoas em toda a França foram às ruas protestar no domingo dia 11, para não falar da hashtag Je suis Charlie no Twitter, camisetas com essa inscrição, e a publicação do jornal prometida para quarta-feira, dia 14 de janeiro, apesar de praticamente toda a redação do hebdomadário ter sido dizimada (Bernard Maris, George Wolinski, Jean Cabut, Charb e Tignus). Não é minha intenção aqui fazer perorações sobre a importância da liberdade de expressão, da relação sadia com a religião, do respeito às diferenças, isso é chover no molhado. O importante a enfatizar aqui é a prática de tais valores que todos os que se indignaram com a matança com certeza não se cansam de louvar.

     Para isso serei breve e simplesmente colocarei algumas perguntas que me vieram à mente ao longo desses últimos sete dias a respeito do episódio. Se ao final da leitura alguém tiver alguma dúvida sobre se há uma diferença entre o que as pessoas de bem, esclarecidas, liberais dizem, aí incluídos todos os governantes que compareceram ontem a Paris para prestar solidariedade aos franceses, e o que elas fazem, dar-me-ei por satisfeita. São elas (colocadas em blocos de acordo com o assunto):

     A liberdade de expressão é um direito humano absoluto? Aqueles que são ateus e consideram a religião como uma ideologia, como era o caso dos cartunistas do Charles Hebdo, têm sempre o direito de troçar das pessoas religiosas, para quem há determinados assuntos sagrados, que precisam permanecer intocáveis para que sua pureza seja preservada? O humorista pode ser desrespeitoso e vulgar para não perder a piada? Maomé de bumbum para cima fazendo um filme pornô ou Maomé usando camisinha é ofensivo ou libertário?

     Será que as mesmas pessoas que defendem a liberdade de expressão dos cartunistas massacrados, que eram obviamente de esquerda, defenderiam a liberdade de expressão de cartunistas massacrados que fossem de direita? Será que se chargistas que satirizassem os judeus, Israel, o holocausto, os gays, as mulheres e fossem assassinados seriam tão defendidos post-mortem como foram George Wolinski, Jean Cabut, Charb e Tignus? Será que não é mais fácil defender a liberdade de expressão quando concordamos com as ideias? Esse bloco de dúvidas parece ser pertinente considerando que em 2010 Maurice Sinet, caricaturista que trabalhou durante 16 anos no Charles Hebdo, obteve na justiça indenização de 40.000 euros por rompimento abusivo de contrato pelo fato de ter sido demitido após publicar uma charge em 2 de julho daquele ano que ironizava uma eventual conversão de Nicolas Sarkozy ao judaísmo:
“Ele acaba de declarar querer se converter ao judaísmo antes de casar-se com sua noiva, judia, herdeira dos fundadores da Darty. Ele vai se dar bem na vida, o pequeno!”. E para citar um caso brasileiro, tenho certeza que muitos que se revoltaram contra a tentativa de calar as críticas ao Islã assinaram abaixo-assinado na internet para cassarem Jair Bolsonaro, o deputado federal pelo Rio de Janeiro que é machista, defensor da ditadura e é contra o homossexualismo. Por acaso Bolsonaro não tem tanto direito de atacar verbalmente gays, mulheres e esquerdistas em geral quanto os caricaturistas têm de atacar os muçulmanos? Ou é diferente? E por que é diferente? Porque mulheres, gays e minorias em geral são intocáveis de acordo com nossos valores liberais, ao passo que os muçulmanos retrógrados, ridiculamente fanáticos por religião, degoladores de inocentes no Oriente Médio são um alvo permitido? Se isso for verdade, se em nossa sociedade dita libertária rir sobre certas coisas é impensável, está fora de cogitação, isso significa que o nosso humor não tem nada de livre e é ideológico, assim como a religião denunciada por Jean Cabut como uma ideologia como outra qualquer.

   Outras coisas deixaram-me perplexa, além da inconsistência dos nossos valores esclarecidos, iluminados. Por que todos os terroristas foram mortos? Por que a polícia francesa não os prendeu para que pudessem ser interrogados e explicassem o que houve, se tiveram ajuda,  etc? Não seria possível a liberação dos reféns apenas atirando nos criminosos para os tirarem de ação? Será que a morte deles ajuda o governo francês a construir sua própria narrativa dos fatos, incontestável pela versão da parte contrária? Será que os corpos de Chérif, Said e Amedy vão ser jogados ao mar, sem enterro, sem ritual fúnebre, nada, como os americanos disseram que fizeram com Osama Bin Laden (há histórias de que Osama teria morrido uma década antes de insuficiência renal)? Será que haverá uma investigação a fundo do caso ou o governo francês dará sua versão de como ocorreram as 20 mortes e todos devem dar-se satisfeitos com ela? Será que esse episódio brutal terá para os franceses o mesmo efeito que o 11 de setembro para os americanos, isto é um maior controle do Estado sobre os cidadãos, sob a justificativa de necessidades de segurança? Como conciliar, em um momento de medo como esse, a liberdade e a segurança? Será que os acontecimentos de quarta-feira dia 7 e quinta-feira dia 8 de janeiro serão usados como uma boa razão para que os países ocidentais intensifiquem suas campanhas militares na Síria, no Afeganistão, no Yemen e outros países muçulmanos no Oriente Médio e África?

    Prezados leitores, algumas dessas minhas humildes perguntas serão respondidas com o desenrolar dos fatos, outras são dilemas filosóficos cuja solução depende das premissas de cada um, isto é dos seus valores básicos, e por isso têm resposta aberta. Só quis tentar mostrar algumas nuances do embate liberdade de expressão versus obscurantismo que a emoção e a simpatia com as vítimas e seus familiares podem apagar. Apesar das várias pulgas na orelha que tenho, é sempre uma lástima ver pessoas talentosas irem embora assim de maneira estúpida, quando teriam ainda longos anos de vida produtiva, seja fazendo as pessoas rirem, seja fazendo-as pensarem. Tignus tinha quatro filhos pequenos, Elsa Cayat, psiquiatra, psicóloga e colunista do jornal também morta dia 7 tinha uma filha, assim como George Wolinski. Eu particularmente não acho que nada de bom advirá dessa carnificina, apesar de todos os hashtags, instagrams e comentários no Facebook: a iniciativa da ação ficará com o Estado e as organizações supranacionais que utilizarão os ataques para reforçar seu poder sobre a vida das pessoas. Enfim, mais uma fonte de medo para nossa sociedade de risco.

    Espero ter adicionado uma pitada de sal à versão edulcorada que a imprensa está nos transmitindo.

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Eu prometo

Mark Zuckerberg, o fundador do Facebook, tomou a resolução de ler livros em 2015. Ele chegou inclusive a anunciar publicamente na sua conta no sábado 3 de janeiro que se colocou como objetivo acabar um livro a cada 15 dias.

Trecho retirado do artigo intitulado “Leitura, a grande resolução de Mark Zuckerberg para 2015”, publicado no jornal Le Monde de 4 de janeiro

As revelações em 2013 de Edward Snowden, da Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos, incluíram, entre outras coisas,os laços estreitos de empresas estratégicas do ramo de TI como Cisco Systems, Microsoft e outras com os órgãos de inteligência dos EUA.

Trecho retirado do artigo “A presidente do Brasil, país membro dos BRICs, é o próximo alvo de Washington”, de William Engdahl

    Prezados leitores, início de ano é tempo de traçar planos para o que fazer ao longo dos próximos 12 meses.Como hoje as celebridades ditam o comportamento em nossa sociedade, iniciemos com um homem conhecido globalmente, Mark Zuckerberg. A fim de começar a colocar em prática seu projeto de tornar-se um leitor contumaz, ele criou, claro, uma página no Facebook pedindo sugestões de leitura, denominada Year of the Book, já curtida por 120.000 pessoas até a manhã do dia 5. Não se sabe se o primeiro livro da lista de Zuckerberg foi sugestão de algum internauta ou se foi decisão dele mesmo, mas o fato é que o livro chama-se The End of Power, de Moises Naim, que de acordo com o próprio comentário do pai do Facebook, “É um livro que explica como o mundo está mudando para dar aos indivíduos uma parte do poder que antes era detido tradicionalmente pelos grandes governos, os exércitos e outras organizações.”

    Desconfio que tal escolha foi deliberada, para ao mesmo tempo que toma uma atitude culturalmente correta de dedicar-se aos livros Mark Zuckerberg possa promover as próprias virtudes das redes sociais. Afinal, nada do que uma pessoa pública faça aos olhos de todos é ao acaso, ao sabor das inclinações momentâneas do sujeito. O objetivo de um homem de negócios é sempre expandir seu mercado consumidor e vender o Facebook como um instrumento de diluição do poder é uma tremenda jogada de marketing, e como tal ser vista como contendo meias-verdades. Não há como negar que a internet permiteque as pessoas tenham acesso a informações divulgadas por jornalistas independentes que não teriam espaço na grande imprensa e que possa haver chances infinitamente maiores de as pessoas se organizarem em prol de alguma causa.

    Por outro lado, deixar alguém estar ou não na internet em última análise é uma decisão daqueles que detêm as chaves do paraíso, no caso as empresas de TI, que de acordo com as revelações de Snowden prestam grandes serviços ao governo americano, dando-lhe acesso às informações de milhares de usuários. Assim, os EUA podem usar seu poder sobre a rede mundial para com a conivência dos líderes da indústria colocar pessoas e países indesejáveis para fora, como foi recentemente feito com a Coreia do Norte. Enfim, o poder está sempre presente, ainda que ricamente disfarçado nas vestes da propalada democratização proporcionada pela internet.

    Por isso é que a tal da resolução de Mark Zuckerberg de ler mais em 2015 não me impressiona tanto quanto aquela da Telebrás de construir um cabo de fibra óptica submarino de 5.600 quilômetros partindo de Fortaleza e chegando a Portugal para melhorar as comunicações transatlânticas, evitar o uso da costa oeste dos Estados Unidos para o tráfico de dados de TI e melhor, livrarmo-nos da dependência de empresas americanas que são utilizadas como instrumento para nos vigiar. Faço várias ressalvas ao governo da Dona Dilma, a começar pelas manobras contábeis para esconder a gastança sem lastro, mas ao contrário da grande maioria da nossaimprensa, não considero sua política externa equivocada, e não acho que a presidente deva sair do muro, como defendeu Clóvis Rossi há alguns dias, o que significa evitar contato com nações como a Rússia e a China, por não serem democráticas.

    Não vou aquientrar na discussão do que se pode considerar como um país democrático, mas mesmo os Estados Unidos têm ótimas relações com países que reprimem de algum modo suas populações como a Arábia Saudita, que prende mulheres que se aventuram a dirigir e o Egito, que recentemente condenou à morte muitos dos partidários do presidente deposto que havia sido eleito pelo voto Mohamed Morsi. Acho que um relacionamento mais profundo com nações que não têm a dominância americana pode nos possibilitar negociar termos mais favoráveis: ser amigo de uma potência absolutamente hegemônica significa simplesmente assinar um contrato de adesão, cujas condições são estabelecidas previamente pela parte mais forte. Tenho esperança de que em nossas tratativas com países do grupo dos BRICs possamos tratar mais de igual para igual, levando em conta, é claro, nossa força econômica, que não é lá grande. Oxalá a promessa do presidente da Telebrás Francisco Ziober Filho se cumpra, mas precisamos sempre estar com um pé atrás em vista das resistências que tal projeto encontrará e da nossa incapacidade de atermo-nos a cronogramas.

     Quanto a mim pessoalmente não é muito pertinente decidir como Mark Zuckerberg ler mais livros. Eu já o faço todos os dias, não por questões de marketing corporativo, mas a bem da minha sanidade mental, enquanto tomo um café depois do almoço, para desanuviar, como alguém que toma um banho de sol no parque em um dia de frio. Prezados leitores, seja por razões comerciais ou por razões geopolíticas, vale a pena tomar resoluções no início do ano.Fazermo-nos promessas, ainda que não consigamos cumpri-las, nos mantêm vivos, mostra a nós mesmos que temos interesses e melhor, temos esperança no futuro. E quem consegue viver sem esperanças? Só à base de pílulas azuis ou roxas.

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